segunda-feira, 17 de junho de 2013

A hora dos papagaios

Três mulheres, um petiz. Chegam e a mais velha instala-se com o rapaz num dos bancos de balouço. A mulher tem um ar apatetado e o timbre instável de um adolescente na mudança de voz. O miúdo utiliza frequentemente a expressão «credo» com uma entoação e uns trejeitos que parecem trair
a) excesso de convívio com a mulher mais velha (a quem a expressão assenta perfeitamente)
b) uma precoce postura irónica, zombeteira.
Olhamos-lhe para a cara, da mesma linhagem da dela, e inclinamo-nos para a hipótese do convívio, o puto como papagaio inconsciente e sem dolo da tia ou avó.
Depois as outras duas mulheres sentam-se nas imediações e ela, dando às pernas no balouço, enche o peito de ar a despropósito:
— Se fosse eu, punha os desempregados a semear batatas ali naquele campo. Se recusassem, não recebiam um tostão. Os desempregados e os do rendimento mínimo. Haviam de ver.
As correntes gemem com o vaivém e a sua voz concorre com elas na mesma frequência de agudos oxidados.
— Se fosse eu que mandasse, era assim. Eles não iam gostar, pois está claro, mas comigo trabalhavam, se queriam.
As outras, como se a levassem a sério, falam entre si de agricultura, naquele tom vago e ocioso de domingo à tarde. Fazem cálculos por alto a despesas e lucros com certa hipótese de lavoura e parecem concluir pela inutilidade da empreitada.
Ela não as ouve ou não desarma.
— Eu dava-lhes o desemprego! Se fosse eu que mandasse?
O miúdo tornou-se irrequieto e exigiu atenção. A diatribe da mulher interrompeu-se quando ela se ia referir aos funcionários públicos. Não pudemos ouvir que impropérios teria no seu repertório para esta outra espécie.
Podemos conjecturar que se tratava de uma seguidora atenta do Governo, possivelmente uma empreendedora de sucesso, ou alguém cujo mérito no trabalho deixa longe o espectro do desemprego.
Ou podemos correr o risco do preconceito (quem vê caras não vê corações?) e não pôr de parte a possibilidade de se tratar de uma reformada, quiçá da função pública, fascinada pela retórica tribal e o olhito azul de Passos Coelho. As mentes simples tendem a papaguear o que ouvem. Não é, rapaz?
— Credo!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jantando com Martin Amis, Casanova e Geoff Dyer

Assistir (é este o termo) à entrevista de Rogério Casanova a Geoff Dyer na Ler é um exercício de masoquismo. A erudição e o escrúpulo literário do português vergastam-nos e deixam o próprio entrevistado entre o intelectualmente embevecido (quando o cérebro geek e coleccionador de autógrafos de Casanova está ao serviço de uma espécie de private flattery) e o ligeiramente claudicante (quando Rogério e a sua inteligência ficam à solta e resolvem eles mesmos discorrer sobre os assuntos que previamente propuseram a Dyer). Numa conversa destas sobra para nós o lugar de espectador perdido — e para os nossos queixos a função natural de caírem bovinamente.
Claro que podemos adoptar uma atitude revanchista, a de avançar pelo mato das citações e das referências empunhando como catana a nossa própria e miserável experiência. Martin Amis é ali previsivelmente tido como um Deus do Olimpo? Bem, sempre podemos defender-nos dizendo que não se aguenta um London Fields a seguir a um Money. A bem da nossa própria idolatração, aconselha-se entremear um breve Night Train ou um diverso The Pregnant Widow, talvez um The Information, se o stock de vinho estiver em níveis razoáveis. Não podemos decerto dizer, como Geoff, que Amis um dia jantou em nossa casa, mas podemos sempre jurar que o regurgitaríamos (ao jantar) (e ao escritor) se ele aparecesse sem respeitar o tempo de digestão e a variedade na dieta aconselhados pelo endocrinologista.
Quanto à assertiva harmonia entre os interlocutores na entrevista, podemos ser pícaros e enviar para o consultório de Casanova na Ler uma pergunta sobre As Correcções, de Jonathan Franzen. Ficou ele ou não deprimido por saber que o desistente precoce* e muito casanoviano enjoado autor de Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga tinha passado três semanas «muito felizes» a ler até ao fim a obra do tipo que fez capa da Time como o novo grande romancista americano?**


* Geoff Dyer, precocemente schopenhaueriano, diz que a sua «capacidade de desistir de um livro não tem paralelo»1.

** Depois desta frase não levo a mal que o leitor use o inalador para a asma.

1 O escritor também diz que há uma «progressão neutral» que reduz um dia os leitores masculinos à «vontade de não ler mais nada a não ser história militar». Na minha neurologia de bolso, eu imaginava que a isto se chamava regressão, regresso à adolescência e aos soldadinhos de chumbo.(a)

(a) Esta sucessão de notas foi o meu ocioso momento wallaciano.i

Franzen diz que ele e David Foster Wallace eram amigos. Não tive ainda oportunidade de saber o que pensa sobre isto Casanova.

sábado, 8 de junho de 2013

O Fim da Feira

Para poupar um clique, eis na íntegra o texto de J. Rentes de Carvalho:

