quarta-feira, 22 de julho de 2020

Ténis em Tempelhof

Depois do Adria Tour, que consagrou (e internou) Djokovid, também a Alemanha teve o seu torneio de exibição, jogado em duas partes e dois pisos: relva e asfalto. A primeira parte decorreu previsivelmente no relvado de Frau Steffi Graf e a segunda, após um mal entendido que ninguém quis desfazer, teve lugar num aeroporto. Poderia ter sido nos autódromos de Nürburgring ou Hockenheimring, mas alguém interpretou de forma ainda mais particular o conceito de «piso rápido» e a escolha acabou por ser Tempelhof (Tegel e Schönefeld não estavam disponíveis).
Os jogos decorreram num hangar, é certo, porque a Alemanha é bastante chuvosa mas não tão eficiente ou perdulária que pudesse cobrir um court na pista central (mesmo que desactivada) num prazo tão curto e por motivo tão efémero.
Tratando-se de um torneio em tempo de pandemia, condicionou-se o número de espectadores e o número de juízes de linha. Dos primeiros permitiram-se duas centenas no «estádio»; dos segundos, nenhum. O árbitro de cadeira foi coadjuvado por um sistema de karaoke ou de video game, não deu para perceber bem. Talvez houvesse nos bastidores juízes de linha sentados em frente a ecrãs, com camisas e chinelas havaianas, a gritar em off para o roufenho sistema de som do hangar, mas o mais provável, num tempo de distância social e inteligência artificial, é terem encarregado um computador desse serviço, deixando-o seleccionar vozes irritantes da Play Station para os brados de «out» e «fault».
O resultado foi que se criou num hangar de Berlim o ambiente tropical do Open da Austrália, com as vocalises técnicas a lembrarem a ruidosa fauna avícola de Melbourne (como se Hitchcock estivesse responsável por assinalar cada erro, forçado ou não forçado).
Se Nadal tivesse ido a Berlim, ficaria decerto incomodado com a banda sonora (evocativa do último Grand Slam perdido) e sobretudo com a provocante ideia de dispensarem os apanha-bolas de tratar das tolhas dos tenistas. Teria, em todo o caso, um avião à porta para sair sem dar satisfações a ninguém.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Põe mais erva nisso

Nos últimos dias transmitiram-se pela primeira vez na temporada jogos em relva, ficando assim a Eurosport livre da acusação de preconceito anti-vegan. Contudo, o piso estava tão gasto, com tão pouca relva e tanta terra à vista na zona dos serviços, junto à linha, que, num leve despertar entre sets, suspeitei por instantes estar a ver futebol e estranhei, a bola, em primeiro lugar, mas sobretudo não se lançar o guarda-redes com as mãos ambas para a apanhar.

terça-feira, 14 de julho de 2020

O último baile de máscaras

Este mundo disfuncional e ameaçador da Covid-19 sugere-me, na brisa nocturna que mal perturba o calor e o avançar das horas, Melancholia, o maravilhoso filme de Lars Von Trier. E por instantes penso, olhando o céu estrelado pré-alvorada e lastimando solares que não tive, que, se vamos chocar com o nosso fatal destino, talvez pudéssemos aproveitar as contingências para um último acto elegante. Já temos as máscaras, só nos falta o espírito.

Verão perdido

Neste estranho desfile de máscaras em que nos vemos arrolados, lamento sobretudo algo que lhe é anterior e alheio: a impotência para travar o Verão. Nasci no último dia da estação, num Setembro de que não guardo registo, e não sei se e como isso explica a minha nostalgia ou a minha obsessão, concedendo aos astrologistas que explica alguma coisa.

No dia em que oficialmente se inicia o Verão, ou no dia em que ele se manifesta pela primeira vez como conjunto esperado de fenómenos atmosféricos, começo eu, que o ansiei em cada dia dos meses anteriores, a lamentar que se acabe tão depressa. Hoje, 13 de Julho, levo já umas semanas a chorar o Verão perdido de 2020. E aconteceria o mesmo se não estivesse a cismar ataviado de máscara cirúrgica.

Parte desta sensação de Verão perdido é explicada por não ter como me retirar por três meses para reaver, num solar de família ou num monte alentejano, um Verão eterno como os da primeira adolescência (na segunda, fui trabalhar de ajudante de electricista e julgo que se iniciou aí o fim de Verão, como se acabou a civilização com o fim do ócio grego).

Todos os meus sonhos felizes — e por isso quase todos os meus livros (o que poderia interessar à Chiado ou a algum discípulo de Freud) — têm em algum momento luz estival coada por ramadas, ou por copas de plátanos em fileiras, ou por pinhais densos de piquenique, ou por choupos à beira-rio, mesmo que sob outras descrições e classificações botânicas. Fui à Internet procurar um quadro de Malhoa onde esta luz e esta sombra ficaram gravadas, mas não o encontrei, embora tenha a certeza de que ele as conhecia, há disso indícios noutras obras. José Malhoa era decerto, como naturalista ou impressionista, um atlante do mesmo continente estival que perdi.

Nas propriedades da minha família, triste zeitgeist, as ramadas foram sendo cortadas, desapareceram dos locais onde antes podíamos contar com elas. De pátios e terraços, saíram para dar lugar a novos compartimentos da casa. O último abate foi recente e não deu lugar a nada. Como metáfora, não podia haver melhor. Ou pior.

Malhoa

Uma nação revela-se quando uma pesquisa no Google por José Malhoa tem como primeiro resultado o autor de Ana Malhoa e outras obras escusadas.

domingo, 12 de julho de 2020

A contagem do tempo

Como melancia e leio sobre Gomorra em Balbec. É Verão e os prazeres conjugados dão por momentos uma impressão de plenitude e de suspensão do tempo. Depois as grainhas da melancia obrigam-me a desviar por instantes os olhos da página. Experimento ignorá-las e engolir tudo junto, mas o mal está feito. O tempo foi retomado.

Osga

Em toda a minha longa vida apenas vi osgas* no Vietname e no Alentejo. Ontem estava uma cá em casa na varanda bafejada pelo Alvão. Se isto não prova as alterações climáticas, demonstra pelo menos, depois do furão de há uns anos, as estranhas opções dos vizinhos na hora de escolher animais de estimação.

(Para outras aparições, consultar: https://canhoes.blogspot.com/2020/02/corvos-marinhos.html)


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* Refiro-me ao réptil.

sábado, 11 de julho de 2020

Análise da final de 2019 do Open dos Estados Unidos

Ontem repetiram a final épica do Open dos Estados Unidos entre Nadal e Medvedev. Espreitei outra vez os pontos finais só para ver a raiva e o olhar maníaco de Nadal perante a possibilidade de perder o jogo, frente a um Medvedev quase zen, por comparação.

Quando vi pela primeira vez esta final já sabia o suficiente de ténis para perceber que não tinha um favorito. O que é raro. Geralmente torço pelo mais fraco, desde que mostre talento, empenho e seja gentil. (Quando joga Federer é por ele que torço sem hesitar, ainda mais nesta fase da carreira, em que já soma frequentemente aquela primeira condição às três habituais virtudes.)

Nadal é a opção óbvia dos comentadores e dos fãs quando se perguntam entre si quem é o favorito — logo, não é a minha. Também porque me incomoda o seu ar caprichoso, de vítima, de injustiçado quando as coisas não lhe correm bem, perplexo por a realidade nem sempre obedecer ao seu reinado, para o qual o treinaram como príncipe predestinado.
Medvedev é frequentemente ainda mais parvo, talvez porque não há muito que deixou de ser adolescente, mas naquela final de 2019, durante o tempo a que assisti, estava a portar-se com uma nobreza e um estoicismo comoventes. Juro que na primeira vez em que vi o jogo quase lhe dei o meu apoio.

Federer — que foi apanha-bolas, dizem-me, e talvez por isso —, é o mais aristocrata dos jogadores, não no sentido snob e glamoroso, mas na consciência serena da sua superioridade, que lhe permite distinguir-se pela cortesia e não se deixar perturbar por ocasionais infortúnios. Se fosse personagem de Proust, era um Guermantes, pelo lado da duquesa.

Ora, neste déjà vu, os meus olhos, não por tédio, focaram-se de novo nos apanha-bolas, na sua postura à beira do court. Lembraram-me os pedintes que vi pela primeira vez em Praga há mais de uma década, ajoelhados e inclinados para a frente, apoiando-se nos cotovelos com as mãos em prece ou estendidas no solo. Uma postura de desespero ou fervor religioso que visa comover ainda mais os transeuntes, tocá-los pela mostra de abnegação, pela dimensão espiritual.
Talvez os apanha-bolas nos Estados Unidos queiram demonstrar igual fervor no exercício da suas tarefas, dar provas de total entrega. Ou talvez tenha sido só uma ideia palerma da organização, assente numa qualquer noção errada de motricidade e aerodinâmica. Se o objectivo fosse ter os apanha-bolas prontos a saltar para o court como se impulsionados por mola que se solta, talvez pudessem ter-lhes dito que bastava ou melhor se adequava um só joelho no chão e lhes pudessem instalar uns blocos de partida como os que se colocam nas pistas dos sprinters. Assim, sem rigor técnico e com alusões místicas, sugerem, mesmo que apenas por nescidade, a subalternização, a servidão a que os moços e as moças devem sujeitar-se, quais criados de quarto, como referi no primeiro post desta série.

