sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

As coisas que Francisco Assis evoca

Há uns vinte anos havia eleições e o nosso baterista arranjou um gig, como se diria hoje, para tocarmos num comício que tinha como orador convidado Francisco Assis, então presidente da Câmara de Amarante. Éramos na altura suficientemente generosos para não estranharmos que alguém da nossa idade fosse presidente de câmara. E gostasse de o ser. Não recordo se nos pagavam (espero que sim) e recordo menos ainda o que tocámos, certamente as coisas inadequadas do costume. Andávamos a evitar uma carreira-padrão: não éramos punks, não nos excitava o hard rock ou o heavy metal, os Ramones, os Deep Purple ou os Rolling Stones. Não para emular. Não queríamos aliás imitar nada; a ânsia da originalidade foi talvez o que nos condenou. Ou isso ou uma das mil coisas que fizemos mal. Como subir ao palco do Rock-Rendez-Vous (versão pechisbeque da RTP2) com o percussionista usando o fato de casamento, camisa de folhos, laço blue velvet e tudo. (Eu era o do fato de três peças verde-claro, camisa creme de belo riscado vermelho, gravata rosa, a desafiar com o baixo Epiphone uma turba de teenagers contratados no bas-fond lisboeta, com um tipo da produção a tentar segredar-me sobre o ombro irrequieto, a meio do concerto, câmaras a gravar, que não devia excitar as feras, podia correr mal, os putos gostavam era dos Xutos, não estavam preparados para uma linha trad/folk/urbano/pop/rock/glam/foleira como a que nós acabáramos de inventar. Uma felicidade não existir Youtube.)
Tocar coisas inadequadas não era uma obsessão, um capricho, mas acontecia-nos. Num bar minhoto chamado O Comboio, onde as pessoas se sentavam em reservados, como nas lanchonetes americanas ou no Alfa Pendular, teimámos durante uns quarenta e cinco minutos em apresentar as nossas versões de standards jazz e folk americanos, para tédio geral. Pouco antes do intervalo, demos finalmente alegria à terra quando ao guitarrista lhe ocorreu dedilhar o nome do bar numa alusão pimba (apita o comboio, estão de certeza a ouvir a cena). Era uma ironia, uma piada, mas os clientes adormecidos levaram a coisa a sério: levantaram-se e dançaram, como mortos obedecendo a, digamos, Emanuel (não o Messias). Perante aquilo, o resto da banda teve de acompanhar uma extended version do tema. A segunda parte, se recordo bem (e espero que sim, que o passado se vergue aos interesses da minha memória), preenchemo-la com improvisos minimais repetitivos de Roadhouse Blues — foi a nossa vingança.
No comício, não posso jurar que tenhamos tocado depois de Assis falar, mas o longo discurso da figura empatou-nos de qualquer maneira, ficámos pendentes do seu término, ou para finalmente passarmos vergonha em palco quando já nos tinha passado a bebedeira ou para desmontarmos a aparelhagem. E como ele falou. Não as horas ininterruptas de Castro, mas ainda assim mais do que era humanamente suportável. Desconfio que a maioria dos que assistiram ao comício correu no domingo seguinte a votar no adversário do candidato que ele defendia.
Não é que não acerte — não há muito para discordar no seu artigo de hoje no Público, era este o meu ponto —, mas um tipo arrepia-se só de lhe ouvir o timbre. Para o ler é preciso tapar-lhe a cara e o nome com o polegar. Viram alguém a segurar o jornal assim? Era eu.

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