O meu percurso habitual para o trabalho, uns dez minutos a atravessar a pé o parque florestal, teve hoje a banda sonora de um baile perdido no tempo. De início ininteligível, a música foi ganhando contornos e versos («há festa na aldeia / o arraial está bom de mais») à medida que se encurtava a distância que me separava da fonte, um tipo caminhando adiante com um passo ligeiramente mais curto.
A aproximação foi penosa, como se me dirigisse por absurda vontade própria a uma danceteria das que nos anos noventa começaram a surgir com música pimba. Na ultrapassagem optei por uma precavida trajectória ao largo, temendo que passar junto ao altifalante tivesse o mesmo impacto no músculo cardíaco e nos ossos que passar em frente aos subwoofers de um PA quando não se vê outro atalho para chegar ao bar. Exagerei na parábola, claro, o aparelhito portátil que o sujeito levava a confortar-lhe o ouvido e a alma tinha um sopro moderado, mesmo que os médios e agudos se ouvissem numa légua em redor.
A fase do afastamento, talvez devido às modulações introduzidas pelo vento que se levantou ou porque a distância voltava a aumentar e a percepção dos versos a diminuir na proporção inversa, foi menos rebarbativa e tornou-se até evocatória de uma outra forma. Já não era o pesadelo de uma danceteria a assomar do meio das árvores mas a memória vaga e melhorada de um verdadeiro arraial de aldeia a insinuar-se por sobre as colinas. A memória de quando a idade era suficiente (isto é, pouca) para se suspenderem juízos estéticos em troca das vãs promessas que um arraial continha e que, como os sub-graves, faziam tremer ossos e coração.
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
A democracia na América
Há mais de trinta anos, adolescente criado em ambiente tribal «social-democrata», discutia com um amigo (cuja família era simpatizante do PCP) a superioridade da América em relação à Rússia. Anos depois, vivendo e lendo jornais, encontrámo-nos (não a meio do caminho, ele teve de caminhar mais) num ponto de confluência e partilha de ideais. Acho por isso burlesco que tanta gente adulta se mantenha ainda na conversa imberbe de atacar ou defender a superioridade da democracia na América. Como se, sobretudo nas eleições da era Trump, o ponto fosse esse.
terça-feira, 3 de novembro de 2020
The lord of the apes
A minha fé na humanidade aumenta quando vejo um membro dos Storror a ler um livro num dos extraordinários vídeos (ou vlogs) daquele grupo de parkour. Curioso, comovido e condescendente, vou navegando pelo vídeo na expectativa de que o livro volte a aparecer e revele os surpreendentes interesses literários do atleta. Quase no final, vê-se a capa — e o título não podia ser em simultâneo mais decepcionante, previsível e divertidamente adequado: Tarzan.
domingo, 1 de novembro de 2020
Marcel
Uma das coisas que me intrigam na obra Em Busca do Tempo Perdido é a importância que o narrador, enquanto personagem, tem para as outras personagens, mesmo quando não se vislumbram particulares razões para isso. Se bem recordo, Marcel (auto-designado deste modo, como que arbitrariamente, uma única vez até perto do final) não pertence à aristocracia, mas a sua família é ainda assim tida em boa conta na «sociedade», que rejeita mais facilmente do que acolhe. Pessoa afável, inteligente, culta, escritor em potência, Marcel é crescentemente convidado para todos os chás e saraus, para quase todos os eventos sociais relevantes, para integrar grupos selectos, mas as atenções que desperta, a marca indelével que deixa nos outros é mais forte do que a que deixaria alguém apenas sociável ou medianamente popular. Como se Marcel tivesse um carisma nunca referido, mas visível nos outros como num espelho.
A meio do último volume, quando o narrador reencontra um Barão de Charlus muito envelhecido e debilitado após ter sofrido um ataque, o Barão aponta uma coluna de publicidade com um cartaz semelhante àquele junto ao qual Charlus estava da primeira vez que ele e Marcel se encontraram. É certo que o «invertido» Barão, que se pusera ali para o engate, chegou a sentir-se atraído por Marcel, mas ele sentiu-se (e sente-se) atraído por todos os rapazinhos com bom ar, e não é credível que se lembrasse, décadas depois, de tais pormenores sobre as circunstâncias em que encontrou cada um deles, ou sequer aqueles com quem conviveu mais tempo.
A cena, que não é a de dois antigos apaixonados a evocarem o primeiro beijo ou o primeiro olhar, é relatada para evidenciar como está intacta, além da inteligência, a memória do Barão, mas parece escrita para fazer notar também como era super-humana a sua atenção aos detalhes. Parece uma inverosimilhança.
