sábado, 20 de agosto de 2011
Os talibãs da ocidental praia
Nos restaurantes, as mulheres sentam-se de costas para a televisão. É esta a norma não escrita do machismo luso. Em Portugal, uma televisão acesa tem, se não garantia, elevadas probabilidades de estar sintonizada num dos canais da Sport TV. “Sport” ali significa futebol, como se sabe. Os casais entram e, por um acordo tácito, aviltante para ambos, ela senta-se de costas, ele sintoniza-se com o canal. Ela mantém a ilusão de uma conversa, ele vai respondendo por monossílabos ou gestos enfadados nas pausas das jogadas. Ela, de classe baixa, média ou alta, teenager ou matrona, não consegue (ou não tenta) a sua rebelião. Ele, sem classe, demasiado bruto para a equidade ou o pundonor, retouça na sua condição de talibã da ocidental praia. E não há quem lhe ponha uma albarda.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Institute for the Future of… anything but a Book
A intensa futurologia à volta dos livros parece augurar, por si mesma, a perenidade da literatura. Mas é um engano. «No futuro, o conteúdo dos livros valerá muito pouco; as pessoas vão pagar é pelo contexto e pela comunidade à volta desse conteúdo.» Quem o afirma é um tal de Bob Stein (director duma curiosa instituição designada Institute for the Future of the Book), citado por Isabel Coutinho, no Ípsilon.
Será certamente erro de percepção meu, ou a manifestação de um ressentimento irreprimível, mas sempre que leio experts ou jornalistas divagarem sobre esta matéria não consigo deixar de os imaginar como grotescos adolescentes em corpos maduros e tolinhos por gadjets. Leio as suas palavras não como análises ponderadas mas como um exemplo de wishfull thinking. Para mim, o que eles dizem não é o que investigação indica que vai acontecer, mas o que eles desejam que aconteça e tudo farão para que aconteça. Com sucesso, não duvido. Os textos desta gente esquecem tantas vezes o “conteúdo” dos livros que, concluímos, para eles o futuro, este futuro, não é apenas inevitável — é agora.
As editoras, dizem, têm de aprender com os “jogos electrónicos” a “integrar diferentes formas de media” e “como lidar com comunidades de leitores”, já que no futuro “serão as discussões à volta dos livros que passarão a ter valor”. O valor, note-se, é aqui também valor comercial; a maior preocupação desta gente são os atalhos para chegar às multidões (e aos milhões) e não a forma de trazer leitores ao livro.
Somos tentados a visualizar uma comunidade de leitores a discutir um produto cujo conteúdo deixou de ser importante. Falarão de quê? Do suporte, claro, dos tablets e dos kindles, da forma como o autor conseguiu integrar fotos e vídeos e quinquilharia afim, como conseguiu assegurar a interactividade com os leitores, talvez aparecendo-lhes em casa à hora em que escreve, na forma de hologramas em cuecas, ou permitindo-lhes em tempo real intervir na feitura da obra, moldando-a a seu bel-prazer — afinal, é da contemporaneidade a revelação de que todos somos artistas. Tudo isto, esta comunidade de leitores em plena discussão à volta de uma coisa sem conteúdo, é muito sofisticado e espantoso, mas consegue-se descrever numa imagem simples (maravilhas que a linguagem ainda permite): moscas à volta de merda.
O Institute for the Future of the Book não parece ser uma instituição que se interesse pelo futuro do livro. Não parece preocupar-se em preservar e estimular a leitura, a razão do livro existir. A leitura exige silêncio, compenetração, tempo, isolamento, pelo menos mental — não a berraria electrónica dos jogos. Depois da leitura, vivam as comunidades e as fotos e os vídeos e o diabo a quatro. Não antes. Não durante. Sobretudo, não em vez de.
Está de acordo com o zeitgeist — ou, mais prosaicamente, com a estupidez reinante — esta mania de valorizar o acessório em detrimento do essencial. Mas talvez uma coisa como o Institute for the Future of the Book devesse revelar alguma preocupação com a qualidade dos livros e dos leitores — em vez de parecer tão ocupada a determinar o futuro do livro de acordo com a idiossincrasia (ou idiotia) dos seus dirigentes.
Que diabo!, divirtam-se com o que quiserem, inventem o que quiserem — mas não desvalorizem a experiência da leitura e os seus proveitos para o individuo.
Será certamente erro de percepção meu, ou a manifestação de um ressentimento irreprimível, mas sempre que leio experts ou jornalistas divagarem sobre esta matéria não consigo deixar de os imaginar como grotescos adolescentes em corpos maduros e tolinhos por gadjets. Leio as suas palavras não como análises ponderadas mas como um exemplo de wishfull thinking. Para mim, o que eles dizem não é o que investigação indica que vai acontecer, mas o que eles desejam que aconteça e tudo farão para que aconteça. Com sucesso, não duvido. Os textos desta gente esquecem tantas vezes o “conteúdo” dos livros que, concluímos, para eles o futuro, este futuro, não é apenas inevitável — é agora.
