sábado, 10 de fevereiro de 2018

Da mediocridade

A habitual mediocridade portuguesa, que nunca acredita que o serviço público de qualidade, além de um dever, pode ser sustentável e até popular, acaba sempre por cortar as pernas a quem tem as ideias, a competência, a ousadia ou o talento para o fazer. Se não tem maneira de lhe recusar os meios (o que geralmente tem, da forma mais hipócrita), rapidamente encontra a cláusula que permite aos invejosos, incompetentes, cínicos ou simplesmente imbecis afastar os indesejados. E Portugal seguirá provavelmente, de novo, para serviços públicos que, quais comissões de festas, tratam de assegurar ao povo o seu pão e circo. O que, no caso da RTP, significará novelas, futebol e pimba.

[A propósito da saída de Nuno Artur Silva da direcção da RTP.]

https://www.publico.pt/2018/02/09/sociedade/opiniao/rtp-20152018--o-que-fizemos-1802555]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O arcanjo Gabriel

Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Best-sellers à portuguesa

Não vi nenhum dos filmes da trilogia Balas & Bolinhos — mas apenas porque não calhou (no que se refere a cinema sou muito diverso e laxo na disposição). Li porém com curiosidade uma entrevista do realizador, que agora lança Bad Investigate, por causa da frase em destaque no jornal: «Ando com este saco de pedras às costas por ter levado pessoas às salas de cinema.»

Em Portugal os autores não vivem geralmente felizes com o sucesso comercial. Não porque os repugne o êxito comercial (os que o têm em geral procuram-no com diligência e método), mas porque gostariam de ter igualmente o aplauso da crítica e dos seus pares. No cinema, como no teatro e na literatura, temos os nossos mártires vivendo vidas amarguradas porque levaram o público às salas, às livrarias ou aos multiplexes e há quem com desfaçatez não veja nisso motivo de regozijo. Como consequência, os nossos best-sellers tornam-se críticos ressentidos das abordagens não comerciais.

Diria que Luís Ismael, o realizador nortenho, não constitui uma excepção. Na entrevista até procura ser magnânimo com quem faz «cinema de autor» e afirma que ele próprio não quer andar toda a vida a fazer o género de cinema que tem feito. Mas, como se fosse imperiosa a retaliação àquela personalidade que numa gala dos Globos de Ouro «se levantou para ir receber o prémio» e «foi criticar quem fazia cinema comercial», não resiste a deixar, entre insinuações e contradições, algumas frases assassinas que desdizem a magnanimidade e o aproximam do bravo grémio de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Leonel Vieira ou Filipe La Feria, embora ainda não tenha a arrogância destes.

Ismael acha que «as pessoas que, ano após ano, recebem milhares e milhares de euros de apoios e subsídios têm a obrigação de tratar bem o público português.» E tratar bem o público português não é necessariamente realizar um bom filme, é ir ao encontro das expectativas «que o público tem nele». Por exemplo: «Se o cinema atrai, hoje, sobretudo os putos, é importante perceber que os cinco euros deles têm de ser respeitados.»

Não é preciso citar a entrevista toda (nem ir ver os filmes) para se perceber que o discurso de Ismael, como o dos autores atrás referidos, busca no número de espectadores um apoio para a sua legitimação artística — o que há uns anos teria talvez certa simpatia do ex-auto-despromovido-secretário de estado Francisco José Viegas. E o número de espectadores não precisa de estar necessariamente ligado aos méritos intrínsecos da obra, mas à simples virtude de esta cumprir o que as massas esperam dela.

Não há muito espaço neste tipo de discurso para a reflexão sobre como respeitar a diversidade de públicos e expectativas, sobre a funesta estandardização do gosto promovida pelos media e não obstada pela escola e pela universidade, muito menos (por definição) pelos blockbusters. Não há, naturalmente, espaço para discutir como estimular pessoas para ver filmes que não sejam feitos a pensar nos cinco euros ou nos cinco neurónios dos «putos». Mas há, como sempre há, bastante espaço para a mágoa e o ressentimento: «Por isso, se não critico os meus colegas que defendem o cinema de autor, o que critico é esta visão preconceituosa, limitada e que se tem por intelectual, que às vezes é quase uma forma de racismo intelectual, de que quem faz cinema comercial é filho de um deus menor.»

Fingindo amar o seu público acima de todas as coisas, os best-sellers à portuguesa tomam-no muitas vezes apenas como instrumento para o êxito e, no fim de contas, menosprezam-no, já que na verdade ocupam mais do seu esforço argumentativo e auto-justificativo em queixinhas ou a procurar convencer a crítica de que têm por ela desprezo. Provando com isso que algures no seu íntimo sentem falta da aprovação dela para a certificação positiva final da própria obra.

