Reconhecemos uma alma gémea quando alguém que entra no shopping, depois de puxar para si a grande porta envidraçada,
volta a fechá-la e de novo a abre apenas para confirmar que, sim, a porta faz
um barulho cómico, humanóide, que apetece ouvir outra vez. Depois da breve pausa
na frivolidade do mundo, ele entra e eu saio, sorrindo ambos de portas que
adoptam comportamentos desviantes.
sexta-feira, 14 de março de 2014
quinta-feira, 13 de março de 2014
Aparências
1.
São meia dúzia em volta da mesa de pedra junto ao rio. Geralmente a
mesa é usada, em tardes de furo ou gazeta escolar, para umas festas de álcool, para
enrolar e partilhar uns charros. Os grupos exclusivamente femininos são talvez
menos frequentes, mas lá está a atitude semiclandestina, lá estão os risinhos langorosos
e cúmplices, os corpos dobrados em tenda conspirativa sobre o centro da mesa. E
no entanto, quando se abre um pouco a corola de adolescentes primaveris, o que
aparece a ser transaccionado ali no meio é um banal frasco de verniz de unhas,
como num cliché da Ragazza.
2.
O rapaz vem de praticar desporto, calções, t-shirt suada, cabelos molhados, sweatshirt atirada sobre um ombro. As três raparigas aproximam-se
entre embaraçadas e conspirativas, com segredinhos e empurrando-se umas às
outras. Cortejam-no. De saia ou vestidos coquetes, alguma pintura no rosto,
parecem saídas da mesma edição da Ragazza
atrás referida. Ou de um quadro mais antigo, de um que tenha fixado a óleo uma
tarde bucólica no parque. Porém a oralidade trá-las de volta ao futuro. Tendo
talvez sido contrariada, uma delas abandona a discrição, a corte vintage, e dispara à colega um sonoro «vai-te
foder, caralho», que o rio devolve em eco. O rapaz não parece sentir que se
tenha desfeito o encanto, continua a atrasar o passo e a controlar a distância e
os risinhos pelo canto do olho.
3.
Pequeno gangue, vêm subindo a rua. Cortes de cabelo, roupas, calçado,
balanço do corpo, tudo de acordo com o modelo rebelde sem causa, vulgo
arruaceiro. Param de súbito a conversar animadamente, ruidosamente, belicamente,
ocupando metade da via de trânsito e todo o passeio. Os carros ultrapassam-nos
em pequeno e conformado slalom. Os
peões contornam-nos por fora, como vítimas de bullying fugindo à palmada nas costas. A descer a rua, avanço a direito
com a inércia e uma vaga intenção de reivindicar o meu direito a um vector no
passeio. Estendo o braço para abrir alas e o distraído rapaz à minha frente estremece
de susto, como se acabasse de ser abordado por um assaltante. Desvia-se,
cordial, e eu continuo caminho, a rir-me do ridículo. Do meu ridículo.quarta-feira, 12 de março de 2014
A vitoriosa trimestralidade da LER (1)
O Correio da Manhã, esse
pândego, considerou uma boa notícia a LER passar (ou regressar) a uma periocidade
trimestral. Pelo menos a seta junto à informação apontava para cima (recebendo como
troco uma farpa de Rui Zink no Facebook). Para mim, esta alteração pode de
facto ser uma boa notícia: se a revista aumentar o conteúdo, como prometido, e mantiver
o preço de 5 euros, talvez, bem contados os trocos, possa voltar a comprá-la.
Mas esta renovação da LER («sem lamentos nem desculpas») só é uma
vitória ou uma boa notícia porque estamos demasiado habituados a más notícias.
Podemos, nestes tempos de cinza, considerar uma vitória a LER conseguir manter-se,
ainda que trimestralmente; podemos considerar uma boa notícia a LER
simplesmente não acabar, como seria possível e de certo ponto de vista até
provável. Mas estas são as vitórias simbólicas da Resistência, destinadas a
manter o moral. Verdadeira vitória e boa notícia sem sombra de eufemismo seria
a LER renovar-se e aparecer com «mais páginas, mais reportagens, mais profundidade e densidade» mantendo a edição mensal.
Assim, concluímos apenas que o país não tem dinheiro nem leitores
suficientes (ou suficientes leitores com dinheiro, numa versão optimista) para
uma revista mensal de livros.
A vitoriosa trimestralidade da LER (2)
Muitos anos, circunstâncias, instituições e pessoas contribuíram para o retrocesso da LER à periodicidade trimestral. Paulatinamente, o livro (e não
falo em particular do romance) foi banido das televisões, das escolas, das
universidades, dos jornais (guetizado em suplementos a que prescreveram uma dieta
crescente), dos discursos políticos, das conversas em geral. Uma ou duas
gerações de dirigentes partidários e institucionais particularmente plebeias,
particularmente representativas da boçalidade e do arrivismo nacionais, foram
suficientes para consumar o desaparecimento do livro — e a geração que lhes
há-de suceder nem sequer consegue soletrar a palavra.
quinta-feira, 6 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
Um país ao espelho
[no Âncoras e Nefelibatas]
«Não sou muito de partilhar dos curiosos hábitos higiénicos dos colegas portugueses que asseveram que "isto é uma cambada de paneleiros e de fufas que até mete nojo". Há que relativizar hábitos higiénicos de um povo que tem assegurado a longevidade política do doutor Alberto João Jardim, e a epistemologia de quem em Maio ou Setembro vai de rojo a Fátima por causa da senhora que brilhou na azinheira.»
sábado, 1 de março de 2014
Pequenos retratos infames (2)
Helena Matos
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