Um interessante artigo do The New York Times (embora com um título que não abrange toda a sua temática, «Filming the Show: Pardon the Intrusion? Or Punish It?») aborda o debate que se instalou entre críticos e contemporizadores do uso de telemóvel em recintos de espectáculos. O tema já não é só motivo de conversa entre espectadores ou artistas após uma má experiência: cresceu para entrar em livros como The Reasonable Audience, uma obra que trata dos debates contemporâneos sobre etiqueta no teatro.
Entre exemplos de artistas que tiram os aparelhos a espectadores desobedientes ou interrompem as suas performances em retaliação contra os que filmam e consultam telemóveis e referência a críticas a uma tradição de etiqueta obsoleta — mas «recente», lembram-nos, já que no tempo de Shakespeare as audiências eram descontraidamente interventivas e ruidosas —, o artigo cita uma profecia talvez perturbadora mas nem por isso menos plausível: «as pessoas que se entregam totalmente e impõem rituais arcaicos e anacrónicos que requerem à partida um enorme capital cultural serão completamente irrelevantes daqui a quinze anos.»
O futuro será então dos ignorantes e buliçosos. Já desconfiávamos.
As razões por que os telemóveis podem ser tidos como intrusivos ou desadequados em recintos de espectáculos são diversas e merecem também discussões diferentes. A recolha indevida de imagens e som é um assunto, eventualmente de foro legal, sobretudo entre artistas e público transgressor de direitos protegidos. Já os braços adejantes, a luz dos ecrãs e os sons que os aparelhinhos emitam intrometem-se e em muitos casos perturbam a atmosfera da performance, quebram a concentração ou o encanto, tanto dos artistas quanto dos espectadores nas imediações.
O primeiro problema, o dos direitos de som e imagem, se se entender grave o suficiente, pode ter uma solução legislativa e tecnológica, havendo vontade política e ambiente social favorável: os recintos estarem legal e tecnicamente habilitados a impedir o funcionamento de telemóveis, mesmo contra a vontade dos donos dos aparelhos.
O segundo problema — aquele que é verdadeiramente uma questão, não de etiqueta, mas de comportamento, de sensibilidade estética e respeito pelo trabalho e atenção dos outros — não remete necessariamente para intervenções legislativas ou intromissões tecnológicas. A sensibilidade e o respeito não se legislam e o seu policiamento não tem resultados muito animadores. Estas coisas podem ensinar-se ou pelo menos estimular-se em escolas e famílias funcionais, mas precisam sobretudo de sociedades e media que não estejam globalmente obcecados com a standardização e a forçada descomplexificação do mundo.
Uma peça de teatro ou dança não é geralmente a mesma coisa que um concerto de rock, tanto ao nível dos decibéis provenientes do palco como ao da experiência estética que constitui. Embora possa haver peças que, legitimamente, se propõem o mesmo tipo de catarse ou celebração colectiva que um concerto de rock, muitas outras há que implicam observação minuciosa e permanente de expressões, posturas e movimentos, análise continuada dos quadros compostos na cena, audição extensiva de discursos e diálogos e elementos da sonoplastia — ou seja, implicam atenção e concentração, não apenas para entendimento da peça mas para uma plena fruição estética. Para um prazer completo.
O problema é que a sociedade, pastoreada pelas agências de comunicação e pelos media, em particular as televisões, tende a desprezar experiências estéticas que não sejam alienantes da mesma exacta maneira que as grandes manifestações de massas, como se houvesse menos possibilidade de prazer numa peça de teatro ou dança ou num concerto para gente atenta.
Por conveniência e convenção medíocres (e às vezes por algum snobismo de uma das partes), reduz-se o conceito de prazer e entretenimento a manifestações artísticas em que o elemento intelectual desempenha um papel menor, em que se pede ao espectador passividade mental, mesmo que se lhe permita ou estimule actividade física de resposta, incluindo dançar no lugar ou acenar coreograficamente telemóveis.