(Se leu isto até ao fim, talvez se possa interessar por este post antigo: "Deixem o pimba em paz? As artes e o público".)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A minha carreira musical

Um dia fui tocar para um conjunto de baile. O baixista titular fora requisitado pela tropa, a temporada de festas aproximava-se e alguém fez espalhar o boato de que eu sabia tocar o instrumento. Fui convocado. No primeiro ensaio, entusiasmados com a aquisição, os chefes da banda espetaram-me também com um microfone à frente e disseram-me para cantar. Era evidente que o nefando boateiro, por pura maldade, escondera a minha incapacidade biológica para o canto. Ok, talvez não a tivesse escondido em absoluto, já que era uma música dos Sétima Legião o que queriam que eu cantasse. (Convém dizer que naquela altura os grupos de baile eram organizações eclécticas com um repertório que ia sem hesitações nem mudanças de figurinos do samba aos Doors.) Como em tantas fases da minha vida, o simples facto de me pedirem uma coisa activou o bloqueio mental que em momentos-chave me impede de dizer o imperativo «não». (Bloqueio esse que, entre outras coisas dolorosamente inesquecíveis, fez de mim em tempos signatário cumpridor de um contrato para adquirir a prestações uma imprescindível bíblia de luxo). Cantei, portanto. Ou tentei. Foram na verdade horas de tortura (para todos, mas sobretudo para os restantes músicos): qual Rambo nas mãos do Vietcong, eu estava naquela época, ainda mais do que hoje, programado para nunca soçobrar perante o ridículo.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
Na verdade, a minha carreira musical iniciara-se anos antes, invejando o talento musical de um irmão e observando, especado em frente ao palco, o conjunto de serviço nos bailes de domingo à tarde, em particular o seu baixista, com bigodito de actor porno dos anos 70, que, se não recordo mal, usava apenas um dedo da mão direita e dois da esquerda. Aprendi a tocar guitarra fazendo sangrar os meus próprios dedos com um entusiasmo totalmente excessivo e desajustado e assumi a carreira de baixista anos antes de pegar num baixo, escondendo de mim mesmo que as duas cordas a menos não tinham nada que ver com a escolha. Para provar a vocação, estava sempre pronto a chamar de ignorante quem repetia o dito então em voga que dizia serem os baixistas guitarristas frustrados. Não era frustração, era sensibilidade.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Hotel do Norte por Carlos Alberto Machado

Enquanto finjo pensar sobre o que que hei-de-dizer na apresentação aguiarense do Hotel do Norte, no próximo sábado, deixo aqui o texto generoso que o editor Carlos Alberto Machado usou na apresentação na Flâneur.


HOTEL DO NORTE
Breve apresentação por Carlos Alberto Machado
Porto, Livraria Flâneur, 16 de Dezembro de 2017


Este Hotel do Norte, tem, na minha leitura, um olhar sobre o mundo português dos séculos XX e XXI, em particular com a vinda para Portugal, nos anos 1975 e 1976, de centenas de milhar de cidadãos, com bilhete de identidade português, vindos das então colónias, sobretudo de Angola e de Moçambique. Chamaram-lhes, impropriamente, “retornados”, pois uma parte considerável deles só conheciam Portugal de ouvir falar, como se sabe. Hoje, talvez lhes chamássemos refugiados – de guerras, ou de países à beira da falência social, chamemos-lhe revolução. Seja como for, este “tema” dos “retornados” não deve ser esquecido. Adverte, no livro, um deles – o Sr. Beirão, que gloriosamente faz jus ao nome licoroso:

«Não têm nada a temer, a ditadura acabou. O nosso Walter apenas trata de duas coisas: dar continuidade ao livro de registos do hotel e assegurar que a nossa passagem por aqui não será esquecida pelas gerações vindouras. Os outros olhavam-no, ainda indiferentes — conheciam a história. E porque haveríamos de querer que se lembrem que estivemos aqui, fugidos de um problema que não criámos?, perguntava um dos renitentes. Ora, precisamente, aí está um bom motivo, dizia o Sr. Beirão. Se vivemos as consequências de um problema que não criámos, será bom que o país não se esqueça disto, quando um dia nos quiser acusar dalguma coisa. Ou, pelo contrário, se formos nós a querer acusar o Estado de alguma coisa. Ouvi falar que há quem pense em exigir indemnizações e para isso é bom que não nos percam o rasto nem por um dia
[p. 87]

