quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Há marcianos no Sol

João Lemos Esteves, o marciano que escreve no Sol, publicou num dos seus artigos mirabolantes, misto de comédia louca e fluxo desviado a montante de uma ETAR, um rol de acusações a Pacheco Pereira.
Pacheco Pereira, que podia ter ignorado o tonto, decidiu agir de outra maneira, igualmente adequada. Listou as acusações e limitou-se a acrescentar a cada uma delas: «Falso. Prove.»
No final, disse: ou há um pedido de desculpa ou um processo em tribunal. Simples.
O alucinado retirou o artigo e pediu desculpa — tal era a força da sua argumentação e tal o valor dos «factos» que apresentava.
Podia aproveitar e pedir desculpa por todos os artigos que escreve. Não necessariamente por serem abjectos, mas por não serem suficientemente cómicos. Todos acreditamos que ele consegue ir mais longe.

P.S.: Diria que o Sol o mantém como cronista para que, por contraste, os textos do arquitecto Saraiva, pareçam fundamentados e sensatos.

https://sol.sapo.pt/artigo/721026/pedido-de-desculpa-de-joao-lemos-esteves-a-jose-pacheco-pereira

«A condição humana pode ser muito cínica»

«A condição humana pode ser muito cínica. Existem pessoas que têm medo de mudanças evidentes e rápidas, que detestam o feminismo, a transformação social, a queda de certas hierarquias, e querem vê-las restabelecidas.»
A citação é de Anne Applebaum e resume indirectamente a simpatia pelo Chega.

Sim, há os trolls que saíram das caixas de comentários dos jornais para a luz do dia e concordam com as boçalidades do líder. Sim, há pessoas no geral estimáveis mas zangadas com a vida e a política e que se iludem com as mentiras de um paladino de fancaria que uma criança é capaz de detectar. Mas os mais perigosos são os cínicos, para quem os fins justificam os meios. Para esses, André Ventura é o idiota útil, o testa-de-ferro, o magarefe que trata do trabalho sujo. Eles ficam a aguardar para colher os despojos.

----------------------
A entrevista de Anne Applebaum pode ser lida aqui:
https://brasil.elpais.com/brasil/2021/01/07/eps/1610037420_550433.html

«Interessante»

Quem ficou perplexo com um post que aqui publiquei há tempos sobre a forma como era visto o Dr. Sapo de Loiça a partir de Estevais de Mogadouro, talvez sinta curiosidade por esta sequela:

http://tempocontado.blogspot.com/2021/01/canhestro-mas-certo-e-perttinente-no.html

Notem, por favor, que as palavras não são do escritor, só o comentário: «Interessante». E, claro, a escolha da citação para título do post.

Cada um tem a sua via-sacra. A minha leva-me sucessiva e vãmente àquele blogue à espera nem sei bem de quê.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Alvão ao final do dia

Ao final de um dia de Janeiro, o Alvão — de perfil tão bem delineado contra um céu pálido que brilha na linha do horizonte como um halo — é na sua ilharga de um azul-escuro tornado vaporoso por múltiplos farrapos de fumo que o esbatem e aparecem no ecrã da janela onde leio não como emanações das últimas queimadas do dia ou das primeiras lareiras da noite mas como reminiscências de um passado que houve, memórias de dias que foram. Na verdade, pequenas cedências do olhar à nostalgia abstracta e a um telurismo pouco sustentado em provas e factos, mera retórica do espírito.

domingo, 10 de janeiro de 2021

O grande barrete

João Miguel Tavares 

Trump, o Trump híbrido de Berlusconi e Mussolini que discursou no dia 6, poderia ter ele mesmo encabeçado como Moisés* a multidão depois de a ter incitado a atravessar o Mar Vermelho, podia ter sido «bravo» de acordo com os seus padrões em vez de assistir pela televisão e comentar pelo Twitter, como costuma, podia ter-se sentado com chapéu e cornos na cadeira de Nancy Pelosi, poderia ter acossado polícias renitentes ou feito selfies com polícias complacentes enquanto partia mobília, podia ter entrado na sala do Senado para proclamar ele mesmo o golpe, no que provavelmente seria seguido pelos ratos republicanos que agora saltam borda fora, Trump poderia, enfim, por uma vez ter sido consequente e ilustrativo e auto-evidente que nem assim António Barreto deixaria de ter escrito o que escreveu** e nem assim João Miguel Tavares teria deixado de saltar na cadeira de largo sorriso a aplaudir Barreto como criança a que lhe servem a sobremesa***.

E o que diz Barreto lá do fundo da sua resmunguice, do seu ressentimento ou do que lhe habita a alma? Que a culpa da invasão do Capitólio é das «esquerdas», pois claro. Ou, vá lá, de «democratas-cristãos, socialistas e sociais-democratas». Ou antes, na versão matizada, a culpa é dos «erros, defeitos e vícios» dos democratas****. Um dia em que se empolgue na indignação e no moralismo, ainda havemos de o ler a culpar a esquerda pelo pecado original de Adão e Eva, em que decerto se dispõe a acreditar.

