Antes das fake news propaladas em massa por grupos ideológicos idiotas ou mal-intencionados, havia já a figura do «assessor de comunicação», geralmente um jornalista no desemprego ou com outras ambições que aceitava um salário para, intrometendo-se na área do publicitário mas sem a mesma franqueza etimológica deste, vender um produto: uma ideia, um projecto, uma instituição, uma personalidade, um político, um sabonete.
Em algum momento — antes até da época em que os jornalistas passaram a ser substituídos por estagiários mal pagos e mal formados —, a carreira de assessor de comunicação deixou de ter a realidade em grande conta e a energia antes gasta a dar clareza e eficácia às mensagens passou a ser empregue em golpes criativos. O saber foi substituído pela invenção e o substantivo pelo adjectivo, o eufemismo ou a hipérbole. Uma nota de imprensa sobre a actividade necessária mas banal de uma empresa ou repartição passou a ser emitida com liberdade literária ou empolgamento de prosa poética, por vezes descolando tanto da realidade que em catálogos mais escrupulosos leva, compreensivelmente, a etiqueta de ficção especulativa ou científica.
O mais eficaz dos assessores de comunicação é hoje aquele que tem os contactos certos na imprensa. Mas a consciência, improvável, de que a sua força vem das relações sociais e não da sua eloquência ou do seu estilo é insuficiente para que o assessor desista da aspiração antiga de ser um domador de linguagem. Não se resignando a entregar a mensagem e receber o respectivo e honesto salário de mensageiro, o assessor obriga-se, em horas esforçadas, queimando desnecessariamente as pestanas, sutor ultra crepidam, a «tratar» a informação, não raro distorcendo a mensagem. E ao ver mais tarde o sucesso que deve à sua agenda de contactos confunde-o de novo com o sucesso do seu artesanato, confunde o acesso aos meios com o domínio dos modos, e persiste. Por isso, informação que podia só ser amplamente difundida é não raro também amplamente deformada.
A corrente filosófica e o movimento intelectual que fundiram o assessor com o publicitário e a comunicação com a propaganda medraram também nas redacções dos media. Não apenas pela antiga, tradicional promiscuidade entre as duas profissões, mas porque passou a haver também universidades e a sua necessidade vital de expelir bacharéis da comunicação como quem expele caroços de cerejas.
Colocado num órgão de imprensa ou num gabinete de comunicação, o recém-formado vem cheio de vontade e cheio de hipérboles. A sua energia excessiva de caloiro (e as redacções tendem a encher-se deles, porque o jornalista tarimbado custa dinheiro) não concebe notícias ou comunicados sóbrios e factuais, meramente informativos. Há que dar a interpretação do mensageiro e há que introduzir emoção onde ela não existe ou é dispensável. Um lead deixa assim de ser um resumo eloquente dos elementos principais da informação para ser um slogan que vive por si próprio, com frequência perdendo a sua relação hierárquica ou semântica com a informação original. E a um título não lhe basta ser o «elemento de identificação que indica e chama a atenção para a matéria de que trata o texto»: tem de ser um apelo ou uma acusação, o cabeçalho de um manifesto ou de um libelo.
É útil aqui lembrar que o soundbite não foi inventado por políticos, mas por profissionais da comunicação.
E os profissionais da comunicação adaptam-se bem, como baratas no pós-apocalipse, a todos os ambientes, da redacção clássica à moderna sala de spin doctors, e são hoje por isso intermutáveis. Quando instalados num gabinete de comunicação, gostam de escrever como jornalistas, forjando a mensagem como uma notícia. Quando deixados à solta numa redacção, aceitam sem embaraços, antes com o alívio, a notícia que lhes chega pré-escrita pelos seus irmãos siameses, apondo-lhe simplesmente, com despudor ou apenas tédio de amanuense, a sua assinatura de jornalistas ou o carimbo do órgão que os emprega — certos, com razão, de que a sociedade já nem diferencia um comunicado ou uma opinião de uma notícia.
A comunicação que passa pelas mãos de assessores e jornalistas vocacionados para o impacto pode falhar tudo — nomes, factos, argumentos, ideias, raciocínios — desde que cumpra uma ou mais destas funções: agitar, perturbar, deslumbrar, indignar, seduzir, incomodar, emocionar. Peças deste tipo de comunicação, «caracterizadas pela predominância de situações violentas e sentimentos exagerados», antigamente subiam aos palcos e levavam o nome honesto de «melodrama». Donde não é errado concluir que estes assessores ou jornalistas seriam mais rigorosamente tributados pelas Finanças como dramaturgos.