«Este ano não há, mas
O FIM DA FEIRA NÃO É O FIM DA FESTA                                                                                                                                
Concordem: um aviãozinho a fazer piruetas e a deitar fumo colorido, um futebol, uma corrida de atletas, um comício, uma noite de São João, tudo isso conta para distrair e repousar.Sabemo-lo nós, sabem-no os autarcas do Porto que, diligentes no descanso do espírito e na necessidade de divertimento dos portuenses, se mostram fiéis seguidores do Panem et Circenses dos imperadores romanos. O pão, infelizmente, terá cada um de ganhar o seu, mas jogos, festas, divertimentos, é com eles.E assim, embora de mau grado, me vejo a concordar que a Câmara do Porto não apoie a Feira do Livro.Raro anda ali multidão para encher uma bancada. Não se ouvem tambores, trombetas, castanholas ou apitos, foguete nenhum. Em vez de se agitar em festa, aquela gente ora caminha com o nariz em livros, ora demora nos escaparates, olhando como em transe. É povo que parece não ter aprendido a dar vivas, nem a agitar bandeiras, em vez de dar patadas de entusiasmo move-se com a calma de quem visita a igreja.Será boato, mas já ouvi que boa porção dos que a visitam são atreitos a pensar pela própria cabeça e gostam de aprender, qualidades que levam à inquietação e daí ao descontentamento,  à rebeldia.
Este era o começo. Ia-me inclinando para o jocoso, mas há risco em ser tomado à letra,  melhor é entrar no assunto e, com simplicidade e respeito, inquirir dos senhores autarcas se, de facto, os cofres da edilidade portuense se encontram depenados a ponto de não haver neles a "migalha" com que contribuíam para Feira.Acho duvidoso que assim seja. Antes quero crer que os livros, a leitura, a escrita, nem peso-pluma são nas decisões do município, devem-lhe parecer carolice de uns quantos, e que esses quantos melhor emprego dariam ao tempo indo ver aviõezinhos a fumegar.Tanto como desprezo pela legítima vontade, e o direito dos cidadãos, em prosseguir actividades que lhes aumentem o conhecimento e enriqueçam o intelecto, semelhante atitude denota uma soberba de mandões à moda antiga, a do tempo em que uns poucos riscavam e o resto calava.Calados já não ficamos, mas no mais pouco mudou, que para mal nosso a democracia ainda vai de muletas e a prepotência continua enraizada. Com o estafado argumento de que não há dinheiro, decide o autarca que a Feira do Livro não se realiza. Mas mostra ele as contas? Os cálculos que fez? Prova aos cidadãos a justeza do que decidiu?Não mostra nem prova. Decide com arrogância ao gosto da própria vontade, ignorando o tempo em que vive. Porque poderá ter sido eleito pela maioria de uns, mas é sua obrigação atender ao interesse geral. E as Feiras do Livro não interessam apenas a uns quantos carolas que gostam de ler, mas a todos os que anseiam por algo mais que o superficial, o passageiro.  Interessam sobretudo aos jovens, para quem os livros são janela aberta para o conhecimento, a cidadania, a esperança de viverem numa sociedade harmoniosa nos direitos, nos deveres, no respeito do que contribui para o bem comum. Não se vê de imediato, mas as Feiras do Livro contribuem.»

É isto, totalmente isto

«A Feira do Livro no Porto em 2013»
(clique para ler)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

[Intervalo]

Quem se tem dado ao trabalho de vir a este blogue nos últimos tempos já se deve ter apercebido que há tipos que não sabem respeitar o célebre bloqueio de escritor e a dignidade da página em branco.

Calhamaços

A Quetzal merece ser mil vezes louvada por ter editado A Piada Infinita, mas merece também um par de chicotadas por ter editado a obra num só volume e tê-lo feito antes de dar oportunidade ao revisor para uma segunda leitura.
O prazer de ler o livro é infelizmente a cada passo contrariado pela dificuldade em o manusear e pelas vezes em que temos de nos deter a avaliar se estamos perante uma gralha ou um escrúpulo do tradutor. Sabemos que o livro tem diferentes registos, diferentes construções frásicas e formas de observar a gramática, mas não raro confirmamos, depois de forçados a reler uma oração (ou uma passagem inteira), que, ainda assim, também tem gralhas e infelicidades tradutivas.
Esperámos 15 anos pela tradução — tínhamos esperado mais um para que ela fosse impoluta. E também tínhamos pago mais um euro ou dois para adquirir uma coisa com capas duras que nos evitasse luxações nos pulsos.
(Bem, quanto a este segundo aspecto, posso ser só eu ou o início da osteoporose a embirrar. Lembro-me que li o Ulysses em edição de capas moles e A Montanha Mágica num exemplar já sem capas e não me lembro de me ter queixado. No caso do primeiro, e tirando o monólogo interior da Molly Bloom, é certo que também já não me lembro do que nele li. Do segundo lembro-me de o ter lido de Inverno e de ele me ter aquecido sem ter de lhe chegar fogo. Tomem isto como uma boa crítica, por favor.)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Thin tank

No meu rotineiro exercício de masoquismo (a versão oficial defende que é abertura de espírito), passo os olhos pelo Blasfémias e, atendendo à assertividade do sítio, frequentemente me pergunto se não deveríamos entregar o governo do país à direita de Vítor Cunha, João Miranda, Rui A. e Gabriel Silva. Mas depois uma voz me diz: «Mas essa direita está no Governo e tem dado no que se vê!» E logo outra voz corrige: «Essa direita, ponto e vírgula: os rapazes não se entendem o suficiente entre si para que se possa dizer que há uma solução de direita para a crise ou para o que quer que seja.» O que não impede nenhum deles de ser 100% categórico, de estar 100% cheio de razão, 100% discordante de qualquer ideia de esquerda ou meramente dubitativa. Some-se a isso o histerismo fóbico de Helena Matos, a contribuição zelota de José Manuel Fernandes e a pegada deixada pelo hilário (e muito sintomático) Carlos Abreu Amorim* e temos ali um think tank de luxo.

* Estarão à espera de quê para contratar o ex-ministro e dr. Relvas para o lugar deixado vago na chafarica?