A rapidez dos apanha-bolas é importante para não interromper o ritmo do jogo, defende-se. Mas talvez, nesse caso, e para evitar más interpretações, devessem contratar galgos, e juntarem aos habituais gritos dos juízes de linha a vocalização «busca, busca». Havia mais vezes bolas novas, é provável, mas isso os jogadores se calhar até agradeciam.

De resto, a excessiva disponibilidade sugerida pela forma como se apresentam ou são apresentados os apanha-bolas pode levar à rudeza dos jogadores, como no célebre episódio de Fernando Verdasco, que pôs em debate a continuação dos apanha-bolas também como porta-toalhas (toalheiros vitesse, charriots de competição).

Aqui convém esclarecer que, quando Federer se manifestou contra a proposta de os apanha-bolas deixarem de entregar toalhas aos jogadores, não estava a ser snob ou desleal, mas a ser cortês — com Nadal. «A ideia de os apanha-bolas nos ajudarem com essa função da toalha», disse Federer, «é tornar o jogo mais rápido. Se eles deixarem de nos dar as toalhas vai perder-se muito tempo. Há jogadores que suam mais e assim vão perder mais tempo.» Ou seja, há jogadores que vão ter ainda mais penalizações nos serviços, não é Nadal?

Proust: 10/07/1871


Se a pneumonia não tivesse dado cabo dele, Marcel Proust seria hoje uma curiosidade de feira com 149 anos. Tendo morrido quando lhe competia, ficou apenas como uma curiosidade literária: o tipo que escreveu 3.500 desnecessárias páginas. (Noto que teria garantido um lugar no Guiness em qualquer dos casos.)

Só reparei na data, atrasado, porque o excelente António Gregório a referiu no Coração Acordeão*. O mesmo António, autor de duas obras imperdíveis (O Condómino e Documentário), forneceu-me também uma capa para a temporada. As leitoras e os leitores entenderão que sob esta imagem se reúnem os três tópicos que mais me ocupam desde Março, mais casaco, menos casaco.

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*https://antonio-gregorio.tumblr.com/

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da nostalgia à alienação

Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)

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* Excepto para David Foster Wallace.

terça-feira, 7 de julho de 2020

A Flock of Seagulls

A nostalgia é um péssimo juiz. Age exactamente como o trauma, mas em sentido oposto. A pessoa traumatizada repelirá, odiará, desprezará ou temerá, com fobia ou pânico, tudo o que tenha uma relação com a causa do seu trauma. Os nostálgicos, pelo seu lado, acham maravilhosa qualquer coisa que evoque um passado onde tenham estado ou a que se sintam ligados, mesmo que tangencialmente.

Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.

Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.

Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.

Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ténis e tontarias

Isto da pandemia tem as suas vantagens. Ao diminuir-nos as distracções fora de casa, aumenta as possibilidades de ler, escrever e desenvolver obsessões patetas. Noto que tenho cumprido com certo denodo estas três premissas: teimo no Proust, escrevi posts numa cadência que há muito não tinha — e boa parte deles foi uma abordagem insistente e tonta a algo que nunca me tinha interessado muito, o ténis.

Se alguém por hipótese improvável e insanidade temporária quiser ler o conjunto de enfiada, basta descer a coluna da direita e clicar na etiqueta «Ténis». (Não clique na etiqueta «Tontarias», porque lhe aparecem demasiados posts. «Tontarias» é, literalmente e por larga maioria, a etiqueta que mais classifica o que escrevo no blogue, não sei se por uma soma patológica de momentos de modéstia excessiva se por inescapável honestidade.)

domingo, 5 de julho de 2020

A persistente tradição de guardar bolas para o segundo serviço

A Eurosport e eu já estamos na fase de repetir jogos, pelo que chegou a altura de acabar com a Covid-19 ou, pronto, de adquirir direitos de retransmissão de outros torneios. Wimbledon, por exemplo, nunca aparece na grelha. Consequência do Brexit? Preconceito anti-vegan?

Seja como for, nesta altura já trocava uma partida do Grand Slam por um qualquer joguito não visto, nem que fosse do Estoril Open.

A fraca consolação de rever jogos reside no ensejo de repararmos (ainda mais) em aspectos não desportivos da modalidade, alguns bem intrigantes. O vestuário, por exemplo, é no ténis tema inesgotável. Podemos ter em relação a ele, particularmente o feminino — e consoante o espectro dos nossos interesses (ou o grau da nossa depravação) —, uma abordagem apenas curiosa, fashion geek ou voyeur. No limite da perversão, a julgar por algumas pesquisas no Google e tendências pornográficas dos anos 80, um jogo de ténis feminino pode corresponder, em termos de batimentos cardíacos do espectador, a um filme erótico.

Quando tentei perceber por que não é vulgar as tenistas usarem calções com bolsos — preocupado exclusivamente com aquilo que me parecia uma dificuldade: o armazenamento de bolas suplentes na hora do serviço —, deparei-me com explicações em várias línguas sobre a forma como os vestidos justos e as saias curtas permitem às mulheres manterem a sua feminilidade enquanto disputam torneios de milhões. A conquista suada de troféus e de cheques com muitos zeros parece, segundo algumas análises, coisa intrinsecamente vil e masculina, pelo que se uma senhora tem de condescender nesse desiderato deve, pelo menos, fingir que está na praia. Na praia dos glamorosos anos 50.

Não quero que este post pareça alinhar na sugestão de que são as mulheres, as mulheres tenistas, que mais se preocupam em erotizar a sua imagem enquanto dão pancadas na bola. Nem tenho, por outro lado, ao contrário de certas organizações e tradições do ténis, nenhum dress code ou moral a recomendar a ninguém (muito menos a pessoas que jamais lerão este blogue). Mas temo que a saia curta dominante, com folhos ou sem eles, seja um compromisso entre jogadoras, instituições e expectativas sociais, um compromisso para que, focando-se o mundo nas suas coxas, elas sejam deixadas em paz e concentradas apenas nos seus jogos. Porque sempre que alguma jogadora introduziu mudanças no outfit ou simplesmente tirou e voltou a vestir a sua t-shirt num canto do court (o que até mereceu aplauso entusiástico da, neste ponto igualitária, falange voyeur), levou, como há pouco Alize Cornet, com o dedo em riste da moral tenística.

Suspeito por isso que a tradição da minissaia no ténis, como a do decote nos trajes femininos dos séculos dezoito e dezanove, permite sobretudo aos cavalheiros fingirem-se — em simultâneo ou alternadamente, como convier — sensualistas e castos.

Considerando que a anatomia feminina não difere da masculina em tal grau que obrigue a formas diferentes de armazenar bolas suplementares, e considerando também que a não abolição do hábito de se guardarem bolas para o segundo serviço (quando os apanha-bolas se tornaram tão ágeis) não trai vício masculino, não seria expectável, dada a diversidade humana, ver-se mais marcas a desenhar calções femininos com bolsos — e homens a enfiarem bolas na lycra por baixo dos calções? Ou das minissaias?

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Cocktails

Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Covers

Lá pelos primeiros oitenta, a adolescência da minha terra carpia amores ao som de melodias dos setenta. Não porque a década oitava do século fosse pouco baladeira ou fracassasse muito ao tentar sê-lo (os corações feridos têm, de resto, na sua ânsia por xaropes milagrentos, ouvidos generosos). Acontecia apenas que as modas (na acepção musical como nas outras) demoravam o seu tempo a chegar aos lares onde se carpia. Lá em casa, por exemplo, numa prova de que a imagem se desloca mais rápido do que o som, já andávamos todos muito new-romanticamente a descolorar de dia o cabelo com água oxigenada e ainda ouvíamos à noite “Love Hurts”, musiquinha guinchada pelos Nazareth e o seu vocalista com voz de gaita-de-foles (instrumento que ele também tocava, informa a Wikipedia). Mais tarde viríamos a descobrir, com pena, que a canção nem era deles, mas dos Everly Brothers. Digo com pena não porque tivéssemos alguma coisa de princípio contra covers, mas porque se havia música melhor para carpir amores do que a da década de setenta era a da década de sessenta: alguns traumas sentimentais poderiam ter sido evitados se em vez da versão hard rock tivéssemos ouvido a gravação rock’n’roll. Aliás, pela mesma altura já estava a ter excelentes efeitos curativos, como notório avanço medicinal do célebre método oitocentista da sangria, outra canção dos sessenta que nos arrancava com frequência lágrimas dolorosas mas necessárias, a “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers — de quem invejávamos sobretudo, do fundo do coração (e dos pulmões), o volteio que ouvíamos perto do primeiro minuto da cassete* e que mais ninguém (nem eles) conseguiu depois imitar (e foram muitos os que tentaram).
Mais tarde ainda (tipo, agora) descobrimos que também não foram os manos Righteous a escrever a “Unchained Melody”, mas um casal broa-de-mel chamado Felice and Boudleaux Bryant, cuja versão, depois de ver a fotografia dos autores, não procurei por mero preconceito já traído atrás nesta frase.

