terça-feira, 19 de junho de 2012

Pelos céus comunitários*

O casal de namorados que viu de manhã fê-lo lembrar-se de si próprio. O artista quando jovem. Passou por eles ao contornar um relvado (detestava a merda dos cães — não tanto quanto os bichos em si, claro — e não queria correr o risco). Primeiro notou o olhar vago da rapariga. Ela fixava um ponto qualquer no correr de edifícios do outro lado da rua. O namorado assediava-a. Queria um beijo, um toque, roçar-lhe o seio, o entrepernas. Queria fodê-la, em suma. Quim Zé voltou para trás e foi posicionar-se num sítio onde poderia apreciar a cena. Conhecia-a. Vivera-a muitas vezes. A rapariga resistia fracamente às investidas. O olhar fixo era sonhador. Queria estar naquela situação — mas com outro tipo. Não a repugnava ser beijada, apalpada, fodida, mas ficava melancólica pela tremenda má-sorte. Aceitara o namoro porque uma gaja tinha de namorar, não era? Mas agora só queria acabar com aquilo. Cumprir o seu papel, distanciada, resistindo tanto quanto possível, e rezar para que da próxima vez as coisas se passassem com outro, com um de meia dúzia que ela era capaz de enumerar.
Quim Zé também sabia o que o rapaz pensava. Não era muito diferente, de resto, do que pensava a rapariga de olhar perdido. Os rapazes não sabiam fazer aqueles olhares (excepto alguns, profissionais de outro calibre) mas também não era o seu papel. O seu papel era investir, forçar caminho, sem demasiada ternura mas sem violência. E geralmente pensavam o mesmo que elas, partilhavam a mesma sensação de infortúnio: era outra tipa que gostavam de ter ali à mão. A diferença é que os rapazes conseguiam mesmo entusiasmar-se com o que tinham: afinal, havia mamas, carne.
Depois do almoço a cena foi mais insólita, mas não menos previsível (se o seguiam no raciocínio). Da varanda de um edifício baixo de habitação estavam a ser arrojadas roupas e objectos pessoais. Uma ou outra peça de mobília. Em cima, possuída por fúria bíblica e forças sobrenaturais, actuava uma mulher. No passeio, encolhido contra um poste, envergonhado, humilhado, vencido, pouco menos do que morto — um homem, marido da senhora. Era a cena típica que estava reservada a todos os casais, só que esta viera para a rua. O homem, como Quim Zé bem sabia, estava a assistir a um filme, como se diz que as vítimas de acidentes assistem antes da inconsciência. Toda a puta da sua vida em ecrã panorâmico, a 3D. Os erros, as estupidezes, os momentos em que podia ter evitado chegar a este ponto, as encruzilhadas onde poderia ter escolhido outra direcção. Mais um imbecil que acreditara no amor e que agora via as suas cuecas e as suas peúgas espalhadas pela rua, depois de um voo gracioso pelos céus comunitários.

*in Aranda

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