Devido a uma mudança de fornecedor de serviço de internet que implicou a instalação de mais parafernália informática do que a que na realidade necessito, fiquei com uma tal quantidade de luzes a piscar na secretária que sinceramente não sei se a minha sala vai entrar em órbita daqui a pouco ou se o mundo vai explodir dentro de trinta segundos. Só não fico apreensivo porque há algo de sedutor em ambas as hipóteses.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
A insustentável leveza da pubescência
Talvez houvesse também razões musicais, mas parece-me que na disputa
entre Spandau Ballet e Duran Duran eu preteria os primeiros porque pareciam demasiadas
vezes vestidos para casar (ou ser padrinhos de casamento), enquanto a mistura de
farrapada punk e marinheiro russo que frequentemente cobria os segundos os
tornava românticos aos meus olhos adolescentes. Mas românticos de aventuras,
não do coração. Afinal, na altura eu também preferia a Rama de Arthur C. Clarke
à Praga de Milan Kundera. E ainda revirava os olhos nas cenas de beijo dos
filmes, fazendo mentalmente zapping
para Mad Max.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Tudo o que era certo e errado
«A minha mãe
nasceu num casebre com piso de terra e duas divisões, numa das quais vivia o
gado, uma vaca e um burro — suponho que há pouca originalidade nisto, disse eu.
Jantava com Leonardo num restaurante novo e gastei pouco tempo a estudar o
espaço, um japonês de asséptico minimalismo. É fastidioso tentar perceber o que
cresceu mais depressa, continuei, se a família se o número de animais, mas ainda
que ambas as expansões denunciassem uma certa prosperidade, isso não aproximava
a infância dela dos padrões mínimos de conforto que hoje reivindicamos, nem
acrescentou compartimentos à casa, à excepção de um telheiro sem paredes. Com oito
anos e três irmãos mais novos viu-se investida de responsabilidades maternais e
mandada diariamente para os montes atrás de uma pequena manada de vacas
indolentes. Não sei se há um momento limite para a salvação — se decidirmos considerar
que retirar alguém de um mundo rústico daqueles salva —, mas o resgate da minha
mãe aconteceu talvez um pouco tarde, deixando-a num limbo entre duas
existências. Não era demasiado tarde para alguma escolaridade, mas havia já uma
vida de memórias indeléveis, todas efectivamente marcadas na pele.
Leonardo
estava a gostar do peixe cru; eu aproveitava a minúcia que os hashi permitem para debicar como alguém
devoto de uma filosofia ascética. Andei muitas vezes pelo território onde ela
guardara gado, disse, mas só no fim senti ter incorporado um pouco daquela
experiência. Faltava-me, claro, a herança genética, e de todas as versões da
história a única que me penetrou com força foi a última, quando ela se despiu
de vaidades, de vergonhas, quando deixou de interpretar ou justificar a sua
própria vida e, solicitada pela velhice, apenas reviveu, com distanciamento, ou
talvez com alegria feroz, um conjunto de factos.
Creio que há
uma certa justiça na senilidade, dei por mim a dizer, em algum momento as
pessoas deveriam sentir-se livres para falar de si próprias e das suas vidas
sem o peso da moral. Claro que a minha mãe acreditava na vida depois da morte e
por sua vontade deixaria as confissões e os ajustes de contas para o outro lado
ou para a sua antecâmara, mas por vezes a biologia antecipa o alívio. A
degenerescência convidou-a a esquecer a religião e a tomar as coisas pelo lado
físico, brutal, que elas tinham representado para si. A destruição dos
neurónios começou por aquele punhado deles que se ocupava das conveniências.
Também para
mim era uma experiência inesperada, disse eu a Leonardo. Um ano antes de ela
morrer, era uma outra mulher aquela que eu levava a revisitar a aldeia na
montanha onde nasceu. O exercício do dever filial há muito deixara de ter
significado para mim, mas de repente aquilo revelava-se algo diferente.
Tomava-a pelo braço e sentia uma corrente de afecto, uma vontade de a abraçar e
de a beijar, o que passei a fazer com uma frequência que não punha em prática
desde a infância.
