quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Carta de motivação
Ponderando uma candidatura a uma bolsa de criação literária, detenho-me no item «carta de motivação» e concluo que uma sinceridade simples, sem nuances, me excluiria: um ano sem trabalhar. O enredo e a ficção começam, portanto, logo com o primeiro documento da candidatura.
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Marcos miliários
(™ A viver acima das possibilidades desde 1968)
Gostaria que a minha vida, pelo menos a da última década, fosse contada em slides da série «™ A viver acima das possibilidades desde 1968». Não tenho na verdade publicado muitas fotos dessas, mas as poucas que publiquei permitem-me preencher os vazios entre elas e (re)construir uma boa narrativa para os meus dias idos. Se me focar suficientemente naqueles momentos em que o espaço/tempo se organizou em volta de livros, paisagem e vinho poderei considerar com propriedade e alívio ter tido uma vida feliz.
O «sítio formoso» desta foto, para roubar uma expressão que o qualificou, só levemente tangeu essa condição de marco miliário araujiano, e não é local onde muito facilmente possa demorar-me horas a ler e a bebericar. Mas tem simultaneamente a estética e a veemência de um deles e não me admirarei se, com a febre que há-de tomar-me, vier a empenhar alguma coisa, seguindo a divisa da casa, para ali virar páginas e copos. Na absoluta impossibilidade disso, posso bem, não seria a primeira vez, penhorar um enredo que me permita igualmente frequentá-lo com regularidade terapêutica, ainda que por pretensa via literária.
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Para uma semiótica do pessimismo antropológico
Há uma subtil mas significativa contradição naqueles pessimistas antropológicos que exigem governantes sem defeito. Alguns protegem-se perante si mesmos da incoerência tornando-se facciosos, especialistas em fabricar semânticas diferentes para governantes de sinal contrário.
Levada a um extremo, ou associada a uma menos subtil mas raramente admitida defesa do privilégio sobre todos os outros assuntos políticos, esta antinomia faz eleger Trumps e Bolsonaros sem dar notícia da intrínseca fractura no racionalismo do mundo. Ou, pelo contrário, considerando-a o corolário mais que perfeito da cosmogonia pessimista. Os seres desta última espécie designam-se como masoquistas ou cínicos, consoante a posição na tabela social.
Levada a um extremo, ou associada a uma menos subtil mas raramente admitida defesa do privilégio sobre todos os outros assuntos políticos, esta antinomia faz eleger Trumps e Bolsonaros sem dar notícia da intrínseca fractura no racionalismo do mundo. Ou, pelo contrário, considerando-a o corolário mais que perfeito da cosmogonia pessimista. Os seres desta última espécie designam-se como masoquistas ou cínicos, consoante a posição na tabela social.
sábado, 15 de agosto de 2020
Himmler não entra
Um misantropo é capaz de compreender que não se goste de pessoas, porque ao fim e ao cabo ele próprio não as tem em grande estima. Um pessimista antropológico (ou, se quisermos, um realista que consulte as tiragens dos jornais, as audiências das televisões, as listas de livros mais vendidos e a opinião comum nas redes sociais) receia com bons motivos o advento da democracia directa e pergunta-se, como o misantropo, para quando as viagens a Marte.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Nos fundilhos de um negrilho
O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
Bem-aventurados os pobres de espírito
Quando pensamos que Hollywood toma o seu público por néscio, temos de nos lembrar da sofisticação das legendagens em português:
— Did she knew him?
— Probably biblically.
Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.
— Did she knew him?
— Probably biblically.
Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.
A banda sonora das vidas deles
1) Mais irritante do que uma festa de adolescentes a perturbar a noite é a música que se ouve nessa festa. Quer dizer, há toda uma multidão de compositores decentes na actualidade, mas apontem-me uma festa de teenagers com boa música e eu próprio visto alguma roupa nestas noites de ananases e vou até lá.
2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.