Poderia Barreto ter-se ficado, por uma vez, como as pessoas sem segundas intenções, pela condenação da coisa em si e dos responsáveis directos por ela? Poderia, depois de ter listado retoricamente como listou uma série de atributos de Trump, afirmar inequivocamente que sim, este é Trump, em vez de dizer apenas «Tudo isto pode ser verdade» (itálico meu) e acrescentar um longo mas? Claro que podia. Mas como perder uma oportunidade de verberar o «sistema» (sem de facto falar do «sistema»)?

A lengalenga barretiana é agora antiga e não é totalmente errada. Sem esquecer nunca a culpa activa dos republicanos e dos promotores dos Trumps deste mundo (que Barreto amavelmente desvaloriza ou em que participa), é preciso considerar que as democracias têm de facto sido absurdamente complacentes com a corrupção e as desigualdades, por exemplo. Mas como mencionar isto sem falar do capitalismo, proeza que Barreto facilmente realiza?

Nas últimas décadas, com o surgimento de uma nova geração de direita, que aprendeu, nos melhores casos, pelos manuais do conservadorismo britânico e, nos piores, pelos manuais do neo-liberalismo americano, criou-se na Europa e exacerbou-se na América, com o regozijo de velhos ressentidos que aproveitaram para sair do armário, uma raiva ao «socialismo» (termo discricionariamente usado para englobar todas as esquerdas e o centro), uma raiva ao «socialismo» (que soa quase a comunismo, o comunismo estalinista) como fonte de todos os males, ao «socialismo» como demónio na Terra.
Não interessa que alguns dos principais pecados atribuídos a este «socialismo» sejam na verdade de índole não doutrinária. A corrupção e a manutenção ou agravamento das desigualdades têm sido muito democraticamente praticados pelos vários partidos que chegam a entrar em governos ou outros níveis de poder. As variações de grau da prática da corrupção devem-se mais, temo, ao contexto e às oportunidades concretas com que cada um se depara do que a subtilezas de carácter ou filiações partidárias ou doutrinárias. Contudo, esses flagelos sem pátria ou partido foram invocados com toda a lata por uma vasta multidão de opinativos mundiais (de que tivemos a nossa parte generosa) para criar o ambiente favorável à eleição de Trump e Bolsonaro pela rejeição violenta dos candidatos que se lhes opunham. Quando o mais simples bom senso dizia que, na ausência de candidatos melhores, a ter de se escolher o mal menor, haveria o eleitor que se resignar provisoriamente com a mediania ou mediocridade de Hillary ou de Haddad, eis que o mundo assiste estupefacto à farsa inimaginável de ter de tomar Trump e Bolsonaro como candidatos de fora do «sistema» capazes de combater a corrupção e as desigualdades.

Na verdade, a corrupção e as desigualdades são uma inevitabilidade do capitalismo como ele vem sendo praticado (e que poucos se atrevem a questionar sem desvio doutrinário bafiento), e são uma inevitabilidade em que, deve dizer-se, além de demasiados políticos, participa à sua escala uma boa parte da população anónima (incluindo, naturalmente, aquela mui puritana que vota em Trump, Bolsonaro ou no Doutor Sapo de Loiça).

O que estava em causa com a eleição de Trump e Bolsonaro não era, para os mais condescendentes com a dupla de ogres, esse combate, mas o cultural. Sim, ainda que encha a boca com os problemas económicos das populações rurais americanas, o que levou aquela gente a ser complacente com Trump e Bolsonaro foi a possibilidade de os ter como campeões de um combate que a maioria não queria assumir ou travar completamente às claras: a reacção a reformas sociais e culturais, à transformação da sociedade. (Um ogre é por definição um ser atávico, logo escolha certa se queremos preservar o mundo mítico que conhecemos.)

É verdade que a esquerda e o centro têm colocado um menor empenho no combate à corrupção e à pobreza do que nas causas culturais e sociais. O combate à corrupção e às desigualdades falha claramente porque, além de um raro carácter honesto e solidário, exige uma coragem muito maior: a de enfrentar o desconhecido (o que propor para mudar ou substituir o capitalismo actual?) e a de enfrentar o poder dos grandes agentes económicos. Já as reformas sociais apenas exigem enfrentar uma parte da população sem uma fracção desse poder.

Significa isto, esta pequena grande cobardia das democracias, que as reformas sociais deveriam ser postas de parte? Claro que não. Tal como é errado desprezar as dificuldades e o sentimento dos eleitores inocentes de Trump seria errado, por exemplo, desprezar os problemas ancestrais das várias minorias e desaproveitar a oportunidade de os corrigir, e de corrigir atavismos nacionais. Mas o que nos é proposto pelos que toleram Trump é que façamos essa escolha, que tomemos como problemas reais ou «sérios» os que a América rural simboliza e como meros caprichos burgueses as questões sociais ou culturais e as que afectam as minorias ou as mulheres, por exemplo. É, portanto, caracterizar a rejeição de uma parte da população como egoísmo e snobismo urbano, apelando, com uma suposta superioridade moral, à rejeição de outra parte dessa mesma população.