Também eu, por
razões diferentes, tinha entrado num estado amoral, ou pelo menos associal. Vais-me
censurar por dizer isto, disse a Leonardo, mas tive uma espécie de flirt com a minha mãe nos meses que ela
levou a morrer. Era algo que não nos estava vedado, não éramos consanguíneos, não
havia nenhum tipo de jurisdição sobre nós que não fosse pura convenção, e a
isso já não ligávamos, enlaçávamo-nos apenas, nas encostas da sua infância, ela
a achatar camadas de memórias e eu, galante, ao serviço da rapariga em que ela
se transformara.
Dançávamos,
porque, ao mesmo tempo que recordava cada uma das vacas que pastoreara, lhe vinham
memórias de bailes em que não participara, ou que aproveitara pouco. A dança
era, aliás, logo a seguir ao canto, uma parte fundamental da sua existência,
dizia-me ela e dizia eu a Leonardo. Achava-se uma tola por algum dia ter
sentido timidez, ligado às conveniências, dado prioridade aos deveres. Havia um
filme, como se chamava?, dizia a minha mãe, em que uma moça bonita cantava e
dançava nas montanhas da Suíça. Eu sabia que era na Áustria, Música no Coração, mas que importavam
estas clarificações quando me podia limitar a rodopiar com ela nos braços,
bebendo da sua felicidade, zelando para amortecer as suas quedas?
Ali em baixo,
dizia a minha mãe à vista das ruínas do casebre onde crescera, ali em baixo não
viviam pessoas, viviam animais. Não digo isto com mágoa nem nostalgia. Era
assim. Éramos assim. Agíamos por impulsos e necessidades, como o gado do outro
lado da parede. Quando vi o meu primeiro lobo, aqui mesmo onde estamos, senti
medo, claro, ia nesse sentido a escassa instrução que tínhamos, mas também me
achei em pé de igualdade com ele. Durante toda a vida pensei nestes encontros
como se fosse uma pobre criança indefesa à mercê de uma fera sem compaixão, mas
ultimamente vejo as coisas de outra forma. Sabes, dizia a minha mãe e repeti eu
a Leonardo, acho que agora me lembro melhor de tudo. Eu não ficava petrificada,
nem os lobos estavam convencidos da sua superioridade. Medíamo-nos com respeito
e curiosidade, muita curiosidade, e depois eu pensava que tinha de proteger as
vacas, que tratava pelo nome próprio, e de me salvar de uma sova em casa:
pegava em paus e pedras e gritava-lhes, aos saltos, como aqueles chimpanzés da
televisão. Podes-te rir, não me envergonho da comparação, eu era pouco mais do
que uma macaquinha, trepava às árvores e nadava nua no ribeiro — depois é que
tive de aprender tudo o que era certo e errado.»
in Hotel do Norte
'Teoria Geral do Verão'
«Mário foi o
primeiro a chegar. Acordou com o dealbar do dia. Na verdade, quase não dormiu,
sentia demasiada excitação. Estar ali era como ter congeminado um teorema e
ser-lhe oferecida depois a oportunidade de o testar e demonstrar ele mesmo. Já
tinha um nome para aquilo, passou a noite com ele na cabeça: Teoria Geral do Verão. Basicamente, a
sua ideia postulava que não havia felicidade na chuva, no vento, no frio, nos
dias cinzentos e ensimesmados. O estio era o quinhão de paraíso que Deus legara
à Terra, um vislumbre do que esperava na outra vida os bons, os justos, os
impolutos. Era talvez também a manifestação do Seu sadismo, permitia-se Mário
pensar, já que Ele sabia como falhara com o homem. Desvelar o paraíso era como
mostrar imagens de fontes e lagos suíços a um moribundo no deserto africano ou
deixar um suculento naco de carne meros centímetros fora do alcance da corrente
de um cão esfaimado.
Tinha havido
alguns erros no desenvolvimento humano, no seu desenvolvimento biológico. Havia
tanto que aprender com aves, répteis, insectos. A selecção natural falhara ao
fazer do homem um animal sedentário. Não tardaria a perceber-se porque definhava
a civilização ocidental, por que é que o Hemisfério Norte se fazia triste e
evitava reproduzir-se. Por que se suicidavam os nórdicos (por enquanto eles).
Séculos de saber acumulado e ainda não havia uma solução para o mal-estar. E
era tão simples: migração sazonal ou hibernação.