3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.
4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!
5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.
(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.
2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.
3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.
4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!
5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.
(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.
sábado, 8 de agosto de 2020
A marmota no feitiço do tempo
O meu Proust vai lento (deve ser para ai a terceira vez que escrevo isto e cada vez me sabe melhor fazê-lo) e se isso me traz um pouquinho de frustração quando reparo nos livros que tenho em espera não é, ainda assim, coisa que me apoquente.
Este Verão não ficará famoso por belas viagens, mergulhos inesperados ou de aspiração infantil, copos com vista e sombra, bolas acidentalmente roubadas no green do buraco 17. Mas está a deixar a sua marca na memória, por cortesia de uma rotina que só uma época anormal, sem pressa de projectos ou destinos, permite cumprir-se todos os dias com dedicação e método.
Não são muitas as páginas que viro do meu Proust a cada jornada, é verdade, e a maioria acontece ao pequeno-almoço (as noites de folga têm sido, como sabem, de rendição perante um fascínio desportivo insuspeitado, outra anomalia deste ano incomum, como o planeta Melancholia). E é justamente nessa pequena quantidade de páginas lidas por cada rotação terrestre, nesse lento avançar para o volume seguinte, que se vai construindo uma ideia ou um significado, talvez uma esperança: deixar durar a leitura para prolongar o prazer ou para deter o tempo, para o reorganizar numa sucessão que não avança, antes repete cada dia com o mesmo interesse aparentemente diminuto do anterior. Como no filme O Feitiço do Tempo, mas sem necessidade de desenvolvimentos ou correcções.
Uma rotina para não perder o tempo.
Levantar, constatar que é Verão e o sol brilha e as sombras das árvores, onde as há, são a dádiva que equilibra tudo; desempenhar as tarefas matinais como quem progride na floresta tropical, afastando com indiferença um pouco impaciente a vegetação à esquerda e à direita, ou como quem avança em slalom entre a multidão, apartando caminho com os ombros, para chegar à clareira ou à praia ou à pequena praça esquecidas, perdidas, ignoradas, desertas, solitárias e maravilhosas. Livro sobre a mesa, em frente aos utensílios e aos víveres, tudo disposto com rigor maníaco obsessivo-compulsivo. E então, o tempo pára durante vinte minutos…
Depois é descer em estado de graça, com ar de heroinómano satisfeito, aproveitando o privilégio de ir a pé para o emprego, resistindo beatificado às ruas inclementes de sol e humanidade que antecedem a chegada ao parque, onde, sob um céu sabiamente entretecido de ramos e folhas, tem lugar uma segunda pausa de contemplação e de puro prazer de estar vivo.
No dia seguinte tudo se repete e se há alguma preocupação é a de não alterar os gestos, os movimentos, os passos, procurar que nada inflicta o rumo dos acontecimentos, na esperança vã mas feliz de que o Verão não acabe, o sol perdure (para que haja o prazer de chegar à sombra), o Proust tenha escrito setenta volumes em vez de sete, trinta dos quais dedicados às viagenzinhas de comboio de ida e volta entre Balbec e a Raspelière, passando por Doncières.
A felicidade é menos ser um Bill Murray paulatinamente apaixonado do que a marmota que repete cada dia com ambição modesta contudo sapiente e hiberna nos meses que não são Verão.
Este Verão não ficará famoso por belas viagens, mergulhos inesperados ou de aspiração infantil, copos com vista e sombra, bolas acidentalmente roubadas no green do buraco 17. Mas está a deixar a sua marca na memória, por cortesia de uma rotina que só uma época anormal, sem pressa de projectos ou destinos, permite cumprir-se todos os dias com dedicação e método.
