terça-feira, 14 de julho de 2020

Verão perdido

Neste estranho desfile de máscaras em que nos vemos arrolados, lamento sobretudo algo que lhe é anterior e alheio: a impotência para travar o Verão. Nasci no último dia da estação, num Setembro de que não guardo registo, e não sei se e como isso explica a minha nostalgia ou a minha obsessão, concedendo aos astrologistas que explica alguma coisa.

No dia em que oficialmente se inicia o Verão, ou no dia em que ele se manifesta pela primeira vez como conjunto esperado de fenómenos atmosféricos, começo eu, que o ansiei em cada dia dos meses anteriores, a lamentar que se acabe tão depressa. Hoje, 13 de Julho, levo já umas semanas a chorar o Verão perdido de 2020. E aconteceria o mesmo se não estivesse a cismar ataviado de máscara cirúrgica.

Parte desta sensação de Verão perdido é explicada por não ter como me retirar por três meses para reaver, num solar de família ou num monte alentejano, um Verão eterno como os da primeira adolescência (na segunda, fui trabalhar de ajudante de electricista e julgo que se iniciou aí o fim de Verão, como se acabou a civilização com o fim do ócio grego).

Todos os meus sonhos felizes — e por isso quase todos os meus livros (o que poderia interessar à Chiado ou a algum discípulo de Freud) — têm em algum momento luz estival coada por ramadas, ou por copas de plátanos em fileiras, ou por pinhais densos de piquenique, ou por choupos à beira-rio, mesmo que sob outras descrições e classificações botânicas. Fui à Internet procurar um quadro de Malhoa onde esta luz e esta sombra ficaram gravadas, mas não o encontrei, embora tenha a certeza de que ele as conhecia, há disso indícios noutras obras. José Malhoa era decerto, como naturalista ou impressionista, um atlante do mesmo continente estival que perdi.

Nas propriedades da minha família, triste zeitgeist, as ramadas foram sendo cortadas, desapareceram dos locais onde antes podíamos contar com elas. De pátios e terraços, saíram para dar lugar a novos compartimentos da casa. O último abate foi recente e não deu lugar a nada. Como metáfora, não podia haver melhor. Ou pior.

Malhoa

Uma nação revela-se quando uma pesquisa no Google por José Malhoa tem como primeiro resultado o autor de Ana Malhoa e outras obras escusadas.

domingo, 12 de julho de 2020

A contagem do tempo

Como melancia e leio sobre Gomorra em Balbec. É Verão e os prazeres conjugados dão por momentos uma impressão de plenitude e de suspensão do tempo. Depois as grainhas da melancia obrigam-me a desviar por instantes os olhos da página. Experimento ignorá-las e engolir tudo junto, mas o mal está feito. O tempo foi retomado.

Osga

Em toda a minha longa vida apenas vi osgas* no Vietname e no Alentejo. Ontem estava uma cá em casa na varanda bafejada pelo Alvão. Se isto não prova as alterações climáticas, demonstra pelo menos, depois do furão de há uns anos, as estranhas opções dos vizinhos na hora de escolher animais de estimação.

(Para outras aparições, consultar: https://canhoes.blogspot.com/2020/02/corvos-marinhos.html)


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* Refiro-me ao réptil.

sábado, 11 de julho de 2020

Análise da final de 2019 do Open dos Estados Unidos

Ontem repetiram a final épica do Open dos Estados Unidos entre Nadal e Medvedev. Espreitei outra vez os pontos finais só para ver a raiva e o olhar maníaco de Nadal perante a possibilidade de perder o jogo, frente a um Medvedev quase zen, por comparação.

Quando vi pela primeira vez esta final já sabia o suficiente de ténis para perceber que não tinha um favorito. O que é raro. Geralmente torço pelo mais fraco, desde que mostre talento, empenho e seja gentil. (Quando joga Federer é por ele que torço sem hesitar, ainda mais nesta fase da carreira, em que já soma frequentemente aquela primeira condição às três habituais virtudes.)

Nadal é a opção óbvia dos comentadores e dos fãs quando se perguntam entre si quem é o favorito — logo, não é a minha. Também porque me incomoda o seu ar caprichoso, de vítima, de injustiçado quando as coisas não lhe correm bem, perplexo por a realidade nem sempre obedecer ao seu reinado, para o qual o treinaram como príncipe predestinado.
Medvedev é frequentemente ainda mais parvo, talvez porque não há muito que deixou de ser adolescente, mas naquela final de 2019, durante o tempo a que assisti, estava a portar-se com uma nobreza e um estoicismo comoventes. Juro que na primeira vez em que vi o jogo quase lhe dei o meu apoio.

