Regressando de uma caminhada outonal, resolvo, imprudentemente, atravessar a cidade para ir comprar uns víveres antes de subir ao castelo. Cruzo-me aqui e ali com pares ou pequenos bandos de seres meio cambaleantes, maltrapilhos, cabelos escorridos, roupas molhadas, cheiro intenso. Mudo de passeio. E logo a seguir mudo de rua, quando vejo ao fundo um bando maior. Intuindo de onde vêm, recalculo o trajecto, como um GPS antigo quando lhe trocamos as voltas. Mas não adianta mudar o percurso, não param de vir, por todos os lados, e penso num ataque de zombies.
Ao chegar ao centro, a que faço uma tangente arriscada para não ter de dar uma volta ainda maior, vejo no meio da praça o grosso da seita, dezenas de espécimes muito juntinhos, aos pulinhos, como a “ninhada” num qualquer filme de série Z, entoando mantras. Quando lhes passo à ilharga, como que obedecendo a uma ordem mental do titereiro que os comanda e que me deve ter cheirado, uma ala inteira deles, cor uniforme, começa a descer na minha direcção, qual claque saltitante e urrante pastoreada pela polícia em dia de derby. Num primeiro momento fico apenas fascinado com aquela mole que vive e age em uníssono, como se partilhasse o mesmo cérebro. Depois, ainda dentro do meu filme de zombies, penso que, ao avançarem tão juntinhos, só me facilitam a vida e dispensam a mira — assim me tivesse lembrado de trazer a HK21 e duas ou três fitas de munições.
Continuo para o supermercado pensando que é melhor que na caixa não impliquem comigo por levar a fruta sem sacos de plástico.
Quando finalmente saio do transe, reconheço naquelas figuras que vagueiam e agora ultrapasso estudantes a regressar da latada. Alguns levam, não o ar ufano de quem venceu uma prova de iniciação, mas o ar indiferente ou entediado de quem cumpriu uma tarefa burocrática.
segunda-feira, 22 de novembro de 2021
quinta-feira, 18 de novembro de 2021
Against All Odds
Formam um par e andam comigo há uns bons vinte e cinco anos. Juntos, somos uma fidelíssima trindade, um threesome bem aconchegado nas noites de Inverno. Hoje uma perdeu-se no caminho de ida. Só dei pela sua falta quando me preparava para regressar, horas mais tarde.
Pressenti a mágoa da perda, mas não perdi logo a esperança. Era agora de noite e era remota a hipótese de não ter sido entretanto tomada por ninguém, remota a hipótese de ter conseguido esconder-se de forma suficientemente eficaz para que a não agarrassem e fizessem sabe-se lá o quê com ela ou não a deitassem numa valeta por a acharem sem préstimo. Ainda assim, retrocedi sobre cada um dos meus passos o melhor que pude e me lembrava, de candeia na mão nua a iluminar o caminho. Quase no fim do trajecto, ou seja, quase no início do trajecto, lá estava ela, caída e espezinhada numa rua de muito movimento, com marcas de lhe terem passado com o carro por cima — mas viva. Julgo que levantou um dedito quando eu hesitava quanto ao lugar onde tinha atravessado a rua e por isso a vi.
Vinte e cinco anos depois, o par não se desfez senão por umas horas e continuamos por isso a ser um triângulo amoroso, as minhas luvas e eu. As minhas duas luvas e eu. Sem sentimentos de traição, ciúme ou amor não correspondido — e, contra todas as probabilidades, sem a mágoa da perda. Não vale a pena invocar Phil Collins, afinal.
Pressenti a mágoa da perda, mas não perdi logo a esperança. Era agora de noite e era remota a hipótese de não ter sido entretanto tomada por ninguém, remota a hipótese de ter conseguido esconder-se de forma suficientemente eficaz para que a não agarrassem e fizessem sabe-se lá o quê com ela ou não a deitassem numa valeta por a acharem sem préstimo. Ainda assim, retrocedi sobre cada um dos meus passos o melhor que pude e me lembrava, de candeia na mão nua a iluminar o caminho. Quase no fim do trajecto, ou seja, quase no início do trajecto, lá estava ela, caída e espezinhada numa rua de muito movimento, com marcas de lhe terem passado com o carro por cima — mas viva. Julgo que levantou um dedito quando eu hesitava quanto ao lugar onde tinha atravessado a rua e por isso a vi.