Não são muitas as páginas que viro do meu Proust a cada jornada, é verdade, e a maioria acontece ao pequeno-almoço (as noites de folga têm sido, como sabem, de rendição perante um fascínio desportivo insuspeitado, outra anomalia deste ano incomum, como o planeta Melancholia). E é justamente nessa pequena quantidade de páginas lidas por cada rotação terrestre, nesse lento avançar para o volume seguinte, que se vai construindo uma ideia ou um significado, talvez uma esperança: deixar durar a leitura para prolongar o prazer ou para deter o tempo, para o reorganizar numa sucessão que não avança, antes repete cada dia com o mesmo interesse aparentemente diminuto do anterior. Como no filme O Feitiço do Tempo, mas sem necessidade de desenvolvimentos ou correcções.
Uma rotina para não perder o tempo.
Levantar, constatar que é Verão e o sol brilha e as sombras das árvores, onde as há, são a dádiva que equilibra tudo; desempenhar as tarefas matinais como quem progride na floresta tropical, afastando com indiferença um pouco impaciente a vegetação à esquerda e à direita, ou como quem avança em slalom entre a multidão, apartando caminho com os ombros, para chegar à clareira ou à praia ou à pequena praça esquecidas, perdidas, ignoradas, desertas, solitárias e maravilhosas. Livro sobre a mesa, em frente aos utensílios e aos víveres, tudo disposto com rigor maníaco obsessivo-compulsivo. E então, o tempo pára durante vinte minutos…
Depois é descer em estado de graça, com ar de heroinómano satisfeito, aproveitando o privilégio de ir a pé para o emprego, resistindo beatificado às ruas inclementes de sol e humanidade que antecedem a chegada ao parque, onde, sob um céu sabiamente entretecido de ramos e folhas, tem lugar uma segunda pausa de contemplação e de puro prazer de estar vivo.
No dia seguinte tudo se repete e se há alguma preocupação é a de não alterar os gestos, os movimentos, os passos, procurar que nada inflicta o rumo dos acontecimentos, na esperança vã mas feliz de que o Verão não acabe, o sol perdure (para que haja o prazer de chegar à sombra), o Proust tenha escrito setenta volumes em vez de sete, trinta dos quais dedicados às viagenzinhas de comboio de ida e volta entre Balbec e a Raspelière, passando por Doncières.
A felicidade é menos ser um Bill Murray paulatinamente apaixonado do que a marmota que repete cada dia com ambição modesta contudo sapiente e hiberna nos meses que não são Verão.
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Ironia
Na minha vida de plumitivo, quando possuía carteira de jornalista, hesitava involuntariamente entre dois estilos: o editorialista e o ironista. Ambas as formas derivavam da indignação, mas enquanto a primeira me expunha como ser moral e senciente a segunda desvendava as escadas que conduzem ao Olimpo da fleuma (e que nunca consegui verdadeiramente subir até ao fim).
Se me tornei um admirador da ironia não foi porque via nela utilidade directa para o mundo, mas porque adivinhei benefícios para o praticante. Não podendo espadeirar a comarca como ela precisa, mais vale rirmo-nos dela salvaguardando distâncias profilácticas.
Convém todavia lembrar que a ironia anda de mãos dadas com a liberdade e a democracia. Só quando não nos levamos suficientemente a sério e sentimos um necessário desprezo pelos que o fazem estamos capazes de resistir à bestialidade.
A Inglaterra não resistiu ao nazismo por ser uma ilha, mas pela sua capacidade de escárnio. Que nas décadas seguintes cultivou, como antes, na literatura, na política e na música, até optar, em degradée, pelo género menor da caricatura, com Cameron, May e Johnson.
Em Portugal conheço dois focos historicamente activos de ironia: o Rui Reininho dos GNR (Q.E.D.) e Vilarelho de Jales, onde pela mão dos irmãos Chaves, eles próprios capazes de fina ironia, conheci uma tribo cujo lugar de pontífice era disputado por Mó, irmão de Salu. Se a imbecilidade nacional continuar a dar crédito ao rapaz do Chega, é ali que me encontram, naquela aldeia mais britânica do que gaulesa, a bebericar copinhos de poção irónica e a entronizar Reininho como monarca de direito para liderar a reconquista.