Federer — que foi apanha-bolas, dizem-me, e talvez por isso —, é o mais aristocrata dos jogadores, não no sentido snob e glamoroso, mas na consciência serena da sua superioridade, que lhe permite distinguir-se pela cortesia e não se deixar perturbar por ocasionais infortúnios. Se fosse personagem de Proust, era um Guermantes, pelo lado da duquesa.

Ora, neste déjà vu, os meus olhos, não por tédio, focaram-se de novo nos apanha-bolas, na sua postura à beira do court. Lembraram-me os pedintes que vi pela primeira vez em Praga há mais de uma década, ajoelhados e inclinados para a frente, apoiando-se nos cotovelos com as mãos em prece ou estendidas no solo. Uma postura de desespero ou fervor religioso que visa comover ainda mais os transeuntes, tocá-los pela mostra de abnegação, pela dimensão espiritual.
Talvez os apanha-bolas nos Estados Unidos queiram demonstrar igual fervor no exercício da suas tarefas, dar provas de total entrega. Ou talvez tenha sido só uma ideia palerma da organização, assente numa qualquer noção errada de motricidade e aerodinâmica. Se o objectivo fosse ter os apanha-bolas prontos a saltar para o court como se impulsionados por mola que se solta, talvez pudessem ter-lhes dito que bastava ou melhor se adequava um só joelho no chão e lhes pudessem instalar uns blocos de partida como os que se colocam nas pistas dos sprinters. Assim, sem rigor técnico e com alusões místicas, sugerem, mesmo que apenas por nescidade, a subalternização, a servidão a que os moços e as moças devem sujeitar-se, quais criados de quarto, como referi no primeiro post desta série.

A rapidez dos apanha-bolas é importante para não interromper o ritmo do jogo, defende-se. Mas talvez, nesse caso, e para evitar más interpretações, devessem contratar galgos, e juntarem aos habituais gritos dos juízes de linha a vocalização «busca, busca». Havia mais vezes bolas novas, é provável, mas isso os jogadores se calhar até agradeciam.

De resto, a excessiva disponibilidade sugerida pela forma como se apresentam ou são apresentados os apanha-bolas pode levar à rudeza dos jogadores, como no célebre episódio de Fernando Verdasco, que pôs em debate a continuação dos apanha-bolas também como porta-toalhas (toalheiros vitesse, charriots de competição).

Aqui convém esclarecer que, quando Federer se manifestou contra a proposta de os apanha-bolas deixarem de entregar toalhas aos jogadores, não estava a ser snob ou desleal, mas a ser cortês — com Nadal. «A ideia de os apanha-bolas nos ajudarem com essa função da toalha», disse Federer, «é tornar o jogo mais rápido. Se eles deixarem de nos dar as toalhas vai perder-se muito tempo. Há jogadores que suam mais e assim vão perder mais tempo.» Ou seja, há jogadores que vão ter ainda mais penalizações nos serviços, não é Nadal?

Proust: 10/07/1871


Se a pneumonia não tivesse dado cabo dele, Marcel Proust seria hoje uma curiosidade de feira com 149 anos. Tendo morrido quando lhe competia, ficou apenas como uma curiosidade literária: o tipo que escreveu 3.500 desnecessárias páginas. (Noto que teria garantido um lugar no Guiness em qualquer dos casos.)

Só reparei na data, atrasado, porque o excelente António Gregório a referiu no Coração Acordeão*. O mesmo António, autor de duas obras imperdíveis (O Condómino e Documentário), forneceu-me também uma capa para a temporada. As leitoras e os leitores entenderão que sob esta imagem se reúnem os três tópicos que mais me ocupam desde Março, mais casaco, menos casaco.

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*https://antonio-gregorio.tumblr.com/

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da nostalgia à alienação

Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)

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* Excepto para David Foster Wallace.

terça-feira, 7 de julho de 2020

A Flock of Seagulls

A nostalgia é um péssimo juiz. Age exactamente como o trauma, mas em sentido oposto. A pessoa traumatizada repelirá, odiará, desprezará ou temerá, com fobia ou pânico, tudo o que tenha uma relação com a causa do seu trauma. Os nostálgicos, pelo seu lado, acham maravilhosa qualquer coisa que evoque um passado onde tenham estado ou a que se sintam ligados, mesmo que tangencialmente.

Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.

Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.

Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.

Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ténis e tontarias

Isto da pandemia tem as suas vantagens. Ao diminuir-nos as distracções fora de casa, aumenta as possibilidades de ler, escrever e desenvolver obsessões patetas. Noto que tenho cumprido com certo denodo estas três premissas: teimo no Proust, escrevi posts numa cadência que há muito não tinha — e boa parte deles foi uma abordagem insistente e tonta a algo que nunca me tinha interessado muito, o ténis.

Se alguém por hipótese improvável e insanidade temporária quiser ler o conjunto de enfiada, basta descer a coluna da direita e clicar na etiqueta «Ténis». (Não clique na etiqueta «Tontarias», porque lhe aparecem demasiados posts. «Tontarias» é, literalmente e por larga maioria, a etiqueta que mais classifica o que escrevo no blogue, não sei se por uma soma patológica de momentos de modéstia excessiva se por inescapável honestidade.)

domingo, 5 de julho de 2020

A persistente tradição de guardar bolas para o segundo serviço

A Eurosport e eu já estamos na fase de repetir jogos, pelo que chegou a altura de acabar com a Covid-19 ou, pronto, de adquirir direitos de retransmissão de outros torneios. Wimbledon, por exemplo, nunca aparece na grelha. Consequência do Brexit? Preconceito anti-vegan?

Seja como for, nesta altura já trocava uma partida do Grand Slam por um qualquer joguito não visto, nem que fosse do Estoril Open.

A fraca consolação de rever jogos reside no ensejo de repararmos (ainda mais) em aspectos não desportivos da modalidade, alguns bem intrigantes. O vestuário, por exemplo, é no ténis tema inesgotável. Podemos ter em relação a ele, particularmente o feminino — e consoante o espectro dos nossos interesses (ou o grau da nossa depravação) —, uma abordagem apenas curiosa, fashion geek ou voyeur. No limite da perversão, a julgar por algumas pesquisas no Google e tendências pornográficas dos anos 80, um jogo de ténis feminino pode corresponder, em termos de batimentos cardíacos do espectador, a um filme erótico.

Quando tentei perceber por que não é vulgar as tenistas usarem calções com bolsos — preocupado exclusivamente com aquilo que me parecia uma dificuldade: o armazenamento de bolas suplentes na hora do serviço —, deparei-me com explicações em várias línguas sobre a forma como os vestidos justos e as saias curtas permitem às mulheres manterem a sua feminilidade enquanto disputam torneios de milhões. A conquista suada de troféus e de cheques com muitos zeros parece, segundo algumas análises, coisa intrinsecamente vil e masculina, pelo que se uma senhora tem de condescender nesse desiderato deve, pelo menos, fingir que está na praia. Na praia dos glamorosos anos 50.

Não quero que este post pareça alinhar na sugestão de que são as mulheres, as mulheres tenistas, que mais se preocupam em erotizar a sua imagem enquanto dão pancadas na bola. Nem tenho, por outro lado, ao contrário de certas organizações e tradições do ténis, nenhum dress code ou moral a recomendar a ninguém (muito menos a pessoas que jamais lerão este blogue). Mas temo que a saia curta dominante, com folhos ou sem eles, seja um compromisso entre jogadoras, instituições e expectativas sociais, um compromisso para que, focando-se o mundo nas suas coxas, elas sejam deixadas em paz e concentradas apenas nos seus jogos. Porque sempre que alguma jogadora introduziu mudanças no outfit ou simplesmente tirou e voltou a vestir a sua t-shirt num canto do court (o que até mereceu aplauso entusiástico da, neste ponto igualitária, falange voyeur), levou, como há pouco Alize Cornet, com o dedo em riste da moral tenística.

Suspeito por isso que a tradição da minissaia no ténis, como a do decote nos trajes femininos dos séculos dezoito e dezanove, permite sobretudo aos cavalheiros fingirem-se — em simultâneo ou alternadamente, como convier — sensualistas e castos.

Considerando que a anatomia feminina não difere da masculina em tal grau que obrigue a formas diferentes de armazenar bolas suplementares, e considerando também que a não abolição do hábito de se guardarem bolas para o segundo serviço (quando os apanha-bolas se tornaram tão ágeis) não trai vício masculino, não seria expectável, dada a diversidade humana, ver-se mais marcas a desenhar calções femininos com bolsos — e homens a enfiarem bolas na lycra por baixo dos calções? Ou das minissaias?

