sexta-feira, 9 de março de 2012

O tempo e a prosa

Leio alguém dizer que aprecia uma determinada escrita sem malabarismos nem instintos barrocos e lembro-me que isso é um sentimento comum a muita gente, incluindo críticos e editores. Talvez por isso a D. Quixote tenha desistido de Javier Marías a um terço de O Teu Rosto Amanhã e ainda nenhuma outra editora tenha retomado o fio à meada, ou saltado para Los Enamoramientos. Não que Marías tenha exactamente uma escrita barroca ou uma carreira no circo, mas as suas frases longas, a procura em directo da palavra certa, por tentativas, ou a busca da melhor definição por soma de ideias, acumular de proposições ou conjecturas, o diálogo tenso entre opostos, a exploração de condicionais ou possibilidades, o arsenal que usa não para conseguir dizer tudo e roubar espaço à sugestão mas para concluir que o inefável e a dúvida permanecem, permanecem a insatisfação e a incerteza — mesmo que os dissequemos com minúcia forense à mesa de autópsias —, as suas frases longas, dizia, e a sua escrita elegante mas complexa, são talvez um estorvo no mercado português.

O tempo não está para longas dissertações a propósito de um biscoito, prefere videntes mais assertivos e breves. Talvez este tempo creia que a vida é simples, definível em três frases curtas; que alguns substantivos e um par de verbos explicam as pessoas, todas as pessoas, e as acções, todas as acções; que os dicionários devem fazer fitness até se tornarem léxicos escanzelados de passarela, sem carne nem substância nem multiplicidade. Talvez não vivamos todos no mesmo tempo.

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