Se me tornei um admirador da ironia não foi porque via nela utilidade directa para o mundo, mas porque adivinhei benefícios para o praticante. Não podendo espadeirar a comarca como ela precisa, mais vale rirmo-nos dela salvaguardando distâncias profilácticas.
Convém todavia lembrar que a ironia anda de mãos dadas com a liberdade e a democracia. Só quando não nos levamos suficientemente a sério e sentimos um necessário desprezo pelos que o fazem estamos capazes de resistir à bestialidade.
A Inglaterra não resistiu ao nazismo por ser uma ilha, mas pela sua capacidade de escárnio. Que nas décadas seguintes cultivou, como antes, na literatura, na política e na música, até optar, em degradée, pelo género menor da caricatura, com Cameron, May e Johnson.
Em Portugal conheço dois focos historicamente activos de ironia: o Rui Reininho dos GNR (Q.E.D.) e Vilarelho de Jales, onde pela mão dos irmãos Chaves, eles próprios capazes de fina ironia, conheci uma tribo cujo lugar de pontífice era disputado por Mó, irmão de Salu. Se a imbecilidade nacional continuar a dar crédito ao rapaz do Chega, é ali que me encontram, naquela aldeia mais britânica do que gaulesa, a bebericar copinhos de poção irónica e a entronizar Reininho como monarca de direito para liderar a reconquista.
Marvel
Enquanto escrevia «Bruce Banner» no post anterior fui invadido por memórias e sensações que abalaram terramotamente o prédio inteiro. Só recuperei quando os vizinhos de baixo, octogenários que não via desde Março, me bateram à porta em camisa de noite e gorro com pompom a recomendar que descrevesse o fenómeno em sete volumes mas que entretanto me abrigasse debaixo de uma mesa ou de uma padieira, até cessarem as réplicas.
Estou, portanto, aqui debaixo da secretária de mogno que herdei do morgado de quem sou descendente bastardo, a lembrar, não em sete volumes, mas em sete linhas ou menos, o tempo em que a minha vida era excitada periodicamente pelas revistas da Marvel a que conseguia deitar a mão.
Conheci basto mundo depois dessa era, deixando uma pegada ecológica que não precisa de nenhum Sherlock Holmes para dela inferir incriminações. Mas, e suponho que isto seja proustiano, não houve destino ou ocasião que me devolvessem a expectativa e a felicidade iminente que ressumavam daquelas páginas — mesmo quando nelas o nosso mundo explodia.
Estou, portanto, aqui debaixo da secretária de mogno que herdei do morgado de quem sou descendente bastardo, a lembrar, não em sete volumes, mas em sete linhas ou menos, o tempo em que a minha vida era excitada periodicamente pelas revistas da Marvel a que conseguia deitar a mão.
Conheci basto mundo depois dessa era, deixando uma pegada ecológica que não precisa de nenhum Sherlock Holmes para dela inferir incriminações. Mas, e suponho que isto seja proustiano, não houve destino ou ocasião que me devolvessem a expectativa e a felicidade iminente que ressumavam daquelas páginas — mesmo quando nelas o nosso mundo explodia.
Cólera
Venho de uma linhagem de coléricos. Pessoas boas, capazes, honestas e humildes, mas coléricas. Não sou, julgo, o praticante vivo mais destacado da estirpe, mas não me livrei da maldição, que, no meu caso, afecta por vezes mais o perpetrador do que o alvo. É que para se ser um colérico feliz tem de se reunir pelo menos uma de duas condições: a inconsciência dos brutos ou o cinismo dos poderosos. Por decisão do destino livrei-me da primeira e a segunda nunca esteve verdadeiramente no meu radar. Por isso, sofro de tremendos remorsos sempre que expludo em fúria, e nas últimas décadas evitei expor-me a ela.