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Cocktails

Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Covers

Lá pelos primeiros oitenta, a adolescência da minha terra carpia amores ao som de melodias dos setenta. Não porque a década oitava do século fosse pouco baladeira ou fracassasse muito ao tentar sê-lo (os corações feridos têm, de resto, na sua ânsia por xaropes milagrentos, ouvidos generosos). Acontecia apenas que as modas (na acepção musical como nas outras) demoravam o seu tempo a chegar aos lares onde se carpia. Lá em casa, por exemplo, numa prova de que a imagem se desloca mais rápido do que o som, já andávamos todos muito new-romanticamente a descolorar de dia o cabelo com água oxigenada e ainda ouvíamos à noite “Love Hurts”, musiquinha guinchada pelos Nazareth e o seu vocalista com voz de gaita-de-foles (instrumento que ele também tocava, informa a Wikipedia). Mais tarde viríamos a descobrir, com pena, que a canção nem era deles, mas dos Everly Brothers. Digo com pena não porque tivéssemos alguma coisa de princípio contra covers, mas porque se havia música melhor para carpir amores do que a da década de setenta era a da década de sessenta: alguns traumas sentimentais poderiam ter sido evitados se em vez da versão hard rock tivéssemos ouvido a gravação rock’n’roll. Aliás, pela mesma altura já estava a ter excelentes efeitos curativos, como notório avanço medicinal do célebre método oitocentista da sangria, outra canção dos sessenta que nos arrancava com frequência lágrimas dolorosas mas necessárias, a “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers — de quem invejávamos sobretudo, do fundo do coração (e dos pulmões), o volteio que ouvíamos perto do primeiro minuto da cassete* e que mais ninguém (nem eles) conseguiu depois imitar (e foram muitos os que tentaram).
Mais tarde ainda (tipo, agora) descobrimos que também não foram os manos Righteous a escrever a “Unchained Melody”, mas um casal broa-de-mel chamado Felice and Boudleaux Bryant, cuja versão, depois de ver a fotografia dos autores, não procurei por mero preconceito já traído atrás nesta frase.

Certos hits são como palimpsestos ou sítios arqueológicos: mexemos neles com uma escova de dentes de dureza média ou mesmo suave e encontramos algo por baixo. A experiência pode ser frustrante se descobrimos durante a escovagem que certos deuses do nosso panteão padecem do vício ignominioso de cançonetistas como Marco Paulo ou Tony Carreira. É então que nos faz bem ouvir alguém tão velho e sapiente como Johnny Cash numa cover, por exemplo, de “Personal Jesus”, dos Depeche Mode. Se um ancião da country pode pegar numa música de uma banda industrial da Inglaterra... Esperem, chegaram mais informações: diz que os DM escreveram a canção inspirando-se em Elvis Presley. Além do mais, a música soa bastante americana...
Adiante. Se somos capazes de ouvir com gosto pessoas de gerações e tribos distintas cantar a mesma melodia, talvez a arte não resida apenas na criação mas igualmente, ou em proporção justa, na interpretação. Como não amar “Smells Like Teen Spirit” por Tori Amos? Música desses Nirvana que cantaram Bowie em “The Man Who Sold The World”. Mutatis mutandis, o que nos importava a nós, há um século, se quando a Kim Wilde cantava “You Keep Me Hangin’ On” estava a fazer uma cover das Supremes? (Ok, aqui talvez não fosse exactamente a mesma coisa. Ou só essa coisa.)

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* Por «primeiro minuto da cassete» entenda-se o primeiro minuto deste vídeo: https://youtu.be/qiiyq2xrSI0

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Ténis: a jornada de ontem

A jornada de ontem, em Melbourne, incluiu um jogo entre Wawrinka e Zverev e outro com Nadal e Thiem. No primeiro, um Wawrinka a perder por 2 sets a 1 e em perigosa desvantagem no quarto set reserva ainda uma parte da sua energia para pedir desculpa a um apanha-bolas por lhe ter enviado deficientemente uma bola perdida e para, a meio da preparação de um serviço, responder com simpatia «it’s not gonna be easy…» ao público que lhe diz «you can do it».
No ténis, não há como não gostar dos suíços, mesmo quando perdem.

No seu jogo, Nadal irrita-se, como de costume, com uma advertência do árbitro por exceder o tempo do serviço, faz gestos e caretas à multidão que não se cala imediatamente quando vai servir e, ficamos de repente à espera, prepara-se para mandar vir com os pássaros que sobrevoam estridentemente o estádio.
(Vou agora ver o resto do jogo esperando que perca.)