Percebo o receio de certo mundo conservador, e partilho do desagrado que sente, perante excessos e idiotices que à esquerda se praticam, como o fenómeno Cancel Culture e outros. Mas estes, mesmo quando graves, são equívocos, não são as causas de quem rejeita Trump e Bolsonaro.

Temos de lhes pedir, a este tipo de conservadores, que se controlem e não deixem que o medo do fim do mundo como o conhecem os empurre para uma distopia pior, que é a de um mundo que tem como supostos campeões da liberdade e da justiça bullies idiotas, corruptos, amorais e egoístas como Trump ou Bolsonaro ou eventuais plagiários indígenas.

------------------
* Imagens de António Muñoz Molina no excelente artigo de hoje no El País: https://elpais.com/opinion/2021-01-09/un-paisaje-de-trastorno.html
** https://www.publico.pt/2021/01/09/opiniao/opiniao/perceber-1945609
*** https://www.facebook.com/joaomiguel.tavares/posts/3635077483244744
**** Note-se que Barreto chega a dizer que a democracia tem «tantos ou mais defeitos» do que Trump e programas de gente como ele…

sábado, 9 de janeiro de 2021

À escuta

Espreito pela janela a fila de árvores que sobrou das obras da escola, agora despida de folhas excepto por dois pares de cedros. Dir-se-ia não correr a mínima aragem, mas a impressão é desmentida pela palmeira da quinta casa do lado direito cujos ramos em forma de jactos de fonte ornamental se inquietam um pouco. É um sábado à tarde e a cidade está estranhamente silenciosa. Nem a televisão do vizinho se ouve, e julgo que não é porque os canais tenham de repente ficado sem apresentadores ou convidados histéricos. O ar é de neve e talvez estejamos no «olho» da tempestade (dizem os filmes que é calmo assim). Ou está toda a gente a fingir que não conviveu no Natal, para ver se evita o confinamento anunciado. Esta ideia poderia ser confirmada se me chegassem imagens do conselho de ministros com os ditos num terraço de S. Bento equipados com tecnologia da Primeira Guerra Mundial usada para detectar aviões. Mas não chegam essas imagens e isso é que é triste.



terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Personagens com baixa auto-estima

[Escrevi este trecho para uma qualquer das personagens dos meus livros, mas creio que nunca o usei — devo ter encontrado outra forma de a fazer sentir miserável.]

«A praça em frente à estação estava cheia de punks e eu apenas consegui pensar que não poderia ter melhor recepção. Uma banda perfilada seria o que de mais impróprio o momento sugeria. Era adequado que eu desembarcasse do comboio e à minha espera estivesse aquela anarquia lânguida, um bando esfarrapado cheio de rebites, com repas inteiriçadas e coloridas e correntes de condenados, uma pequena multidão de rebeldes ociosos estendidos no lajeado sujo como focas gordas ou tartarugas despejadas pela maré numa praia vulcânica. Bebiam e derramavam cerveja enquanto insultavam ritualmente e sem ânimo os passageiros que como eu ziguezagueavam por entre eles na direcção da paragem de táxis. A diferença era que os outros viajantes faziam caretas de nojo e raiva impotente e levavam passo acelerado; eu sentia-me Darwin a descer do Beagle. Não pelo quadro alegórico que uma fotografia tirada do outro lado da rua poderia fixar, mas porque, como ele, eu olhava em volta e não podia concluir senão pelo parentesco evidente entre vermes e humanos. E repare-se que este pensamento não era uma crítica aos inúteis anarquistas, já que eu os olhava como se me visse num espelho e não conseguia deixar de pensar que o meu lugar era entre eles, bebendo cerveja até ao vómito e fazendo depois alguns assaltos sem importância para conseguir arranjar mais bebida.»

O Infinito Num Junco

Uma das muitas coisas de que estou a gostar em O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo, é a forma como a narrativa e a estrutura do livro estão por vezes organizadas, não por ordem cronológica ou geográfica, como acontece geralmente com os livros de história ou de divulgação, mas por associação de ideias, por sugestão dos campos semântico ou lexical das palavras.

Agrada-me igualmente a atenção «feminista» que é dada ao tema, procurando e valorizando, sem empolamento, informação que noutros autores ou noutra época passaria despercebida, como por hábito patriarcal as mulheres passavam, mesmo quando o mérito era delas.

Depois de um bom romance de uma mulher (Siri Hustvedt) — e um livro feminista, na verdade —, é agradável ler um ensaio sobre livros na Antiguidade onde as «antepassadas» da escritora americana têm justa presença.

domingo, 3 de janeiro de 2021

As árvores de Janeiro

As árvores de Janeiro parecem saídas de quadros de Caspar-David Friedrich. Lúgubres e belas.