Vinte e cinco anos depois, o par não se desfez senão por umas horas e continuamos por isso a ser um triângulo amoroso, as minhas luvas e eu. As minhas duas luvas e eu. Sem sentimentos de traição, ciúme ou amor não correspondido — e, contra todas as probabilidades, sem a mágoa da perda. Não vale a pena invocar Phil Collins, afinal.
terça-feira, 16 de novembro de 2021
Memorabilia
Da revista Bravo, escrita numa língua que não entendíamos mas que ilustrava algo que intuíamos, com o cheiro singular das páginas da revista Bravo, tipograficamente diferente do cheiro de tudo o que se imprimia em Portugal, respeitável ou furtivo, um poster dos U2 antes da queda, outro dos Bon Jovi (para haver nisto alguma coisa de que ter vergonha), um fio de utilidade esquecida pendurado de um prego, adereço esquecido ou falhado, por baixo uma cama de ferro e outra de madeira, duas camas desirmanadas que ainda há pouco eram duas camas para quatro irmãos, uma cabeceira de cama onde bem se vê que faltam barras verticais de ferro por onde se escapa a imaginação, uma parede que é um palimpsesto familiar, tribal, estratos geológicos de tinta e eras descascando, um quadro sobrante de outra geração com uma nesga de mar vista através das dunas (rimando com GNR, 1985, e férias em Setembro sem dinheiro), uma paisagem nevada da Suíça que não se vê na imagem como tantas outras coisas que não se vêem na imagem e no entanto estão lá, um verde-escuro na parede a escurecer inapelável e redundantemente com manchas da humidade e do tempo, uma coberta de cama florida que ainda aguentará uns Invernos a inteiriçar-se com a geada que entra pelas frinchas sem perder pétalas, uma fronha de almofada que irá na bagagem das primeiras mudanças (e duas fronhas das outras, que, miseráveis, nos largarão na primeira oportunidade), entre as camas uma mesinha de cabeceira e sobre ela um leitor de cassetes, uma cassete com os nossos primeiros sucessos e um livro, quem diria, sobre a barra do fundo da cama de madeira todo o guarda-roupa de um dos dois (travel light), as camas e os pés que marcam o ritmo assentes num soalho ventilado, nós da madeira já sem nós, buracos por onde espreitam da cave, boquiabertos (de pasmo, de fome, de raiva), os futuros brilhantes por consumar, duas guitarras, emprestadas, pois claro, por mecenas generosos, em que, com a ânsia de começar e de chegar, perdemos a pele dos dedos e deixámos marcas de sangue, duas guitarras onde rigorosos trabalhos arqueológicos ou de medicina-legal também encontrarão suor e lágrimas, suor e lágrimas e tudo isto e nós os dois, espelhados, a olhar o destino de frente ou a enfrentá-lo de olhos fechados, tu e eu, penteados e tudo no ponto — a ensaiar para o Live Aid.
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
"Olhò Toino Escadeirado"
Liguei a televisão para ver a final do English Open entre John Higgins e Neil Robertson e durante a sessão passei pelos canais da RTP. No primeiro, num programa chamado “O Pimba É Nosso”, Quim Barreiros e uma senhora cujo nome não fixei discordavam sobre a possibilidade de trocarem mutuamente de gaitas. No segundo, num festival chamado FNAC Live Lisboa 2021, tocava um grupo cuja estética visual e musical me fez recordar gloriosos bailes no pós-25 de Abril com grupos como o 25.ª Hora. Ainda fiquei à espera de ouvir a então omnipresente “Nho Antone Escaderode” que a todos soava como “Olhò Toino Escadeirado”, mas o programa, ainda que a noite da RTP parecesse uma viagem no tempo e uma visita à barraca das cassetes de feira, não aceitava discos pedidos telepaticamente, e por isso, depois de ver como a classe média urbana do século XXI se encontrou com os foliões de um Carnaval de sociedade recreativa dos anos setenta, numa espécie de vitória de Pirro do proletariado, lá me resignei a ir ver como Higgins perdia.
domingo, 7 de novembro de 2021
O casaco de angorá
Todos os parques que se prezem têm figuras mitológicas. Aquele que atravesso para ir trabalhar ou quando resolvo correr junto ao rio também as tem e uma delas está viva, cruzamo-nos com certa frequência, até já a mencionei em dois ou três destes textinhos. Faz-se geralmente acompanhar de um aparelho de música dentro de um saco de plástico que debita êxitos melancólicos dos setenta e oitenta ou, talvez quando o humor está mais espevitado, música de baile brejeira. O volume também varia com os dias ou os humores, por vezes elevado a uma agressividade punk que não tem correspondência no rosto do portador. Hoje estava baixinho, surpreendentemente baixinho, e não foi a primeira coisa em que reparei.