Certos hits são como palimpsestos ou sítios arqueológicos: mexemos neles com uma escova de dentes de dureza média ou mesmo suave e encontramos algo por baixo. A experiência pode ser frustrante se descobrimos durante a escovagem que certos deuses do nosso panteão padecem do vício ignominioso de cançonetistas como Marco Paulo ou Tony Carreira. É então que nos faz bem ouvir alguém tão velho e sapiente como Johnny Cash numa cover, por exemplo, de “Personal Jesus”, dos Depeche Mode. Se um ancião da country pode pegar numa música de uma banda industrial da Inglaterra... Esperem, chegaram mais informações: diz que os DM escreveram a canção inspirando-se em Elvis Presley. Além do mais, a música soa bastante americana...
Adiante. Se somos capazes de ouvir com gosto pessoas de gerações e tribos distintas cantar a mesma melodia, talvez a arte não resida apenas na criação mas igualmente, ou em proporção justa, na interpretação. Como não amar “Smells Like Teen Spirit” por Tori Amos? Música desses Nirvana que cantaram Bowie em “The Man Who Sold The World”. Mutatis mutandis, o que nos importava a nós, há um século, se quando a Kim Wilde cantava “You Keep Me Hangin’ On” estava a fazer uma cover das Supremes? (Ok, aqui talvez não fosse exactamente a mesma coisa. Ou só essa coisa.)

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* Por «primeiro minuto da cassete» entenda-se o primeiro minuto deste vídeo: https://youtu.be/qiiyq2xrSI0

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Ténis: a jornada de ontem

A jornada de ontem, em Melbourne, incluiu um jogo entre Wawrinka e Zverev e outro com Nadal e Thiem. No primeiro, um Wawrinka a perder por 2 sets a 1 e em perigosa desvantagem no quarto set reserva ainda uma parte da sua energia para pedir desculpa a um apanha-bolas por lhe ter enviado deficientemente uma bola perdida e para, a meio da preparação de um serviço, responder com simpatia «it’s not gonna be easy…» ao público que lhe diz «you can do it».
No ténis, não há como não gostar dos suíços, mesmo quando perdem.

No seu jogo, Nadal irrita-se, como de costume, com uma advertência do árbitro por exceder o tempo do serviço, faz gestos e caretas à multidão que não se cala imediatamente quando vai servir e, ficamos de repente à espera, prepara-se para mandar vir com os pássaros que sobrevoam estridentemente o estádio.
(Vou agora ver o resto do jogo esperando que perca.)

Talvez para desanuviar o ambiente, ou para dar provas de uma atenção especial ao pormenor, o comentador desta partida faz erudita e inesperadamente notar que o DJ em funções é um verdadeiro patriota: só passa Men at Work, INXS, AC/DC e Bee Gees. (Fui ver, os Gibbs viveram parte dos anos sessenta na Austrália, quem diria.)

Necrofagia

Aparecem-me no Facebook com regularidade, sem que os subscreva, posts de tablóides e revistas cretinas. Hoje fiz a experiência de denunciar uma destas por necrofagia não consentida, mas o Zuckerberg recusou, não percebi se porque não tem dicionarizada a palavra ou se porque partilha o apetite e o algoritmo moral de um urubu.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O caixote das coisas justas

Nas mudanças de estação, se não somos adeptos de disruptivos banhos de loja, imergimos decerto no guarda-roupa lá de casa em busca da indumentária da época. Dá-se o caso, a partir de certa idade e de certo genótipo, de encontrarmos ali peças, ainda em anos anteriores viáveis e suficientemente neutras para irem bem com qualquer moda, que de repente se não deixam vestir, encalhando nas curvas. É a altura em que, se temos familiares receptivos e magros ou subestimamos a vaidade dos pobres que visitam o contentor público de roupas usadas, atiramos com intenção pretensamente temporária (mas procrastinadora) as peças para o caixote das coisas justas. E ficamos de repente pesarosos. Não pela silhueta perdida, mas pela possibilidade, que nos sugere a reverberação do nome, de no caixote termos vindo a arquivar mais do que roupa.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Os três tês de um prelúdio para a crise: ténis, tempo (perdido) e Titanic


Os meses de quarentena e desconfinamento, que afortunadamente, ao contrário de muitos, vivo como uma espécie de prelúdio para a crise, têm-me servido sobretudo para ler o Proust que com método vinha adiando para a reforma e para ver ténis como nunca imaginei ver desporto nenhum, acumulando quantidades insensatas de partidas, glossário e bisbilhotice temática.

Se sobreviver para resumir este período e este estado de espírito, talvez possa invocar retrospectivamente uma entrada de diário não escrita que imite, na sua aparente inconsciência ou indiferença, a de Kafka a 2 de Agosto de 1914: «Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar.»

Mas, na verdade, tendo em conta o ambiente glamoroso e festivo por onde se passeia o narrador da Recherche e em que disputam os jogos as maiores vedetas do ténis, o meu estado de espírito, não substancialmente diferente, é mais bem descrito como o de um passageiro do Titanic que, informado do iceberg mas resignado ao embate, procura não desperdiçar nenhuma dança e certamente nenhum cocktail.

De resto, o relato no diário, se o puder escrever ainda que postumamente, acabará por ser o mesmo. Porque, mais tarde, na falta de um deus ex-machina, o passageiro, do Titanic ou do Lusitânia (perdão, é forçoso distinguir as guerras: da Lusitânia), vai sem dúvida nadar. Isto na melhor das hipóteses. Ió.


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* Se preferirem uma versão menos sombria e houellebecquiana deste 2020, aproveitem a Mínima Luz e mantenham-se à tona com outros três tês, Três Tristes Tigres: https://youtu.be/XL4i9X0wC18

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Os tiques de Nadal

Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

«Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido»

Vi esta citação de Bruno Vieira Amaral e preparei-me para sacar a pistola porque, depois de tanto ler livros e entrevistas de autores, a mim parecem-me é simplesmente estúpidas todas as afirmações prescritivas ou restritivas sobre a artesania da escrita.
Mas depois, caros facebookianos, porque não se deve reagir apenas a títulos, fui ler a frase no seu contexto e percebi que aquilo era o autor a falar sobre si mesmo e não uma daquelas regras «universais» em que muitos escritores são useiros e vezeiros a extrair do próprio umbigo.


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(Entrevista aqui: https://oquedizestu.blog/2020/06/03/bruno-vieira-amaral-comecar-um-livro-pelo-titulo-parece-me-simplesmente-estupido/)

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A morte de um afro-americano

Uma forma sofisticada de racismo, que utiliza o álibi do combate ao «politicamente correcto», afirma que a designação «afro-americano» é segregacionista, porque divide uma população que é toda «americana». Pretende quem tal propõe que, ao auto-designarem-se de afro-americanos, os negros dos Estados Unidos cultivam a sua própria guetização.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.

domingo, 31 de maio de 2020

Ténis nostálgico (e perigoso)


As noitadas de ténis no Eurosport são agora dedicadas a finais históricas. Ontem jogavam, como pela primeira vez, Andre Agassi e Jim Courier. Ganharia este último.
Segundo o comentador de serviço, Agassi estava a correr mais na fase final «apesar do equipamento espampanante». («Mas não tão espampanante quanto o ano passado, em tons de rosa.») Deduzi que, se tivesse jogado de rosa, Agassi teria perdido por maior diferença. Ou teria corrido ainda mais, não sei, não sou especialista em ténis.

A imagem quadrada e de fraca qualidade da transmissão e o equipamento «espampanante» de Agassi, somado ao seu penteado, conseguia transportar-nos para a época, ressaca dos anos oitenta, e no final do jogo desiludiu que o canal não tivesse reposto o filme A Lagoa Azul, um dos desportos favoritos dos adolescentes de então, protagonizado pela que viria a ser brevemente mulher de Agassi.

Reparei, já não me lembrava, que o juiz de rede (é assim que se chama?) estava literalmente sentado junto à rede, inclinando-se sobre ela e tocando-a para melhor a sentir nos momentos dos serviços, como o rapaz carinhoso do filme Free Willy, lançado dois anos depois desta final.

Lembrando jogos mais recentes — certas raquetadas de Nadal, por exemplo —, temo que se o lugar do juiz de rede ainda fosse aquela cadeirinha à beira da carreira de tiro alguém tinha de lhe arranjar um capacete e um colete à prova de balas, para não ser vítima de fogo cruzado quando certos serviços ou pontos são defendidos com balázios de fora para dentro do campo, contornando a rede. De início pensei que essa função tinha justamente sido alterada com a primeira baixa — a segurança no desporto, como nas casas roubadas, costuma ser melhorada após os danos colaterais —, mas depois lembrei-me que é apenas mais um caso de máquinas a substituírem a força laboral humana. Se o capitalismo filmasse hoje o Free Willy, Jesse, o rapaz sensível, seria substituído, como o juiz de rede, por um sensor electrónico.