Crescei e multiplicai-vos

Na frontaria de um colégio, um painel de azulejos informa-nos que «A Virgem Maria Senhora Nossa Foi Concebida Sem Pecado Original». Parece uma daquelas mensagens de boas-vindas que indicam subtilmente o caminho da salvação.
Seriam contudo contraditórios entre si a mensagem e o local. Um estabelecimento que vive das propinas pagas pelos pais das crianças estaria condenado se os paroquianos resistissem à tentação da carne e do pecado original. Restar-lhe-ia, talvez, ampliar a fé e depositar também esperanças na lenda da cegonha.

Os vizinhos do lado

Os vizinhos do lado devem ter oferecido a si mesmos uma televisão nova este Natal e andam há dias a fazer-lhe a rodagem vendo até onde chega o ponteiro do volume de som. Ou isso ou perderam acuidade auditiva durante o confinamento. Em qualquer caso, desde o tempo em que no Alentejo tive por vizinhos dois anciães de oitenta anos bastante moucos que não estava a par do enredo das novelas e do Big Brother como estou agora

domingo, 27 de dezembro de 2020

O caso da chávena roubada

Há pouco tempo visitei clandestinamente uma casa que durante mais de quarenta anos me fascinou e, se não me trai a memória, era o último lugar “misterioso” das termas de Pedras Salgadas em que me faltava entrar.

Desde a minha infância, as Pedras têm sido esse lugar onde os edifícios fascinam enquanto habitados e fascinam mais quando vão sendo abandonados. Um lugar vivo tem o mistério do seu tempo, das pessoas diferentes de nós que enchem os compartimentos com os seus modos exóticos, enquanto um edifício devoluto tem a soma dos mistérios de todos os tempos, em camadas de pó como estratos geológicos, e o mistério maior do vazio, do insondável.

A Villa Adriana, que hoje vejo como construção simples, era moradia de eleitos, com uma arquitectura alheia à humilde tradição local, por vezes revestida de hera como nobre solar, e a promessa de um recheio elegante. O próprio facto de a casa ter nome, e um nome excêntrico, colocava-a num Olimpo inacessível ao comum dos mortais, ou pelo menos a mim.

Quando chegava o Outono e a época de frades, a minha família era das que esquadrinhavam com regularidade os canteiros do parque em busca dos cogumelos ambicionados. Em criança acompanhava o meu tio na sua missão recolectora e nas imediações da Villa Adriana o meu espírito dividia-se na expectativa de duas epifanias: a descoberta de um frade pelos meus próprios olhos, sem ajudas, e um vislumbre do interior da casa e das pessoas que nela habitavam. Não sei se alguma das coisas chegou a acontecer naquela idade.

Quando visitei a Villa Adriana fi-lo sem forçar a entrada. A porta estava apenas encostada, como se alguém aguardasse a minha visita — talvez os fantasmas das personagens fabulosas que ali habitaram e que só existiram na minha cabeça, mesmo que alguns dos seus sucedâneos humanos continuem vivos. Mas entrou comigo o adolescente que sonhava maravilhas em casas assim e por isso não resisti ao impulso atávico de trazer uma recordação.
(Os edifícios do parque foram ao longo dos anos espoliados do seu recheio, por interesses materiais ou nostálgicos, mas não me recordo de alguma vez ter participado num desses movimentos activos. Não mantive senão na mente um compartimento com memorabilia das termas.)

Provavelmente, o objecto que meti ao bolso, sorrindo para mim mesmo com condescendência, nem faria parte do inventário original da casa, já que os compartimentos albergam agora materiais de várias proveniências e sem atractivo: um stock de lâmpadas fluorescentes, por exemplo.

Na cave havia um cartaz também emoldurado com uma mensagem auto-motivante da Companhia de Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas há cinquenta anos. Nele lia-se: «A nossa expansão tem de medir-se em termos de actualidade» e, em baixo, de uma estrutura de lançamento de foguetões partiam sucessivamente três garrafas acompanhadas de uma data e um número, presumo que o total da produção nos anos indicados: 1966 (17 320 576), 1968 (23 956 895) e 1970 (31 734 749).

Numa mesinha de outro compartimento, partilhando a mesma cor azul, havia dois guias, um material e um espiritual: um User’s Guide da Hewlett Packard para um gravador de CDs e um Guia prático para o sacramento [não retive qual] com a mensagem «Suplico-vos: deixai-vos reconciliar com Deus». Talvez tenha estremecido um pouco nesse momento ao sentir no bolso o volume do meu despojo.

Na viagem de regresso, fiz um balanço da visita (os dourados na casa de banho, que há quarenta anos talvez me tivessem deslumbrado, pareceram-me agora um pouco kitsch) e satisfiz o desenhador técnico que durante anos fui, desenhando finalmente mas de cor a planta da casa. Pensei também no souvenir. Foi só então que, com novo sorriso condescendente, o achei adequado a mais do que o tamanho do bolso: afinal, uma chávena é o objecto fetiche da invocação do tempo perdido.