Esta divisão entre cultura e entretenimento, que se utiliza para de forma simplista separar o que tem interesse estético do que é mero divertimento festivo, promove equívocos, rapidamente aproveitados pelos arautos da mediocridade para apelidar de aborrecida e cinzenta toda a manifestação artística que não nos faça (ou permita) bater o pé ou não instigue à gargalhada automática, reflexiva. Daí a referência hiperbólica ao «contrato» vigente em concertos de música clássica como «ritual arcaico e anacrónico que requer à partida um enorme capital cultural» (sendo «o enorme capital cultural» basicamente dar-se a pessoa ao trabalho de ler o programa, ter aprendido a identificar nele os andamentos das peças e saber que, por definição do género que tem as suas razões, não são esperadas manifestações do público, ou seja, palmas, entre andamentos).
Talvez haja um certo snobismo no mundo da música clássica. Talvez os músicos não fizessem mal em deixar de lado o smoking. Talvez fosse mais produtivo, em salas menos especializadas, o maestro explicar no início onde serão menos perturbadoras da concentração as eventuais manifestações de louvor ou tédio do público do que franzir censoriamente as sobrancelhas ou brandir ameaçadoramente a batuta de cada vez que alguém, fora do tempo, bate palmas para aplaudir ou apenas relaxar o corpo. Talvez fosse mesmo de aceitar, gratamente, humildemente, as manifestações do público em qualquer altura da performance, sendo elas genuínas. E é sem dúvida de abolir o tradicional ramo de flores para solistas ou maestro, excepto quando oferecido por um amante que, enlevado pela prestação musical, arrisca sair do anonimato.
É a etiqueta da cultura clássica, um certo formalismo ritual e eventual rigidez, denunciados não raro com veemência exagerada, que fornecem a desculpa a certos indivíduos para se anunciarem como rebeldes contra o elitismo e o snobismo cultural e não como promotores de uma ideia limitada e medíocre de espectáculo.
Advogar uma certa modernização de guarda-roupa e postura ou apelar a alguma flexibilidade por parte de orquestras e concertistas não é, contudo, a mesma coisa que achar razoável a intromissão de telemóveis numa sinfonia — a não ser que o concerto tenha sido desenhado e amplificado para menorizar esse impacto, para ser uma outra experiência.
Seria idiota soçobrar perante o admirável mundo novo da tecnologia, que por definição e vício de classe pretende a cada upgrade soterrar o mundo como o conhecemos. Muitos dos que se excitam com a ideia de revolução tecnológica alimentam um determinado grau de ressentimento. Sentem-se excluídos do mundo anterior (por falta de oportunidades, dificilmente por responsabilidade própria) e vêem num futuro niilista, de terra queimada, a oportunidade de vingança ou de encontrar o seu lugar ao sol. Veja-se a postura de tantos informáticos em relação às humanidades.
Mas a ideia de revolução, tecnológica ou não, é também uma aspiração eterna da juventude, frequentemente consubstanciada numa rebeldia sem causa. O artigo do The New York Times também introduz este elemento no debate sobre etiqueta no mundo do espectáculo: «Tanto o teatro como a música clássica têm uma base de fãs envelhecida e desejam atrair audiências mais diversificadas e jovens e há quem sugira que insistir em restrições comportamentais é uma forma de elitismo desanimadora.» Tomar como universo único o teatro e a música clássica é já um preconceito; outro, ou pelo menos uma cedência sem luta, é considerar que têm bases de fãs envelhecidas. Em todo o caso, aceitando que assim possa ser, continua a ser um erro desistir da experiência do silêncio e da atenção apenas para atrair públicos jovens, porque isso significa em muitos casos desistir da experiência da música e do teatro em si mesma.
Uma das características do confronto geracional nos tempos que correm é a cobardia e a desistência dos adultos. Décadas de propaganda televisiva e cinematografia mainstream dirigidas a jovens ou adolescentes tornaram muitos adultos envergonhados do seu estado, como se fossem gadjets obsoletos à espera de substituição por novos modelos. E contudo a experiência humana não se restringe a uma só das fases da vida, como sabe quem cresceu, se tornou adulto ou envelheceu sem se sentir diminuído mas antes enriquecido pelo que viveu e vive. Nada da experiência humana dispensa, por inerência, o ter sido jovem, mas muito do conhecimento e fruição do mundo depende de se ter crescido e acumulado experiências e saber. Além disso, salvo nos casos em que o nosso cérebro parou na adolescência, há experiências estéticas, com o seu capital de prazer, que implicam sermos adultos e termos acumulado anos de vivências, do mesmo modo que outras há que, tendo sido prazenteiras no seu tempo, se revelam numa fase posterior da vida insatisfatórias.
