quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Oh Beyoncé, Beyoncé, (não) quero bailar com você


O telejornal diz que a cantora Beyoncé foi acusada de plágio pela coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker (fundadora da companhia Rosas). Um vídeo da cantora parece ser cópia descarada de algumas peças daquela importante coreógrafa de dança contemporânea, que recorreu à justiça.
Num primeiro momento, achamos que Beyoncé não merecia uma condenação em tribunal, mas umas palmadinhas nas costas. Difundir dança contemporânea, quando esta é de boa qualidade, devia ser louvado, não castigado.
Mas depois o locutor cala-se e a música fica mais alta — é então que nos pomos a pensar se a cantora será julgada na Bélgica ou nos Estados Unidos. Torcemos pelos EUA, claro — ali há pena de morte.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A Primavera Árabe e o Outono Ocidental

1. Tudo aquilo que os jovens da Primavera Árabe sabem que não querem é o bastante para que a sua seja uma revolta evidente, um processo que se auto-justifica e cujos fins são também claros. Em termos gerais, os jovens não querem a ditadura. Ponto. Mais não seria preciso para que a revolução fosse tanto uma vontade como uma necessidade amplas e naturais.

Os jovens árabes — uma boa parte deles, pelo menos — querem liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de voto, igualdade de géneros, democracia. Se no fim do dia tiverem conseguido isto, terão conseguido tudo — mesmo que ainda lhes possa faltar muito para uma vida digna e próspera. A vitória das revoltas árabes, fisicamente difícil e arriscada, é intelectualmente fácil de defender e de conseguir. Derrubada a ditadura, estão conseguidos os objectivos; instaurada a democracia, a revolta, esta revolta, consuma-se — ainda que a luta tenha de continuar.

2. Os movimentos indignados no Ocidente não têm a mesma revolução “fácil” pela frente. Aparentemente, também uma parte dos jovens daqui sabe o que não quer (um capitalismo impiedoso, opressor e ineficaz, políticos corruptos, empresários usurpadores), mas não tem algo suficientemente definido e contrastante para lhe opor. Não tem um simétrico óbvio como a democracia o é para a ditadura.

Precisamente porque o que “oprime” o Ocidente não tem a evidência de uma ditadura clássica, não é exprimível em slogans simples e universalmente aceites, por mais que eles sejam tentados e bradados. Ainda que as massas manifestantes se pudessem pôr de acordo quanto à forma de derrubar o “sistema ocidental”, não saberiam, na verdade, o que instalar no seu lugar. Ou sabê-lo-iam muito vaga e incertamente, mais a partir de uma intuição ou de uma fé do que de uma reflexão acabada.

O velho comunismo assusta demais para voltar a ser apelativo e uma alternativa que a classe média, crescentemente indignada, aceitasse. E um “comunismo de nova geração” (necessariamente com outro nome) ou uma “social-democracia economicamente persuasiva” não estão ainda politicamente estruturados e acessíveis ao senso comum, nem se prevê que venham a ser de consenso fácil.

Resulta que dificilmente as ocupações das praças públicas no Ocidente conseguirão, só por si, constituir uma revolta vitoriosa como a árabe o é potencialmente. Talvez as ocupações possam desalojar os poderes, mas não terão nada para pôr no lugar deles. Nem serão tão universalmente aclamadas. O Ocidente está zangado, mas não louco. Não haverá uma ovação quando a desordem for tudo o que restar. A anarquia, se acontecer, como eventualmente acontecerá, não será desejada como a liberdade na margem sul do Mediterrâneo. Reside portanto aqui a dificuldade da revolução ocidental. Se nada de útil for fabricado nos próximos tempos pelos pensadores ocidentais (considerando que existem e que, existindo, alguém está disposto a ouvi-los), na margem norte do Mediterrâneo não ocorrerá uma Primavera mas certamente um Outono invernoso.

O cepticismo de um ocidental ou A Super Bock patrocina a revolução

Mas imaginemos agora que a massa crítica ocidental conseguia inventar um simétrico evidente e atractivo para oferecer aos indignados e à população em geral. Conseguiria reunir “amigos” ou “gostos” suficientes no Facebook? Seria possível verter para linguagem de sms (a que a malta entende) o conceito pelo qual se faria a luta? E, mais importante, estaria a juventude ocidental disposta a ocupar praças em números convincentes e pelo período necessário — se nenhuma marca de cerveja ou de whisky patrocinasse a ocupação?
Caso haja uma primavera ocidental, aqui ela será necessariamente patrocinada pela Super Bock. Mas no final terão de ser os egípcios (ou outros imigrantes) a limpar os vidros e os copos de plástico das praças. 