-------
P.S.: Se algum dos actuais proprietários das termas estiver a ler este post, saiba que prometo devolver a chávena, se ela fizer falta ao conjunto.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Fonte de discórdia

A narradora do romance Recordações do Futuro, de Siri Hustvedt, defende — como de resto a própria autora na sua vida real — a tese, assaz plausível, de que aquela que os especialistas consideraram a obra de arte mais influente do século XX, a célebre Fonte atribuída a Marcel Duchamp, foi na verdade uma criação da artista e poeta avant-garde e dadaísta Elsa Hildegard ou Baronesa von Freytag-Loringhoven.
O que acho irónico nisto não é haver um equívoco associado à peça que inspirou uma longa série de equívocos na arte, mas ver uma parte da comunidade que validou a ideia revolucionária e transgressora de “arte conceptual” ser hoje potencial veículo da perpetuação de um sentimento reaccionário: o patriarcalismo.
Explico melhor: a ironia não vem da resistência que especialistas oferecem à sugestão de que há uma autoria diferente e feminina para A Fonte, mas da possibilidade que se abre de vermos detractores habituais da arte conceptual tornarem-se de súbito acérrimos defensores do legado de Marcel Duchamp.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Sem palavras

O meu pai e eu não éramos muito faladores nos nossos telefonemas. Os telefonemas não serviam para contar coisas, na verdade, mas para declararmos com regularidade a nossa existência mútua enquanto pai e filho. Era como tocar com as pontas dos dedos nas costas de alguém que se ama, só para assinalar a presença, o afecto. Para reconfortar. Por vezes éramos tão telegráficos que parecíamos a sentinela nas ameias ou nas trincheiras dando voz de alento ou alívio: «Tudo calmo no posto norte». (Ou sul, dependia se ligava eu ou ele.)

Nas últimas visitas que pude fazer-lhe, desejei também usar o telemóvel, como aliás tinha já sido sugerido meio a rir meio a sério pela minha irmã mais velha, porque o meu pai estava a ouvir mal e agora, com máscara e painel acrílico entre a minha boca e as orelhas dele, a conversa era de surdos. Não o fiz, não peguei no telemóvel porque isso lembrava, ainda que erradamente, uma visita à prisão, como se vê nos filmes, e tive vergonha, mas tive sobretudo receio de que a ideia acabasse por não funcionar e o constrangesse também a ele. E assim constrangíamo-nos a olhar um para o outro, ele a tentar adivinhar as palavras, eu à espera que ele tivesse a iniciativa da conversa.
Havia coisas que gostaria de lhe perguntar sobre os oitenta e seis anos da sua vida e outras que queria contar-lhe sobre os meus últimos meses, mas duvido que alguma vez o fizesse, mesmo que ainda tivéssemos tempo, que não houvesse pandemia nem surdez, porque herdei isso dele, essa tendência para o mutismo sobre a vida própria.

O meu pai, que nos últimos anos voltara a ler com regularidade como numa fase da minha infância o vira fazer, leu os três livros que publiquei, mas fomos ambos bastante incapazes de falar sobre o assunto. Imagino que o primeiro o tenha entristecido um pouco, pela linguagem a espaços desabrida e obscena do personagem principal. Ou talvez não, ele tinha já a experiência de muitos anos de ver o seu filho mais novo escrever coisas menos adequadas e até de receber queixas sobre isso. Mas também recebia elogios, suponho, o que certamente o reconfortava e estimulava a magnanimidade de que era capaz.

De resto, o meu pai tinha já hábito de bondade em relação àquilo a que a sociedade considerava ovelhas tresmalhadas, mesmo quando no discurso corrente se mostrava crítico. Lembro-me que arranjou no parque das Pedras Salgadas nos anos setenta, princípios de oitenta — quando a sua influência, conquistada pelo trabalho e pela dedicação a pessoas e instituições, lhe permitia esse poder — uma sala de ensaios a um conjunto musical liderado por uma dessas ovelhas tresmalhadas, isto numa altura em que a maconha circulava com facilidade e indignação inauditas e se dizia que andavam por ali sacos dela vindos de África. Ovelha essa a que, de resto, concedeu também posteriormente amplo apoio enquanto autarca, precisamente, suponho, porque era capaz de reconhecer o talento e tinha um certo sentimento de protector da tribo.

Era por vezes uma pessoa severa e conservadora, herança da época salazarenta em que cresceu, mas era também uma personalidade reivindicativa, tanto que pode ser visto aí pelo Youtube num vídeo do pós-vinte-e-cinco-de-abril com ar e discurso de verdadeiro sindicalista a lutar pelos direitos dos trabalhadores seus colegas. Um dia a camioneta da loja de móveis parou na nossa rua e da camioneta descarregaram os sofás verdes que haveriam de ser os únicos sofás que toda a vida houve em casa. A perplexidade começou por ser da minha mãe, com os seis filhos de roda das saias, e depois foi dele, quando chegou e se pôs a declarar coçando a cabeça que não encomendara aquilo, nunca o poderia ter feito. Após algum suspense, a informação chegou: os sofás eram um presente de um grupo de trabalhadoras de quem ele era colega e encarregado.