Itálicos

O grande escritor Mário de Carvalho pergunta: «Não haverá por aí alguém que convença o FB de que os itálicos fazem muita falta?»
Se me coubesse responder, diria: dificilmente.
Ao contrário dos blogues, que transpuseram para a Internet uma tradição que, independentemente dos objectivos e conseguimentos individuais, tem raízes literárias, ou pelo menos ilustradas, o Facebook é o sucesso de certa forma inesperado do lado fútil, meramente hormonal, da adolescência. Ter-se entretanto transformado numa eficiente plataforma global de comunicação que, além da original e inesgotável tribo da acne, acolhe uma grande variedade de instituições mais ou menos graves e uma quantidade não negligenciável de intelectuais e escritores não comove o tipo de inteligência pueril definido pela «marca» Zuckerberg.
O Facebook tem orgulho nas suas origens imberbes e patetas e mais depressa acrescentará novos emoticons indistinguíveis, redundantes, deselegantes, semanticamente infantis ou retrógrados do que aceitará o itálico, um recurso ortográfico e linguístico que decerto considera «antiquado», «elitista» e talvez demasiado «adulto» ou subtil — e que não entende nem quer entender.
Do ponto de vista tecnológico, a introdução de uma ferramenta que permitisse formatar palavras em itálico no Facebook seria já há dez anos de uma simplicidade que poria a bocejar qualquer um dos centos de programadores a quem a empresa poderia ordenar o serviço. É portanto evidente que a indisponibilidade de tal recurso resulta da indiferença, de uma indiferença opcional, intencional, programática, caprichosa. É o adolescente apalermado e agora todo-poderoso Zuckerberg a dizer ao mundo que ele dita as regras da comunicação, à imagem e semelhança da sua fatuidade. Como se nunca tivesse saído daquela linha de partida atávica que costuma pôr lado a lado os teenagers em competições balísticas municiadas a partir das glândulas reprodutoras ou da bexiga.

sábado, 30 de maio de 2020

O calcanhar de Aquiles de Pacheco

O ódio antigo de Pacheco Pereira à cultura contemporânea, que amalgama de forma voluntariamente ignorante e preconceituosa, é incompreensível e desolador em alguém estimável como ele.
O blogue Ouriq explica por que é infame o artigo que Pacheco escreveu hoje no Público:

«Os ignorantes filistinos e alguns dos muito cultos sofisticados que se dedicam à preservação do património cultural têm um ódio de estimação comum: os artistas contemporâneos. Os primeiros acham que a arte só deve vingar se tiver valor comercial e os segundos imaginam-na como um passatempo de aristocrata ou burguês endinheirado. Há uma regra que me parece muito válida: sempre que pessoas com características opostas estão de acordo relativamente a um tema que não é consensual, detectámos um caso complexo. A crónica de hoje de Pacheco Pereira é infame porque se percebe que o seu principal interesse não é ajudar os feirantes mas atacar os artistas, esses subsídiodependentes. Fazê-lo num momento de crise profunda, que se anuncia prolongada, e quando o ministério da cultura está nas mãos de alguém incapaz e sem peso político, foi uma verdadeira sacanice. Foi também bastante estúpido, porque muitos artistas contemporâneos dão trabalho a pessoas — penso nos roadies dos cantores, por exemplo — que, pela actividade precária, itinerante e sazonal, e ainda o desprestígio social, são tão "ignorados" e tão "invisíveis" como os feirantes que o cronista usa para atacar os artistas. "Mau trabalho", Pacheco, muito mau trabalho.»

Ouriq:
https://ouriquense.blogs.sapo.pt/tiro-aos-artistas-em-tempos-de-crise-924308

Artigo de Pacheco Pereira:
https://www.publico.pt/2020/05/30/opiniao/opiniao/ignorados-invisiveis-1918665

Tempo Contado

Isto também não me vai granjear simpatias, mas que hei-de fazer: visitar o blogue Tempo Contado é há muito um exercício de mera tristeza.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

À luz antiga dos raios catóditos

As distopias em cinema sobre o fim (provisório, I must say) da humanidade partem muitas vezes da premissa de uma guerra ou acidente nucleares, um fim prático e bombástico. Mais silenciosos no início, mas igualmente frequentes, e mais tarde preenchidos de chinfrineira zombie são os filmes em que a humanidade é dizimada por vírus. Por isso acredito que nesta quarentena, entre melancólicas noitadas de ténis, à luz antiga dos raios catóditos, muita gente se tenha posto a questão de como seria o mundo se o novo vírus coroado limpasse a área sobrando apenas aquele ou aquela que punham ociosa, ansiosa, misantrópica ou esperançosamente a hipótese. A minha resposta a esta questão está dada há muito: na altura em que vi o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, perguntei-me se era mesmo necessário ter sobrevivido também o cão.
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

«Como É Que o Bicho Mexe?»

E agora para algo que não me vai tornar popular.
Só vi, e não na totalidade, o último episódio de «Como É Que o Bicho Mexe?». Perdoar-me-ão todos os meus amigos e amigas que se extasiaram com a coisa, mas fiquei pouco mais do que indiferente. Perguntei-me, e não gostei da resposta, se teria sido elevada a experiência estética uma caravana buzinante de final de taça ou campeonato, que aliás o «directo» mimetizou. Ok, concedo que talvez fosse necessário ter acompanhado a série para apreciar o seu epílogo.

Acontece que até gosto do humor de Bruno Nogueira, de uma inteligência por vezes adequadamente discreta, ainda que corrosiva, uns furos acima da média nacional de stand up comedians. A propósito deste «Bicho» (mas não só), gaba-se-lhe a criatividade «quando trabalha materiais pouco nobres, como a música pimba ou a reality TV»*, e o «profundo desejo de erguer o que está em baixo»** — e eu hesito entre concordar e lamentar. Concordo tecnicamente (o talento é notório) e lamento esteticamente.

Bem sei que a tendência crescente nalgumas artes tugas é valorizar o kitsch, o «foleiro», numa evocação ou homenagem daquilo que se toma como subcultura mas que é na verdade dominante. Por mim, prefiro um humorista sempre iconoclasta a um socialmente condescendente. A utilização de quaisquer materiais, muito ou pouco nobres, não devia fazer o humorista sentir-se penhorado em relação a eles. Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, devia proibir-se de conversar ao vivo na TV com os alvos das suas piadas, porque geralmente fracassa no exercício do humor ao subalternizá-lo à amabilidade que julga dever (e deve) aos convidados. Para conjugar os dois deveres, irrisão e gentileza, é necessário ter-se a afabilidade e o instinto assassino de um Jon Stewart, por exemplo. Não os tendo para usufruto simultâneo, convém escolher melhor o terreno do humor ou da sátira, como acabou por fazer Vasco Pulido Valente, que fracassava ao tentar transpor para a sua fraca oralidade uma arquitectura mental, ou antes, uma forma de expressão que só funcionava na escrita.

No caso de Bruno Nogueira, a delicadeza perante «o que está em baixo» não parece ser circunstancial ou idiossincrática, mero resultado de timidez de carácter, mas sim programática. O seu projecto «Deixem o Pimba em Paz» terá talvez, a esta luz, de ser analisado com certa literalidade. Nogueira quis divertir-se com as melodias ingénuas e as letras brejeiras daquele género musical, mas, a acreditar no que se diz dele, quis também que se não demonizasse o pimba.

E no entanto para mim esta intenção, dando de barato que era real, parece-me, desculpem a franqueza, fútil e fracassada, porque quase tudo o que havia para valorizar no espectáculo era o enorme talento musical, a imaginação (re)criativa dos seus compagnons de route Filipe Melo e Nuno Rafael (além da capacidade de interpretação de Manuela Azevedo). Num ensaio que escrevi há uns anos elogiei precisamente essa virtude do espectáculo e o Filipe censurou-me, porque antes de mais havia, segundo ele, que creditar Bruno Nogueira pela ideia de reinvenção do repertório. Aceitei, porque ao vivo sou também demasiado gentil, mas mantive para mim que o que havia ali de génio era eminentemente musical, coisa, parece-me, pouco creditável a Bruno Nogueira.