Talvez para desanuviar o ambiente, ou para dar provas de uma atenção especial ao pormenor, o comentador desta partida faz erudita e inesperadamente notar que o DJ em funções é um verdadeiro patriota: só passa Men at Work, INXS, AC/DC e Bee Gees. (Fui ver, os Gibbs viveram parte dos anos sessenta na Austrália, quem diria.)

Necrofagia

Aparecem-me no Facebook com regularidade, sem que os subscreva, posts de tablóides e revistas cretinas. Hoje fiz a experiência de denunciar uma destas por necrofagia não consentida, mas o Zuckerberg recusou, não percebi se porque não tem dicionarizada a palavra ou se porque partilha o apetite e o algoritmo moral de um urubu.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O caixote das coisas justas

Nas mudanças de estação, se não somos adeptos de disruptivos banhos de loja, imergimos decerto no guarda-roupa lá de casa em busca da indumentária da época. Dá-se o caso, a partir de certa idade e de certo genótipo, de encontrarmos ali peças, ainda em anos anteriores viáveis e suficientemente neutras para irem bem com qualquer moda, que de repente se não deixam vestir, encalhando nas curvas. É a altura em que, se temos familiares receptivos e magros ou subestimamos a vaidade dos pobres que visitam o contentor público de roupas usadas, atiramos com intenção pretensamente temporária (mas procrastinadora) as peças para o caixote das coisas justas. E ficamos de repente pesarosos. Não pela silhueta perdida, mas pela possibilidade, que nos sugere a reverberação do nome, de no caixote termos vindo a arquivar mais do que roupa.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Os três tês de um prelúdio para a crise: ténis, tempo (perdido) e Titanic


Os meses de quarentena e desconfinamento, que afortunadamente, ao contrário de muitos, vivo como uma espécie de prelúdio para a crise, têm-me servido sobretudo para ler o Proust que com método vinha adiando para a reforma e para ver ténis como nunca imaginei ver desporto nenhum, acumulando quantidades insensatas de partidas, glossário e bisbilhotice temática.

Se sobreviver para resumir este período e este estado de espírito, talvez possa invocar retrospectivamente uma entrada de diário não escrita que imite, na sua aparente inconsciência ou indiferença, a de Kafka a 2 de Agosto de 1914: «Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar.»

Mas, na verdade, tendo em conta o ambiente glamoroso e festivo por onde se passeia o narrador da Recherche e em que disputam os jogos as maiores vedetas do ténis, o meu estado de espírito, não substancialmente diferente, é mais bem descrito como o de um passageiro do Titanic que, informado do iceberg mas resignado ao embate, procura não desperdiçar nenhuma dança e certamente nenhum cocktail.

De resto, o relato no diário, se o puder escrever ainda que postumamente, acabará por ser o mesmo. Porque, mais tarde, na falta de um deus ex-machina, o passageiro, do Titanic ou do Lusitânia (perdão, é forçoso distinguir as guerras: da Lusitânia), vai sem dúvida nadar. Isto na melhor das hipóteses. Ió.


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* Se preferirem uma versão menos sombria e houellebecquiana deste 2020, aproveitem a Mínima Luz e mantenham-se à tona com outros três tês, Três Tristes Tigres: https://youtu.be/XL4i9X0wC18

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Os tiques de Nadal

Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

«Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido»

Vi esta citação de Bruno Vieira Amaral e preparei-me para sacar a pistola porque, depois de tanto ler livros e entrevistas de autores, a mim parecem-me é simplesmente estúpidas todas as afirmações prescritivas ou restritivas sobre a artesania da escrita.
Mas depois, caros facebookianos, porque não se deve reagir apenas a títulos, fui ler a frase no seu contexto e percebi que aquilo era o autor a falar sobre si mesmo e não uma daquelas regras «universais» em que muitos escritores são useiros e vezeiros a extrair do próprio umbigo.


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(Entrevista aqui: https://oquedizestu.blog/2020/06/03/bruno-vieira-amaral-comecar-um-livro-pelo-titulo-parece-me-simplesmente-estupido/)

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A morte de um afro-americano

Uma forma sofisticada de racismo, que utiliza o álibi do combate ao «politicamente correcto», afirma que a designação «afro-americano» é segregacionista, porque divide uma população que é toda «americana». Pretende quem tal propõe que, ao auto-designarem-se de afro-americanos, os negros dos Estados Unidos cultivam a sua própria guetização.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.