A sua dedicação à terra e à companhia das águas das Pedras era total, criando por vezes certos ciúmes nos filhos. Mas não se lhe pode censurar isso. A companhia das águas e a terra e a família confundem-se, são uma e a mesma coisa, mesmo para mim, que há trinta anos não vivo ali. Quando se reformou tinha para gozar meses de férias. Foi entre outras coisas padeiro, distribuidor de pão, electricista, depois de em criança ter sido groom nos hotéis do parque termal e antes de se fixar definitivamente na “empresa”, que de certa forma, e como tantos outros, sentiu como sua. Talvez haja outras homenagens na terra àquele seu cidadão dedicado que foi também, em paralelo, presidente da junta de freguesia, vereador na câmara e director do clube de futebol local, mas a que ele me mostrou só o é indirectamente: o seu testemunho num vídeo em loop no museu das termas, o “Pedras Experience”. Ele orgulhava-se, e suponho que com legitimidade, do vídeo, não sei se com a consciência de o terem musealizado junto a outros vestígios termais.

Quando acabei o nono ano, o meu pai conluiou-se com um tio dele para porem os dois filhos rapazes mais novos (os outros já trabalhavam) a estudar em Vila Real num curso com acesso directo ao mercado de trabalho ao fim de um ano lectivo. O salário do meu pai mal dava para a conta da mercearia (às vezes não dava), quanto mais para trazer filhos a estudar. Na Escola Industrial e Comercial (hoje Secundária S. Pedro), havia a opção de secretariado, ou similar, mas romântica e imbecilmente o retardado do seu filho mais novo escolheu metalomecânica, achando que a parte de mecânica seria suficiente para o pôr a construir foguetões, ambição antiga de quem só sabia sonhar com aventuras e viagens espaciais. O meu pai estranhou decerto a escolha, inesperada para filhos que começavam a exibir tendências artísticas, mas respeitou-a, ou, com pragmatismo resignado, achou-a secretamente com mais saída. No dia das matrículas deu-me dinheiro para a carreira e logo ali concluí que ele e o tio tinham feito mal as contas, os preços tinham aumentado, o dinheiro dava para o bilhete de ida e pouco mais. Na altura ainda imperava a versão severa do meu pai e não me atrevi a dizer-lhe nada. Embarquei em silêncio, matutando durante a viagem em formas de regressar. Talvez o momento não tenha sido traumatizante porque ainda era Verão, dias longos, sabia vagamente o caminho para voltar a pé, estava habituado a andar fora de casa até tarde da noite. Entregues os papéis na secretaria em Vila Real, meti os pés à estrada para o regresso, esperando passivamente uma boleia, que só apareceu no alto da Samardã, uns doze quilómetros depois. O curso saiu portanto mais caro do que os cavalheiros planearam e, no final de um ano traumático (abominei a própria Escola até ao dia em que, ironia do destino, décadas depois, vim morar num prédio ao pé dela), com estágio apalavrado na empresa das águas (onde mais?), reunimos finalmente a coragem, o meu irmão e eu, depois de dias e noites a tremer de puro pânico, para anunciar que desistíamos desse projecto de vida e pretendíamos continuar a estudar no ensino “normal”. Eu estava mais ou menos a contar com a primeira sova paterna da minha vida. Mas os tempos eram já outros e a zanga, dura, teve apenas manifestações orais, com lamentações legítimas sobre a sua impotência para nos pagar estudos e a nossa visão romântica da vida. Tínhamos prometido logo no início da conversa, por antecipação, para amenizar a fúria, que não gastaríamos dinheiro em livros ou autocarro — e cumprimos. Nos três anos seguintes estudámos pelos livros dos outros e não houve condutor na Nacional 2 entre Pedras-Vila Pouca que não nos tivesse dado boleia, num sentido ou no outro. O meu pai continuou, imagino com que sacrifício, a alimentar-nos e vestir-nos. E a amar-nos, estou certo.

Quando fui para a tropa, raramente tendo contribuído para o rendimento familiar (numa campanha de censos não consegui reunir a quantidade mínima de inquéritos para ser pago porque, já antropofóbico, tinha pavor de fazer perguntas às pessoas, e o curso de balneoterapia onde o meu pai me deixou durante uma semana de Inverno no Luso foi também sem consequência, embora com excelentes notas), quando fui para a tropa, dizia, a minha legitimidade para esperar apoio do meu pai era muito reduzida. E no entanto ele quase sempre acorria aos meus telefonemas quando lhe pedia que me fosse buscar à Régua nas sextas à noite em que conseguia ali chegar de comboio, vindo de Elvas, já sem ligações para a linha do Corgo. Nem se zangou comigo quando uma das vezes se prestou ao frete de ir à Régua já de madrugada e ali chegado não me encontrou, porque eu me deixei dormir em serviço e não dei conta que ele chegasse, nem ele me viu no meio de tanto magala verde estendido na escuridão sobre os bancos da carruagem que ao final da manhã seguinte iria até Vila Real. Não regressou de mãos a abanar porque apanhou um vizinho marinheiro com sono mais leve e ele gostava de ser útil às pessoas, mas imaginei-o zangado, com justeza, por o ter feito tolamente gastar gasolina e tempo. Contudo, foi divertido que me recebeu no dia seguinte ao almoço.