O retorno (ou a fuga) das colónias africanas: um tema que se cola à pele das personagens – e assim não se poderá ler este livro sem ter esse alerta.
Além do Sr. Beirão, outra personagem acima citada, o inquiridor Walter (que é, se não me falhou a atenção, a única personagem que está presente do princípio ao fim do livro). Walter, o do bigode vermelho, é um solitário que «não pensava no erotismo e na religião como opostos: desejava do mesmo modo inofensivo a vida eterna e a satisfação do corpo.» [p. 87] Como disse na sinopse, Walter envereda por uma investigação detectivesca através da história e do rasto ténue que os antigos hóspedes deixaram – desde 1941, quando as termas e os hotéis do parque onde este situa tiveram uma época de algum fausto, embora a saúde fosse então o principal motivo da estadia de famílias burguesas. Quando travamos conhecimento com esta personagem, logo nas primeiras páginas do livro, vemos que ele se irá dedicar, com tenacidade e até teimosia, a reconstituir a vida do hotel (numa inquirição arquivística a partir dos documentos existentes na cave do hotel), desde o meio do século XX (anos 40), até 1975, ano em que ali chega vindo de Moçambique. Esta é a linha principal do livro: a que nos vai mostrando, num vaivém entre a realidade e a ficção, de forma insidiosa, as relações entre “retornados”, as destes com habitantes dos lugares circundantes, e, quem sabe, as de entre homens e mulheres cujas vidas, todos enredados numa trama que o empreendimento detectivesco de Walter ora parece desvendar (aquilo que está por detrás das aparências), ora faz mergulhar a aparente clareza das coisas em estratos de sonho ou de fantasia. E isto não fui eu que descobri. Tenham paciência, por favor, para esta citação, um pouco mais longa:

«A meio da leitura do manuscrito [Leonardo] não estava capaz de decidir se o que tinha à minha frente era material biográfico ou uma ficção.»
[p. 269]

«As histórias da infância estavam registadas em capítulos intercalados, com referência ao tempo presente. Histórias dentro de histórias que narravam os nossos encontros e as nossas conversas com um detalhe inquietante. Era uma sensação bizarra ver-me como personagem de algumas passagens daquele manuscrito, passagens que lhe conferiam absoluta verosimilhança mas que se sucediam a outras que não poderiam ser senão especulação. Por mais que Jorge conhecesse os personagens da sua história (aqui entendida no sentido biográfico) (…) o relato estava construído com um pormenor que apontava para a liberdade literária. As investigações de Walter, sobretudo, não podiam ser outra coisa.
Talvez Jorge tivesse descoberto uma vocação artística tardia e, na verdade, aquele manuscrito na forma de bonecas russas fosse uma tentativa de romance, mesmo que pudesse parecer-se com a sua biografia e ele se servisse de memórias para o compor. Talvez até os relatos que ele me fazia não fossem mais do que testes do valor do material que estava a escrever — muitos escritores liam os seus esboços a um círculo íntimo para avaliar o impacto da obra que escreviam antes de a darem por encerrada e a publicarem. Nesse caso, ter-me-ia Jorge escolhido também para agente literário? Quereria que fosse procurar um editor para a sua obra? Se fosse assim, por que não me tinha simplesmente dito tal coisa?»
[p. 270]

Trata-se aqui de «histórias dentro de histórias», de uma narrativa em «forma de bonecas russas». É este um dos principais, senão o principal, mérito desta grande narrativa do Rui Ângelo Araújo, a mestria com que, sem deixar de nos contar uma estória, várias estórias, nos faz mergulhar numa roda-viva de sensações, em que, em cada nova arrumação dos vidrilhos do caleidoscópio narrativo, nos deslumbra com as suas voltas e contravoltas.
E nessas estórias, enredos, fios narrativos, ancorados em personagens ricas, intensas, com energia, como dizia o poeta Ruy Belo, que o Rui Ângelo tão bem sabe construir, temos os ditos Beirão e Walter, Delfina e a sua mãe e padrasto, de entre os retornados”, e, fora deste universo restrito, o taberneiro Emílio, Eurico e a sua esposa, a “cantadeira” Rosa, um Jorge que se desvenda ao longo do livro em relação psicanalítica com um outro não menos enigmático Leonardo, que surge como um narrador tardio, a Catarina Mendonça e os seus pretendentes, esta Catarina que, no tal clima de deslizamento entre o real e a ficção, ora parece alguém “real”, ora alguém saído da inquirição arquivística de Walter… E há assaltos e roubos, amores e desamores, mortes, incêndios…

E como se tudo isto não fosse razão, razões, muitas, para ir a correr comprar e ler este Hotel do Norte, há outras razões: como já disse um crítico encartado, este romance é «um belo exercício de escrita» e o seu autor «mostra aqui, na sequência do que já havia feito anteriormente, que é um excelso prosador.» E eu estou em pleno acordo com o crítico.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

L'affaire «tribune Deneuve»

