sábado, 10 de março de 2018

O Professor Passos

Não assinei o Público online porque o jornal me pedia mais dados sobre a minha vida do que o que eu estava disposto a dar-lhe e por isso só consegui ler o lead e um parágrafo do artigo de Manuel Carvalho sobre a polémica do Professor Passos Coelho. Contudo, a não ser que o resto do artigo esteja em contradição com a sua introdução (o que seria absurdo), não julgo que me precipite ao dizer que discordo totalmente de Manuel Carvalho.

Leiam primeiro a sua argumentação:

«Com excepção da vergonha da Tecnoforma, nada na vida de Passos Coelho o impede de ser docente em universidades nacionais.

A polémica dos convites a Passos Coelho para dar aulas em três universidades só merece mais do que uma linha de aversão porque reflecte um preconceito aberrante e expõe à vista de todos uma atitude mesquinha e perigosa. O assunto não chegou ao grande debate nos jornais (ficou-se pela pequena conversa de café ou pelas redes sociais) porque fica mal expor ao grande público a arrogância de classe ou o sectarismo ideológico mais básico que alguns dos críticos manifestaram. Mas, mesmo na penumbra, a onda não deixa de ser reveladora e irritante. O sectarismo que empurra uma certa esquerda, faz hoje de Passos Coelho o que a direita fez com Mário Soares no Verão Quente.»

Em primeiro lugar, a própria introdução do artigo anula toda a argumentação que defenda a contratação de Passos, a não ser que a lógica para Manuel Carvalho seja uma batata. Segundo as suas próprias palavras, há pelo menos uma coisa que de facto que impede a contratação de Passos, que é, diz Manuel Carvalho, a «vergonha» da Tecnoforma. A nódoa da Tecnoforma pode ser «excepcional» na vida do ex-PM, mas existiu e até Manuel Carvalho na sua redacção a considera na verdade impeditiva da sua contratação como professor equiparado a catedrático. Se não queria dizer isto (e provavelmente não queria), Manuel Carvalho devia cuidar mais dos textos que escreve. Poderia ter dito, por exemplo, que «Passos Coelho apenas teve um erro, mas esse erro não é suficiente para impedir a sua contratação». Falando assim, MC revelaria mais condescendência com as vilezas dos nossos chico-espertos da política, mas estaria mais apto a ser literalmente coerente com a sua aceitação da contratação.

Já eu estarei decerto a ser mesquinho com a análise semântica do artigo, mas a acusação dura de Manuel Carvalho ao «sectarismo ideológico» dos críticos, tantos deles professores universitários, exigia-lhe cuidado com a forma como se expressa. Sei que a o artigo de MC, antes de ser uma defesa de Passos, pretende ser um ataque ao tal «sectarismo ideológico» das universidades. Passos é apenas o pretexo, e MC não se importa de, usando-o, defender a honra de Passos. (Também eu, na verdade, estou a usar o excerto do artigo de MC como desculpa para falar da contratação de Passos, por isso estamos quites.)

Mas eu, ao contrário de MC, não desvalorizo «a vergonha» da Tecnoforma. Parece-me reveladora de um carácter (aliás confirmado em vários outros momentos de mentiras e hipocrisias na brilhante carreira do homem). Escrevi em tempos (aqui e aqui, por exemplo) que Passos e Sócrates eram nalguns aspectos essenciais intermutáveis. Postos nas circunstâncias do outro, cada um deles teria agido de forma basicamente semelhante. Com a conjuntura a favor, um Passos pré-Troika teria trazido para o Estado a visão empreendedora que usou na Tecnoforma, só que com maior redistribuição de dinheiro público. Já Sócrates, instigado pela mesma troika que excitou Passos, teria liderado diligentemente um período de austeridade reformadora, talvez com menos moralismo à mistura, mas com um resultado de igual desprezo pelas pessoas comuns e favorecimento de privados. Parece-me por isso natural que se o dinheiro do Estado tiver permitido a um o mestrado parisiense permita agora ao outro a cátedra na Universidade de Lisboa. Certos episódios da vida destas duas figuras nacionais são as duas caras da mesma moeda com que se vende a dignidade e compra a desfaçatez.

Em segundo lugar, não me esqueço de que ouvi Passos enquanto Primeiro-Ministro acusar algumas universidades de manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores professores» poderem dar aulas. Cito um post que sobre isto escrevi à época:


Ora, o que mudou depois da saída de Passos Coelho do Governo? As universidades públicas já não são censuradas por Coelho por quererem alargar o quadro de docentes? (Julgo que não preciso de dizer que alargar é mais grave do que manter no catecismo de moralização da função pública seguido por Passos.) Agora já podem? Em todos os casos ou só no dele?

Vejamos também a coisa por outro ângulo, não necessariamente ligado a austeridade passista: o ISCSP passou de repente a ter uma necessidade premente de professores? Já teria esta vaga antes e não a tinha conseguido preencher? O Instituto andava desesperadamente à procura de alguém com o perfil de Coelho e ainda não o tinha encontrado? O Presidente do ISCSP (Manuel Meirinho, eleito deputado nas listas do PSD no ano em que Passos ganhou o Governo) não tem nada que ver com a identificação desta súbita necessidade de um professor com as características de Passos Coelho?