As editoras, dizem, têm de aprender com os “jogos electrónicos” a “integrar diferentes formas de media” e “como lidar com comunidades de leitores”, já que no futuro “serão as discussões à volta dos livros que passarão a ter valor”. O valor, note-se, é aqui também valor comercial; a maior preocupação desta gente são os atalhos para chegar às multidões (e aos milhões) e não a forma de trazer leitores ao livro.
Somos tentados a visualizar uma comunidade de leitores a discutir um produto cujo conteúdo deixou de ser importante. Falarão de quê? Do suporte, claro, dos tablets e dos kindles, da forma como o autor conseguiu integrar fotos e vídeos e quinquilharia afim, como conseguiu assegurar a interactividade com os leitores, talvez aparecendo-lhes em casa à hora em que escreve, na forma de hologramas em cuecas, ou permitindo-lhes em tempo real intervir na feitura da obra, moldando-a a seu bel-prazer — afinal, é da contemporaneidade a revelação de que todos somos artistas. Tudo isto, esta comunidade de leitores em plena discussão à volta de uma coisa sem conteúdo, é muito sofisticado e espantoso, mas consegue-se descrever numa imagem simples (maravilhas que a linguagem ainda permite): moscas à volta de merda.
O Institute for the Future of the Book não parece ser uma instituição que se interesse pelo futuro do livro. Não parece preocupar-se em preservar e estimular a leitura, a razão do livro existir. A leitura exige silêncio, compenetração, tempo, isolamento, pelo menos mental — não a berraria electrónica dos jogos. Depois da leitura, vivam as comunidades e as fotos e os vídeos e o diabo a quatro. Não antes. Não durante. Sobretudo, não em vez de.
Está de acordo com o zeitgeist — ou, mais prosaicamente, com a estupidez reinante — esta mania de valorizar o acessório em detrimento do essencial. Mas talvez uma coisa como o Institute for the Future of the Book devesse revelar alguma preocupação com a qualidade dos livros e dos leitores — em vez de parecer tão ocupada a determinar o futuro do livro de acordo com a idiossincrasia (ou idiotia) dos seus dirigentes.
Que diabo!, divirtam-se com o que quiserem, inventem o que quiserem — mas não desvalorizem a experiência da leitura e os seus proveitos para o individuo.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Amas-de-leite
O artigo do multimilionário Warren Buffet publicado no New York Times (sob o título gritantemente elucidativo “Parem de mimar os super-ricos”) humaniza o autor — mas não redime a classe. Pelo contrário. Ao contrastar com o silêncio comprometido ou a oposição obscena dos restantes milionários, evidencia ao extremo o desinteresse egoísta destes pelo resto do mundo.
Em sociedades decentes, bastaria a transparência cristalina daquele pequeno texto para que governos caíssem rubros de vergonha. Ninguém tinha dúvidas que andavam a mimar os ricos, mas quando são os próprios a dizê-lo… bem, resta muito pouco que fazer.
Ou talvez não. Não subestimemos a sabujice ou a petrificação ideológica. Nos EUA os republicanos boicotam ufanamente medidas de justiça financeira. Em Portugal aumenta-se para o máximo o IVA da electricidade e mantém-se no escalão mais baixo o do golfe.
O simpático tratamento fiscal dado aos mais ricos e às grandes corporações e empresas não é uma opção estratégica para favorecimento da economia global, como querem fazer crer (ou chegam a crer, com fé farisaica) os ideólogos do sistema. É a medida do desprezo que ideólogos e governantes sentem pelo cidadão comum. É a medida da impotência da classe média. É, sobretudo, a caricatura da democracia: o povo escolhe pelo voto as amas-secas dos ricos. Ou antes: as amas-de-leite — na verdade, os governos dão de mamar aos ricos.
Em sociedades decentes, bastaria a transparência cristalina daquele pequeno texto para que governos caíssem rubros de vergonha. Ninguém tinha dúvidas que andavam a mimar os ricos, mas quando são os próprios a dizê-lo… bem, resta muito pouco que fazer.
Ou talvez não. Não subestimemos a sabujice ou a petrificação ideológica. Nos EUA os republicanos boicotam ufanamente medidas de justiça financeira. Em Portugal aumenta-se para o máximo o IVA da electricidade e mantém-se no escalão mais baixo o do golfe.