Li algures que Proust divide a vida e o carácter do narrador por várias personagens do romance, como Charles Swann e o Barão de Charlus. Isso explicaria que do primeiro encontro entre Charlus e Marcel — o adulto snob e indiferente aos que o rodeiam e o adolescente curioso, com ambição literária e com uma faceta idólatra — não fosse apenas este a recordar-se do cartaz na coluna de publicidade.
A meio do último volume, quando o narrador reencontra um Barão de Charlus muito envelhecido e debilitado após ter sofrido um ataque, o Barão aponta uma coluna de publicidade com um cartaz semelhante àquele junto ao qual Charlus estava da primeira vez que ele e Marcel se encontraram. É certo que o «invertido» Barão, que se pusera ali para o engate, chegou a sentir-se atraído por Marcel, mas ele sentiu-se (e sente-se) atraído por todos os rapazinhos com bom ar, e não é credível que se lembrasse, décadas depois, de tais pormenores sobre as circunstâncias em que encontrou cada um deles, ou sequer aqueles com quem conviveu mais tempo.
A cena, que não é a de dois antigos apaixonados a evocarem o primeiro beijo ou o primeiro olhar, é relatada para evidenciar como está intacta, além da inteligência, a memória do Barão, mas parece escrita para fazer notar também como era super-humana a sua atenção aos detalhes. Parece uma inverosimilhança.
Li algures que Proust divide a vida e o carácter do narrador por várias personagens do romance, como Charles Swann e o Barão de Charlus. Isso explicaria que do primeiro encontro entre Charlus e Marcel — o adulto snob e indiferente aos que o rodeiam e o adolescente curioso, com ambição literária e com uma faceta idólatra — não fosse apenas este a recordar-se do cartaz na coluna de publicidade.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
A última capa da Recherche
A pouco mais de um terço do sétimo volume da Recherche deu-me para questionar a imagem da capa. Sem pensar muito no assunto, tinha achado as capas dos volumes anteriores bonitas e adequadas, com as suas reproduções de pinturas oitocentistas como ilustrações dos livros. Agora que uma boa parte do faubourg Saint Germain frequenta em plena Primeira Grande Guerra um hotel transformado em casa de prazeres homossexuais e sadomasoquistas, com pregos na ponta do chicote e peles esfaceladas e padres devassos e tudo, pensei que a escolha de uma imagem de um sarau elegante e decoroso foi afinal, não necessariamente de uma cumplicidade metaliterária com a hipocrisia do faubourg, mas talvez um pouquinho fofa demais.
A imagem, ao contrário das seis anteriores, apresenta-se monocromática, sépia, mas desconfio que isso se deve mais à tentativa de representar impressivamente a guerra e o fim de um tempo do que de indiciar o deboche. Percebo o interesse de evitar uma capa spoiler, só que em contrapartida a editora perdeu a oportunidade de captar nas prateleiras algum do leitorado fetiche das sombras de Grey.
P.S.: É incrível, e ao mesmo tempo gratificante, que tenha lido nesta idade tardia a obra de Proust não sabendo a priori mais do seu conteúdo do que a história mal contada da madalena. É certo que ameacei de porrada, década após década, todos os amigos e conhecidos que, leitores aviados da coisa, se pelavam por partilhar o enredo, e isso há-de ter tido o seu efeito dissuasor (mas só porque nenhum dos meus amigos era o barão de Charlus…).
P.S.2: A partir de certa altura, quando dizia que estava a guardar a Recherche para quando tivesse mais tempo, confesso que já nem eu acreditava muito nisso. Há uns anos, comprei esta edição da Relógio d’Água e senti-me, mais do que esbanjador, com os remorsos de um frugalista a comprar bibelôs. Anunciei que era para a reforma, acreditando tanto nesse projecto como em que chegava à reforma. E, no entanto, aqui estou eu, não com a reforma, mas avançado no último volume — e desejando altruisticamente terminar depressa a leitura porque a comecei com a pandemia e sabe-se lá se as duas coisas não estão ligadas.
domingo, 25 de outubro de 2020
Joaquim Agostinho
Cresci a ouvir falar de Joaquim Agostinho. O meu pai e os meus tios, como a maioria dos portugueses homens, eram apreciadores de desportos e misturavam nisso um pouquinho de fervor patriótico à maneira do Estado Novo, que a minha geração aligeirou mas hoje torna a assumir aqui e ali cores pesadas.
Na altura, o futebol não tinha o poder avassalador e esterilizador que hoje tem na sociedade. Outros desportos eram seguidos com atenção regular e o ciclismo era mais um deles. Enquanto criança e adolescente, fui por inerência fã de ciclismo e gostava dele sobretudo quando a caravana passava na minha terra atirando pelas janelas dos carros de apoio chapéus de papel, bonés, crachás e outros itens do que hoje se chamaria merchandising, uma dádiva a que não estávamos habituados. A passagem do circo da Volta era mais uma festa no calendário e, oh, se não apreciávamos festas.