Lembrava-se de
um episódio: dois casais de patos a esvoaçarem sobre uma albufeira. Talvez não
fossem dois casais, podiam ser quatro machos ou quatro fêmeas, ou três de um
género e um do outro, quem saberia dizê-lo? Era um daqueles dias de Outono
apelidados de perfeitos, um dos que se rejeitariam na Primavera ou no Verão
(demasiado frios e cinzentos, com o maldito nevoeiro a ameaçar cobrir tudo) e
que pela sua pouca dureza seriam ignorados no Inverno, mas que, com um fundo de
folhas coloridas e uma promessa de lareira, pareciam irrepetíveis. Mário estava
com o pai e lembrava-se de o ver subir a gola do casaco ao mesmo tempo que
falava de castanhas assadas e vinho tinto. Ali, ao seu lado, trinta anos antes,
com a elegância enfiada num fato de três peças e camisa branca, o cabelo
submetido pela brilhantina, o pai de Mário explicava que o pato selvagem era
uma espécie rara naquelas paragens e a lagoa era apenas uma estação de serviço
onde eles se detinham para abastecer no caminho para África, para terras mais
quentes. Mário a tremer de frio e desconforto, insensível à beleza outonal,
invejou a inteligência dos patos.
O europeu era
intrinsecamente estúpido: rumava a sul no Verão e procurava a neve no Inverno,
quando o que devia estar a fazer era aprender com as aves, descer uns quantos
paralelos à medida que os dias diminuíam e regressar logo que as plantas
ameaçassem florir. Claro que este tipo de migração em massa enfrentava
obstáculos severos, por mais que os serviços de turismo do Magrebe esfregassem
as mãos. As grandes deslocações de Estaline não tinham ficado bem vistas (mas
essas não incluíam bilhete de volta); contudo, pondo de parte a engenharia
social, ainda havia a biologia, a hibernação induzida. Se o homem, no seu longo
percurso evolutivo, recusara um metabolismo como o dos ursos, estava ainda
muito a tempo de se reencontrar por via científica com esse ramo da família. O
que não se pouparia em recursos se a Europa adormecesse no Inverno. E o que se
ganharia em felicidade social se todos saíssem do quarto apenas em Abril ou Maio,
quando o Sol mostrava finalmente músculo.»
in Aranda
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
13/9 ou a arte de procrastinar resolvendo sudokus
Gostaria de poder dizer que sou um daqueles procrastinadores que o
filósofo John Perry considerou “produtivos”, aqueles que enquanto adiam
indefinidamente uma tarefa realizam muitas outras igualmente importantes. Não
sou. A não ser que se considere importante resolver sucessivas colectâneas de
Sudoku Master.
A minha pilha de livros para ler só não aumentou porque desde que há
crise quase não tenho comprado livros. Em contrapartida, a minha pilha de
livros por escrever aumentou consideravelmente. Não porque ande a coleccionar apontamentos
de ideias para romances ou ensaios (o sudoku não me deixa tempo para isso), é
só a idade a acumular-se sem que daí resulte obra.
Para bem da minha sobrevivência física, sou tecnicamente incapaz de
procrastinar no emprego (qualquer coisa genética, herdei do meu pai isso e a rabugice).
É só ao chegar a casa que adopto o hedonismo pessoano de ter um livro para ler
(ou escrever) e procrastinar. A coisa está tão grave que já não compro o Público ao fim-de-semana, como antes, por
causa do Ípsilon, da Fugas ou da 2, mas porque é nesses dias que saem os sudokus de maior grau de
dificuldade (que naturalmente me farão perder mais tempo).
Nem me posso defender dizendo que a ginástica dos números me foi
prescrita pelo meu intelectual trainer:
passar a noite naquilo não me põe mais ágil na tabuada (continuo bastante dependente
da calculadora) e definitivamente não acordo com a mente mais preparada para as
obrigações do dia. Procrastinar por interpostos sudokus é antes um vício tão
alienante como a coca. O hábito poderia ter-me sido prescrito, isso sim, pelo
meu psicanalista, com o intuito de me fazer limpar a mente depois de dias
intensos de trabalho (como faz o resto dos portugueses, submetendo-se ao brainwashing da TV). Ou melhor: a
sudokumania é coisa que recomendariam no Conde Ferreira ou no Magalhães Lemos:
terapia ocupacional para distrair os malucos de fazerem maluquices. Sim, que disparates
não teria eu escrito se não tivesse passado o Verão a preencher números em linhas
e colunas?
