segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ventura para tótos

Num comentário em defesa de Ventura, leio:
«Falar em rever a constituição é antidemocrático? Não há nada que ele [Ventura] defenda que não se pratique em países desenvolvidos e democráticos. Um homem de 40 anos que sempre viveu em liberdade vai tentar tirar isso ao próprio povo?»

Estas três frases são um condensado da argumentação pró-Ventura nestas eleições. E são indistintamente proferidas por apoiantes ingénuos e militantes manipuladores, sendo os primeiros geralmente vítimas intelectuais dos segundos.

Desmontemos as frases para elucidação de uns e denúncia de outros.

«Falar em rever a constituição é antidemocrático?» Não, não é. Mas querer revê-la para a tornar não democrática é. E é isto que está em causa: os objectivos concretos do Ventrulha, já por ele enunciados em diferentes momentos, e não um exercício abstracto ou retórico de mero debate filosófico.

«Não há nada que ele defenda que não se pratique em países desenvolvidos e democráticos.» Mentira. Muitas das coisas que ele defende e afirma, se postas em prática, transformam democracias em regimes iliberais, como a Hungria e os Estados Unidos de hoje, regimes que ele publicamente admira.

«Um homem de 40 anos que sempre viveu em liberdade vai tentar tirar isso ao próprio povo?» Esta é mesmo para rir. Por definição, os tiranos estimam muito a sua própria liberdade e proíbem-na aos seus povos. Trump, que Ventura elogia, viveu os seus quase oitenta anos em democracia e isso não o está a impedir de instalar um regime autoritário (ou mesmo fascista) no seu próprio país.

Em suma, para se fazerem respeitar intelectualmente, os seguidores “distraídos” de Ventura deviam instruir-se — e, consequentemente, mudar de campo. Os seguidores esclarecidos, se deixarem de ser dissimulados, mostram pelo menos coerência — mas respeito não têm como ganhar. Não pode ter respeito quem propaga ódio e venera escroques.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

João Miguel Tavares não é atrasado mental

No seu último artigo no ‘Público’ João Miguel Tavares indigna-se por Sérgio Sousa Pinto considerar atrasados mentais aqueles eleitores que não vêm «um perigo imediato em André Ventura, mas sim no Partido Socialista».

Diz JMT: 
«Sousa Pinto defende que a memória dos anos 1930 nos deve lembrar o que a extrema-direita é. Certíssimo. Mas… e a memória dos anos 2005 a 2011? Essa não conta? Não merece reflexão histórica?» 

Depois acrescenta: 
«Sérgio Sousa Pinto recua cem anos para invocar os perigos do fascismo e não consegue recuar vinte para explicar os erros do PS?» 

E conclui: 
«Nenhum socialista tem direito a chamar “atrasado mental” a quem desconfia mais do PS do que do Chega enquanto este trabalho de reflexão, que já leva pelo menos 15 anos de atraso, continuar por fazer.»

Nos comentários ao artigo na página de Facebook de JMT, há quem mais ou menos diga que o autor equipara os danos do governo de Sócrates aos danos do fascismo. Ele mais ou menos diz que não.

A mim parece-me evidente é que que João Miguel Tavares considera mais provável António José Seguro fazer regressar a corrupção de Sócrates do que Ventura instalar o caos moral e social de Trump à escala de Portugal. Não creio que JMT seja atrasado mental, acho só que é um dos mais activos apoiantes de Ventura e do que ele representa, sem nunca dizer, explicitamente, que o é.