quarta-feira, 12 de abril de 2023
Uma dessas influencers do TikTok que os media vêm anunciando esta Páscoa (talvez não por acaso) como Cristos surgidos para assegurar vida eterna à literatura, anunciava numa reportagem, não a ressurreição do discernimento, mas uma série de livros que escolhia pela capa. Decerto porque tantos jornalistas são pueris tiktokers (passe o pleonasmo) disfarçados com carteira de imprensa, ninguém teve a piedade de explicar à influenciadora que, fora do mundo de fancaria onde publica os seus vídeos, os leitores não escolhem livros pela capa. Mas rejeitam por esse método muitos — incluindo, não vale a pena sermos indulgentes, os abençoados pela estante dela.
segunda-feira, 3 de abril de 2023
Uma questão pendente
Estava uma tarde boa para preparar o IRS ao ar livre e talvez por isso ela se tivesse instalado com a papelada na mesa de piqueniques do parque. A visão periférica do discreto observador da vida selvagem captou ao passar alguns apetrechos, mas não os identificou. Seria afinal uma iniciante a preparar sob a copa das árvores uma reunião de Tupperware? Uma debutante da Herbalife a rever as bulas das mezinhas? Uma revendedora de cosmética a organizar as paletas?
Censurando-se pela deriva preconceituosa e machista da especulação, o observador teve oportunidade de se redimir quando compreendeu que o ser observado manuseava um objecto de aparência metálica sobre o que poderia ser um diagrama de vectores e forças ou uma amostra cartográfica da galáxia. Era decerto — com a sua aparência bonita e cuidada sem exageros caricaturais, de uma elegância natural que dispensa suplementos — alguém que ensaiava as leis da física antecipando uma aula ou consultava, para as notas de uma conferência, as coordenadas do último exoplaneta a ser descoberto pelos astrónomos.
Contudo, enquanto girava entre o polegar e o indicador o que poderia ser um pêndulo de Foucault mas com excessiva força centrífuga, havia uma denúncia de expectativa na sua expressão que não era a de quem aguarda confirmar a rotação da Terra. O brilhozinho nos seus olhos mais se coadunava com um desejo de ver os astros saírem dos eixos — como se afinal dedicasse a boa e auspiciosa tarde de Primavera a sondar esotericamente as energias ou o devir em busca de respostas a questões existenciais, talvez amorosas, próprias ou alheias, espoletadas por anelos inocentes ou rancores de húbris e pathos clássicos.
Rebater esta nova hipótese estereotipada implicava agora virar a cabeça sobre os ombros, o que as regras da circunspecção impedem, pelo que ficou por fazer justiça à mulher que misteriosamente dispunha o sábado sobre a mesa de piquenique.
Censurando-se pela deriva preconceituosa e machista da especulação, o observador teve oportunidade de se redimir quando compreendeu que o ser observado manuseava um objecto de aparência metálica sobre o que poderia ser um diagrama de vectores e forças ou uma amostra cartográfica da galáxia. Era decerto — com a sua aparência bonita e cuidada sem exageros caricaturais, de uma elegância natural que dispensa suplementos — alguém que ensaiava as leis da física antecipando uma aula ou consultava, para as notas de uma conferência, as coordenadas do último exoplaneta a ser descoberto pelos astrónomos.
Contudo, enquanto girava entre o polegar e o indicador o que poderia ser um pêndulo de Foucault mas com excessiva força centrífuga, havia uma denúncia de expectativa na sua expressão que não era a de quem aguarda confirmar a rotação da Terra. O brilhozinho nos seus olhos mais se coadunava com um desejo de ver os astros saírem dos eixos — como se afinal dedicasse a boa e auspiciosa tarde de Primavera a sondar esotericamente as energias ou o devir em busca de respostas a questões existenciais, talvez amorosas, próprias ou alheias, espoletadas por anelos inocentes ou rancores de húbris e pathos clássicos.
Rebater esta nova hipótese estereotipada implicava agora virar a cabeça sobre os ombros, o que as regras da circunspecção impedem, pelo que ficou por fazer justiça à mulher que misteriosamente dispunha o sábado sobre a mesa de piquenique.
terça-feira, 28 de março de 2023
Serenata ao luar da tarde
O ajuntamento parece em parte o de um clube motard, só que a música, prodigalizada por duas jovens de calções e acordeão, não é hard rock, como se imaginaria, mas quando muito softcore, do género que se poderia encontrar numa festa popular.
A dada altura, um tipo apollíneo (variante módulo lunar), ataca a Rosinha, êxito intemporal, mas baralha a letra. "Ó minha Rosinha eu hei-de te amar, de noite na praia, de dia ao luar", berra, alheio à propriedade intelectual do letrista e à tabela horária do romantismo. Logo outro acode, com igual maviosidade, mas acrescentando uma nota de subtil erotismo: "Ó minha Rosinha eu hei-de te amar, de dia ó de noite, é sempre a bombar".
No que toca à delicada arte da serenata, Cyrano não faria ali melhor.
A dada altura, um tipo apollíneo (variante módulo lunar), ataca a Rosinha, êxito intemporal, mas baralha a letra. "Ó minha Rosinha eu hei-de te amar, de noite na praia, de dia ao luar", berra, alheio à propriedade intelectual do letrista e à tabela horária do romantismo. Logo outro acode, com igual maviosidade, mas acrescentando uma nota de subtil erotismo: "Ó minha Rosinha eu hei-de te amar, de dia ó de noite, é sempre a bombar".
No que toca à delicada arte da serenata, Cyrano não faria ali melhor.
segunda-feira, 13 de março de 2023
Benefícios do filme A Baleia
1) As pessoas vão ver teatro dramático sem se queixarem.
2) Pouco depois do início, as mãos deixam de mergulhar nos saquinhos de M&Ms e baldes de pipocas e a plateia em vez de ganhar peso ganha silêncio. Um silêncio culpado, mas qualquer silêncio é bom silêncio.
2) Pouco depois do início, as mãos deixam de mergulhar nos saquinhos de M&Ms e baldes de pipocas e a plateia em vez de ganhar peso ganha silêncio. Um silêncio culpado, mas qualquer silêncio é bom silêncio.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
A vingança amarela
Todos os meses de Fevereiro as mimosas florescem e é como se tivesse lugar uma vingança colorida. Classificadas de invasoras, são alvo da sanha humana até quando despontam em lugares onde não há senão descampado ou lixo para invadir. Como se a malta estivesse mesmo à espera de as extinguir para desatar a plantar no seu lugar, com inesperado entusiasmo florestal, carvalhos, bordos, castanheiros, azinheiras, azereiros, sobreiros, freixos, amieiros e choupos, repondo duma furiosa assentada todo o catálogo da floresta autóctone portuguesa. Não, por mim, no que toca à cobertura vegetal da pátria, confio mais na vingança sazonal da bela e perfumada acacia dealbata.
Subscrever:
Mensagens (Atom)