A morte acidental e precoce de Joaquim Agostinho foi vivida e revivida em casa como uma tragédia tribal, familiar. Durante décadas, até há poucos anos, as quase vitórias de Agostinho, os seus lugares nos tops 10 ou 5 da Vuelta e do Tour (na altura era tudo apenas voltas aos respectivos países, algo que o patriotismo poliglota de hoje descura), os seus sucessos pessoais eram integrados na gesta lusa e narrados lá em casa, à luz do fogão a lenha ou sob a ramada de uvas morangueiras, como em Esparta se contava a Batalha das Termópilas ou nas estepes da Idade do Gelo se lembravam caçadas épicas a mamutes.
Depois de a pandemia me ter feito seguidor de ténis, nas últimas três semanas andei atento ao Giro de Itália, beneficiando da suave adrenalina que me chegou ao sofá à custa das pernas violentadas de João Almeida e Ruben Guerreiro. Não desfraldei uma bandeira na varanda nem fiz pinturas de guerra verde-rubras, mas perguntei-me se daqui a trinta anos um hipotético filho meu teria de João Almeida, no caso de eu lhe repetir ritualmente a saga italiana, uma ideia diferente da que tenho de Joaquim Agostinho: um nome que antes de evocar qualquer feito desportivo evoca figuras e tempos familiares.
Na altura, o futebol não tinha o poder avassalador e esterilizador que hoje tem na sociedade. Outros desportos eram seguidos com atenção regular e o ciclismo era mais um deles. Enquanto criança e adolescente, fui por inerência fã de ciclismo e gostava dele sobretudo quando a caravana passava na minha terra atirando pelas janelas dos carros de apoio chapéus de papel, bonés, crachás e outros itens do que hoje se chamaria merchandising, uma dádiva a que não estávamos habituados. A passagem do circo da Volta era mais uma festa no calendário e, oh, se não apreciávamos festas.
A morte acidental e precoce de Joaquim Agostinho foi vivida e revivida em casa como uma tragédia tribal, familiar. Durante décadas, até há poucos anos, as quase vitórias de Agostinho, os seus lugares nos tops 10 ou 5 da Vuelta e do Tour (na altura era tudo apenas voltas aos respectivos países, algo que o patriotismo poliglota de hoje descura), os seus sucessos pessoais eram integrados na gesta lusa e narrados lá em casa, à luz do fogão a lenha ou sob a ramada de uvas morangueiras, como em Esparta se contava a Batalha das Termópilas ou nas estepes da Idade do Gelo se lembravam caçadas épicas a mamutes.
Depois de a pandemia me ter feito seguidor de ténis, nas últimas três semanas andei atento ao Giro de Itália, beneficiando da suave adrenalina que me chegou ao sofá à custa das pernas violentadas de João Almeida e Ruben Guerreiro. Não desfraldei uma bandeira na varanda nem fiz pinturas de guerra verde-rubras, mas perguntei-me se daqui a trinta anos um hipotético filho meu teria de João Almeida, no caso de eu lhe repetir ritualmente a saga italiana, uma ideia diferente da que tenho de Joaquim Agostinho: um nome que antes de evocar qualquer feito desportivo evoca figuras e tempos familiares.
Hop off
Enquanto passo por um grupo de teenagers clandestinos num drink de final de tarde e sou por momentos sequestrado por uma nuvem de hip hop com rimas geradas pelo algoritmo da Empresa na Hora, tenho um pensamento típico de adulto antigo e pergunto-me onde irá parar o gosto musical desta juventude. A cena poderia ter ocorrido com adultos da minha idade a ouvir música de adolescentes da idade deles em qualquer década do século XX e até aos dias de hoje, mas, talvez também muito tipicamente, senti que desta vez é que era verdade, agora é que o gosto degenerara mesmo.
A música para crianças exaspera; suponho que é preciso ser pai delas para a ouvir deliciadamente, ou pelo menos suportá-la, ou disfarçar o melhor que se pode. A música de adolescentes é, pelo seu lado, frequentemente banda sonora de órfãos: nenhum pai com sensibilidade estética está disposto a assumir a paternidade de criaturas com tão mau uso de orelhas. Os adolescentes são indivíduos dependentes mas anseiam desesperadamente por autonomia, por romper as teias familiares, e talvez por isso a sua jukebox, instrumental na sublevação, se esforce por ser áspera a ouvidos adultos. Com este hip hop de rimas bacocas e samplers pirosos a sensação que fica é que de um modo geral se esforça pouco, embora consiga muito.