Deve preocupar-se quem procura difundir uma mensagem através de profissionais da comunicação, porque arrisca-se a um dilema ontológico ou jurídico. O sujeito da notícia, nas mãos deles, é personagem de ficção, com discurso, pensamento e por vezes biografia inventados. Com uma frequência perturbadora, o sujeito depois de noticiado já não é um cidadão real — é um fantasma ou um apátrida. Depois de descobrir aquilo em que a sua mensagem e ele próprio se transformaram, o sujeito olha-se shakespeareanamente ao espelho duvidando de que exista — e é detido pelo SEF por não conseguir provar a sua cidadania.
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* Banda sonora: https://youtu.be/p-QqRewb7V8
domingo, 28 de março de 2021
sábado, 20 de março de 2021
«O politicamente incorrecto tornou-se a suprema manifestação do politicamente correcto.»
Independentemente do que concluamos sobre a polémica que envolveu a tradução para holandês da obra da poetisa Amanda Gorman, mas vendo a forma como uma vasta brigada muito segura de si aproveita para dar automaticamente sentenças definitivas a propósito de tudo e de nada, há pertinência em ler o pequeno texto de António Guerreiro que transcrevo abaixo. Além da frase que retirei para título (que constata aquilo que é já evidente para muitos de nós), destaco uma outra passagem que me parece caracterizar muito bem a forma como agem os que laboriosa e pateticamente se dedicam a fazer do politicamente incorrecto o novo politicamente correcto: «reacção das pessoas presumidamente inteligentes às atitudes das pessoas obviamente estúpidas».
O texto de Guerreiro, que pode ser encontrado aqui: https://www.publico.pt/2021/03/19/culturaipsilon/cronica/bemvindos-poetas-1954756
e é sobre este texto de Daniel Blaufuks: https://www.publico.pt/2021/03/16/culturaipsilon/noticia/tentativa-va-equilibrar-desequilibrio-1954503
O texto original da polémica encontra-se aqui: https://www.volkskrant.nl/columns-opinie/opinie-een-witte-vertaler-voor-poezie-van-amanda-gorman-onbegrijpelijk~bf128ae4/?referrer=https%3A%2F%2Fwww.publico.pt%2F
«Contra a onda de indignações e exclamações que se ergueram publicamente por causa do episódio da tradução, em neerlandês, do poema de Amanda Gorman, lido pela autora na cerimónia da tomada posse de Joe Biden, como presidente dos Estados Unidos, Daniel Blaufuks aplica-se a ver a questão de outro modo que tem os seus riscos, mas tem a grande vantagem e inteligência de colocar as questões noutro patamar que não é o da reacção das pessoas presumidamente inteligentes às atitudes das pessoas obviamente estúpidas. A partir desta dicotomia, não há discussão, não há razão crítica, há apenas interjeições públicas transformadas em discurso. Ora, as coisas são muito mais complicadas. É o que mostra Daniel Blaufuks neste artigo que, para além disso, tem o efeito de tornar visível uma reversibilidade: o politicamente incorrecto tornou-se a suprema manifestação do politicamente correcto. E vice-versa.»
O texto de Guerreiro, que pode ser encontrado aqui: https://www.publico.pt/2021/03/19/culturaipsilon/cronica/bemvindos-poetas-1954756
e é sobre este texto de Daniel Blaufuks: https://www.publico.pt/2021/03/16/culturaipsilon/noticia/tentativa-va-equilibrar-desequilibrio-1954503
O texto original da polémica encontra-se aqui: https://www.volkskrant.nl/columns-opinie/opinie-een-witte-vertaler-voor-poezie-van-amanda-gorman-onbegrijpelijk~bf128ae4/?referrer=https%3A%2F%2Fwww.publico.pt%2F
quarta-feira, 17 de março de 2021
Rapaziada do nosso tempo
Uma destas noites perdi-me a ver, com certa comoção, um documentário sobre a gravação da música e lançamento do disco ‘Do They Know It's Christmas?’ (de que aliás já tinha visto parte há alguns anos). A comoção não me vinha da qualidade da música ou da campanha humanitária que ela servia, mas de estar a ver aquilo (também com embaraço, como quando vemos fotografias do nosso cabelo antigo) como se assistisse à projecção numa parede caiada de um episódio de família ou entre amigos filmado em Super 8.
A música e os artistas dos anos 80 não são uma página (boa ou má) na história da arte mundial: são uma memória pessoal (e intransmissível, temo bem) de quem era adolescente naquela década. Não há ali vedetas, mas rapaziada do nosso tempo, com quem partilhámos umas aventuras. Só o dinheiro que eles ganharam não é também nosso. Incompreensivelmente.