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* Vasco M. Barreto no blogue Ouriq: https://ouriquense.blogs.sapo.pt/bruno-nogueira-921322.
** João Miguel Tavares no Público: https://www.publico.pt/2020/05/19/opiniao/opiniao/venia-bruno-nogueira-1917122



terça-feira, 26 de maio de 2020

Mais ténis em noites de pandemia

Numa noite de pandemia que dediquemos ao ténis, como as que tenho dedicado, podemos, se não fomos antes assíduos na modalidade, assistir como se em vivo directo a jogos tão excitantes quando a histórica final de 2019 do Open dos Estados Unidos entre Nadal e Medvedev. Também podemos aprender, ouvindo os comentadores durante trocas de bolas mais aborrecidas, mesmo sem querermos saber e menos ainda visualizar, que Nadal teve até 2009 uma tara por calções compridos («à pirata»), que deixou de usar quando se sentiu demasiado adulto para isso, e que o tenista foi então diminuindo o tamanho dos calções até, felizmente, ter parado também esse ímpeto. Ou que Simona Halep se submeteu a certa altura a uma intervenção m-mamária para reduzir o volume de… das... Aqui sentimos o comentador à procura da palavra certa para usar cavalheirescamente em televisão, mas, como jogador já sem recursos ao final de três longos sets, a única coisa que lhe sai é um, digamos, balão (termo possivelmente ausente do glossário do ténis), e sabemos aí que a intervenção de Halep serviu para lhe reduzir o volume das… m-mamas.

Alegria no trabalho

Talvez para dar alento a quem definha perante a possibilidade (inverosímil) de não haver festas populares no país este ano, a equipa de um dos veículos de recolha de resíduos urbanos que passa aqui pelo bairro tomou medidas terapêuticas quotidianas: quando estaciona fá-lo, do ponto de vista acústico (perdoe-se-me a sinestesia), como se assentasse arraiais à margem do ecoponto um daqueles camiões-palco vítimas de tuning, quitados com grupo musical, par de minissaias e muitos decibéis. A mesma selecção musical, a mesma desenvoltura de roadie, a mesma alegria no trabalho.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Dilemas antigos

Recusando que a cretinice de terceiros me perturbe o Proust e os dias, escolho sofrer só de dilemas antigos, pré-crise de 2011. Se chove, hesito entre ter música de fundo ou ficar a ouvir a chuva. Se o tempo está favorável, agora que os dias são grandes, hesito entre ler na varanda ou correr no parque. Se o ocaso está de apetite, hesito entre ficar a ler ao crepúsculo ou ficar a ver o crepúsculo.
Não é fácil.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Sociologia barata do desconfinamento

Os testemunhos que vamos dando nas redes sociais sobre o desconfinamento utilizam uma ferramenta tecnicamente precisa — o olhómetro —, ao serviço de um fino pensamento teórico que procura, com rigor científico, confirmar sem escolhos a tendência pessimista ou optimista de cada um de nós. Este método é ainda modelado por contributos de fria matemática, como o estado de espírito, e de isenta objectividade, como o rancor ou a empatia que nos suscita o objecto de estudo — o Outro.
É assim que Portugal hoje, consoante os diagnósticos, aderiu a uma etiqueta social de pura orgia kamasutriana em espaço público — ou continua refém do medo de sair de casa. A ciência exacta que nos molda o olhar e o feeling diz-nos que o povo enlouqueceu e já não se lembra que há uma pandemia — ou que o povo soçobrou ao pânico sinistro instalado pelo Governo e não arrisca sair do teletrabalho nem para abastecer a despensa.
Onde uns vêem uma multidão desenfreada a recuperar meses de abraços e langores perdidos, outros vêem lojas pouco animadas e cafés vazios. Uns apelam para as pessoas saírem de casa e fazerem compras — outros exigem mais uma temporada de abstinência social.
O teletrabalho é a esperança de manter longe chefes e colegas intragáveis — ou a certeza inquietante de que o horário laboral e o seu olho omnisciente tomaram conta da vida privada.
O tuga aproveita para não telefazer nenhum — ou desespera por trabalho mesmo sem rede ou máscara.

Todas estas coisas e outras acontecem em simultâneo, em doses variáveis, influenciadas pela geografia e pela demografia.
O povo é biodiverso. Os problemas são complexos e paradoxais.
É no ponto onde se jogam todos os equilíbrios que as nações sobreviverão. Ou não, que sei eu.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

As tílias no tempo

Se olharmos uma tília frondosa num final de tarde com vento, percebemos os movimentos amplos, ondeantes dos ramos, como madeixas sensuais atiradas para trás, afastadas elegantemente de um rosto veterano da sedução urbana, e podemos descobrir, se tivermos olhar minucioso, o tremelicar assustadiço ou o tiritar enregelado das folhas, cardume oscilante de verde-escuro húmido e verde pálido, recém-postas num mundo que não compreendem ou que é desprovido de conforto e calor uterino. Mas se o nosso espírito comportar várias leituras do tempo e dos tempos, também podemos ver na vibração das folhas o saltitar excitado de crias novas loucas de alegria por fazerem parte da festa que é um Maio a saber a estio, sem a secura e a amarelidão de Agosto.

sábado, 16 de maio de 2020

Correr sem inalar

Nesta nova fase do desconfinamento, a turba por cuja liberdade a nossa direita proto-bolsonarista temeu já não desobedece apenas às regras de distanciamento social da DGS: ignora igualmente a mera e antiga cortesia de franquear a passagem a alguém. Tem isto como consequência, para quem não é por natureza partidário do abalroamento, ver-se um tipo obrigado a transformar a corrida de sábado numa gincana, uma prova de obstáculos ou um corta-mato, de acordo com as características do terreno e o tamanho da trupe que preenche à Lagardère o caminho. Este regresso ao anterior protocolo social luso tem a exigência de aumentar o esforço e a vantagem de ampliar o benefício cardio-vascular, ainda que por vezes irrite o maratonista e o obrigue a vocabulário menos contemporâneo, a desabafos camilianos.

Na primeira corrida pós quarentena estrita, há uma semana, chovia a cântaros e por isso os parques ribeirinhos estavam molhados mas desertos e o cidadão pôde espraiar-se convenientemente, repetindo percursos a bel-prazer e prologando a performance, digamos, atlética como há algum tempo não fazia. Hoje estava sol e as pessoas saíram em grupos, por vezes em manadas. A maioria não punha máscara ou qualquer distância entre elementos da comitiva e outros transeuntes, pelo que, se não se tratava de libertários do Michigan assumindo uma posição ideológica (não se viam armas), eram decerto coabitantes vivendo em mansões T10, em apartamentos com todas as divisões mobiladas a beliches tipo hostel ou partilhando cada meia dúzia uma cama. Ou então eram só portugueses comuns ignorando comme d’habitude as prescrições higiénicas do Estado socialista e opressor — e as premissas da gentileza.

Em certo troço do percurso, seguia um casal de caminhantes ocupando várias faixas e cumprindo o dress code que exige sapatilha colorida de marca, Lycra fluorescente ajustada às por vezes múltiplas curvas corporais e algum acessório de necessidade estética ou para transporte de gadgets. O casal exalava um perfume que na sua ignorância o maratonista considerou próprio para baile de gala mas possivelmente era prescrição aeróbica. Ignorava também, o maratonista, se era receita para mulher ou para homem e por isso, de faro susceptível, hesitou entre a ultrapassagem pela direita ou pela esquerda. O faro susceptível, que o ilibava de um dos sintomas da Covid-19, suscitou em todo o caso reflexões ociosas: era a coronavirulência uma doença airborne, como se diz em americano? E, sendo-o, o vírus viajava com as partículas agressivas de um perfume? Passavam numa ponte e ele estava a inalar alarve mas involuntariamente moléculas da fragrância, quem sabe se com vírus a cavalo. Estava na hora de considerar a necessidade de transpor a guarda da ponte e, mergulhando, escapar não tanto à infecção como a uma overdose de Chanel, Dior ou Calvin Klein.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Antecipando que sentirei saudades de ler a Recherche à janela confinada de Abril e Maio, dou por mim a sentir já saudades enquanto leio.

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Nota: isto não é um juízo sobre a obra, mas uma impressão sobre o acto e a circunstância de ler. Estes itens — livro, acto de ler e circunstância — influenciam-se mutuamente, mas, como se sabe, não são condições suficientes para garantirem a qualidade de determinada obra, de determinado acto de ler ou de ler em determinadas circunstâncias.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A tennis tale

Nos meus serões hipnóticos de ténis (ainda faço alguns, sim) passei neste fim-de-semana pelo jogo em que Serena Williams achou mal as decisões do árbitro Carlos Ramos. No torneio verbal e comportamental que se seguiu, em que os serviços estiveram todos do lado dela e o árbitro se limitou a receber a bola na raquete, ripostando porém penalmente, vi eu, em absoluto embrenhado no meu Proust e ainda ponderando as questões sociais do post que antes dediquei à modalidade, uma metáfora das disputas na alta sociedade fin-de-siècle entre aristocracia e burguesia, ambas poderosas, mas com diferentes pedigree, meios e métodos.
Serena, que equiparei em novo delírio, pelos títulos acumulados, a velha condessa, indignou-se a certa altura, levemente, com a intromissão de alguém com um cargo sobretudo técnico — portanto burguês — nos seus affaires. De início foi apenas um arrufo de nobreza antiga, um abanar de leque para delimitar territórios, traçar linhas no court. Quando porém notou que o contabilista, alcandorando-se na sua alta cadeira em juiz moral, no fim de contas mantivera nos livros a falta que ela, ao penhorar a sua nobre palavra, achara ter já liquidado, fez o que teria feito qualquer duquesa no seu lugar: chamou-lhe ladrão (termo aliás de forte pendor técnico). Tendo o burguês insistido nas coimas, assim pondo a cobrança materialista própria da sua classe acima das etéreas prerrogativas do sangue, aconteceu a Williams o que aconteceria até à princesa ou ao príncipe mais bastardos: saltou-lhe a real tampa e daí em diante toda a indignação avulsa a que pudesse recorrer, de indicador em riste e lágrima de cristal pendente, seria uma boa indignação.
Um ano depois, já recomposta e de novo rainha dos seus pergaminhos, a tenista, palpando o tutu do traje de serviço, deitava água na fervura à boa maneira fidalga, com a adequada altivez que os assuntos materiais nos exigem: «Carlos Ramos? Não sei quem é.»