A música para crianças exaspera; suponho que é preciso ser pai delas para a ouvir deliciadamente, ou pelo menos suportá-la, ou disfarçar o melhor que se pode. A música de adolescentes é, pelo seu lado, frequentemente banda sonora de órfãos: nenhum pai com sensibilidade estética está disposto a assumir a paternidade de criaturas com tão mau uso de orelhas. Os adolescentes são indivíduos dependentes mas anseiam desesperadamente por autonomia, por romper as teias familiares, e talvez por isso a sua jukebox, instrumental na sublevação, se esforce por ser áspera a ouvidos adultos. Com este hip hop de rimas bacocas e samplers pirosos a sensação que fica é que de um modo geral se esforça pouco, embora consiga muito.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Pingas
Na casa onde nasci e cresci morava uma família feliz, mesmo se o tecto pingava de Inverno — e pingava sempre. (Não é certo que na altura todos partilhássemos esta opinião de que éramos uma família feliz, mas aos cinquenta encontramos sempre forma de acreditar que sim, quando tudo o que temos de seguro é o passado antigo.) Pingava sobretudo na cozinha, que era o sítio onde mais tempo estávamos, espécie de living room à transmontana mas com uma cobertura mais permeável do que se fosse de telha-vã. Em dias de depressão atmosférica inominada tinha lugar o ritual castrense de dispor a bateria de bacias e alguidares de acordo com as linhas de infiltração e de, a intervalos que variavam com a intensidade da chuva, esvaziar e recolocar os recipientes como na Guerra de 14 se repunham efectivos nas trincheiras: mecanicamente, sem considerações ou estados de espírito.
Vivi sempre com este trauma das infiltrações e a vida foi-me renovando as razões (e as infiltrações) para isso. As pingas perseguem-me, em casa ou no trabalho, década após década. Talvez apenas para me lembrar de que faça o que fizer serei sempre o rapazinho que ficava encolhido entre as pingas a ler à luz das velas. Talvez para me lembrar de que deveria continuar a ser sempre e só o rapazinho que acima de tudo queria ficar a ler entre as pingas à luz das velas.
Vivi sempre com este trauma das infiltrações e a vida foi-me renovando as razões (e as infiltrações) para isso. As pingas perseguem-me, em casa ou no trabalho, década após década. Talvez apenas para me lembrar de que faça o que fizer serei sempre o rapazinho que ficava encolhido entre as pingas a ler à luz das velas. Talvez para me lembrar de que deveria continuar a ser sempre e só o rapazinho que acima de tudo queria ficar a ler entre as pingas à luz das velas.
Last orders
A voz nos altifalantes invoca a legislação e informa os clientes, no mesmo tom com que anuncia promoções na secção de peixes, que esta é a última oportunidade para comprar bebidas alcoólicas. A voz nos altifalantes actua como a campainha num pub inglês em fim de noite e tem a mesma eficácia: a clientela salta vários itens da lista de compras, alguns quiçá taxados com IVA de primeira necessidade, e aglomera-se no corredor dos vinhos e bebidas brancas. Os estudantes universitários, precavidos, já por ali deambulam há algum tempo, a estudar atentamente a relação preço / teor alcoólico.
Se isto continua, talvez os corredores de vinhos dos supermercados venham a precisar de porteiros.
Se isto continua, talvez os corredores de vinhos dos supermercados venham a precisar de porteiros.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Trump, a «nódoa» de Viegas
Pela mesma voz tonitruante que em tempos ameaçou mandar o fisco «tomar no cu», ouvi hoje chamar nada menos do que «nódoa» a Trump. Muitos pensarão que Francisco José Viegas, o autor do apodo, foi demasiado diplomático, delicado — até fofo —, mas aquilo exigiu-lhe certa coragem, estou em crer.
«Nódoa» parece uma forma benigna de ver o actual presidente dos EUA, mas no contexto do post e do blogue de Viegas, onde ressoa com assiduidade a litania que ajudou a eleger Bolsonaro e a eleger Trump, a palavra surge quase inesperada, quase valente.
Aqui: https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/nodoa-1716777
---------
* O texto foi libertado por estes dias no blogue mas é de Julho.
«Nódoa» parece uma forma benigna de ver o actual presidente dos EUA, mas no contexto do post e do blogue de Viegas, onde ressoa com assiduidade a litania que ajudou a eleger Bolsonaro e a eleger Trump, a palavra surge quase inesperada, quase valente.
Aqui: https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/nodoa-1716777
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* O texto foi libertado por estes dias no blogue mas é de Julho.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Radio Ga Ga ou as ferramentas futuristas ao serviço da nostalgia nos anos 80
Quando ouvi pela primeira vez, na rádio, a canção «Radio Ga Ga» não pensei que fosse dos Queen e se me apaixonei por ela foi inicialmente pelo lado «futurista» dos arranjos — o que era uma grande ironia, julgo que involuntária, para uma canção que queria homenagear uma rádio em risco de ser ultrapassada pela televisão e o vídeo.
