terça-feira, 20 de outubro de 2020

Last orders

A voz nos altifalantes invoca a legislação e informa os clientes, no mesmo tom com que anuncia promoções na secção de peixes, que esta é a última oportunidade para comprar bebidas alcoólicas. A voz nos altifalantes actua como a campainha num pub inglês em fim de noite e tem a mesma eficácia: a clientela salta vários itens da lista de compras, alguns quiçá taxados com IVA de primeira necessidade, e aglomera-se no corredor dos vinhos e bebidas brancas. Os estudantes universitários, precavidos, já por ali deambulam há algum tempo, a estudar atentamente a relação preço / teor alcoólico.
Se isto continua, talvez os corredores de vinhos dos supermercados venham a precisar de porteiros.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Trump, a «nódoa» de Viegas

Pela mesma voz tonitruante que em tempos ameaçou mandar o fisco «tomar no cu», ouvi hoje chamar nada menos do que «nódoa» a Trump. Muitos pensarão que Francisco José Viegas, o autor do apodo, foi demasiado diplomático, delicado — até fofo —, mas aquilo exigiu-lhe certa coragem, estou em crer.

«Nódoa» parece uma forma benigna de ver o actual presidente dos EUA, mas no contexto do post e do blogue de Viegas, onde ressoa com assiduidade a litania que ajudou a eleger Bolsonaro e a eleger Trump, a palavra surge quase inesperada, quase valente.

Aqui: https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/nodoa-1716777

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* O texto foi libertado por estes dias no blogue mas é de Julho.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Radio Ga Ga ou as ferramentas futuristas ao serviço da nostalgia nos anos 80

Quando ouvi pela primeira vez, na rádio, a canção «Radio Ga Ga» não pensei que fosse dos Queen e se me apaixonei por ela foi inicialmente pelo lado «futurista» dos arranjos — o que era uma grande ironia, julgo que involuntária, para uma canção que queria homenagear uma rádio em risco de ser ultrapassada pela televisão e o vídeo.

De resto, eu sentia ao ouvir a canção, com um misto de melancolia e excitação, um certo anacronismo, um certo atavismo (não totalmente entendidos), não só pela sugestão da música mas porque ouvia rádio tanto por prazer e necessidade como porque não tinha a alternativa que as tecnologias davam a muita gente em volta: gira-discos, aparelhagens de alta-fidelidade, leitores de cassetes, walkmans. Ouvia a rádio com um sentimento de clandestinidade, não por vergonha de o fazer, mas por vergonha de saber que era a única forma que tinha de ouvir música e, para compensar com fervor heróico um ego ferido, evocando as contingências da guerra, como agente em missão no estrangeiro sem outra maneira de estabelecer contacto com a pátria.

«Video Killed the Radio Star», dos Buggles, evoca o mesmo «problema» de transição da mesma forma irónica, reforçando o argumento de que podemos servir-nos das ferramentas do futuro para matar saudades do passado. A ironia (ou a crueldade) é aliás maior porque o video clip desta música terá sido o primeiro a passar na MTV.

«Echo Beach», que invoco apenas por capricho ou por sugestão de uma linha de baixo, faz um trio estética e sensualmente produtivo com as duas canções anteriores, embora nesta a nostalgia seja apenas a do Verão passado, tornado simbólico.

A nostalgia, a par da melancolia (de que é indissociável), é um estado de espírito tão propício à criação artística que nos servimos do passado, distante ou próximo, apenas como barro para moldar a obra que queremos legar ao futuro. Ou porque reviver o passado em Brideshead é frequentemente a única forma de sermos felizes no presente onde temos residência oficial.

Marcel Proust, se tivesse nascido num bairro operário da Londres dos anos oitenta do século XX, talvez tivesse armado o cabelo (e o bigode) com laca e gravado com sintetizadores uma obra conceptual em sete álbuns sobre os efeitos da passagem do tempo. (Se tivesse nascido no West End, como lhe era mais próprio, talvez tivesse sido apenas um simpatizante dos Iron Maiden. Da Iron Lady, quero dizer.)

O tempo baralhado

Acontece-me em certas passagens de Em Busca do Tempo Perdido, em certas frases ou pensamentos que o narrador atribui a título hipotético ou demonstrativo a alguma personagem ou a pensamentos seus, em diálogos que faz consigo mesmo, acontece-me, dizia, aperceber em Proust ecos de Javier Marías. Naturalmente só Marías pode ser eco de Proust e não o contrário, mas, como os li na ordem inversa, é de Marías que me parecem ser tributárias algumas soluções narrativas de Proust.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Roland Garros ou como nada ficou igual depois da pandemia

Está aí Roland Garros e eu, que para esta rentrée me tinha comprometido com tanta coisa séria, só anelo por ver cada um dos jogos de todas as rondas do torneio de Paris. Têm razão os negacionistas: o confinamento lavou-nos o cérebro, sequestrou-nos o espírito, inventou a procrastinação.

Papel almaço

Num post patrocinado, um «autor» (designação que o próprio acrescenta oficialmente ao nome) ameaça-nos com um novo livro em breve. Uma segunda «obra», informa, «e com ainda mais garantia de qualidade». 
Edita, adivinharam, a Chiado – empresa grossista de papel almaço.

A criação do mundo

A criação do mundo por Deus na versão do Antigo Testamento é admirável, mas a versão dos Cadernos de Bernfried Järvi (pp. 61 a 63), onde percebemos que quem criou o mundo foi Pagreus, é muito mais credível.
«Assim foram acabados os céus e a terra. Ao sétimo dia, tendo Pagreus terminado a obra (…), chamou Heike, o empregado do café, e pediu mais uma cerveja.»