Todavia, não entrei numa ordem cisterciense com voto de silêncio e, como Bruce Banner, não posso responder sempre pelos meus actos.
Todavia, não entrei numa ordem cisterciense com voto de silêncio e, como Bruce Banner, não posso responder sempre pelos meus actos.
quarta-feira, 29 de julho de 2020
Esperar o fim no Solar Bragançano II
No domingo fui jantar ao Solar Bragançano e como não o faço com a regularidade que gostaria lembrei-me, até pelas semelhanças de contexto, do jantar memorável e fanfarrão que ali me ofereci em Novembro de 2012*, quando nos afligia a coronotroika. Contudo, para não exagerar no paralelismo e sobretudo para levar um espírito francamente optimista para a mesa, observei, enquanto compunha a máscara depois de passar as mãos pelo álcool-gel da casa, que na altura nada nos protegia da peste e governava Passos Coelho.
sexta-feira, 24 de julho de 2020
À venda na OLX
Descubro um dos meus livros à venda na OLX (não é a primeira vez). Hesito entre sentir regozijo ou frustração. Opto pelo primeiro sentimento quando vejo que a mesma pessoa está a vender, além de outras coisas, A Fogueira das Vaidades (Tom Wolfe), Com os Holandeses (Rentes de Carvalho) e uma máquina de costura Singer. Depois deprimo, ao notar que na longa lista de artigos só há duas coisas mais baratas do que o meu livro: uma máquina de barbear que «não trabalha» (5€) e uma camisa «tipo ganga» (6€).
Rebuliço na madrugada
Rebuliço na madrugada. Adolescentes bêbados e sobretudo parvos. O costume. Chamam a polícia e desta vez não são os vizinhos involuntariamente insones a fazê-lo, mas alguém do próprio grupo infecto-festivo num assomo de bom senso ou, mais provavelmente, por vingança beberrona. Um carro-patrulha, dois, três. Uma dezena de polícias, algumas cotoveladas joviais de cumprimento social para evitar conflitos e demonstrar certa compreensão perante a parvoeira — e nenhum protocolo evidente quanto a máscaras, distâncias e, sobretudo, madrugadas silenciosas.
O rebuliço, que se resolvia talvez transportando simbolicamente um ou dois patetas para curar a égua na esquadra e dispersando os restantes com vozes de pastor ou condutor de gado, é arrastado pelos agentes numa dança de ameaças entediadas, soletração lenta e por escrito da identidade de um ou outro grunho e por fim convívio geral e magnânimo. As moças riem à distância, pouco aflitas com o dispositivo cénico, gozando o panorama.
Por instantes, a galhofa é agora também policial (parte dos agentes parece saída há pouco daquela mesma adolescência).
O cidadão na varanda, farto da encenação e gozando antecipadamente o inusitado do acto que por sua vez enceta, silva um shiuuu irónico mas sonoro. Um dos adolescentes civis lá em baixo riposta: tropeçando e enrolando a língua a tentar parecer sóbrio, faz notar que tem a autoridade a seu lado, ou do seu lado. O cidadão, rindo para dentro, responde de forma a ser ouvido por toda a juventude, uniformizada ou não, que há na vizinhança, por incrível que pareça à tropa galhofeira, quem queira dormir. Instantes depois, a polícia dispersa. Menos mal.
O rebuliço, que se resolvia talvez transportando simbolicamente um ou dois patetas para curar a égua na esquadra e dispersando os restantes com vozes de pastor ou condutor de gado, é arrastado pelos agentes numa dança de ameaças entediadas, soletração lenta e por escrito da identidade de um ou outro grunho e por fim convívio geral e magnânimo. As moças riem à distância, pouco aflitas com o dispositivo cénico, gozando o panorama.
Por instantes, a galhofa é agora também policial (parte dos agentes parece saída há pouco daquela mesma adolescência).
