quinta-feira, 5 de julho de 2012

A subtil gradação da vileza

Portugal ganharia se nos blogues e nos jornais escrevessem comentadores menos engajados, um pouco menos simpatizantes de grémios e bíblias. O jeito que nos dava ter ironistas a sério, daqueles que observam o mundo como dandies de monóculo e copinho de brandy na mão ou deuses sentados em nuvens e indiferentes aos resultados das batalhas humanas. Os ironistas são geralmente cruéis, porque não se condoem das nossas irrelevantes tristezas nem se excitam com as nossas alegrias fátuas. É esta a sua agudeza e a sua utilidade. Têm sempre presente a big picture; para eles, como para os deuses, não passamos de efémeros grãos de areia. Eles mesmos não passam de grãos de areia e sabem-no, por isso o seu lúcido desapego de colectividades, de conveniências e pequenos acontecimentos. (Por isso, também, o omnipresente copinho na mão: lucidez em demasia constrange.)


O caso Relvas é só mais um dos que revelam como entre nós a acutilância e a ironia são substituídas pela indignação emproada e pela hipocrisia congénita. Os comentadores tugas entretêm-se agora, freudianamente, a comparar o nariz-de-pinóquio socrático com a, para o que aqui interessa, não menos helénica penca relviana*. Como se fosse esse o ponto. Como se aos cidadãos não inscritos em partidos interessasse a ponta de um corno a subtil gradação da vileza dos protagonistas.


Para uma nação insalubre como a nossa, o afastamento do Sr. Relvas é uma necessidade sanitária que não precisa de ser cotejada com comportamentos análogos de outros bacharéis**. Impõe-se por si. Mas se os comentadores querem atrasar a História com calibragens, entretenham-se a calcular, para cada caso (Sócrates, Relvas e os mais que virão), a energia que se deve empregar nos respectivos pontapés-no-cu. Desde que os apliquem em tempo útil e independentemente dos importantes resultados a que cheguem.


* Este post e este, do blogue Blasfémias, ilustram o texto acima. O segundo é paradigmático.
** O dicionário do Word explica porque se aplica bem este termo às vidas académicas em análise.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um bocejo e um breve espevitar de orelhas

As notícias que revelam a saga familiar de dois gémeos separados à nascença — os meninos Relvas e Sócrates — foram recebidas com um longo bocejo. A previsibilidade do mundo não sói entusiasmar.

Já aquelas que anunciam a perda de mandato do menino Macário fizeram levantar uma ou outra orelhita. Ainda assim, nenhuma excitação que deva preocupar os cardiologistas: são notícias efémeras, que com o tempo do seu lado a Justiça se encarregará de tornar desactualizadas, desmentidas.

Ainda nada de novo na pátria da mesmice.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Justiça

A Justiça portuguesa mostrou ter algum respeito por si própria ao condenar o socialista Ricardo Rodrigues. Isto é especialmente importante quando sabemos que os partidos políticos não se dão ao respeito nem nos respeitam. Recorde-se que o mesmo sujeito que furtou dois gravadores a jornalistas integra, entre outros organismos igualmente sérios, a Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação…
Claro que ele interporá recurso e nalguma instância a Justiça encontrará forma de o ilibar, como é costume. Para alegria dos seus correligionários. E dos seus adversários, desconfio.

Perdemos, e foi bom

Uma coisa é a emoção de torcer até ao fim pela selecção, outra é querer mesmo que ela ganhe. Para uma quantidade demasiado ruidosa e abastecida de combustível de pessoas, uma vitória é uma licença para tomar o espaço público e impedir por longas horas qualquer movimento ou forma de vida ou de expressão para lá do ritual futebolístico.
Nesse sentido, o jogo de hoje, com prolongamento e penalties, permitiu o melhor de dois mundos: emoção redobrada e expandida — e um resto de noite aberto a outras possibilidades.
O campeonato perfeito seria aquele em que Portugal estivesse presente em todas as fases, da qualificação à final, e não ganhasse nenhuma delas. Sou pela emoção do jogo, não pela da vitória.

sábado, 23 de junho de 2012

Parabéns

António Pinto Ribeiro faz hoje no Ípsilon o seu balanço de um ano de Secretaria de Estado da Cultura. Voltarei ao texto mais tarde. Por agora fico-me por algumas observações avulsas.
APR lembra duas iniciativas fantásticas do SEC: a «criação de uma rede de património do judaísmo» e a programação de uma «tournée de Verão a ser realizada por uma orquestra». A primeira proposta tem o seu interesse, sejamos magnânimos, mas faz-nos perguntar, por exemplo, que iniciativas teria Viegas se fosse um apaixonado pela cultura muçulmana, um pouco mais visível no património.
A segunda seria só ridícula se não fosse sintomática (a primeira também o é, aliás): de facto, o que fazia falta em Portugal era uma estrutura do Estado central que se dedicasse à programação. Deve ser a este paternalismo que Viegas chama liberalismo. À moda antiga, pois claro.