A música e os artistas dos anos 80 não são uma página (boa ou má) na história da arte mundial: são uma memória pessoal (e intransmissível, temo bem) de quem era adolescente naquela década. Não há ali vedetas, mas rapaziada do nosso tempo, com quem partilhámos umas aventuras. Só o dinheiro que eles ganharam não é também nosso. Incompreensivelmente.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
Um jogo fleumático
No tempo que levamos de pandemia, também dediquei algumas madrugadas a ver snooker, mas por alguma razão ainda não me tinha ocorrido escrever nada sobre o assunto. Talvez porque não encontrei um Wawrinka que me pudesse servir de herói trágico (ver post anterior).
As emoções num frame de snooker têm de ser procuradas, não nos gestos ou nas expressões dos jogadores — contidos os primeiros e limitadas a um franzir de nariz as segundas —, mas no próprio jogo, na geometria das jogadas e na subtil eloquência das tacadas.
Os profissionais da modalidade, com a excepção ocasional do impulsivo Ronnie O’Sullivan, encarnam o espírito fleumático dos oficiais britânicos que primeiro a jogaram, no século XIX, pelo que por vezes só nas tabelas de resultados encontramos a grandiloquência das grandes vitórias e derrotas.
Um dos campeões actuais chama-se Trump e a sua expressividade está nos antípodas do histrionismo do homónimo ex-presidente americano: a sua celebração de uma vitória é tão enfática quanto o agradecimento cortês que alguém mostra ao garçon que lhe serve o habitual café pós-prandial.
Uma final de snooker não convida à mesma euforia de outros desportos. Após o último frame, seguimos o exemplo dos próprios jogadores e despedimo-nos da televisão cavalheirescamente, com um breve aceno de cabeça, sem que chegue a materializar-se o ímpeto de escrever sobre o jogo. Guardamos o guarda-chuva e o chapéu no bengaleiro da entrada e recolhemo-nos ordeiramente ao bedroom.
As emoções num frame de snooker têm de ser procuradas, não nos gestos ou nas expressões dos jogadores — contidos os primeiros e limitadas a um franzir de nariz as segundas —, mas no próprio jogo, na geometria das jogadas e na subtil eloquência das tacadas.
Os profissionais da modalidade, com a excepção ocasional do impulsivo Ronnie O’Sullivan, encarnam o espírito fleumático dos oficiais britânicos que primeiro a jogaram, no século XIX, pelo que por vezes só nas tabelas de resultados encontramos a grandiloquência das grandes vitórias e derrotas.
Um dos campeões actuais chama-se Trump e a sua expressividade está nos antípodas do histrionismo do homónimo ex-presidente americano: a sua celebração de uma vitória é tão enfática quanto o agradecimento cortês que alguém mostra ao garçon que lhe serve o habitual café pós-prandial.
Uma final de snooker não convida à mesma euforia de outros desportos. Após o último frame, seguimos o exemplo dos próprios jogadores e despedimo-nos da televisão cavalheirescamente, com um breve aceno de cabeça, sem que chegue a materializar-se o ímpeto de escrever sobre o jogo. Guardamos o guarda-chuva e o chapéu no bengaleiro da entrada e recolhemo-nos ordeiramente ao bedroom.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
Venda de livros
A decisão de autorizar a venda de livros é elementar. A decisão de as livrarias continuarem fechadas é… característica. Em Portugal os governos não pensam ser necessário ter uma política de cultura e do livro e por isso têm por ministério da área uma repartição que se ocupa do despacho e é vagamente instruída para deitar como puder, preferencialmente sem despesa, água na fervura do sector. O ministério da educação, por sua vez, especializa-se em assobiar para o lado, não vá alguém querer implicá-lo nisto dos livros.
A nação, que há muitos anos não tem um governo capaz de perder um minuto do seu precioso tempo a olhar para a arbitrariedade instalada com o acordo ortográfico, não era agora que ia ter um disposto ao exercício de imaginar a venda de livros em tempos de cólera.
De resto, a dica do presidente sobre este assunto deve ter caído no conselho de ministros como mosca na sopa, uma contrariedade, a excentricidade de um ex-vendedor de enciclopédias a que havia contudo que dar alguma atenção não fosse o homem indispor-se quando se tratasse de temas sérios.