domingo, 10 de maio de 2020

Uma taberna a céu aberto

Antes havia anedotas ditas «de tasca» porque apenas eram admiradas pela audiência pouco exigente de uma taberna. Não as repetiríamos nem riríamos com elas sem ser no seu ambiente natural — e sentindo depois, com a ressaca, o embaraço de o termos feito, desejando que ninguém tivesse ficado sóbrio para testemunhar a queda momentânea no mau gosto.
Entretanto as televisões generalistas elevaram a anedota à condição chique e estrangeirada de stand up comedy e subtraíram Fernando Rocha a uma cassete de feira para o somar ao estrelato nacional.
Pelo seu lado, o Facebook, que tem a injusta fama de democratizar o debate público, liberta as pessoas, mas com frequência o que liberta nelas é aquilo que a educação ou o sentido estético antes, e adequadamente, reprimiam. Na teia de amizades que por fraqueza ou vaidade consentimos, e por onde o algoritmo nos conduz à sua maneira insondável, não raro damos por nós, se nos distraímos, a frequentar online uma taberna a céu aberto — sem o proveito do tinto.

sábado, 9 de maio de 2020

Nada de novo nas trincheiras habituais

A reacção do PCP ao cancelamento de festivais até 30 de Setembro, invocando a especificidade da Festa do Avante, é infantil.
Por outro lado, duvido que uma putativa teimosia daquele partido em concretizar a festa seja incluída com aplauso no rol dos bravos gestos de insubmissão por uma certa ala da direita que acusa o país de ter entregado demasiado facilmente a sua liberdade nesta pandemia.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Grotta n.º 4



Já recebi o meu exemplar da Grotta, a revista literária que se edita dos Açores para o mundo. Nela publico, a convite do director Nuno Costa Santos, uma pequena ficção intitulada «Envelhecer» e que tem como epígrafe uma canção de Bob Dylan: «The Times They Are a-Changin’». O Trump e o Boris também são mencionados.

A revista pode ser encomendada online aqui:
www.letraslavadas.pt/destaque/grotta-arquipelago-de-escritores-4/

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Notícias da Recherche

Um dos problemas que nos vêm de ler a Recherche (não sei se há outros, a bem dizer) é identificarmo-nos tanto com o narrador que, como ele, adoecemos perante a perspectiva de nos mudarmos para outro quarto, para outra localidade. Depois de Balbec, pareceu por isso difícil haver qualquer interesse lá para os lados de Guermantes. Mas, como também acontece com o narrador — pessoa volátil, como se vê —, a certa altura começamos a habitar verdadeiramente o novo quarto, o novo lugar, e então tout va bien — até à nova inquietação, que inelutavelmente nos aguarda ao virar da esquina.
Para já, depois da angústia balnear de deixar Balbec e a sombra das raparigas em flor, estamos confortáveis, portanto, por enquanto, n’o lado de Guermantes.

domingo, 3 de maio de 2020

Ao serviço do ténis

[Pequeno ensaio sob hipnose]

Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.

Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.

Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.

A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.

A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.

No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.

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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.

sábado, 2 de maio de 2020

Dia do Trabalhador

Para celebrar o Dia do Trabalhador, nada mais adequado e eloquente do que passear com o jovem narrador de Proust nos dias lânguidos da estância balnear de Balbec.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Moro num país tropical

Os dias chuvosos de finais de Abril e início de Maio, se a temperatura é primaveril como o é o aspecto geral da vegetação, parecem, em certas pausas da chuva, visualmente, dias tropicais, quando as nuvens baixas ou uma neblina nos interstícios das encostas se conluiem com o verde para mimetizar a evaporação da Terra nas florestas húmidas do Vietname.

Alegria primitiva

Sinto quando por acaso descubro uma capa com o logótipo da revista LER, como agora aconteceu, a mesma alegria primitiva que sentia na infância se no horizonte havia uma revista da Disney (que raramente ou nunca pude comprar) ou, mais tarde, algo da Marvel (que já comprava com alguma frequência, preferindo investir nesses álbuns o dinheiro que outros gastariam para comer).

Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.

Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.

Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Silly walks

Este vídeo, publicado com o álibi do Dia Mundial da Dança, reúne várias coisas que me dispõem bem. Listo-as, mesmo que ninguém mo tenha pedido: a música, a voz de Michael Stipe, a letra, o roteiro do vídeo no duplo sentido (geográfico e cinematográfico), a fotografia (no sentido cinematográfico), o movimento da câmara e do protagonista, a coreografia, a agilidade, a flexibilidade, a representação, a expressão e, sobretudo, a atitude da personagem — tudo resumindo a inveja (antiga, bem pré-Covid-19) que tenho de andar pelas ruas deste modo, quotidianamente, em cada deslocação, para a taberna ou para o trabalho.



segunda-feira, 27 de abril de 2020

Música triste

(Clique aqui para ver a lista.)

O blogue Discogs publicou a sua lista dos «35 álbuns mais tristes de sempre» e disse, invocando até a Psicologia, que toda a gente gosta de canções tristes.

Não sei de toda a gente, mas eu, que espreitei a lista, posso dizer que já fui (sou) muito feliz com grande parte daqueles 35 tristíssimos álbuns*.

* Alguns dos quais ouvi, e às vezes ouço, obsessivamente, por exemplo, “White Chalk” ou “Hospice”.

domingo, 26 de abril de 2020

Um 25 de Abril

Há muitos, muitos anos, noutra encarnação, eu era baixista numa banda que no seu derradeiro momento perdeu para os Ornatos Violeta e paralelamente fazia gigs, como agora se diz em bom português, em bares, salões de baile, comícios e cerimónias de 25 de Abril.
Bem, no 25 de Abril tocámos apenas uma vez, que me lembre.
Foi na Adega do Faustino, esse templo dionisíaco em Chaves, e como a coisa era à tarde ainda não estávamos suficientemente bêbados para eu logo ter esquecido tudo. Não é que lembre grandes detalhes (foi há muitos, muitos anos, como disse...), mas há uma parte que ficou, não sei se comovente se cómica. Já veremos.
Éramos um trio, por vezes quarteto ou quinteto (não dependia do cachet), que levava o trabalho a sério e para aquele dia preparámos, por gosto musical e adequação temática, várias obras do Zeca Afonso. Não tínhamos ideias políticas muito definidas, acho, e na minha família recuada até havia certa admiração (felizmente retórica, sem correspondência material) por Salazar, mas o imaginário e mensagem afonsinos seduziam-nos, além de que não éramos tão estúpidos que não percebêssemos a importância do 25 de Abril até para o simples facto de podermos estar ali a desfrutar de tão faustinos prazeres.
Mas, como disse, tínhamos ido para trabalhar, em bom rigor, pelo que havíamos preparado um alinhamento que incluía, como se imagina, como se impunha, a «Grândola». Mais do que prevê-la no alinhamento, planeámos o set para que aquela música fosse o apogeu, a razão última de ali termos ido. Não sabíamos, ou quisemos ignorar, que esse era também o sentimento do público.
Ficámos por isso surpreendidos — embora tivéssemos montado todo um número em torno da «Grândola» que incluía sacar o baterista a tarola do seu tripé para fazer de caixa de rufos e alinharmos com ele as guitarras e o passo como pelotão napoleónico em marcha —, ficámos então surpreendidos (e quase, quase, envaidecidos, penhorados) por aos primeiros rufos se ter levantado toda a audiência para, numa rigidez e seriedade de hino nacional, algumas mãos no peito, aguardar que despachássemos o prelúdio e a encenação que tanto nos orgulhavam e chegássemos, como era mister, à parte cantada, em que todos podiam participar, dando finalmente como bem cumprido o seu dia cerimonioso.

Num outro ‘concerto’, em diferente localidade e ocasião, tínhamos conquistado a sala quando, por manifesta incapacidade de sermos artisticamente compreendidos pelo público, desistimos do repertório ensaiado e atacámos, por gozo, por revanche, por casualidade até, as notas memoráveis duma peça que dava pelo nome arcádico de «Apita o Comboio». A assembleia levantou-se com um ânimo que fazia da imagem que anteriormente tínhamos dela uma vista de lápides em campo santo, juntou-se em pares e bailou como se não houvesse amanhã. Perante aquela explosão súbita, perante aquela alegria que não queríamos ser culpados de tornar breve (ai de nós, diziam-nos alguns olhares), improvisámos mais longamente que os Pink Floyd em Pompeia, dispostos a despir a camisa (e a gravata, usávamos gravata) se necessário fosse.