De resto, eu sentia ao ouvir a canção, com um misto de melancolia e excitação, um certo anacronismo, um certo atavismo (não totalmente entendidos), não só pela sugestão da música mas porque ouvia rádio tanto por prazer e necessidade como porque não tinha a alternativa que as tecnologias davam a muita gente em volta: gira-discos, aparelhagens de alta-fidelidade, leitores de cassetes, walkmans. Ouvia a rádio com um sentimento de clandestinidade, não por vergonha de o fazer, mas por vergonha de saber que era a única forma que tinha de ouvir música e, para compensar com fervor heróico um ego ferido, evocando as contingências da guerra, como agente em missão no estrangeiro sem outra maneira de estabelecer contacto com a pátria.
«Video Killed the Radio Star», dos Buggles, evoca o mesmo «problema» de transição da mesma forma irónica, reforçando o argumento de que podemos servir-nos das ferramentas do futuro para matar saudades do passado. A ironia (ou a crueldade) é aliás maior porque o video clip desta música terá sido o primeiro a passar na MTV.
«Echo Beach», que invoco apenas por capricho ou por sugestão de uma linha de baixo, faz um trio estética e sensualmente produtivo com as duas canções anteriores, embora nesta a nostalgia seja apenas a do Verão passado, tornado simbólico.
A nostalgia, a par da melancolia (de que é indissociável), é um estado de espírito tão propício à criação artística que nos servimos do passado, distante ou próximo, apenas como barro para moldar a obra que queremos legar ao futuro. Ou porque reviver o passado em Brideshead é frequentemente a única forma de sermos felizes no presente onde temos residência oficial.
Marcel Proust, se tivesse nascido num bairro operário da Londres dos anos oitenta do século XX, talvez tivesse armado o cabelo (e o bigode) com laca e gravado com sintetizadores uma obra conceptual em sete álbuns sobre os efeitos da passagem do tempo. (Se tivesse nascido no West End, como lhe era mais próprio, talvez tivesse sido apenas um simpatizante dos Iron Maiden. Da Iron Lady, quero dizer.)
De resto, eu sentia ao ouvir a canção, com um misto de melancolia e excitação, um certo anacronismo, um certo atavismo (não totalmente entendidos), não só pela sugestão da música mas porque ouvia rádio tanto por prazer e necessidade como porque não tinha a alternativa que as tecnologias davam a muita gente em volta: gira-discos, aparelhagens de alta-fidelidade, leitores de cassetes, walkmans. Ouvia a rádio com um sentimento de clandestinidade, não por vergonha de o fazer, mas por vergonha de saber que era a única forma que tinha de ouvir música e, para compensar com fervor heróico um ego ferido, evocando as contingências da guerra, como agente em missão no estrangeiro sem outra maneira de estabelecer contacto com a pátria.
«Video Killed the Radio Star», dos Buggles, evoca o mesmo «problema» de transição da mesma forma irónica, reforçando o argumento de que podemos servir-nos das ferramentas do futuro para matar saudades do passado. A ironia (ou a crueldade) é aliás maior porque o video clip desta música terá sido o primeiro a passar na MTV.
«Echo Beach», que invoco apenas por capricho ou por sugestão de uma linha de baixo, faz um trio estética e sensualmente produtivo com as duas canções anteriores, embora nesta a nostalgia seja apenas a do Verão passado, tornado simbólico.
A nostalgia, a par da melancolia (de que é indissociável), é um estado de espírito tão propício à criação artística que nos servimos do passado, distante ou próximo, apenas como barro para moldar a obra que queremos legar ao futuro. Ou porque reviver o passado em Brideshead é frequentemente a única forma de sermos felizes no presente onde temos residência oficial.
Marcel Proust, se tivesse nascido num bairro operário da Londres dos anos oitenta do século XX, talvez tivesse armado o cabelo (e o bigode) com laca e gravado com sintetizadores uma obra conceptual em sete álbuns sobre os efeitos da passagem do tempo. (Se tivesse nascido no West End, como lhe era mais próprio, talvez tivesse sido apenas um simpatizante dos Iron Maiden. Da Iron Lady, quero dizer.)