O cidadão na varanda, farto da encenação e gozando antecipadamente o inusitado do acto que por sua vez enceta, silva um shiuuu irónico mas sonoro. Um dos adolescentes civis lá em baixo riposta: tropeçando e enrolando a língua a tentar parecer sóbrio, faz notar que tem a autoridade a seu lado, ou do seu lado. O cidadão, rindo para dentro, responde de forma a ser ouvido por toda a juventude, uniformizada ou não, que há na vizinhança, por incrível que pareça à tropa galhofeira, quem queira dormir. Instantes depois, a polícia dispersa. Menos mal.
Profissão de fé
Não costumo, senão por raros descuidos, trazer para o blogue assuntos profissionais. Não porque menospreze o que faço para ganhar a vida ou porque me dedique com ligeireza à profissão (por atavismo, não o saberia fazer mesmo que fosse açougueiro, au pair ou pintor de marinas), mas porque aprecio que não se contaminem mutuamente um emprego apesar de tudo (e dos anos) circunstancial e uma vocação mais antiga, idiossincrática e inelutável que em parte se cumpre justamente nesta plataforma online.
Esclareço já, todavia, para poupar entusiasmos e equívocos, que a vocação que se cumpre no blogue é agora sobretudo a do disparate gratuito. Uma consulta ao índice (e aos dicionários) revelará que o que se trata aqui — não por conveniência ou decisão mas como pura fatalidade — é de procrastinar, tergiversar. Escrever espontaneamente, sem fundamento (e sem honorários!) sobre qualquer coisa excepto a que importaria. Ténis é só o exemplo mais recente.
Invocar Bartleby é coisa pedante, mas algures dentro de mim habita um tipo que, perante as inquietações e as grandes questões do nosso tempo, que deveriam ser assunto neste blogue, e perante a tentativa do novo grande romance português, está permanentemente a dizer: «I would prefer not to». E lá sai, ao invés de reflexões ponderosas ou literatura original, mais um disparate sobre homens em calções e mulheres em minissaia atrás de bolas amarelas.
Esclareço já, todavia, para poupar entusiasmos e equívocos, que a vocação que se cumpre no blogue é agora sobretudo a do disparate gratuito. Uma consulta ao índice (e aos dicionários) revelará que o que se trata aqui — não por conveniência ou decisão mas como pura fatalidade — é de procrastinar, tergiversar. Escrever espontaneamente, sem fundamento (e sem honorários!) sobre qualquer coisa excepto a que importaria. Ténis é só o exemplo mais recente.
Invocar Bartleby é coisa pedante, mas algures dentro de mim habita um tipo que, perante as inquietações e as grandes questões do nosso tempo, que deveriam ser assunto neste blogue, e perante a tentativa do novo grande romance português, está permanentemente a dizer: «I would prefer not to». E lá sai, ao invés de reflexões ponderosas ou literatura original, mais um disparate sobre homens em calções e mulheres em minissaia atrás de bolas amarelas.
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Ténis em Tempelhof
Depois do Adria Tour, que consagrou (e internou) Djokovid, também a Alemanha teve o seu torneio de exibição, jogado em duas partes e dois pisos: relva e asfalto. A primeira parte decorreu previsivelmente no relvado de Frau Steffi Graf e a segunda, após um mal entendido que ninguém quis desfazer, teve lugar num aeroporto. Poderia ter sido nos autódromos de Nürburgring ou Hockenheimring, mas alguém interpretou de forma ainda mais particular o conceito de «piso rápido» e a escolha acabou por ser Tempelhof (Tegel e Schönefeld não estavam disponíveis).
Os jogos decorreram num hangar, é certo, porque a Alemanha é bastante chuvosa mas não tão eficiente ou perdulária que pudesse cobrir um court na pista central (mesmo que desactivada) num prazo tão curto e por motivo tão efémero.