Ora, com uma carreira que obtinha reacções assim, podíamo-nos ter interrogado (mas nunca o fizemos, claro) sobre as vantagens que um gira-discos não teria para o público, o promotor e sobretudo a nossa dignidade artística.

No 25 de Abril flaviense, com a «Grândola», nós queríamos causar aquela reacção, aquela comoção, planeáramos aquilo, mas quando aconteceu não estávamos suficientemente confiantes de sermos capazes de o obter. Podíamos então ter sido artistas realizados — se não tivéssemos percebido logo, com uma clareza que na verdade sempre fora evidente, que o empolgamento não estava na nossa prestação, mas na canção e no que ela representava. O melhor que podíamos ter feito naquele dia, do ponto de vista da originalidade artística, da capacidade de atrair atenções especificamente para o nosso trabalho, era termos destruído a música e o momento logo depois dos primeiros coros, mas não tínhamos vocação punk. E também não calculámos a tempo quantas daquelas pessoas se levantaram e cantaram apenas por tradição, por ritual, como recitavam na missa em coro o Pai-Nosso — e como no texas-bar de Cabeceiras ou o raio teriam dançado o «Apita o Comboio», com o mesmo empenho e convicção.

sábado, 25 de abril de 2020

Nesta quarentena, visite o Divina Comédia

Nesta quarentena, visite regularmente o blogue Divina Comédia, do grande (amigo) J. F. Borges. Só tem a ganhar.

O livro e a cultura

O editor e escritor Francisco José Viegas alerta há muitos anos, e com lancinante razão, para a tristeza trágica de termos um país sem uma política «favorável à criação de leitores e à circulação do livro». Fá-lo, por vezes, e é pena, opondo ao do livro outros sectores culturais onde a «incúria ou a indiferença» dos poderes será menor. Aconteceu de novo no artigo que escreveu esta quarta-feira no Público.

Defendermos que o livro e a leitura precisam de ser a grande prioridade de qualquer política cultural não nos devia tornar insensíveis a outras áreas. Por isso, a recorrente alusão de FJV ao sector do «espectáculo» com um certo tom de menosprezo compreende-se mas a generalização implícita e injusta desilude quem o lê e partilha as suas preocupações, fazendo temer uma mundividência algo truncada.

Julgo que concordamos que um dos grandes equívocos desta era, que perverte o apoio às artes, é tomar-se também como «cultura» actividades que com maior honestidade e proveito público se catalogariam de forma diferente. Manifestações, por exemplo, do domínio do mero entretenimento, em que sobretudo a moderna música popular é pródiga. Esta promiscuidade terminológica deixa sequelas legislativas e constitui a antecâmara de certa permissividade institucional na utilização discutível de dinheiros públicos, contribuindo, por isso, para a má percepção ou mesmo o antagonismo de alguma opinião pública.

E contudo uma parte do mundo do espectáculo, aquela que se refere por exemplo ao teatro e à dança e seus cruzamentos, padece de problemas análogos aos do livro. Também esta área, quando não coincide com o «espectáculo» no sentido superfluamente festivo e sobretudo decorativo a que Viegas alude, carece de uma política favorável à criação de público e à circulação de produções. Infelizmente, o sistema político e social vigente opera aqui do mesmo modo que expressa esta passagem essencial do artigo de FJV:
«“de cima” […] nunca vem um exemplo capaz de levar mais pessoas a ler, a querer ler ou a sentirem que a leitura é um importante instrumento de conhecimento e de diálogo com o passado e com o futuro, e também de elevação individual e participação na vida comunitária».
Experimente-se substituir na frase anterior, para alargamento da ideia e não como oposição a ela, o campo semântico da «leitura» pelo do «teatro» e compreenderemos como um dos problemas estruturais da cultura no país é, de facto, «a indiferença e a incúria», mas também o desdém ou mesmo a hostilidade, de diferentes poderes políticos e económicos.

A cultura, do livro ao teatro, tem demasiadas vezes essa função, nem sempre involuntária, de pin de lapela e item de checklist inofensiva ou politicamente correcta. É usada por dirigentes ou entidades como berloque em eventos auto-promocionais e exibida depois, com a aposição de um diligente visto burocrático, numa lista de pequenas penitências ou obrigações a que o moderno líder político não julga poder escapar — embora também nunca lhe ocorra ter nada de importante a fazer com ela.

No fundo precisamos de CEOs e de líderes e representantes políticos (no caso não demasiado provável de ainda termos onde os escolher) capazes de darem o exemplo a partir «de cima», capazes de adoptarem como lema para si mesmos e para as instituições que dirigem (a começar pelas televisões de sinal aberto e pelas grandes editoras) o slogan da RTP2: «Culta e adulta». Culta no sentido antigo de se ter mundo e leituras e adulta não no sentido de liberdade para a pornografia mas de fim da idade parva.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Bom dia, Filipina!

Por vezes é preciso recorrer ao Camilo ou a outro seu contemporâneo para com delicadeza observar num debate que certas palavras tidas como orgulhosos “regionalismos” são na verdade mais gerais arcaísmos, termos caídos em desuso na maior parte do território nacional que, por razões geográficas, culturais, económicas ou outras, se mantiveram ou mantêm na linguagem corrente de determinada parcela pátria.

O inverso também se dá, lembrarmos certas expressões da infância e quando as dizemos noutras zonas do país as tomarem por regionalismos nossos. Ontem no Proust, esse transmontano inveterado, encontrei alusão a uma delas: «Bom dia, Filipina!»
Nos magustos da minha infância (e suponho que de muitas outras), quando alguém encontrava no interior de uma mesma castanha dois pedaços autónomos, cada um envolto na sua própria pele interior, como gémeos no útero, partilhava um dos pedaços com um parceiro e ambos ficavam comprometidos num jogo que ganhava o que no dia seguinte primeiro dissesse «Bom dia, Filipino!». (Creio que dizíamos, talvez por corruptela infantil, «Filipinho». Em francês, segundo a nota do tradutor, era «Philippine», e jogava-se com amêndoas.)
"Filipina" é o gomo mais pequeno de um citrino, e isto serve de ilustração gráfica, não sei se também etimológica.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Grotta




Saiu o número 4 da Grotta, a revista literária que se edita dos Açores para o mundo. Nele publico, a convite de Nuno Costa Santos, uma pequena ficção que talvez seja o início de qualquer outra coisa.

A revista de momento apenas pode ser encomendada online. Aqui: https://www.letraslavadas.pt/destaque/grotta-arquipelago-de-escritores-4/

Gira-discos

Há duas histórias que se digladiam na minha memória pelo troféu do primeiro contacto frutífero com um gira-discos. Uma delas é protagonizada por três músicas (de artistas diferentes) e a outra por todo um álbum. Falemos da primeira história (segundo a cronologia deste texto), enquanto damos tempo ao júri para tomar uma decisão.

Naqueles dias, havia alguém que arquitectava uma forma de fornecer um gira-discos para as reuniões de grupo que tínhamos ao sábado à noite em espaço abençoado pela Igreja. De toda a playlist que animava aqueles serões, e que talvez fosse vasta, duvido que alguém recorde mais do que três músicas: “Angie” (Piedras Rolantes*), “Against All Odds” (Phil Collins) e “Careless Whisper” (George Michael). Tudo começava geralmente com uns ruídos, um crepitar. Era comum: os discos tinham muito uso e não se lidava com eles com pinças. Entrava primeiro aquele som que apenas significava que havia um disco velho a rodar no prato mas que era já sugestivo, como se a música tivesse sido composta com um prelúdio misterioso. A seguir vinha a guitarra acústica, uma nota e um acorde metálicos que eram como um sinal. Os sentidos ficavam alerta e a pulsação acelerava. Depois, um Jagger da mesma idade do que vimos ontem, na era do confinamento, a cantar à guitarra numa tela quadripartida “You Can't Always Get What You Want", lamentava-se chorosamente: «Angie, Angie, when will those clouds all disappear?». Era a hora dos slows e nenhum critério estético pesava muito na selecção musical, aliás invariável. Os rapazes gostavam de “Angie” talvez pelo que ali soava aos seventies (não confessariam sucumbir às sugestões sentimentais da música) e as raparigas gostavam de George Michael. E julgo que apreciavam também a música dele, não sei. Mais tarde, por razões adicionais, talvez já só defendessem apreciar a música. Quanto a Phil Collins, permanece uma incógnita, tantas décadas passadas.

