domingo, 25 de outubro de 2020

Joaquim Agostinho

Cresci a ouvir falar de Joaquim Agostinho. O meu pai e os meus tios, como a maioria dos portugueses homens, eram apreciadores de desportos e misturavam nisso um pouquinho de fervor patriótico à maneira do Estado Novo, que a minha geração aligeirou mas hoje torna a assumir aqui e ali cores pesadas.

Na altura, o futebol não tinha o poder avassalador e esterilizador que hoje tem na sociedade. Outros desportos eram seguidos com atenção regular e o ciclismo era mais um deles. Enquanto criança e adolescente, fui por inerência fã de ciclismo e gostava dele sobretudo quando a caravana passava na minha terra atirando pelas janelas dos carros de apoio chapéus de papel, bonés, crachás e outros itens do que hoje se chamaria merchandising, uma dádiva a que não estávamos habituados. A passagem do circo da Volta era mais uma festa no calendário e, oh, se não apreciávamos festas.

A morte acidental e precoce de Joaquim Agostinho foi vivida e revivida em casa como uma tragédia tribal, familiar. Durante décadas, até há poucos anos, as quase vitórias de Agostinho, os seus lugares nos tops 10 ou 5 da Vuelta e do Tour (na altura era tudo apenas voltas aos respectivos países, algo que o patriotismo poliglota de hoje descura), os seus sucessos pessoais eram integrados na gesta lusa e narrados lá em casa, à luz do fogão a lenha ou sob a ramada de uvas morangueiras, como em Esparta se contava a Batalha das Termópilas ou nas estepes da Idade do Gelo se lembravam caçadas épicas a mamutes.

Depois de a pandemia me ter feito seguidor de ténis, nas últimas três semanas andei atento ao Giro de Itália, beneficiando da suave adrenalina que me chegou ao sofá à custa das pernas violentadas de João Almeida e Ruben Guerreiro. Não desfraldei uma bandeira na varanda nem fiz pinturas de guerra verde-rubras, mas perguntei-me se daqui a trinta anos um hipotético filho meu teria de João Almeida, no caso de eu lhe repetir ritualmente a saga italiana, uma ideia diferente da que tenho de Joaquim Agostinho: um nome que antes de evocar qualquer feito desportivo evoca figuras e tempos familiares.

1 comentário:

  1. Há pessoas ou figuras públicas, que nos remetem para a nossa família e para uma infância e adolescência felizes...lembro-me de Rosa Mota também, mas, claro não de bici, mas a penantes :-)

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