É por isso fundamental a ideia de que progredir não é igual a abdicar. A tecnologia serve para facilitar tarefas, não para iludir o entendimento e simplificar a experiência do mundo, coisas inelutável e desejavelmente complexas. Por outro lado, conquistar o interesse da juventude para determinadas manifestações artísticas não passa necessariamente por as transformar de tal modo que elas deixam de ser o que são. Além disso, não é irrazoável defender a existência de propostas artísticas que sejam por natureza excluídoras de jovens ou adolescentes, excepto se estes se derem ao trabalho de crescer, precocemente ou no tempo certo, para elas.
Defender, em suma, que se pode estar em qualquer peça de peça de teatro ou dança (ou concerto para gente atenta, para usar uma definição anterior) como num concerto de rock ou numa rave não é um ataque audaz e admirável ao velho elitismo das classes cultas ou a regras arcaicas de etiqueta; não é uma defesa da democratização e da simplificação do acesso à cultura (talvez do direito a ser-se, por fatalidade, opção ou natureza, ignorante e espectador): é sobretudo uma voluntária redução do leque das experiências estéticas possíveis, uma imposição de uma outra forma de estar, massificada, protofascista, que exclui os que desejam desfrutar colectivamente de um espectáculo em silêncio, sem perturbações alheias à performance.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
LER de Verão
Saiu mais uma edição da LER e está de apetite. Assinalo três novidades (e continuo uma tradição): 1) este número das revista não inclui as páginas com os livros do trimestre; 2) os Manifestos de Francisco José Viegas foram publicados no blogue posteriormente (embora, como antes, sejam repescados do Correio da Manhã); 3) não há Manifestos de Bruno Vieira Amaral (mas isso só dá conta quem como eu tem a picuinhice de ir confirmar as iniciais que assinam os textinhos).
domingo, 13 de outubro de 2019
Conservadorismo e fanatismo
O artigo que Vasco M. Barreto (blogger autor do excelente Ouriq) escreveu para o Público é um importante exercício de pedagogia — e não principalmente pelo que desvela do lado fanático de João Miguel Tavares (e, por extensão, de tantos conservadores). A sua leitura ajuda a esclarecer bastante o debate político-ideológico sobre as alterações climáticas. Resumi-lo é um exercício inadequado; leiam-no em toda a sua extensão, por favor:
https://www.publico.pt/2019/10/10/ciencia/opiniao/joao-miguel-tavares-estado-tempo-1889147Há no artigo, por outro lado, algumas ideias que são de utilidade não só no tema específico das alterações climáticas mas no debate em geral entre “progressistas” e “conservadores” (à falta de melhores definições). Cito duas passagens do mesmo ponto:
«(…) o fanatismo inegável de alguns ecologistas anima o jornalista a extremar também a sua posição (…), entrando voluntariamente num daqueles ciclos de retroacção positiva em que a certeza parece nascer do mero antagonismo e vai ficando cada vez mais desligada da evidência e da sensatez.»
«Por mera aversão epidérmica aos progressistas e à “extrema-esquerda”, os conservadores abandonaram a causa ecologista que já foi deles e deveria continuar a ser de quem estima o princípio da precaução…»
Quando comecei a ler jornais e a ter uma ideia vaga das várias tendências políticas e de pensamento na sociedade contemporânea, o conservadorismo tinha para mim um certo apelo. Havia nalguns dos seus representantes uma elegância, um bom-gosto, uma erudição, uma ironia, um cepticismo, uma moderação, uma sensatez e até uma bonomia que me pareciam louváveis. Mesmo que a parte mais activa de mim estivesse com os revolucionários, com os que pretendiam mudar coisas, achava útil aquela reserva de precaução. Décadas depois, os conservadores tornaram-se frequentemente cínicos, extremistas ou fanáticos, tomados de uma vertigem niilista tão perturbante e “imoral” quanto a de uma certa ideia popularizada de anarquia terrorista.
Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.
A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.
O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.
Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.
A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.
Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.
Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.
A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.
O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.
Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.
A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.
Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.
sábado, 12 de outubro de 2019
A sensação que por vezes me acomete de que pertenço já a outro mundo é ratificada quando de tempos em tempos consulto as estatísticas do blogue e descubro que os acessos ali registados são quase todos a partir de blogues moribundos ou mortos, inactivos há anos. Como se os fantasmas de outros blogues viessem ao velório do meu.