O tempo baralhado
Acontece-me em certas passagens de Em Busca do Tempo Perdido, em certas frases ou pensamentos que o narrador atribui a título hipotético ou demonstrativo a alguma personagem ou a pensamentos seus, em diálogos que faz consigo mesmo, acontece-me, dizia, aperceber em Proust ecos de Javier Marías. Naturalmente só Marías pode ser eco de Proust e não o contrário, mas, como os li na ordem inversa, é de Marías que me parecem ser tributárias algumas soluções narrativas de Proust.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Roland Garros ou como nada ficou igual depois da pandemia
Está aí Roland Garros e eu, que para esta rentrée me tinha comprometido com tanta coisa séria, só anelo por ver cada um dos jogos de todas as rondas do torneio de Paris. Têm razão os negacionistas: o confinamento lavou-nos o cérebro, sequestrou-nos o espírito, inventou a procrastinação.
Papel almaço
Num post patrocinado, um «autor» (designação que o próprio acrescenta oficialmente ao nome) ameaça-nos com um novo livro em breve. Uma segunda «obra», informa, «e com ainda mais garantia de qualidade».
Edita, adivinharam, a Chiado – empresa grossista de papel almaço.
A criação do mundo
A criação do mundo por Deus na versão do Antigo Testamento é admirável, mas a versão dos Cadernos de Bernfried Järvi (pp. 61 a 63), onde percebemos que quem criou o mundo foi Pagreus, é muito mais credível.
«Assim foram acabados os céus e a terra. Ao sétimo dia, tendo Pagreus terminado a obra (…), chamou Heike, o empregado do café, e pediu mais uma cerveja.»
«Assim foram acabados os céus e a terra. Ao sétimo dia, tendo Pagreus terminado a obra (…), chamou Heike, o empregado do café, e pediu mais uma cerveja.»
terça-feira, 29 de setembro de 2020
Cadernos de Bernfried Järvi
Rui Manuel Amaral escreveu um livro precioso. Não só porque é uma maravilha literária mas porque se revela de uma utilidade prática, digamos, se gostamos de assentar em cafés com alguma coisa para ler. Menos (mas também) porque tem uma estrutura narrativa propícia a frequentes levantares de olhos para observação da fauna do que porque nos dá toda a atmosfera dos melhores cafés (ou piores tascas) sem que precisemos de levantar os olhos das páginas.
Postas as coisas assim, poderia parecer um livro para preguiçosos, um substituto de experiências e de ficções pessoais a partir de uma ida ao café. Mas vejam a coisa de outro modo: quantos de nós poderíamos fazer alguma coisa de útil com os cafés que nos calham? Os Cadernos de Bernfried Järvi no limite até nos poupam uma saída de casa, porque ao lê-los somos felizes estando ou não no café. Ao lê-los, somos como o gato de Schrödinger da vida nocturna: eventualmente de pantufas, mas sempre vivos, pardos e vadiando.
Postas as coisas assim, poderia parecer um livro para preguiçosos, um substituto de experiências e de ficções pessoais a partir de uma ida ao café. Mas vejam a coisa de outro modo: quantos de nós poderíamos fazer alguma coisa de útil com os cafés que nos calham? Os Cadernos de Bernfried Järvi no limite até nos poupam uma saída de casa, porque ao lê-los somos felizes estando ou não no café. Ao lê-los, somos como o gato de Schrödinger da vida nocturna: eventualmente de pantufas, mas sempre vivos, pardos e vadiando.
O crescimento do partido de Ace Ventura em Estevais de Mogadouro
Não sei se é patético ou deprimente ver um escritor rejubilar com o crescimento do partido de Ace Ventura em Estevais de Mogadouro.
(Talvez não seja ainda rejubilar, mas o wishful thinking de alguém que tendo acendido sucessivas velas a determinados santos espera ver homologado o culto.)
(Talvez não seja ainda rejubilar, mas o wishful thinking de alguém que tendo acendido sucessivas velas a determinados santos espera ver homologado o culto.)
terça-feira, 22 de setembro de 2020
Revisitando o passado, com ou sem aliens
Como parte do meu sólido compromisso com a procrastinação e a frivolidade, estive esta noite a ver a comédia The World’s End. O gatilho e cerne da história é simples: Gary King, um alcoólico de 40 anos que não saiu da adolescência, retoma o contacto com os seus quatro antigos amigos e desafia-os para, décadas depois, completarem a «Golden Mile», uma espécie de «rally das tascas» que faz um percurso por 12 pubs da sua cidade natal e pretende terminar, adequadamente, com uma última cerveja no The World’s End.
O que parecia para o meu incorrigível optimismo uma história de reencontros e revisitação do passado sofre a determinada altura um twist e transforma-se numa comédia de aliens, sem contudo perder a energia central: a obsessão de Gary por completar a Golden Mile. Quando poderíamos achar que as dificuldades do percurso seriam as objecções ou a menor resistência ao álcool dos amigos agora «crescidos» de Gary, eis que toda uma comunidade local já por natureza crítica de tal demanda estroina se revela possuída por seres extraterrestres com a pretensão de civilizar e higienizar a vida na Terra.