Já li por aí que houve antes casos similares (dizem que o de Vítor Constâncio é um deles) e, acusam os defensores de Passos, as pessoas não se queixaram como agora. Este é o habitual argumento idiota que exige igualdade permanente nas reacções e críticas, como se o mal de uma coisa dependesse de ele ter sido identificado e criticado em igual medida noutra. Como se fosse desculpável o erro de alguém por não se ter denunciado um erro semelhante de outra pessoa. A lógica deste género de pseudo-argumentação (e o prefixo pseudo é usado aqui adequadamente, porque só em mentes infantis ou perturbadas por cegueira ideológica ou clubística aquela espécie de relativização constitui um argumento) é a mesma que poderemos aplicar, cinicamente, às vítimas da estatística que não tenham tido a sua parte do frango na célebre enunciação: se em cada duas pessoas uma comer um frango, em média cada pessoa come meio frango. Ou, melhor ainda, no poema de Cesariny: «Que afinal o que importa não é haver gente com fome / porque assim como assim ainda há muita gente que come».
Estes invocadores dos «casos passados» querem, num primeiro momento, fazer-nos crer que se um pecado é comum talvez ele não seja na verdade pecado, estamos enganados no juízo que fazemos sobre a pessoa que defendem. Mas logo a seguir censuram-nos ferozmente por não termos sido lestos a denunciar o erro anterior que lhes serve de relativização, num crescendo que termina invertendo as coisas: o verdadeiro erro a merecer punição foi o anterior, o do elemento do clube contrário, que passou incólume porque as pessoas então se distraíram ou não acharam mal por serem do mesmo clube. Não é só proporem que se cumpra uma cronologia para a crítica e a punição (que as coisas se façam pela ordem dos acontecimentos), ou defenderem uma interdependência de penas (pune-se o último se se punir o primeiro): é tentar que percebamos que o erro cometido pelo seu correligionário não é um erro, porque, ao contrário dos adversários, este e o seu alvo cu excluem-se por unção divina da natureza fisiológica descrita no «Soneto Ascoroso» de Bocage. E terminam com frequência já só violentamente indignados pelo erro anterior, acreditando genuinamente, no seu fanatismo, que não houve o erro actual.
Alternativamente, esta gente que lembra os casos passados foca-se em nós próprios para nos denunciar por termos estado calados e agora falarmos. De repente, mais uma vez, o problema não é Passos ter a magna impudência de aceitar um tacho numa universidade pública, é nós não termos constância na atenção e na crítica, é não sermos polícias de plantão permanente, desde o nascimento até à cova, termos a insolência de nos levantarmos só ocasionalmente e logo por azar quando o erro é cometido por um camarada de quem nos denuncia. Esqueçam ter havido um pecado: o que verdadeiramente abala as fundações da nação é a nossa indolência (e de certo modo é, mas não pelas razões que nos acusam). Esqueçam Passos, o problema somos nós.
Vasco Pulido Valente, que era acusado pelos seus detractores de não ser exaustivo na crítica, de haver partes do país e dos seus oito séculos de história que ele, cronista parcial, estrategicamente poupara (o que é aliás improvável), tinha um manguito retórico sempre pronto como resposta, e algumas vezes li o seu rosnado: fossem chatear o Camões, que ele escrevia sobre quem queria e quando queria, não era obrigado a cumprir quotas.
Um resumo para os utentes do argumento idiota: a desfaçatez de Passos Coelho (é deste caso que agora tratamos) não depende da desfaçatez de todos os outros que aceitaram prebendas semelhantes e muito menos depende da actividade e da coerência daqueles que o criticaram. De resto, a coerência não se mede contabilisticamente nem tem por base a estatística. E uma maçã não deixa de ser uma maçã por não termos dado uma dentada nas outras todas.

Em terceiro e último lugar, Passos foi o responsável por, entre outras bondades, uma lei que determinou a extinção de um conjunto de empresas municipais, com o consequente despedimento dos seus trabalhadores, sem se preocupar se o trabalho que eles faziam era necessário ou não. Tendo-se verificado que, em tantos casos, o trabalho era necessário, e após pressão sindical e de um ou outro partido, lá concedeu que se acrescentasse à lei um artigo que permitia às Câmaras abrirem concurso (na primeira fase limitado à função pública) para esses postos de trabalho e, numa demonstração de impressionante generosidade, fossem considerados elegíveis para se candidatarem os antigos trabalhadores das empresas municipais, muitos com dez anos de serviço. Mas a generosidade do então Primeiro-Ministro não foi ao ponto de permitir que esses trabalhadores mantivessem a categoria e a posição remuneratória anteriores: havia moralização a fazer no país e por isso os trabalhadores que quisessem continuar nos seus postos haviam de passar pela humilhação do concurso e, caso vencessem, a de serem integrados na posição mais baixa da carreira, não servindo de modo algum o conhecimento, a experiência adquirida e a avaliação de dez anos de trabalho para assegurar a manutenção do lugar, da categoria e da remuneração.

Perguntam-me se há algum problema na contratação do Professor Passos com vencimento equiparável ao de professor catedrático? Problema nenhum, por que havia de haver?

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