quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Bertrand

Uma das características da newsletter da Bertrand é raramente anunciar livros. O que é curioso, porque é despachada por uma livraria.
Tive há pouco uma conversa com o meu fornecedor de e-mail e perguntei-lhe por que carga d’água não filtra ele as mensagens da Bertrand como faz por exemplo às que anunciam soluções para encolher a barriga ou esticar o pénis. Disse-me que o facto de o lixo da Bertrand ser exibido encadernado e com lombada confunde a firewall ou lá o que é. Desconfiei. Pareceu-me demasiado humana, aquela firewall, demasiado idêntica ao cliente-tipo da Bertrand tal como o entendem os seus responsáveis. Algo vai mal no mundo quando já nem bichinhos tão briosos e altivos como as firewalls se dão ao respeito.

***

Entrar numa livraria Bertrand (na daqui, pelo menos) começa a ser assustadoramente igual a receber uma newsletter Bertrand. Nos últimos anos os livros foram recuando nos expositores para dar lugar a uma tralha dirigida a adolescentes ou mesas de cabeleireiro, como se o espaço tivesse sido alugado a Hollywood ou à Isabel Queirós do Vale. Não tenho nada contra adolescentes e mesas de cabeleireiro — nada que os tribunais aceitem, infelizmente —, mas o mundo era um lugar menos estranho quando as livrarias apenas lhes destinavam secções próximas dos livros para pintar.
Depois de entrar na Bertrand, um tipo faz slalom entre mesas e prateleiras e lá consegue encontrar aqui e ali um livrito. Nada que impressione. Quando tinha vinte e tal anos, achava que uma livraria era um local onde gastaria o resto da mocidade e toda uma longa reforma, se ficasse lá dentro a ler os livros. Hoje, enquanto vou eliminando todos os volumes que já li (e não leio muito), noto horrorizado que a minha vida vai ser curta, se a medir em obras para ler disponíveis na Bertrand.

1 comentário:

margarida disse...

"slalom", com 'm'.
Gosto mais da Bertrand do que da Fnac e as 'minhas' Bertrands têm muitos livros, graças aos céus!
Quanto ao merchandising..., será culpa da livraria? ou sinal destes tempos abstrusos?