terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prédios

1.
Vi-o de cabeça levantada — medindo o colosso com ar entendido, o indicador percorrendo os pisos com minúcia de sapador — e por momentos pensei que estudava a distribuição de cargas adequada para implodir um dos prédios “Coutinho” cá do burgo. Mas não. Era só um turista divertido, contando quantos pisos o mamarracho tinha acima das vivendas em redor, recolhendo amostras para uma antropologia lusitana, tirando fotos para o seu álbum de aberrações de Portugal.
  
2. 
O anúncio lista os atractivos do apartamento à venda num andar estratosférico do Porto. Das muitas virtudes mencionadas, só uma é verdadeiramente irresistível: o andar tem vista para «a relva do Estádio do Dragão». Não era dito qual dos tufos da relva do Estádio do Dragão — o anúncio carecia de detalhe.
Mas era um anúncio inteligente, dirigido a um vasto especto de compradores. Entre os candidatos a morar em tão celestial nuvem estão inúmeros portistas detentores de binóculos e, desconfio, alguns benfiquistas com licença de porte de carabina com mira telescópica.
  
3. 
Os edifícios residenciais por vezes adoptam nomes que lhes garantem distinção, ou, em fase de venda, lhes prometem compradores. Não vi até à data nenhum título capaz de despertar mais o instinto consumista num sem-abrigo do que “Varandas da A4”. A A4 é, adivinharam, uma auto-estrada — e alguém concebe melhor forma de passar os dias domésticos do que à varanda a ver o tráfego Porto-Amarante? Eu não.

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