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Livros que brilham como se tivessem luz própria*
À noite estendi-me nos lençóis lavados, a cheirar a fresco (ou ao sucedâneo de frescura deixado pelo detergente da máquina), agradavelmente cansado, satisfeito, com uma vaga sensação de vitória, e aquele livrinho pareceu-me brilhar como a superfície dos raros móveis onde aplicara o Pronto ou dos mosaicos onde, talvez desajustadamente, vertera e esfregara o Cif. O dia tinha sido de sol e, se isso inicialmente me enevoara o espírito, quando, auto-enclausurado, me obriguei a limpezas, deixou, por outro lado, uma encantadora memória de luminosidade geométrica no parquet descolado, de janelas trespassadas pela luz declinante, que perdurou à noite.
A leitura da novela foi quase extática, epifânica, como se o próprio Espírito Santo tivesse resolvido, com jovialidade de cordeiro primaveril antes de pressentido o sacrifício, derramar-se nas páginas daquele exemplar da colecção «Ficção Universal» das Publicações Dom Quixote. Tudo naquele livro de capas brancas, o que dele emanava para mim, era luz, luz meridional, luz quente, e bem-estar, joie de vivre, Riviera Maya sem sargaço. Bem sei: alguém ia declaradamente morrer e as causas e os métodos da morte não eram bonitos nem radiantes. Mas havia a prosa, a narração. Dormi como um anjo e guardei essa memória de felicidade até hoje.
Bruno Vieira Amaral, logo na terceira página de Hoje Estarás Comigo no Paraíso, evoca e cita Crónica de Uma Morte Anunciada. Se o não fizesse ele, qualquer crítico do livro teria de o fazer. Não tanto pelos pontos de contacto circunstanciais que possam existir entre as histórias narradas pelos dois livros, mas pela luz que ambos reflectem. Ou emanam. O romance de BVA é, para mim, meridional como alguma literatura da América Latina. As páginas do livro iluminam-se da mesma maneira, até quando tratam, de igual modo, de misérias e tristezas humanas. Não falo exactamente de brilhantismo da prosa no sentido de mestria, mas de uma luminosidade óptica, palpável, de uma luz de trópicos que nos entre pelos olhos com as formas negras dos caracteres («da famíla Caslon, inspirados na tradição barroca holandesa do séc. XVII») que compõem as palavras impressas. A Baixa da Banheira de Bruno Vieira Amaral, já o tinha pensado na parte que li de As Primeiras Coisas (hei-de terminá-lo), podia bem localizar-se em Medelín ou lá onde a luz é muita e benfazeja, apesar dos esfaqueamentos.
O título Hoje Estarás Comigo no Paraíso não é, portanto, só bíblico — dirige-se directamente ao leitor com uma promessa que este pode bem dar por cumprida durante as horas de leitura (o Paraíso é eterno enquanto dura). Mesmo que não seja Primavera nem tenha havido barrela à tarde.
----------------------------
* Abaixo de 451 Fahrenheit.
sábado, 14 de setembro de 2019
A Mulher do Meio
O novo livro de Ivone Mendes da Silva, A Mulher do Meio*, teve ontem uma boa crítica no Ípsilon e isso deixa-me contente. Porque são merecidos o juízo e a divulgação. A escrita diária de Ivone, publicada nas «redes sociais», é um bálsamo de inteligência e sentido estético. Abrigamo-nos nela da hediondez quotidiana. Vão e leiam-na.
*Edição Língua Morta.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
A seita
O universo da Chiado Books é como o de uma seita particularmente impudica em que todos pagam o dízimo para serem patetas felizes. O fundador da seita, ele próprio um génio ressentido que abandonou a religião ortodoxa por frustração (parece que no princípio dos tempos foi ignorado por trinta editoras), promete aos neófitos uma entrada no mundo dos autores contra a entrega de uma certa quantia. Como sói acontecer, a busca da felicidade por via de pagamento enriquece sobretudo o guru, que tipicamente se faz passear de Ferrari e, dêmos asas à imaginação, malas cheias de notas.
Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.
Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.
Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?
Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.
Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.
Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.
Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.
Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?
Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.
Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
A Europa no divã
Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.
Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie
Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.
É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.
Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.
O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.
Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).
Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.
A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.
Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.
O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.
