terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Guerra de trincheiras

A dilatória viagem que teimo em fazer por umas duas dezenas de blogues, com diferentes enfoques políticos, é uma rotina demasiadas vezes desoladora. Não é fácil encontrar na blogosfera espíritos independentes, e isso faz-me interrogar se é porque eles quase não existem ou porque a amostra que escolho não é representativa.
Nos dias tristes que vivemos, a opinião está dividida entre os que apoiam e os que são contra. Não esta ou aquela matéria em particular, mas todo o pacote. De repente, não há espaço para concordar ou discordar em parte, concordar com isto e discordar daquilo, achar bem isto, mas também aquilo. A síntese não tem lugar. A opinião deixou de ser antecedida de um menu de onde cada um escolhia os pratos da sua refeição: vem já servida da cozinha e os comensais ou a mastigam vorazmente ou atiram a bandeja à cara do cozinheiro. Não há meio-termo e por vezes nem boas maneiras à mesa. Muitos bloggers, mesmo que apetrechados de argumentos, parecem-se com os tipos que escrevem nas suas caixas de comentários: radicais, indefectíveis, sem paciência para o adversário. A bengalada verbal ocorre amiúde, não no melhor espírito oitocentista romanticamente defendido por João Pereira Coutinho, mas no mais contemporâneo estilo claque de futebol. É, aliás, a camisola o que parece sustentar a opinião que se escreve e não a inteligência, a argúcia, a ponderação.
É assim pouco provável um debate que possa encontrar caminhos diferentes para os anos que nos esperam. Os que são pelo Governo acreditam no milagre da austeridade e não estão dispostos a discutir sequer os pormenores da sua implementação, a coisa é para ir à bruta, sem contemplações, não há nuances, particularidades, equilíbrios ou compromissos que se possam considerar. O tom colérico, moralista ou desdenhoso que adoptam presume uma pureza que despudoradamente se outorgaram. A ironia que por vezes praticam é apenas uma arma de arremesso, não uma ferramenta de auto-avaliação. Levam a sério uma licença para punir e expurgar que os próprios emitiram, com uma autoridade que não se dão ao trabalho de questionar.
Do outro lado, há uma horda reaccionária que está pronta a refutar todas as medidas, a recusar todos os cortes, todas as alterações, todas as reformas, crendo num outro milagre, o da multiplicação dos pães e dos peixes. Uma horda que, na sua inflexível e irresponsável oposição, facilmente emparelha com os interesses das corporações, não se dando conta que a soma de todas os interesses corporativos é o desastre. Aqui o tom é o da guerrilha, da piromania.
Se os primeiros são insensíveis ao sofrimento e às dificuldades individuais, os segundos desvalorizam os malefícios colectivos da revindicação desmesurada, sem critério. O que os primeiros defendem não é sempre estranho à mecânica dos autoritarismos — os segundos brincam levianamente com a anarquia.
Os factos noticiosos são hoje abordados (ou ignorados) de forma a servirem os interesses do juízo preconcebido. Cada facção destaca ou desvaloriza os aspectos que podem servir ou prejudicar a causa. De repente já não é a notícia o que importa mas as partes dela que beneficiam (ou contrariam) o argumento, que nos beatificam ou denigrem o adversário. Não há, aliás, factos: há interpretações e a interpretação das interpretações, a exegese e a crítica da exegese.
Claro que a margem de manobra de Portugal é mínima, mas confrange que o nosso contributo para a resolução da crise tenha o nível argumentativo de um adepto do Benfica, que as balizas do debate sirvam apenas para contabilizar golos das facções e não para perscrutar com seriedade e consequência o futuro. Talvez o capitalismo esteja a precisar de ser repensado — estamos num desses momentos da História — mas em Portugal o que é relevante é a semântica desprezível ou heróica de Passos Coelho e a cartilha que cada um escolheu deste ou daquele momento histórico e que quer à força ver aplicada aos tempos que correm.
O debate entrincheirado esquece que a guerra de trincheiras provou a sua perniciosidade há cem anos. Pretenderá comemorar-lhe o centenário?

4 comentários:

Margarida disse...

...all they need is...LOVE!

:)

Olinda disse...

uma excelente reflexão. :-)

[garfanho] disse...

infelizmente, 100% de razão!

Helena disse...

Muito bom post!
Obrigada.