segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A perversão secreta de um inspector da ASAE

Não li e, por falta de tempo, não tenciono ler as sequelas d’Os Maias publicadas pelo Expresso (excepto a de Rentes de Carvalho, por interesse particular). Mas li com um sorrisito a crítica de sábado de Vasco Pulido Valente. O cronista do Público até pode ter razão na análise e na substância da sua crítica à iniciativa estival do semanário de Balsemão, mas tem forçosamente de se lhe notar um ânimo de virgem ofendida: tocaram no seu Eça e na sua História de Portugal: aqui d’El Rei!
Desconfio, com suficientes motivos, que VPV escreveria catilinária semelhante mesmo que os livrinhos do Expresso fossem todos de inequívoco acerto e interesse.

De resto, quando VPV se mostra tão possessivo em relação a Eça de Queirós está a cometer o pecado da soberba. Ao contrário do que lhe dizem e ele na sua ilusão acredita, Valente não é Eça reincarnado. Desde logo porque não há uma linhagem tibetana do escritor do monóculo que permita reivindicações do género guru alfacinha. Mas sobretudo porque, ainda que VPV tenha um bom domínio da língua e da verrina, falta-lhe humor.
Eça não era talvez menos corrosivo e maldoso do que VPV, mas era mais alegre. Quando embarcava numa prosa demolidora fazia-o com o espírito jovial de quem sai de casa para se divertir. VPV derrama a sua verve como a agoniada criatura da série Alien (que derretia muito metal mas não parecia nada divertida ao fazê-lo).
A verdade é que onde Eça usava a ironia VPV usa o sarcasmo, ou, como reza o dicionário, a ironia acerba, amarga, azeda. Quando lemos Eça de Queirós damos por nós a olhar em volta à procura de quem soltou as gargalhadas que ouvimos (é o nosso momento, breve, de acreditarmos em encarnações), mas depois percebemos que elas emanam do próprio texto, são manifestações do autor, metempsicose entre um espírito oitocentista e o chumbo da mesa de composição na tipografia. Já a última página do Público ao fim-de-semana induz outra mística: lemo-la com o embaraço de quem dá por si a espreitar pela janela a perversão secreta de um feroz inspector da ASAE.

Eça não deixava que a necessidade de arrasar perturbasse a ocasião de rir — VPV age com a incumbência e o humor de um mangas-de-alpaca da corrosão. Eça ria-se como um diabrete — Vasco, se é que ri, ri como um velho diabo.

1 comentário:

Luis Eme disse...

não há comparação possível, mesmo.

mesmo que o não fosse, fica-se com a sensação que Eça escrevia com leveza e prazer, sabendo quase sempre ao que ía.

VPV é sobretudo um "pote de veneno", alguém que quando começa a escrever, a primeira questão que aborda deverá ser: «hoje vou dizer mal de quem?»

e depois há o talento natural para contar uma história,que VPV não tem.

não é por acaso que nunca escreveu qualquer romance: não consegue.