Antes de arrastar isto por uma autobiografia maçadora e inoportuna, devo dizer que a 9 de Dezembro de 2020 cessaram as respostas do posto norte. Não mais haverá telefonemas que nos assegurem mutuamente que estamos bem. Não mais haverá telefonemas a combinar almoços ao domingo. Não mais terei a oportunidade de o ver de novo aguardar-me com paciência e bondade como quando eu chegava por sistema atrasado para o ir buscar. Não mais teremos desses almoços em que também não falávamos muito mas éramos muito — devotamente, dedicadamente, afectuosamente — pai e filho. Fica um vazio terrível, maior do que o da falta de palavras (que nunca nos incomodou propriamente): o da ausência.

O cemitério onde o enterrámos anteontem numa urgência que não era nossa, nesta época terrível em que se enterram os mortos como se tivessem lepra, fica ao pé da igreja onde íamos aos domingos antes de almoço, quando ainda cumpríamos a tradição de ir à missa. Mas não é essa igreja que me fica na memória associada ao meu pai. Não é nenhuma igreja, na verdade, mas as manhãs de Inverno como a de anteontem em que optávamos por uma missa mais matutina no outro templo da terra e, regressados a casa, enquanto a minha mãe acendia o fogão a lenha e preparava industrialmente torradas para uma família de nove famintos devoradores de pão, o meu pai liderava um mantra que cantávamos em volta da mesa da cozinha, qual tribo invocando chuva, uma cantilena com letra onomatopaica que marcava o ritmo com que arrastávamos ou batíamos os pés para os aquecer. Era um momento de pura ternura paternal. Sem palavras, claro.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Lamber sabão

Havia quem afirmasse conseguir vender presidentes como quem vende sabonetes. Actualmente, a Bertrand vende, sem ironia, uma «colecção exclusiva» de «sabonetes literários». Pelo seu lado, a Gradiva mostra-se hoje ufana com o «Prémio Cinco Estrelas» atribuído a um seu autor por uma entidade dedicada a «testes e estudos de mercado» e que distingue marcas, personalidades e media.

O autor, adivinharam, é José Rodrigues dos Santos, cujos livros foram submetidos a, perdoem-me a longa citação, «um sistema de avaliação que mede o grau de satisfação que os produtos, serviços e as marcas conferem aos seus utilizadores, tendo como critérios de avaliação as cinco principais variáveis que influenciam a decisão de compra dos consumidores: Satisfação pela Experimentação, Relação Preço-qualidade, Intenção de Compra ou Recomendação, Confiança na Marca e Inovação.»

Com toda a legitimidade, perante uma avaliação assim criteriosa, os fãs do autor já se começaram a manifestar afirmando que, se dúvidas houvesse, ali a está prova definitiva da qualidade literária de JRS.

Eis algumas das primeiras reacções (verdadeiras):
— Parabéns! Caro amigo, nada melhor para calar os invejosos que a realidade deste prémio, e o facto de se venderem milhões dos seus livros. A arrogância dos que se julgam "divinos" cega-os.
— Um prémio bem merecido para calar os que só mostram como são pequeninos face ao êxito dos outros. Somos um povo invejoso.
— Merecido um escritor fantástico.
— Bem merecido. Cala a boca a muita gente.

Como se compreende, seria fútil mandar a tropa acima ir lamber sabão, porque, no que diz respeito ao saponáceo ingrediente, estamos já perante assíduos consumidores e verdadeiros gourmets. Presentes, de resto, como se vê, em toda a linha de produção e comercialização do dito.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Se isto é um Omo: o branqueador de Auschwitz

Há duas teorias sobre a suavização do nazismo que o pivot arvorado em escritor José Rodrigues do Santos operou através de uma entrevista e de dois livros. A primeira diz só isso, que o tipo suavizou o nazismo. A segunda diz que ele fez o que faz sempre que tem livros novos: criar uma polémica forte para vender mais livros.
No primeiro caso, JRS é um revisionista histórico, com um programa promovido sabe-se lá se pelo ego (a vaidade de alegadamente ter descoberto coisas que uma geração ou duas de historiadores não descobriram), se por razões ideológicas.
No segundo caso, trata-se apenas de alguém sem escrúpulos, capaz de tudo para vender mais uns livros.
(Há na verdade uma outra hipótese, que é JRS ser apenas tonto e o mundo mediático que o leva nas palmas não ser mais assisado.)
O meu diagnóstico sobre a criatura em estudo, olhando daqui, é que provavelmente se trata de um compósito, um híbrido que além disso tem um olho-que-pisca, o que não deixa de ser um feito da natureza, se não for um upgrade de tamagotchi.
Isto conduz-nos aos seus leitores. Eles deviam saber que, além de mal entretidos (há muita obra capaz de entreter melhor do que as posturas galináceas de JRS), ao comprar-lhe os livros estão a ser vítimas e cúmplices de rodriguinhos, digamos, pouco santos.
Não faço aqui um apelo à censura dos livros de JRS, mas não tenho nada contra o boicote. O pivot deve ter o direito de escrever as baboseiras que quiser (dentro de certos limites constitucionais), mas os leitores devem ter o direito e a decência de o mandar à merda.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Desbeatificação