Olhava um casaco à minha frente que, sendo mais rosa do que púrpura, ainda assim me fez pensar no casaco de angorá de Agnes, a mãe alcoólica de Shuggie Bain, protagonista do livro homónimo de Douglas Stuart sobre uma infância dura em Glasgow. Uma cabeça miúda encostava-se ao ombro daquele casaco e o par ia de mãos dadas, carinhosamente. Foi quando os ultrapassei que ouvi a música e vi o saco.
Era uma imagem inesperada, o habitante solitário e melancólico do parque — talvez, como Shuggie, vítima de bullying na infância, se já tinha então aqueles modos tímidos e invulgares — de mão dada com uma mulher vestida de angorá. A literatura a irromper pela vida real.
A mulher não tinha idade para ser mãe do homem da música e não tinha ar de alcoólica, mas a ternura recíproca surgiu-me ali surpreendente e redentora (e efémera) como em certas passagens de Shuggie Bain.
Olhava um casaco à minha frente que, sendo mais rosa do que púrpura, ainda assim me fez pensar no casaco de angorá de Agnes, a mãe alcoólica de Shuggie Bain, protagonista do livro homónimo de Douglas Stuart sobre uma infância dura em Glasgow. Uma cabeça miúda encostava-se ao ombro daquele casaco e o par ia de mãos dadas, carinhosamente. Foi quando os ultrapassei que ouvi a música e vi o saco.
Era uma imagem inesperada, o habitante solitário e melancólico do parque — talvez, como Shuggie, vítima de bullying na infância, se já tinha então aqueles modos tímidos e invulgares — de mão dada com uma mulher vestida de angorá. A literatura a irromper pela vida real.
A mulher não tinha idade para ser mãe do homem da música e não tinha ar de alcoólica, mas a ternura recíproca surgiu-me ali surpreendente e redentora (e efémera) como em certas passagens de Shuggie Bain.
sábado, 6 de novembro de 2021
Anjos nada tronchos
Vejo alguns vídeos do novo disco de Caetano Veloso e ocorre-me que há neles uma certa afinidade com vídeos dos dois últimos álbuns de David Bowie, The Next Day e Blackstar. Não me tomem por agoirento ou mórbido, não falo de pressentimentos ou presságios. O que eu vejo, pelo contrário, é dois génios a quem a idade ou a fragilidade não impedem o ímpeto criativo e inovador, não impedem, enfim, a criação de obras geniais. Dois génios que também não temem expor as marcas do tempo ou da fragilidade, no rosto ou na voz ou nos gestos dos videoclips, antes os adicionam ao material com que moldam a obra, como o elemento que ali se ajusta para conseguir uma nova e bela harmonia na soma das partes. Génios que não se limitam a viver o seu tempo e os tempos, mas antes marcam o tempo, com a forma como absorvem e fundem influências e digerem o zeitgeist, sintetizando algo novo e contundente.
Os discos de David Bowie soam noir e a espaços o de Caetano também, mas, sendo brasileiro, ele encontra sempre lugar para o samba, mesmo numa música como “Anjos Tronchos” (nem que seja por dois ou três preciosos e significativos segundos — aos 2´57´´).
Os discos de David Bowie soam noir e a espaços o de Caetano também, mas, sendo brasileiro, ele encontra sempre lugar para o samba, mesmo numa música como “Anjos Tronchos” (nem que seja por dois ou três preciosos e significativos segundos — aos 2´57´´).
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
A careta de Evelyn Waugh
Kingsley Amis não desiludiu: A Sorte de Jim é a sátira hilariante que esperava. As últimas 20 ou 30 páginas são magistrais. Senti-me particularmente redimido quando o protagonista — que adopta ao longo do livro, de acordo com as situações, uma vasta colecção de esgares e expressões burlescas — ensaia «a sua careta de Evelyn Waugh». Kingsley Amis a usar Evelyn Waugh como careta é simplesmente perfeito. A mera evocação até me faz suportar a musiqueta que, vinda em ondas de algum bailarico de finados, me tenta agredir os ouvidos através da janela, como os pássaros de Hitchcock.
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