O simpático tratamento fiscal dado aos mais ricos e às grandes corporações e empresas não é uma opção estratégica para favorecimento da economia global, como querem fazer crer (ou chegam a crer, com fé farisaica) os ideólogos do sistema. É a medida do desprezo que ideólogos e governantes sentem pelo cidadão comum. É a medida da impotência da classe média. É, sobretudo, a caricatura da democracia: o povo escolhe pelo voto as amas-secas dos ricos. Ou antes: as amas-de-leite — na verdade, os governos dão de mamar aos ricos.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Rebelde sem calças
Devido aos distúrbios de Londres, a Levi’s cancelou (ou adiou?) uma campanha que continha imagens de motins e de jovens desafiando a polícia. Vestidos de ganga, claro.
O culto da “marginalidade” está presente em muitas das campanhas publicitárias de produtos para jovens. Repare-se: não é o culto da marginalidade em relação ao mainstream, às convenções, ao pensamento único, etc. Não. É marginalidade no sentido penal, de delinquência.
Campanhas deste género, agindo de braço dado com os imbecilizantes blockbusters americanos e videoclips enérgicos de canções hip hop, têm sido bem sucedidas a formatar a gloriosa juventude. Basta andar pelas ruas das cidades e observar como as novas gerações se movem como membros de gangues, têm a figura e os gestos de desordeiros, com trivial frequência e prolixidade, em muitos casos numa base diária, agem como desordeiros.
Talvez nunca como agora a expressão “rebelde sem causa” se possa aplicar com tanta propriedade. Mas não se trata, como na ideia original, de um certo estado de espírito, de uma inquietação interior, das normais dores de crescimento, de perplexidade perante o absurdo. É um estilo. Uma “atitude”. Uma pose. A introspecção não é estimulada, pelo que este tipo de jovem dificilmente reflecte sobre as suas inquietações. Se se vai colocar em frente a um piquete de polícia não é porque tenha uma queixa verdadeiramente justa, uma ideia ou uma palavra a dizer — é simplesmente pelo confronto, pela pose, pela adrenalina, pela probabilidade de haver violência. Para, heroicamente, copiar o boneco da Levi’s.
As marcas comerciais não fizeram esta juventude. Pelo menos não sozinhas. De certa forma, limitaram-se a explorar o sentimento predominante. É isto que as marcas fazem, ir ao encontro dos anseios do seu público-alvo. Ou daquilo que elas consideram serem os anseios do seu público-alvo. Mas seria estúpido considerar que tantos milhões de seres humanos não têm anseios de outra espécie. Têm-nos, pelo menos em forma latente. O problema é que explorar outras formas de chegar ao adolescente, ao jovem, implica mais trabalho, mais ousadia, mais coragem. Mais inteligência. Mais respeito pela individualidade. Os criativos das agências de publicidade são uma espécie muito limitada de criativos. A sua criatividade está circunscrita, condicionada, parte de preconceitos, censura-se. Parte do óbvio para chegar ao evidente e ao fácil. Criou o seu estereótipo e trabalha sucessivamente para ele. Quanto mais iguais as pessoas forem, mais clientes o produto pode ter. No fundo, os criativos têm medo. De perder o emprego, claro, e de falharem as suas previsões, de o mundo ser diferente daquilo que propõem. Ou, não raro, acreditam mesmo no que propagam, são eles próprios imbecis a pregarem para os seus iguais. (Não me esqueço de, nos primórdios da informática, haver génios a anunciarem o fim da acentuação nas palavras, só porque os seus teclados ou programas americanos a não possuíam e eles não concebiam a possibilidade de alguém se interessar por resolver o problema.)
No entanto, como o Estado e a família se demitem ou partilham desta forma de pensar (a família por identificação ou omissão; o Estado por conveniência — cidadãos conscientes e críticos não interessam demasiado), é na verdade este género de criativos (ao serviço das marcas, do cinema, das revistas, das televisões) que educa a juventude. Por isso é que dificilmente a rebeldia voltará a ter causas. Dificilmente ser marginal equivalerá a estar à margem do pensamento único, das modas, dos clichés, dos preconceitos, da imbecilidade. Não se vê uma campanha publicitária que incentive os jovens a ler livros, pois não? A ir ao teatro? À dança? Ao teatro e à dança contemporâneos? A exposições? A conferências? A ler jornais? A ouvir música subversiva? A ter curiosidade e mente aberta? A estudar? Isso, essas coisas antiquadas, são uma seca, diz a publicidade com repetida e despreocupada desfaçatez. Isso, essas coisas de nerds, têm em si a real semente da dissidência, da marginalidade, da rebeldia, e as marcas não querem clientes rebeldes; querem-nos submissos e cumpridores. Compradores. O Estado também não quer esse tipo de cidadãos, capazes de não votar nos partidos que o dominam. A família… bem, à família, na sua indolência arrivista, tanto se lhe dá.