Tratando-se de um torneio em tempo de pandemia, condicionou-se o número de espectadores e o número de juízes de linha. Dos primeiros permitiram-se duas centenas no «estádio»; dos segundos, nenhum. O árbitro de cadeira foi coadjuvado por um sistema de karaoke ou de video game, não deu para perceber bem. Talvez houvesse nos bastidores juízes de linha sentados em frente a ecrãs, com camisas e chinelas havaianas, a gritar em off para o roufenho sistema de som do hangar, mas o mais provável, num tempo de distância social e inteligência artificial, é terem encarregado um computador desse serviço, deixando-o seleccionar vozes irritantes da Play Station para os brados de «out» e «fault».
O resultado foi que se criou num hangar de Berlim o ambiente tropical do Open da Austrália, com as vocalises técnicas a lembrarem a ruidosa fauna avícola de Melbourne (como se Hitchcock estivesse responsável por assinalar cada erro, forçado ou não forçado).
Se Nadal tivesse ido a Berlim, ficaria decerto incomodado com a banda sonora (evocativa do último Grand Slam perdido) e sobretudo com a provocante ideia de dispensarem os apanha-bolas de tratar das tolhas dos tenistas. Teria, em todo o caso, um avião à porta para sair sem dar satisfações a ninguém.
Os jogos decorreram num hangar, é certo, porque a Alemanha é bastante chuvosa mas não tão eficiente ou perdulária que pudesse cobrir um court na pista central (mesmo que desactivada) num prazo tão curto e por motivo tão efémero.
Tratando-se de um torneio em tempo de pandemia, condicionou-se o número de espectadores e o número de juízes de linha. Dos primeiros permitiram-se duas centenas no «estádio»; dos segundos, nenhum. O árbitro de cadeira foi coadjuvado por um sistema de karaoke ou de video game, não deu para perceber bem. Talvez houvesse nos bastidores juízes de linha sentados em frente a ecrãs, com camisas e chinelas havaianas, a gritar em off para o roufenho sistema de som do hangar, mas o mais provável, num tempo de distância social e inteligência artificial, é terem encarregado um computador desse serviço, deixando-o seleccionar vozes irritantes da Play Station para os brados de «out» e «fault».
O resultado foi que se criou num hangar de Berlim o ambiente tropical do Open da Austrália, com as vocalises técnicas a lembrarem a ruidosa fauna avícola de Melbourne (como se Hitchcock estivesse responsável por assinalar cada erro, forçado ou não forçado).
Se Nadal tivesse ido a Berlim, ficaria decerto incomodado com a banda sonora (evocativa do último Grand Slam perdido) e sobretudo com a provocante ideia de dispensarem os apanha-bolas de tratar das tolhas dos tenistas. Teria, em todo o caso, um avião à porta para sair sem dar satisfações a ninguém.
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Põe mais erva nisso
Nos últimos dias transmitiram-se pela primeira vez na temporada jogos em relva, ficando assim a Eurosport livre da acusação de preconceito anti-vegan. Contudo, o piso estava tão gasto, com tão pouca relva e tanta terra à vista na zona dos serviços, junto à linha, que, num leve despertar entre sets, suspeitei por instantes estar a ver futebol e estranhei, a bola, em primeiro lugar, mas sobretudo não se lançar o guarda-redes com as mãos ambas para a apanhar.
terça-feira, 14 de julho de 2020
O último baile de máscaras
Este mundo disfuncional e ameaçador da Covid-19 sugere-me, na brisa nocturna que mal perturba o calor e o avançar das horas, Melancholia, o maravilhoso filme de Lars Von Trier. E por instantes penso, olhando o céu estrelado pré-alvorada e lastimando solares que não tive, que, se vamos chocar com o nosso fatal destino, talvez pudéssemos aproveitar as contingências para um último acto elegante. Já temos as máscaras, só nos falta o espírito.