No final do filme, como tantas vezes me acontece, pus-me a pensar, não no tempo que perdi a ver aquilo, mas nas oportunidades que o filme perdeu. E talvez não tenha perdido nenhumas, mas eu teria optado, para atenuar o sentimento de culpa de o ter visto e quiçá errando clamorosamente, por um novo twist no final que devolvesse o filme à Terra, mostrando que o pandemónio alienígena tinha sido apenas a forma como a mente ébria de Gary interpretara as dificuldades e os obstáculos com que o seu projecto se tinha deparado. (Quem nunca se embriagou ao ponto de sonhar com extraterrestres puritanos não sabe do que falo. Bem, eu próprio não tenho essa experiência, mas imagino-a facilmente verosímil num epílogo cinematográfico.)
No fundo, para defender perante mim mesmo uma reputação de espectador que nunca tive, desejei que o filme tivesse tomado ares de uma comédia «séria», algo entre Os Amigos de Alex e Os Velhos Diabos. O primeiro título é para muitos o arquétipo em cinema desta ideia literária do confronto com o passado (outros preferirão, naturalmente, o não menos etílico Brideshead Revisited). O segundo título é um livro de Kingsley Amis, pai de Martin Amis.
De repente, todas estas referências e mais algumas explodiram-me na cabeça, numa teia de ligações mais emaranhada do que renda do Minho.
Quando há dez anos escrevi o meu segundo romance (Aranda, assente, precisamente, na ideia assaz original de revisitação do passado a partir do convite que um tipo embriagado faz a um grupo de amigos e amigas da adolescência), alguém me lembrou, justamente, Os Amigos de Alex, que eu, sem ter visto, confundia sobretudo com o programa da Renascença FM. Ora, acontece que tinha escrito o livro aproveitando um estado mental que me fora fornecido por A Viúva Grávida, obra passada em 1970 e vagamente autobiográfica de Martin Amis, anos antes de ler Os Velhos Diabos, onde o pai de Martin, ele mesmo o bebedor que se sabe, encena a sua própria tragicomédia de adultos a revisitarem entre copos a juventude perdida (com mais êxito do que eu: ganhou o Booker).
Talvez para aliviar definitivamente a minha consciência e acrescentar ligações maradas a tudo isto, fiquei a saber, depois de consultar a Wikipedia, que o filme Os Amigos de Alex foi escrito por Lawrence Kasdan, que, surpresa, foi também, não sei se alcoólico, mas co-autor de vários dos episódios antigos e recentes da saga Star Wars. Não há, afinal, nada de estranho ou menos válido no facto de The World’s End ter resolvido ser também um filme de aliens: aparentemente os dois géneros podem conviver com sucesso na cabeça de um mesmo autor.
Neste estado de espírito, fui revisitar o meu (e)ternamente inédito Aranda e perguntei-me se conseguiria alguma vantagem editorial (ou, quem sabe, perante a indústria cinematográfica) enfiando-lhe no elenco um par de aliens. O que acham?
O que parecia para o meu incorrigível optimismo uma história de reencontros e revisitação do passado sofre a determinada altura um twist e transforma-se numa comédia de aliens, sem contudo perder a energia central: a obsessão de Gary por completar a Golden Mile. Quando poderíamos achar que as dificuldades do percurso seriam as objecções ou a menor resistência ao álcool dos amigos agora «crescidos» de Gary, eis que toda uma comunidade local já por natureza crítica de tal demanda estroina se revela possuída por seres extraterrestres com a pretensão de civilizar e higienizar a vida na Terra.
No final do filme, como tantas vezes me acontece, pus-me a pensar, não no tempo que perdi a ver aquilo, mas nas oportunidades que o filme perdeu. E talvez não tenha perdido nenhumas, mas eu teria optado, para atenuar o sentimento de culpa de o ter visto e quiçá errando clamorosamente, por um novo twist no final que devolvesse o filme à Terra, mostrando que o pandemónio alienígena tinha sido apenas a forma como a mente ébria de Gary interpretara as dificuldades e os obstáculos com que o seu projecto se tinha deparado. (Quem nunca se embriagou ao ponto de sonhar com extraterrestres puritanos não sabe do que falo. Bem, eu próprio não tenho essa experiência, mas imagino-a facilmente verosímil num epílogo cinematográfico.)
No fundo, para defender perante mim mesmo uma reputação de espectador que nunca tive, desejei que o filme tivesse tomado ares de uma comédia «séria», algo entre Os Amigos de Alex e Os Velhos Diabos. O primeiro título é para muitos o arquétipo em cinema desta ideia literária do confronto com o passado (outros preferirão, naturalmente, o não menos etílico Brideshead Revisited). O segundo título é um livro de Kingsley Amis, pai de Martin Amis.
