domingo, 17 de dezembro de 2017

O Hotel na Flanêur

A apresentação do Hotel do Norte na Flanêur correu bem, já que perguntam, mas percebemos que andamos a falhar a vida quando autografamos os nossos livros com gesto mecânico de amanuense, evitando por pouco acrescentar o número de funcionário à assinatura.

Ao simpático e generoso Carlos Alberto Machado coube o elogio póstumo da obra e eu justifiquei-me mais ou menos como se segue:
«A escrita deste romance, Hotel do Norte, partiu de algumas das coisas que me fascinaram (e fascinam): edifícios antigos abandonados ou em ruínas, os “retornados” ou refugiados dos anos 70 e 80, a infância e a adolescência em qualquer das suas fases. 
1) Sempre que olho para um edifício antigo, seja onde for, ponho-me logo a imaginar moradores e histórias. Se o edifício estiver abandonado, o fascínio aumenta, porque o abandono remete-me para histórias de época, estimula exercícios arqueológicos e sobretudo acrescenta mistério. Geralmente quero visitar estes edifícios, independentemente do seu estado de ruína, e muitas vezes faço-o. A imersão física exacerba a imersão psicológica. É como subir a serras para ver a paisagem ou caminhar pela areia a olhar o mar: uma experiência sensorial e emocional.No território das Pedras Salgadas e Vidago, onde vivi até pouco depois da tropa, havia suficientes ruínas cheias de história e mistério. Hotéis, casas de chá, um ou outro pequeno palacete (aos nossos olhos), pequenos edifícios de apoio às estâncias termais, todos a ameaçar ruína e com a patine de uma época áurea, algumas décadas de glória, algumas gerações de visitantes que gravaram ali memórias e mitos de exuberância e cosmopolitismo. 
2) Os “retornados” ou exilados de África entraram na minha vida quando começava a fazer uma ideia do que era o mundo, mas na verdade eu nunca soube quem eram aquelas pessoas que nos anos 70 se tornaram meus vizinhos. Os que tinham a minha idade, e se tornaram meus colegas, eram crianças como eu, ainda com poucas memórias: a condição de “retornados” era um pequeno exotismo que logo se diluiu nas aventuras comuns, e mais importantes, que vivemos durante o crescimento. Dos adultos, que experimentaram com todas as dores e faculdades e puderam intelectualizar a experiência do “regresso” (que em tantos e tantos casos não era regresso nenhum), eu pouco sabia. Nomes, características físicas, um ou outro tique, pouco mais. Talvez um pouco mais, mas esse pouco foi-se perdendo numa adolescência e juventude com outros horizontes e interesses. 
3) A infância e a adolescência em si mesmas, sem hotéis em ruínas ou novos vizinhos africanos, são um território de fascínio e mistério inesgotável. Se não houvesse mais nada sobre o que escrever, haveria as memórias de infância — que são, como se sabe, a nossa maior ficção. Ninguém, nem nós, sabe exactamente, com rigor histórico, o que aconteceu na infância, na nossa e na dos que nos rodearam. Todas as tentativas que fazemos, orais ou escritas, falham um pouco ou muito e, para compensar, ficcionam alguma coisa, senão tudo. Simultânea e paradoxalmente a infância, a nossa infância, é o tema que melhor conhecemos. Daí tantos autores não conseguirem evitá-la. 
O romance nasce então destes três fascínios — e procura juntá-los numa narrativa coerente e numa intriga funcional. É uma história a três épocas — 1941, 1975 e actualidade —, como matrioskas russas, que vive, talvez como boa parte da literatura, de combinações de realidade e ficção, memória e fantasia, verdade e mentira, tanto num sentido diegético como exegético.
Um dos protagonistas de 1975, talvez para evitar viver a sua época, mergulha numa investigação detectivesca sobre uma personagem de 1941, a partir dos arquivos documentais e fotográficos do Hotel — e com esse misto de arqueologia e efabulação se conta a história de Catarina. O narrador de 2008 fala da sua infância, talvez por catarse, talvez em busca de uma justificação. Entretanto, estes protagonistas vivem e relacionam-se com outras personagens — e o livro também trata disso, dessas vivências, e das restantes personagens, com os seus próprios pedaços de vidas e memórias, e das ligações horizontais e verticais entre todos.
Só que o Hotel do Norte já não existe fisicamente. E a sua demolição torna ainda mais difícil ou especulativo ou inverosímil qualquer exercício memorialístico que as personagens, os narradores ou o autor tenham feito.»

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