Depois da famosa entrevista de FJV ao I em Maio de 2011, é bom fazer notar que em Portugal as apresentações de dança, teatro e música (excepto pop/rock) diminuíram drasticamente (há salas que simplesmente já não programam teatro), mas, hélas!, um ano de SEC depois a música pimba e manifestações conexas não retrocederam. Pelo contrário: procuram ocupar o vazio da restante programação.
Se quisermos ser simplórios, podemos atribuir à falta de dinheiro ou à desistência de algumas câmaras municipais o recuo na programação de qualidade, mas também não custa perguntar à SEC por onde tem andado.
Uma resposta possível é esta: ocupada a telefonar ao maestro Vitorino d’Almeida a propor-lhe o projecto do «Festival Grande Orquestra de Verão» que, pasme-se, vai levar concertos promenade a várias cidades do país, cousa nunca vista nem sonhada.

O país pode portanto dormir descansado: desaparecem o teatro, a dança e a música menos óbvia, mas uma vez no ano vai ter o senhor maestro e uma orquestra expressamente providenciados pela SEC. Uma barrigada.

A propósito: António Pinto Ribeiro também refere «a dimensão kitsh da aplicação obrigatória da menção ‘Governo de Portugal’ em todo material de comunicação de todas as acções que tenham um mínimo de apoio do Estado». Esqueceu-se de referir que na cultura a menção inclui ainda «Secretário de Estado da Cultura». Secretário, não Secretaria…

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Literatura “transmontana”

Visito com menos regularidade do que devia a Casa de Cacela, mas regresso dali sempre com um gosto bom nos lábios de ter lido em voz baixa os poemas de José Carlos Barros. (Havia um vizinho que lia assim, num sussurro permanente, os livros do Mandrake ou lá o que eram, e talvez não me devesse ter rido dele: também eu descobri que certas frases ou estrofes precisam de ser ouvidas, mesmo que num murmúrio, para serem desfrutadas. Ou entendidas.)
Há qualquer coisa que me encanta nos poemas de JCB e pergunto-me quanto disso é a sua revisitação de Trás-os-Montes, uma revisitação de quem não vive em Trás-os-Montes. Tive idêntico sentimento quando li Ernestina, de J. Rentes de Carvalho. Na altura escrevi que às vezes a literatura pode passar por uma região sem se atolar nela. Esta afirmação tinha implícito um desdém pela literatura transmontana, que na minha presumida opinião vivia atascada na lama patrícia, mesmo nos escassos momentos em que parecia querer sobressair.

É tristemente redutor que uma obra literária seja abordada pelo barro que utiliza, mas por vezes pergunto-me, com injustiça, se não é isso que alguns leitores e comentadores fazem, mais fascinados pelo exotismo regional ou epocal do que pelos méritos da prosa. Não raro leio José Carlos Barros com um fascínio não sei se inverso se análogo: o fascínio de quem nunca tendo vivido fora de Trás-os-Montes identifica a região que ele evoca como se sempre a tivesse visto pelas mesmas lentes focadas a partir do Algarve.

Rui Catalão, crítico do Público, tem revelado o seu particular fascínio transmontano. Creio que ainda nenhum outro crítico falou dos livros de Manuel António Araújo, escritor de Chaves, mas pode ter sido distracção minha. Catalão não parece ter chegado aos dois livros que recenseou daquele autor pela sua proveniência regional, e o exotismo que o atrai talvez não seja geográfico, mas o do próprio universo literário dos textos. Contudo, há algo de profundamente transmontano em mim quando me descubro a ler as recensões com a complacência que os caseiros dedicavam aos senhoritos de visita às propriedades nas berças.

Trás-os-Montes é o título do livro vencedor do Prémio Agustina Bessa-Luís. Tiago Patrício, o seu autor, é madeirense de nascimento mas viveu aqui até aos 19 anos. Revelou ter resistido até ao fim a escolher aquele título porque «não queria denunciar o sítio do romance», mas o júri tomou em consideração «as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes».

Durante um ano ou dois convivi nas páginas do Semanário Transmontano com Manuel António Araújo, mas ainda não li os seus livros. O que temerei? A enésima repetição da «dureza» da vida em Trás-os-Montes que tanto fascina as novas gerações literatas urbanas? Ou descobrir finalmente que um conterrâneo não precisa de ir viver fora para escrever bons livros? No primeiro caso, é talvez preconceito da minha parte. No segundo, é preconceito e inveja.