Quando terminei de escrever Os
Idiotas (que, a propósito, fez sexta-feira um ano e é a única razão para
ter escrito este post), senti que
tinha finalmente atingido a maturidade, estava pronto para ser o Wallace
português (ou o Franzen, pronto*). Mas senti também que a probabilidade de
falhar nisso era muito, muito grande. O sudoku, temo bem, é apenas um dos meus álibis
para não arriscar falhar.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
O regresso da cantora careca
Ontem e hoje assisti no Youtube a dois regressos: U2 e Sinéad O’Connor.
Sendo um genuíno filho dos eighties,
não fico indiferente a notícias que se relacionem com gente desta. Mas ouvi com
total indiferença a “nova” música dos U2 (indiferença não, um tédio assassino)
e com bastante curiosidade a da Sinéad. “Take Me To Church” entusiasma, raios!,
apesar do final fraco e de a imagem da cantora, pareceu-me, não ter escapado ao
Photoshop, ou ao equivalente em vídeo ou maquilhagem.
Nos últimos anos, sempre que calhava cruzar com Sinéad O’Connor no
Youtube, assistia com certo embaraço (e desapontamento) a entrevistas um pouco
constrangedoras de uma senhora de meia-idade desnecessariamente gorduchita,
notoriamente aborrecida e até ressentida por estar a dar entrevistas ou a
apresentar canções, quezilenta, a responder com dissertações esotéricas ou
implicativas, desagradáveis, a questões banais sobre a sua música. O anjo que conhecêramos quando adolescentes lamentavelmente desaparecera sob o
diagnóstico de distúrbio bipolar que Sinéad um dia revelara de si mesma. A
cantora careca — pensava eu, definitivo —, envelheceu mal.
Mas o adulto que agora somos compreende na pele isso de envelhecer e
aprecia novos fôlegos do talento, mesmo que breves e isolados, quando os ouve. Era
este o meu espírito quando, espevitado pelo vídeo, fui espreitar o álbum
completo (“I’m Not Bossy, I’m The Boss”), disposto a perdoar aquilo do
Photoshop. Mas eis que, junto com várias outras canções bem inspiradas, no
lugar de um anjo caído deparo com uma gloriosa Fénix. (Depenada, é certo — mas neste
particular quem esperaria outra coisa?)
Os vídeos de entrevistas e concertos que agora me surgem nos lugares
cimeiros do Youtube mostram uma Sinéad O’Connor coberta de hieróglifos e
Cristos de Cecilia Giménez, sim, mas de novo elegante, simpática, comunicativa,
assertiva, aguerrida, coerente, bem-disposta, exibindo empatia com o público e
os entrevistadores. A interpretar com gosto as suas mais recentes canções e a
emocionar o público e os voyeurs do
tube.
A Wikipedia diz que a cantora já há uns anos tinha desmentido o seu próprio
diagnóstico de distúrbio bipolar, mas isto não me parece credível. Por
definição, o novo momento da cantora desmente-o, aliás. O que me parece é que,
para bem de todos os fãs, finalmente alguém acertou na medicação. Passem a
receita ao Bono.quarta-feira, 3 de setembro de 2014
O apêndice marital
É tristemente irónico que Siri Hustvedt, escritora de talento, erudição e densidade intelectual, com obra e reflexão sobre preconceito de género, seja apresentada em Portugal como esposa de Paul Auster. Percebo o atractivo comercial da informação, mas, quatro livros depois — o penúltimo intitulado “Verão Sem Homens” e o último versando sobre «os preconceitos que imperam no mundo da arte» — quatro livros depois, perturba que a D. Quixote continue a incluir nas badanas o apêndice marital. Quantos escritores masculinos são apresentados como maridos de não sei quem? Eu, se fosse a Siri Hustvedt, mandava passear a D. Quixote no próximo livro. Se a editora não consegue vender-lhe as obras pelo mérito ou se os portugueses não as compram senão pelo popular marido, não a merecem. E, claro, não a entendem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