Como Catherine Deneuve, também «não gosto desta característica do nosso tempo em que qualquer um se sente no direito de julgar, de arbitrar, de condenar». Para reconhecermos quão grandes são as probabilidades de erramos quando julgamos pessoas de quem não somos próximos ou atitudes cujas matizes e complexidades desconhecemos não precisamos de grande intelecto ou perspicácia — mas não podemos dispensar bom senso, prudência e imparcialidade.
O movimento #metoo tem em si o potencial de se constituir uma versão contemporânea das Bruxas de Salém, sem dúvida. Como as denúncias de pedofilia em tempos recentes, o tribalismo no futebol ou alguns assuntos que se tornam «virais» na Internet: veja-se a patética reacção «transmontana» a umas frases irrelevantes de José Cid.
Na verdade, dada a sua globalização e projecção mediática, o movimento #metoo tem esse potencial bastante mais agravado, pelo que um artigo como o que Catherine Deneuve e Catherine Millet assinaram com uma centena de outras mulheres é bem-vindo, precisamente para moderar excessos e convidar à reflexão.
Mas «la tribune Deneuve» (para usar a designação do Le Monde) não deveria, não poderia ter-se escrito sob o mote «Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle».
No meu post anterior sobre este tema falava da importância da linguagem e de como o seu uso descuidado ou cínico é fonte de equívocos, involuntários ou calculados. A celebração e o aproveitamento triunfante do «artigo Deneuve» por tantos reaccionários e machistas — que a própria Catherine Deneuve teve de vir repudiar — ilustram o que pretendo dizer. Num assunto tão delicado como os relacionamentos sexuais e a liberdade individual falar de «liberdade de importunar», seja qual for a acepção que escolhamos da expressão, é, no mínimo, imprudente, mas parece ser em simultâneo um lapsus linguae ou uma opção próprios duma cultura patriarcal.

No Delito de Opinião, o seu editor Pedro Correia eleva a «comentários da semana» (imagino que com a intenção de nos mostrar a jaez dos raciocínios) dois textos que são exemplos tanto da perversidade da cultura patriarcal como do aproveitamento boçal ou sem escrúpulos favorecido pelos equívocos de linguagem. Um dos comentários reduz as simpatizantes do #metoo a «solteironas guardiãs da moral», comparando-as, com supina elegância, às beatas dos anos 70 da sua aldeia, lubricamente indeciso entre as considerar «solteironas e provavelmente inteiras» ou «devotas sim, mas do apessoado sacerdote». Repare-se que o comentador, certamente por falta de espaço, não considera a possibilidade de haver homens neste grupo de «guardiães da moral», caso contrário estou convencido de que teria arranjado estórias apropriadas para os descrever, possivelmente recolhidas nas suas tascas dos anos 70 ou de sempre.
O outro comentário é ainda mais digno de admiração. São dois pequenos parágrafos apenas, mas tiram grandes conclusões para a humanidade em geral e para as mulheres em particular. Fica aqui o primeiro:
«Ninguém pode negar que o assédio sexual e que as violações existem. É um facto. Mas também ninguém pode negar que há uma necessidade imperiosa, para a espécie humana, de que os homens assediem as mulheres. Se nunca os homens assediassem as mulheres, nunca eles se uniriam sexualmente e não haveria reprodução! O assédio é portanto fundamental. E mulher que nunca seja assediada por nenhum homem certamente que ficará profundamente infeliz!»
Devemos regozijar-nos, suponho, por o pai deste bravo pensador ter em boa hora «assediado» a esposa, caso contrário, impedida por natureza de ser ela assediadora, seria por certo mais uma «solteirona» infeliz e «inteira» (para citar o comentário anterior) e o mundo ter-se-ia privado de tão luminosa descendência.

O lado conservador mas polido do debate sobre sedução versus assédio sexual recebe por vezes estes comentários e outros mais graves com um indulgente bocejo, considerando implicitamente, não direi que por mera conveniência, tratar-se apenas de excessos próprios das malfadadas «redes sociais» e que os seus autores têm por regra um comportamento na vida real que não corresponde às alarvidades que por desenfado publicam. Olhando para as estatísticas (e olhando em volta, enfim) sinto-me tentado a duvidar. Mas sobretudo não compreendo que, na sua enorme indulgência, o lado conservador esteja menos disposto a considerar que as/os simpatizantes do #metoo sejam em geral, como as suas némesis machistas, incapazes na vida real de se transformarem em caçadores de bruxas.
A mim parecem-me ambos preocupantes, machistas e caçadores de bruxas, e por isso não vejo por que o medo dos segundos me deva levar a subestimar os primeiros. Excesso de igualitarismo da minha parte, decerto.