De resto, a dica do presidente sobre este assunto deve ter caído no conselho de ministros como mosca na sopa, uma contrariedade, a excentricidade de um ex-vendedor de enciclopédias a que havia contudo que dar alguma atenção não fosse o homem indispor-se quando se tratasse de temas sérios.
sábado, 13 de fevereiro de 2021
Wawrinka, o herói trágico
O ténis teve os seus Fab Four, a que chamaram na verdade Big Four, com Federer, Nadal, Djokovic e Murray. As lesões e a baixa de forma de Andy Murray abriram duas narrativas míticas sucedentes: a redução da elite a um Big Three ou a mais controversa inclusão de Stan Wawrinka num novo Big Four. O próprio Wawrinka afirmou, e não com falsa modéstia, que não tinha a mesma consistência dos restantes.
Uma destas noites estive a ver um jogo com Wawrinka no open da Austrália e confirmei: Wawrinka é o meu tenista preferido. O tenista suíço perdeu os primeiros dois sets, recuperou como faz tantas vezes ganhando os dois seguintes, levou o quinto set ao tiebreak, que esteve a vencer por 6 a 1, e perdeu por 9 a 11.
Wawrinka é um campeão talhado para sofrer, serenamente, e muitas vezes perder. É o herói trágico por quem torço, porque só ele traz a emoção da luta, do sofrimento. Nadal ou Federer, mais campeões do que Wawrinka, são emocionalmente monótonos, porque o mais provável é que ganhem, perder seria a surpresa, é sempre a surpresa, até com o quase quarentão Federer. Se vejo um jogo de Nadal é com esperança que perca, ou seja, que haja algo emocionante num jogo seu. Torço sempre pelo adversário.
Nadal pode fascinar pela energia obsessiva e vencedora, Federer pela técnica e a graciosidade, igualmente vencedoras, mas só Wawrinka me põe incondicionalmente do seu lado, a partilhar com ele os perigos, as muitas frustrações — e a verdadeira alegria da vitória, porque rara. Ou mais rara. Assistir a um jogo dos primeiros pode ser uma experiência estética ou dar-nos o conforto de estar do lado dos grandes, dos fortes — mas Wawrinka permite-nos isso e a incógnita do resultado final, a adrenalina extra que essa expectativa segrega. Se o desporto é catarse para o público, Wawrinka oficia-a melhor do que ninguém. Wawrinka interessaria mais a Aristóteles e a Shakespeare.
Wawrinka não é um herói de Hollywood, antecipadamente vencedor. É um herói trágico. Um herói trágico que se perde não pelo seu orgulho, como em muitos dramas gregos, mas pela sua humanidade. Não é um deus, mas um homem como nós. Um pouco melhor que nós. Um grande tenista.
Uma destas noites estive a ver um jogo com Wawrinka no open da Austrália e confirmei: Wawrinka é o meu tenista preferido. O tenista suíço perdeu os primeiros dois sets, recuperou como faz tantas vezes ganhando os dois seguintes, levou o quinto set ao tiebreak, que esteve a vencer por 6 a 1, e perdeu por 9 a 11.
Wawrinka é um campeão talhado para sofrer, serenamente, e muitas vezes perder. É o herói trágico por quem torço, porque só ele traz a emoção da luta, do sofrimento. Nadal ou Federer, mais campeões do que Wawrinka, são emocionalmente monótonos, porque o mais provável é que ganhem, perder seria a surpresa, é sempre a surpresa, até com o quase quarentão Federer. Se vejo um jogo de Nadal é com esperança que perca, ou seja, que haja algo emocionante num jogo seu. Torço sempre pelo adversário.
Nadal pode fascinar pela energia obsessiva e vencedora, Federer pela técnica e a graciosidade, igualmente vencedoras, mas só Wawrinka me põe incondicionalmente do seu lado, a partilhar com ele os perigos, as muitas frustrações — e a verdadeira alegria da vitória, porque rara. Ou mais rara. Assistir a um jogo dos primeiros pode ser uma experiência estética ou dar-nos o conforto de estar do lado dos grandes, dos fortes — mas Wawrinka permite-nos isso e a incógnita do resultado final, a adrenalina extra que essa expectativa segrega. Se o desporto é catarse para o público, Wawrinka oficia-a melhor do que ninguém. Wawrinka interessaria mais a Aristóteles e a Shakespeare.
Wawrinka não é um herói de Hollywood, antecipadamente vencedor. É um herói trágico. Um herói trágico que se perde não pelo seu orgulho, como em muitos dramas gregos, mas pela sua humanidade. Não é um deus, mas um homem como nós. Um pouco melhor que nós. Um grande tenista.
Silogismo imperfeito (ou tremido)
Segundo Eumélo de Corinto, poeta grego, Bronte, uma das éguas de fogo da quadriga de Hélio, é o trovão, ou a trovoada. Não admira que Emyle Brontë tenha escrito O Monte dos Vendavais. Não se foge ao destino.
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