Verão perdido
Neste estranho desfile de máscaras em que nos vemos arrolados, lamento sobretudo algo que lhe é anterior e alheio: a impotência para travar o Verão. Nasci no último dia da estação, num Setembro de que não guardo registo, e não sei se e como isso explica a minha nostalgia ou a minha obsessão, concedendo aos astrologistas que explica alguma coisa.
No dia em que oficialmente se inicia o Verão, ou no dia em que ele se manifesta pela primeira vez como conjunto esperado de fenómenos atmosféricos, começo eu, que o ansiei em cada dia dos meses anteriores, a lamentar que se acabe tão depressa. Hoje, 13 de Julho, levo já umas semanas a chorar o Verão perdido de 2020. E aconteceria o mesmo se não estivesse a cismar ataviado de máscara cirúrgica.
Parte desta sensação de Verão perdido é explicada por não ter como me retirar por três meses para reaver, num solar de família ou num monte alentejano, um Verão eterno como os da primeira adolescência (na segunda, fui trabalhar de ajudante de electricista e julgo que se iniciou aí o fim de Verão, como se acabou a civilização com o fim do ócio grego).
Todos os meus sonhos felizes — e por isso quase todos os meus livros (o que poderia interessar à Chiado ou a algum discípulo de Freud) — têm em algum momento luz estival coada por ramadas, ou por copas de plátanos em fileiras, ou por pinhais densos de piquenique, ou por choupos à beira-rio, mesmo que sob outras descrições e classificações botânicas. Fui à Internet procurar um quadro de Malhoa onde esta luz e esta sombra ficaram gravadas, mas não o encontrei, embora tenha a certeza de que ele as conhecia, há disso indícios noutras obras. José Malhoa era decerto, como naturalista ou impressionista, um atlante do mesmo continente estival que perdi.
Nas propriedades da minha família, triste zeitgeist, as ramadas foram sendo cortadas, desapareceram dos locais onde antes podíamos contar com elas. De pátios e terraços, saíram para dar lugar a novos compartimentos da casa. O último abate foi recente e não deu lugar a nada. Como metáfora, não podia haver melhor. Ou pior.
No dia em que oficialmente se inicia o Verão, ou no dia em que ele se manifesta pela primeira vez como conjunto esperado de fenómenos atmosféricos, começo eu, que o ansiei em cada dia dos meses anteriores, a lamentar que se acabe tão depressa. Hoje, 13 de Julho, levo já umas semanas a chorar o Verão perdido de 2020. E aconteceria o mesmo se não estivesse a cismar ataviado de máscara cirúrgica.
Parte desta sensação de Verão perdido é explicada por não ter como me retirar por três meses para reaver, num solar de família ou num monte alentejano, um Verão eterno como os da primeira adolescência (na segunda, fui trabalhar de ajudante de electricista e julgo que se iniciou aí o fim de Verão, como se acabou a civilização com o fim do ócio grego).
Todos os meus sonhos felizes — e por isso quase todos os meus livros (o que poderia interessar à Chiado ou a algum discípulo de Freud) — têm em algum momento luz estival coada por ramadas, ou por copas de plátanos em fileiras, ou por pinhais densos de piquenique, ou por choupos à beira-rio, mesmo que sob outras descrições e classificações botânicas. Fui à Internet procurar um quadro de Malhoa onde esta luz e esta sombra ficaram gravadas, mas não o encontrei, embora tenha a certeza de que ele as conhecia, há disso indícios noutras obras. José Malhoa era decerto, como naturalista ou impressionista, um atlante do mesmo continente estival que perdi.
Nas propriedades da minha família, triste zeitgeist, as ramadas foram sendo cortadas, desapareceram dos locais onde antes podíamos contar com elas. De pátios e terraços, saíram para dar lugar a novos compartimentos da casa. O último abate foi recente e não deu lugar a nada. Como metáfora, não podia haver melhor. Ou pior.
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