quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Os homens sobre as mulheres

Noto como intelectuais, escritores e homens afins se assemelham ao cidadão comum no que se refere a considerarem as mulheres uma coisa à parte (ainda que não exactamente, ou não sempre, com um intuito discriminatório).
Quando denunciam a seu espanto, a sua estranheza, a sua admiração, a sua permanente perplexidade com as mulheres parece-me que estão, com frequência, a revelar o quão pouco ou distantemente convivem com a variedade feminina.
Não há isso de as mulheres serem assim ou pensarem assado. As mulheres não são um grupo homogéneo, como os homens o não são. Não são mais agrupáveis entre si do que com homens. É possível agregar pessoas por graus de afinidade psicológica, mas disso não resulta que tenhamos mulheres aqui e homens ali.
Quando Pedro Mexia escreve que «o gosto das mulheres nem sempre é compreensível, mas raramente é infundado» não está (e ele sabe disso) a falar das mulheres, mas de algumas mulheres, daquelas que lhe são próximas, física, intelectual, ou, diria, oniricamente.
Quase tudo o que os escritos masculinos sobre mulheres dizem pode ser aplicado com propriedade — e não necessariamente com promiscuidade — a uma quantidade não desprezível de homens. As mulheres são apenas, tradicionalmente, convencionalmente, o outro mais confortável para a discorrência masculina. (Não raro são o biombo de outro outro, mas isto já é derivar.)
Séculos de confessionalismo masculino sobre as mulheres resultaram nisso a que também se chama poesia, uma espécie de obscurantismo de divã que, em obediência a uma teoria institucional da arte (masculina, naturalmente), foi como arte validado.

3 comentários:

Luis Eme disse...

mas as mulheres (todas) também gostam de "adensar" o mistério, Rui.

e gostam ainda mais de serem consideradas especiais, diferentes, mesmo as que querem ser iguais (aliás, superiores)...

ou seja, não somos só nos homens que alimentamos o "mito", que está longe de ser coisa apenas intelectual.

Rui Ângelo Araújo disse...

Você acaba de enveredar pela mesma sinédoque que o post aborda, Luís. Para o rebater, julgo que não basta reafirmar os vícios de linguagem e de raciocínio que ele denuncia. Até porque desconfio que ninguém conhece 'todas' as mulheres. :)

Joaquim Rato disse...

Os homens são diferentes das mulheres, e não só física e organicamente. Se bem que, estas diferenças, devam ser determinantes para o que poderemos considerar as idiossincrasias próprias dos dois sexos. Há portanto idiossincrasias próprias. Isto não invalida que para determinados gostos, alguns homens se sintam mais próximos de algumas mulheres, do que da maioria dos homens, e vice-versa.Muitos destes casos o factor intelectual é determinante.
Aliás, acredito, que as relações homossexuais têm aumentado não só pelo factor moda, mas também, e muito, devido ao facto de vivermos numa sociedade onde os preconceitos fazem cada vez menos sentido. O que permite que um indivíduo, cada vez mais, se junte com a pessoa de quem se sente mais próximo, e com quem se sente bem, e não por outras razões.