A segunda história não é mais edificante e começa numa estância termal de província no início dos anos oitenta — um melting pot frequentado por netos e netas dos tradicionais termalistas, com mais ou menos pergaminhos, emigrantes em férias (vindos de Paris no Verão e de Zurique no Natal), variegada fauna das cidades vizinhas, com rústicos e betos de várias extracções, todos dando o seu melhor a dançar nas noites da discoteca local, a mergulhar nas tardes da piscina ou a desfilar, muito século XIX mas sem charrettes, na Alameda das Nascentes — um território, em suma, pouco propício à unanimidade em questões estéticas e musicais. Em certos momentos uma corrente mais rock e máscula parecia dominar, noutros o rock fundia-se de bom grado com as mais recentes tendências da new wave, não temendo arriscar aqui e ali incursões no new romantic — e tudo era frequentemente destruído por certas preferências dançáveis da corrente menos sofisticada da pop electrónica, cujo expoente máximo viriam a ser talvez uns alemães que davam pelo nome ainda hoje nauseante de Modern Talking.
Neste caldo, um teenager em formação, instado a tomar partido, ainda que encontrasse predicados em (quase) todas as correntes, via-se por vezes obrigado à rebeldia. E, apesar de a década já estar bem entrada, deixando os setenta assentar alguma poeira, ser rebelde era por vezes tão-só depreciar (ou fingir depreciar) o bom velho rock’n’roll. Chega-se assim um ano aos Duran Duran, para gozo de muitos e embófia do próprio.

Ou talvez, e aqui é que a história entronca na verdade com o mote do texto, os Duran Duram tenham vindo de certa semana de férias de mar em que o adolescente descobriu na casa que o albergava um gira-discos e esse gira-discos deu-lhe a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, sem restrições, em plena autonomia, ou quase, um álbum completo e esse álbum calhou ser Rio, dos Duran Duran. O rapaz saiu menos bronzeado desse Verão (havia que aproveitar a oportunidade, nem que fosse preciso ir menos ao mar), mas a conhecer cada letra e linha de baixo do disco.
Ainda arriscou, na rentrée, quando a estância se esvaziava e regressava à sua normalidade rural, uns adereços e uns penteados tributários dos fab five de Birmingham, mas era preciso um certo estofo, ou cheirar recorrentemente a tinta impressa da pouco acessível revista Bravo (que tinha conhecidas propriedades inebriantes, como sabe quem a cheirou à época), para se perseverar numa excentricidade estilística daquelas, por mais perfil apolíneo que se tivesse. Também era preciso dinheiro para modistas e parceiros para fundar uma tribo que desse consistência e conforto à opção — e isso não havia, pelo que a meados de Outubro tudo voltara à mesma indefinição enfadonha do costume.

* Ver post anterior.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O rádio

Havia em casa, e julgo que ainda por lá anda, num dos estratos geológicos da cave, um rádio preto com grelha do altifalante e sintonizadores cinzentos que acompanhou a fase final da minha infância e toda a adolescência. Nele ouvi anunciar-se a morte de John Lennon, instalando-se em mim e na atmosfera da casa uma gravidade que não compreendi de imediato e que, percebi-o depois, marcava o fim de uma época e o início de outra. Nele ouvi também, pela primeira vez, algumas músicas de que há pouco me lembrei (curiosamente todas do mesmo ano, 1984), que ainda hoje, mesmo que as julgue esteticamente com outra severidade, despertam em mim sentimentos agradáveis: Pride (In the Name of Love), Dancing With Tears In My Eyes e Terra Titanic (sim, notam bem uma certa inclinação juvenil para o épico).

Sendo o único objecto capaz de receber e traduzir ondas hertzianas lá em casa, era, não direi disputado, porque ninguém supunha poder disputar-se nada à autoridade paterna, mas partilhado e, sobretudo, usado em diferentes fases do dia por diferentes tendências e gerações da família. Dali saíam os noticiários a horas certas, o Despertar do António Sala, o terço ao final da tarde e missas ao domingo de manhã, os relatos de futebol nas tardes entediantes de domingo, ainda alguma, já desusada, peça de teatro radiofónico à hora de jantar, ou austeros e nasalados programas de debate político, e, em alguns serões, finalmente, em volume comedido, o rock e a pop de “vanguarda”, segundo os critérios do pequeno burgo.

Quando a televisão começou a ganhar primazia lá em casa, o rádio tornou-se menos procurado, e podíamos então, os mais novos, não só sintonizá-lo na nossa onda em horas antes inviáveis, como deslocá-lo da sua prateleira elevada e presidencial na cozinha para recantos menos altaneiros da casa, consentâneos com o estado de espírito que nos dominasse. Podia ser para ouvir os hits do momento ou as novidades possíveis ou para rituais de catarse de diversa índole, artística ou outra.

Não havia na casa do rádio preto um gira-discos nem dinheiro para vinil, pelo que nos formámos, com certas reservas porém, numa cultura musical de singles radiofónicos, estudando listas de tops e peneirando compêndios de êxitos. A ideia de álbum como um conjunto de ideias esteticamente relacionadas, mesmo quando isso fazia particular sentido e era conceptual, era por nós simplesmente deduzida a partir da literatura musical a que conseguíamos aceder. O contacto real com esse tipo de produção, já que as rádios que nos chegavam eram avaras nisso, dar-se-ia com um certo delay quando os primeiros amigos do liceu nos davam a ouvir nos seus walkmans cassetes integrais de um artista ou banda. A certa altura começaram também a aparecer lá por casa, trazidos pelos mais velhos, leitores de cassetes em segunda mão e meio partidos, mas porque nem para cassetes virgens tínhamos dinheiro ou porque nunca chegámos a adquirir o hábito de comprar ou gravar música, durante algum tempo a base da nossa cultura musical continuou a ser providenciada sobretudo por programas de rádio (a televisão oferecia neste campo oportunidades ainda mais limitadas).

Frequentemente tínhamos ao sintonizar as rádios então disponíveis a mesma dificuldade que nos dava a televisão — os retransmissores rareavam, e na minha zona montanhosa desfaleciam muito com as trovoadas, que na altura não tinham nomes mas eram medonhas. Por isso, as novidades chegavam-nos muitas vezes de Espanha, de onde afinal sopravam melhores ventos, pelo menos para as ondas de rádio. A cultura musical de singles era também assim uma cultura raiana, hilariamente traduzida (Piedras Rolantes por Rollig Stones era um clássico), cheia de bandas e tendências espanholas que o adolescente médio português desconhecia ou desvalorizava, o que fazia de nós ainda um pouco mais “raros” quando nos deslocávamos a burgos maiores.

A partir do ano mágico de 1984, o rádio para além de fornecer música providenciava consolo. Servia, posto à cabeceira da cama pela calada da noite, para afogar terríveis mágoas amorosas no profundo Oceano Pacífico de João Chaves ou para antecipar em sonhos nocturnos, também na toada suave, propícia e prónuba daquele programa, o que a luz do dia ainda não conseguira inexplicavelmente proporcionar-nos.

domingo, 19 de abril de 2020

Uma perturbação menor na paisagem

Está a ganhar folhas finalmente a última árvore da fila que se alinha, pela minha perspectiva de quinto andar quando sentado a ler, na base da janela. Está agora quase completa, e assim vai ficar, a paleta de verdes-primavera que do lado poente ameniza a vista da cidade. Assim vai ficar porque as folhas que completariam a paleta já não têm árvores onde nascer. A fila era antigamente parte de um L, mas um dos lados deste foi banido por mor das obras que se fizeram na escola. E logo aqui em baixo, no cul-de-sac, foi erradicado um dos elementos do belo par amoroso que dava sombra ao estacionamento e encanto à praceta, talvez porque à noite também tornava mais resguardada a erva que ali se fuma há gerações.

Se não me levantar da cadeira, se erguer apenas os olhos do livro para a vista, posso esquecer a tragédia amorosa e estética do cul-de-sac e, de vestígios humanos, ter apenas, por sobre a fila de árvores, as aldeias lá longe na encosta do Alvão, distantes o suficiente para não terem escala humana, serem uma perturbação menor na paisagem.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Em busca do tempo perdido na quarentena

Ler Proust* em quarentena pandémica é uma actividade que não se exerce sem certos momentos de culpa. À luz desta época e sobretudo desta retirada profilática, a experiência humana tem nas páginas da Recherche, ocupadas exclusivamente com personagens privilegiadas e anacrónicas, tanto de frívolo e distante e parece tão inoportuna e cínica a elevada experiência estética que a leitura representa que nos sentimos a transgredir, não o Estado de Emergência, mas as regras básicas não escritas da empatia humana. Avançamos cada página ciliciando-nos porque devíamos estar a ver conferências oficiais, a estudar gráficos e relatórios, a ler artigos de peritos em epidemiologia e especialistas em apocalipse económico e a assistir a directos da arte confinada no Instagram. E porém o que ficamos, quando despegamos do teletrabalho, é sentados a ler à janela, atentos às modulações da luz de Abril-águas-mil, espreitando as manobras imperturbáveis das nuvens sobre a serra — e escutando a conversa oca do senhor de Norpois ou pendentes de saber se haverá reencontro nos Campos Elísios entre Gilberte Swann e o jovem e tolamente atormentando narrador.

* Sim, continuo, volume 2.