A propósito do post anterior, lembrei-me de uma entrevista que fizemos para o Eito Fora a um padre na reforma que tinha fama de grande cultura e sabedoria e o hábito quotidiano de caminhar. Perguntamos-lhe, esperando encontrar um filósofo viandante como Rousseau, Kant, Nietzsche ou Thoreau, se o costume das caminhadas traduzia o seu gosto pela meditação ou pela natureza.
— Não, não. O médico disse-me que tinha de andar. Por causa da próstata, sabe?

Just a perfect day

Com o recolher obrigatório, o Governo devia decretar também frio e ameaça credível ou concretizada de chuva para que como hoje só se atrevesse aos caminhos do rio meia dúzia de portadores certificados de diabetes, colesterol ou próstata hipertrofiada — e os melancólicos, que precisam de passear a existência.
Ah, nada melhor do que a humanidade confinada.

sábado, 5 de dezembro de 2020

O fim dos “Manifestos”

Quem me lê sabe que mantive nos últimos anos uma suave mas persistente embirração com os “Manifestos” da LER. Não porque os textinhos fossem mal escritos ou ignorantes (pelo contrário), mas porque denotavam demasiadas vezes uma obsessão ou uma certeza doutrinárias, não raro furiosas, bastante comparáveis às dos fenómenos ou movimentos sociais de cuja crítica se ocupavam.

Depois, havia com frequência uma tal sintonia de sentimentos e forma entre FJV e BVA que me perguntava progressivamente, ao verificar as iniciais que assinavam os textos, quanto desta minha impressão se devia a gralha dos tipógrafos, provocação lúdica dos autores ou resultado de uma escala de serviços cumprida quando conveniente com troca oficiosa de turnos.

Por fim, estava o facto de uma parte dos textinhos — suponho que atribuível a Francisco José Viegas, mas não sei a que ponto foram levados os equívocos ou combinações que referi no parágrafo anterior — ser material requentado do blogue A Origem das Espécies, o que não ficaria mal a uma revista miserável como a Periférica mas lançava um ligeiro opróbrio sobre a LER.

Agora — diz a LER, confirmando uma inconfidência de Bruno Vieira Amaral em comentário ao meu último post da série dedicada ao assunto — os “Manifestos” acabaram: «saúdam e despedem-se».

Não escondo que, apesar do alívio (o médico já não aconselha irritações), me rola uma sincera lágrima pela face.


---
Adenda: Bruno Vieira Amaral, em comentário a este post no Facebook, esclarece: «Não cometi qualquer inconfidência sobre o fim dos manifestos. Aliás, fiquei a saber do fim dos manifestos ao ler o teu blogue, que era o sítio onde me ia mantendo informado sobre as novidades da revista.»

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O caso do Wallace desaparecido

Li ontem com gosto Um crime da Solidão — Sobre o Suicídio, de Andrew Solomon, mas cheguei ao fim com uma vaga sensação de ter sido enganado, sem ter logo percebido porquê. Ao revisitar a contracapa antes de pousar o livro tive a resposta.

Já tinha lido vários elogios ao autor mas nunca tinha lido nada dele. Há dias encontrei esta obra por acaso na livraria e pensei «é agora». Reforçou o impulso a informação de que o volume reúne «uma série de textos sobre o suicídio, analisado sempre a partir de uma história pessoal ou de um caso concreto: quer do círculo mais íntimo do autor (...); quer de figuras públicas (…), ou até os de celebridades literárias, como David Foster Wallace ou Sylvia Plath.

Ora, a referência ao caso de Wallace (cujas obras aprecio e por cuja biografia tenho curiosidade) é de facto apenas isso, uma referência. Na página 107, lá está, sem dúvida: «A imagem do suicida literário, do escritor cuja servidão ao ofício pode ser consequência ou causa de mais terrível depressão é recorrente; David Foster Wallace é o último elo dessa triste corrente.» E pronto, termina aqui a participação do autor de A Piada Infinita. Mero figurante.

A obra é pequena, não se estaria à espera de ensaios profundos sobre cada um dos casos referidos, mas, bolas, por que trazer o nome deste escritor para a sinopse se o caso dele nem sequer é analisado? Vício de name-dropping? Para compor o ramalhete? Piscadela de olho a leitores como eu?

De resto, o livro é interessante por si, dispensa o alardear forçado de casos famosos. Contudo, e isto já não será culpa da editora, eu apresentá-lo-ia não como um livro «sobre o suicídio» mas como um livro «sobre o suicídio na sua relação com a depressão». Que é o tema em que Solomon é especialista e a que se dedica sobretudo o último texto desta recolha, o maior.