Quando agora alguém olha para as imagens de James Dean não procura lembrar-se do guião dos filmes que ele protagonizou, das personagens, das emoções, do espírito da época. Aprecia-lhe apenas a elegância, o estilo, a pose. O “ar” de rebelde — afinal, tudo o que importa. Interroga-se se a ganga que ele veste é Levi’s.
Um verdadeiro rebelde seria aquele que se recusasse vestir calças Levi’s só porque lhe dizem que o deve fazer ou porque todos os outros as vestem.
Ocorre perguntar como se sentirão os adolescentes e os jovens assim retratados, mas a pergunta é tão ociosa quanto eles o são — a ovelha não se questiona porque segue o rebanho. Claro que a ovelha tem um cérebro um pouco menos desenvolvido, mas, como diria o guionista de A ressaca ou o autor da campanha da Levi’s, isso são pormenores que não interessam nada.
É assim que em vez de uma juventude capaz de relativizar as dificuldades por que passa, capaz de uma visão histórica que lhe permita descobrir o quão afortunada na realidade é se comparada com qualquer uma das gerações que a antecederam, capaz de um contributo para desbravar os novos caminhos que a sociedade necessariamente terá de seguir nos próximos anos, capaz de ser realmente rebelde, rebelde com conteúdo, temos ociosos carneirinhos da indústria preparados para partir montras e obterem aquilo que devia ser seu por direito natural. As suas sapatilhas de marca. Os seus telemóveis. As suas Levi’s. Afinal, como pode alguém viver sem estes bem essenciais?
Não se volta ao lugar onde se foi feliz
O José Ferreira Borges, amigo e compagnon das manobras periféricas, resolveu finalmente voltar à lide. Podem (e devem) lê-lo no Divina Comédia, blogue acrescentado nas ligações aqui ao lado.
O Vítor Lamas, poeta que se tornara abstinente, escreveu uns versos há coisa de dois meses.
Se por sua vez o Fernando Gouveia, outros dos mosqueteiros, se deixasse de merdas e voltasse a ter vida para isto, a sequência dos factos até podia causar um arrepiozinho na coluna. Mas não se volta ao lugar onde se foi feliz.
O Vítor Lamas, poeta que se tornara abstinente, escreveu uns versos há coisa de dois meses.
Se por sua vez o Fernando Gouveia, outros dos mosqueteiros, se deixasse de merdas e voltasse a ter vida para isto, a sequência dos factos até podia causar um arrepiozinho na coluna. Mas não se volta ao lugar onde se foi feliz.
domingo, 14 de agosto de 2011
A Nero o que é de Nero, a Bush o que é de Bush
Da sua colina de historiador, e não sem um certo deleite, Vasco Pulido Valente vê confirmar-se o seu pessimismo sobre o império americano (e o império do Ocidente). O declínio (ou a inevitabilidade, se partilharmos o determinismo histórico) teria começado com o final da Guerra Fria, embora só agora se tenha começado a perceber.
Tenho uma tese diferente. O declínio da América e do Ocidente começou com a eleição de George W. Bush e o apogeu de uma certa visão do mundo. Ou, se quisermos, o declínio começou quando Bush, ou alguém por ele, viu na invasão do Iraque a possibilidade de tornar inevitáveis algumas ideias e práticas que ainda hoje excitam imensa gente e bloqueiam a política americana (e, de certa forma, a europeia).
Não roubemos ao homem o seu lugar na História. Pertence-lhe por direito. Estaríamos onde estamos se o Iraque não tivesse sido invadido? Esta é a pergunta.
O nome da besta
Se os presidentes americanos tivessem cognomes como os nossos reis, e se as fontes históricas fossem as colunas de imprensa, Bush passaria para os anais como George, O Idiota. Mas, por mais que apraza à esquerda, um tal epíteto retira-lhe imputabilidade, e isso desconsidera o seu papel na História.
Por outro lado, epítetos que se lhe podem colar ainda com mais propriedade têm o mesmo efeito de descrédito. George, O Testa-de- Ferro ou George, O Títere não só resultam ser injúrias insuficientes como lhe fornecem um dispensável álibi.
Porém definem melhor o seu papel.
As forças que estiveram por trás de Bush não foram para a reforma com ele. Como historiadores distantes, observam asséptica e ironicamente o declínio do império porque têm outro na calha para lhe suceder. Um que não precisa de pátrias nem de valores. Não de valores que não sejam traduzíveis em números. De contas bancárias.
O declínio pode ser inevitável, mas valia a pena deixá-lo apressar-se?
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