segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Reacção

Estou tranquilamente a viver acima das minhas posses no Vintage do Pinhão quando em baixo, junto ao rio, passa um grupo de rapazes levando música no telemóvel em volume que há trinta anos apenas se conseguia carregando ao ombro um armário estereofónico. A música também é herdeira do mesmo género rap sem causa ou gangsta rap ou quejando. Passam lentos e exasperantes como uma procissão, ou como o soprador de folhas de árvores nas madrugadas urbanas e insones de Outono, antes que consiga retomar a leitura e a vida silenciosa de rico.

Mais tarde, regressava já a casa e à classe média baixa, vi-os a caminhar enfileirados na berma da estrada e esfreguei vingativamente o volante. Quando os alcancei, abri a janela do carro e atirei-lhes para cima, ufana e estentórea, uma ária da ópera que ia a ouvir.
Confio que lhes tenha doído.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Havia talvez maneiras piores de passar o mês de Agosto

Ao longo do mês, entretive-me a rever levemente Aranda, o meu livrito encalhado. Quando se convida alguém para casa, arejam-se antes os compartimentos e espanam-se os móveis. A casa não ficou pronta para receber a ¡Hola! — odeio a faina do lar e aquele domicílio precário não era limpo há uma década —, mas lá consegui esconder algum do lixo debaixo do tapete. Não foi a experiência traumatizante que temia. Havia talvez maneiras piores de passar o mês de Agosto.

(Os onze capítulos ficam no blogue por algum tempo, não sei quanto. O melhor é precaverem-se e copiarem-nos para os vossos dispositivos, quem sabe.)

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

De boas famílias e brasonados

Eis António Pinto Pereira, figurão entre o sinistro e o patético, que se diz militante do PSD mas é apaixonadíssimo pelo Chega, a caracterizar a elite chegana: «Ontem estive no jantar do Chega de final de ano legislativo em Cascais. Vi ali 300 pessoas educadas, de boas famílias, gente de direita, brasonados, antigos alunos do Colégio Militar, católicos, muitas crianças, antigos alunos meus, gente de princípios, convicções e valores!!»

Pergunto-me que espécie de tontos servis são todos os pés-rapados sem brasão que vêem na quadrilha do Dr. Sapo de Loiça a salvação do povo...

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Passarões

Intérpretes de linguagem corporal e especialistas de leitura labial e mímica teriam podido traduzir a conversa observada à distância mais ou menos deste modo:

Ele: Vestir-se e arranjar-se arrebicadamente é coisa das mulheres, não dos homens. Nos machos não é natural.

Ela: Não é natural nos machos? Pois olha que que nos pavões é o macho que se abana todo com leques coloridos cheios de berloques e dá gritinhos de cio. E nos melros é o macho que usa uma penugem lustrosa de ébano e biquinho amarelo, enquanto a fêmea se apresenta com o ar empoeirado e hirsuto de quem cheira a cavalo cansado. Como tu.

terça-feira, 4 de julho de 2023

...e bugigangas éticas.

Duas perspectivas do mundo

Paraíso: um grupo de crianças amorosas acaba de se divertir inocentemente com uma brincadeira e, unindo-se magnanimamente em coro angelical, pede bis para que todos em redor possam partilhar o encantamento mais uma vez.

Inferno: hordas de crianças histéricas e sádicas guincham repetida e insistentemente a exigir “só mais uma, só mais uma” repetição de qualquer coisa que tinha acabado de danificar severamente a audição e o juízo dos adultos.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Os imortais

Na casa dos vinte, poderiam ser um casal em lua-de-mel a emergir para um cocktail ao final de uma tarde de romance. A arquitectura é belle époque e do terraço observa-se um bosque centenário e voluptuoso. Mas eles não vieram para contemplar. Ainda antes de lhes servirem as bebidas, já um dos dois dá as cartas e ambos seguram o jogo em leque junto ao peito. Ponderam as jogadas, espreitam clandestinamente o adversário tentando adivinhar-lhe as cartas, enfrentam-se por vezes com olhares de póquer que só desviam para consultar de novo a mão que têm.
Fazem tudo, inesperadamente, sem ironia, sem fingimento, sem brincadeiras, sem as provocações, as sabotagens ou as zombarias próprias de quem joga cartas em família. Não são, está visto, um desses casais amantíssimos a quem o jogo cedo aborrece por nenhum sentir prazer em vencer o outro. Mas também ainda não têm idade para pactuarem projectar num feroz jogo de cartas a vontade de derrotar ou humilhar o cônjuge.
Seja como for, ali estão, alheados, sem pressa, como adolescentes do século XX nas férias grandes — ou seja, imortais —, dando tudo como garantido e eternamente cíclico, incluindo a exuberância das folhagens de Junho que não espreitam nem pelo canto do olho.