Condições para uma revolução

No Ocidente, o grosso da juventude sabe como se parte uma garrafa ou um copo no passeio — mas não sabe como se pega numa vassoura. Talvez não esteja ainda maduro para uma revolução. E talvez não esteja ainda necessitado de uma revolução. O revolucionário, como se sabe, precisa de um certo esclarecimento político e cívico — e de ter os bolsos vazios. Olhando em volta, dir-se-ia que nenhuma das condições se verifica suficientemente por cá.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Duas meninas

Talvez a mais velha tivesse confessado o sonho de ser modelo ou actriz de novelas, porventura as duas profissões mais ambicionadas pelas adolescentes de hoje. A mais nova, criança, responde-lhe, passando-lhe vagamente as mãos pelas partes do corpo que menciona: «Para isso vais ter te livrar dos espigos no cabelo, fazer dieta, ir para o ginásio, aumentar os peitos, tirar esse sinal e manter as unhas todas do mesmo tamanho». A última observação provoca-lhe uma risadinha irónica pela farpa que incluiu.
Apesar da linguagem, do conhecimento da matéria, da aparente intimidade com os detalhes que ocupam as candidatas a “estrelas”, a mais nova estava-se claramente nas tintas para o tema. Não parecia desinteressar-se pelos sonhos da irmã adolescente (ou prima, ou amiga), não era isso. Apenas a sua solidariedade, a sua cumplicidade não ia ao ponto de valorizar assim tanto o que quer que exigisse tais esmeros.
Se fosse a mais velha a falar sobre os anseios da menina (bonecas, desenhos animados, amigos imaginários, brincadeiras, corridas ao ar livre), o tom não seria mais paternalista, condescendente, duma cumplicidade carinhosa e interessada mas não totalmente empenhada.
Assistiu-se a uma inversão. As questões da beleza feminina foram naquele momento reduzidas a caprichos infantis, anelos transitórios a que a idade tira importância. A mais nova das meninas mostrava, sem a impor, a sua maturidade. Não se importava de dedicar algum tempo a um assunto pueril, mas simultaneamente percebia-se (ela deixou claro, aliás) que tinha coisas mais importantes de que se ocupar, como por exemplo correr a embrenhar-se mais no parque para aproveitar o bom tempo extra que foi concedido ao país. «O Verão não vai durar sempre!»
No entanto, como sabemos que com a idade não vem necessariamente mais juízo, é possível que daqui a um par de anos também esta menina só se preocupe ao espelho com o aspecto do cabelo e corte sempre as unhas no tamanho que as revistas aconselham. Nessa altura, um Verão que entra pelo Outono não fará parte do estreito leque de coisas que maravilham.

sábado, 8 de outubro de 2011

A sinceridade de António José Seguro

Carlos César anunciou que não se recandidata. «Em nome da ética dos cargos públicos e da ética republicana.» A lei (perniciosa) não o obrigava, mas ele fê-lo, reafirmando voluntariamente a importância da limitação de mandatos, da renovação democrática. Passemos em alto considerações sobre o contexto da decisão e sobre o contraditório segredo mantido de Janeiro até à data. O anúncio é, por si, coerente com o que o governante havia dito há três anos e serve a república da melhor maneira, a do exemplo.

António José Seguro teve, com este anúncio, a possibilidade de se mostrar em sintonia com uma visão desprendida do serviço público, de sublinhar a importância simbólica e prática da decisão do seu correligionário, de enaltecer e destacar um gesto raro. Mas, pelo que ouvi na rádio, o dirigente socialista preferiu outro caminho, o duma triste e reveladora sinceridade. Manifestou «pena» por a decisão de César não ter sido a de se recandidatar, dado o seu perfil, as suas qualidades.

As belas palavras contra a eternização de pessoas nos cargos públicos apenas são válidas quando aplicadas aos outros. No que toca aos nossos, eles podem ficar lá para sempre, não há qualquer interesse em substituir quem tão bem nos serve. A democracia interessa-nos até ao momento em que ganhemos as eleições, depois disso é dispensável.

Se havia dúvidas quanto ao carreirismo de Seguro, quanto à sua “clubite”, elas ficaram hoje esclarecidas. A sua mente formatada para pensar sob a perspectiva da tribo, da facção, não foi capaz sequer de guardar as aparências. A decisão de César estava tomada e divulgada — ele podia elogiá-la, mesmo que por dentro lhe doesse o coração socialista. Mas a língua foi mais rápida do que o pensamento, e Seguro, num exercício de transparência que lhe agradecemos, lamentou publicamente a perda de um ganhador de eleições. O partido agora vai ter de lutar mais para manter o poder no arquipélago e isso, a única coisa que importa a este género de servidores da pátria, é uma chatice, claro. O aprofundamento da democracia não atenua nem um pouco a mágoa “socialista”, não compensa o contratempo que a casta enfrenta. É gente desta espécie que nos governa.

Os passos de Pedro

Passos Coelho não é melhor do que Seguro. É fruta da mesma cepa. Também ele não hesitaria em apoiar João Jardim se a revelação do célebre “buraco” não lhe tivesse explodido na cara. O moço, aliás, acarinha uma boa provisão de caciques pela pátria fora. O que lhe traz um problema: quando o solo nacional começar a dar de si com os buraquinhos municipais, os passos de Pedro revelarão necessariamente quão trôpego é o seu caminhar.