De repente, todas estas referências e mais algumas explodiram-me na cabeça, numa teia de ligações mais emaranhada do que renda do Minho.
Quando há dez anos escrevi o meu segundo romance (Aranda, assente, precisamente, na ideia assaz original de revisitação do passado a partir do convite que um tipo embriagado faz a um grupo de amigos e amigas da adolescência), alguém me lembrou, justamente, Os Amigos de Alex, que eu, sem ter visto, confundia sobretudo com o programa da Renascença FM. Ora, acontece que tinha escrito o livro aproveitando um estado mental que me fora fornecido por A Viúva Grávida, obra passada em 1970 e vagamente autobiográfica de Martin Amis, anos antes de ler Os Velhos Diabos, onde o pai de Martin, ele mesmo o bebedor que se sabe, encena a sua própria tragicomédia de adultos a revisitarem entre copos a juventude perdida (com mais êxito do que eu: ganhou o Booker).
Talvez para aliviar definitivamente a minha consciência e acrescentar ligações maradas a tudo isto, fiquei a saber, depois de consultar a Wikipedia, que o filme Os Amigos de Alex foi escrito por Lawrence Kasdan, que, surpresa, foi também, não sei se alcoólico, mas co-autor de vários dos episódios antigos e recentes da saga Star Wars. Não há, afinal, nada de estranho ou menos válido no facto de The World’s End ter resolvido ser também um filme de aliens: aparentemente os dois géneros podem conviver com sucesso na cabeça de um mesmo autor.
Neste estado de espírito, fui revisitar o meu (e)ternamente inédito Aranda e perguntei-me se conseguiria alguma vantagem editorial (ou, quem sabe, perante a indústria cinematográfica) enfiando-lhe no elenco um par de aliens. O que acham?
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
Como experimentar na Terra a gravidade da Lua
Por estes dias descobriram hipotética vida em Vénus* e eu descobri como experimentar na Terra a fraca atracção da gravidade lunar. Aconteceu depois de pousar no lobby do hotel uma mochila de vinte quilos e uma mala de quase trinta que carregava por encomenda entre aeroportos e estações. Alijada a carga junto ao sofá de couro gretado da recepção, os passos finais que me separavam do balcão de check-in dei-os aos pulos, entre soalho e candeeiros de tecto, como Armstrong a tirar selfies na Lua em 1969, com igual involuntariedade e a mesma alegria pioneira.
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* Tirando o primeiro episódio da saga Alien, «hipotética vida» é tudo o que temos obtido da exploração espacial até à data.
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* Tirando o primeiro episódio da saga Alien, «hipotética vida» é tudo o que temos obtido da exploração espacial até à data.
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Cavalheirismo de última geração
A zaragata juvenil da madrugada tem início quando, no seio de um grupo de pândegos, um tipo começa a bravejar com uma rapariga, insultando-a. Como ela se afasta com duas ou três pessoas mas hesita em ir embora e responde à distância e à letra, o tom dele passa a ser de ameaça e tem lugar então a habitual dança de avanços e recuos, contida por outros elementos do grupo. A certa altura da altercação, talvez querendo mostrar galhardamente que não bate em senhoras mas demasiado irado para deixar passar o caso, o vociferante recorre a uma fórmula indirecta, em que deposita as esperanças simultâneas de se vingar e ser ilibado de falta de cavalheirismo: «Eu fodo-te, pá. Vais levar nesses cornos de duas ou três gajas, podes contar com isso.»
Talvez o amigo que a seguir lhe fez uma placagem tecnicamente perfeita, quando, já livre de peias morais ou cuidados de género, o touro enraivecido resolveu investir a todo o galope contra um dos acompanhantes da sua inimiga — um tipo impávido, silencioso e com ar um pouco efeminado, que ouviu sem se mexer o anúncio «Mas tu vais levar já!» —, talvez esse amigo ágil e moderador lhe tivesse dito que o cavalheiro, ao optar para a sua vingança diferida por um número plural de instrumentos, vulgo interpostas gajas, não se livraria de uma acusação de cobardia, porque a contenda terminou por ali.
Talvez o amigo que a seguir lhe fez uma placagem tecnicamente perfeita, quando, já livre de peias morais ou cuidados de género, o touro enraivecido resolveu investir a todo o galope contra um dos acompanhantes da sua inimiga — um tipo impávido, silencioso e com ar um pouco efeminado, que ouviu sem se mexer o anúncio «Mas tu vais levar já!» —, talvez esse amigo ágil e moderador lhe tivesse dito que o cavalheiro, ao optar para a sua vingança diferida por um número plural de instrumentos, vulgo interpostas gajas, não se livraria de uma acusação de cobardia, porque a contenda terminou por ali.
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