segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O pateta elegante

Já me aconteceu antes, regressar de um curto período sem internet nem jornais e levar com a realidade nas ventas. Não há nenhuma surpresa, não é isso. O anúncio de Passos Coelho era previsível (como tudo nele), mas esperar as más notícias não nos alivia do mal que elas, quando ditas, oficializam e na hora começamos a sentir.
Leio agora os jornais e os blogues e deparo aqui e ali com perfis do Primeiro-Ministro, todos excessivos, todos errados. Estive poucas vezes perto dele, mas em algumas estive suficientemente perto para notar como Passos Coelho me faz lembrar o irmão de um amigo de há vinte anos: os mesmos olhos claros, os mesmos somíticos lábios finos, as mesmas sobrancelhas em calimérico vê invertido (já imortalizadas numa versão de célebre quadro piegas a pedir intervenção especializada de Celina Giménez), o mesmo cabelo ternamente alourado, à betinho, de minuciosa risca ao lado e com um corte que lhe deixa coberto o arco (ou ogiva spockiana?) superior das orelhitas, o mesmo queixo proeminente, quase, quase à Kirk Douglas, a mesma fotogenia de boneco de cera hollywoodesco — e o mesmo vazio sideral entre as orelhas.
Como o irmão do meu amigo, Passos Coelho tem presença e vaidade, faz-se notar e fala com voz segura, autorizada, mesmo quando diz alarvidades. Os imprudentes e os deslumbrados rendiam-se ao halo do irmão do meu amigo — na verdade um caixeiro-viajante ao serviço de uma multinacional do perfume ou da aspirina. Vanglória ou placebos eram o seu negócio e ganhava bom dinheiro com isso, o elegante pateta alegre.
No Governo, está de um lado o insustentável Relvas, com as suas negociatas e representando certos interesses com rabo de fora; do outro, estão os dogmáticos Gaspar e Santos Pereira, espécie de ultrazelosos marxistas do capital prontos para irem ao fundo com a sua cartilha, que é, nos dias que correm, tão útil como a carta de ligeiros para os submarinos de Portas; e no meio está Passos Coelho, vendendo com os seus melhores colgate, gravata e argumentário de literatura inclusa o que lhe impingem os outros três — sem olhar às contra-indicações. Tal como o irmão do meu amigo, Passos Coelho é um bom ventríloquo dos seus incumbentes — mas infelizmente a sua prosódia de papagaio só é boa para ele e para os seus patrões, não para o país que num dia de humor delirante o elegeu.

2 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Bela análise. Acho que é capaz de ser isso.

O pior é se é mais que isso. Se isto tudo não é apenas incompetência mas pérfida intenção.

Rui Ângelo Araújo disse...

Sim, o homem acumula, pelo talento inato de estadista e pela doutrina de pacotilha que, quando jotinha e empresário de sucesso, engoliu com os cereais e o caviar.