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A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019
sábado, 10 de agosto de 2019
Sol coado
Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.
Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).
A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.
Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.
Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.
Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)
Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.
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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]
terça-feira, 23 de julho de 2019
Panes e contratempos
Em certa época da sua vida conduzia uma Renault 4L e teve de adicionar dois acessórios aos equipamentos de origem da viatura: quatro quilos de um paralelepípedo de granito e cinquenta centímetros de uma vara de aço de doze milímetros. Estavam, a viatura e ele, ao serviço de uma empresa de engenharia, pelo que aqueles acessórios foram de fácil obtenção e ambos se revelaram de uma utilidade fulcral, ainda que em diferentes utilizações. O paralelepípedo, que ia substituindo sempre que necessário, era indispensável no estacionamento em rampas e a vara de aço como auxiliar do motor de arranque, quando este bloqueava.
É certo que na maioria dos locais inclinados onde na altura estacionava, mesmo em lazer, era quase sempre fácil encontrar nas redondezas pedras, calhaus ou rebos adequados à função travatória, mas nenhum dava ao manuseamento as mesmas garantias de higiene que os seus paralelos polidos por décadas de serviço numa calçada do Estado Novo. Se tinha de pegar num calço de cada vez que parava a carroça em plano inclinado, nada o obrigava a sujar as mãos em pedra alheia, exposta sabe-se lá a quê. Bastava enfiar a mão debaixo do banco e retirar de lá uma das suas pedras-de-toque. Pelo contrário, se tivesse de perder um minuto ou mais a seleccionar o melhor seixo em cada local de parqueamento íngreme, nada lhe garantia que ainda houvesse 4L na rampa quando ele regressasse para contrariar a gravidade. Do mesmo modo que ninguém no seu perfeito juízo aceitaria hoje um carro sem travão de mão ou seu equivalente, ele não dispensava os seus hexaedros de granito.
A vara de aço, heliaço, sobra da armadura de um pilar ou viga, com a sua superfície marcada por nervuras transversais oblíquas (muito úteis quando era Verão e as mãos transpiravam), entrava em funções uns segundos após cerca de cinquenta por cento das vezes em que ele rodava a chave para accionar o motor. Poder-se-ia dizer, dado o uso frequente, que era um complemento da chave da ignição que, por razões compreensíveis, não usava no porta-chaves.
Segundo rezam os anais da época, as escovas do motor de arranque tendiam, sobretudo com altas temperaturas, a colar na superfície interior do cilindro onde estavam aprisionadas. Os mecânicos diziam que era o metal das escovas a fundir, mas podia-se legitimamente suspeitar de uma revolta. Bem, revolta não, que isso era precisamente o que as escovas recusavam fazer. Talvez insurreição. E isso contrariava-se fazendo vibrar o metal do invólucro para descolar os fios das escovas no seu interior.
A sua acção subsequente a cada volta em falso da ignição era, portanto, brandir a verga de aço, não como quem vareja azeitonas ou rebate a bola no baseball, mas como quem cutuca com displicência um formigueiro ou como quem crava repetidamente uma lança no coração da besta, dependendo das circunstâncias e das emoções. Abria o capot e cutucava o motor de arranque com carinho se ele se recusava a funcionar de manhã antes de ir para o trabalho, compreendendo a sua angústia e pronto para lhe agradecer uma nega sustentada. Em contrapartida, à hora de sair para petiscadas ou copos, percutia-o, impaciente e nervoso, como um êmbolo humano desgovernado, pronto para desferir vergastadas a torto e a direito como Cristo aos vendilhões do templo.
Nas ocasiões em que o motor da 4L ia abaixo, por deficiência ou envelhecimento da viatura, ou, concedamos a hipótese académica, por aselhice do condutor (imaginemos o pára-arranca de uma fila ou um semáforo a ficar verde e o carro a recusar-se a pegar de novo porque as benditas escovas voltaram a colar), lamentava não ter a vara o diâmetro, a alma e a utilidade de uma bazuca, mas saía sorridente do lugar do condutor, abria o capot com as pontas dos dedos, entalando-lhe com experimentada e coreográfica eficácia a escora oleosa, e dava pancadinhas elegantes no motor de arranque, mais parecendo um mágico a agitar a sua varinha ou um maestro sulcando o ar com a sua batuta, como se aquilo fosse apenas uma performance que lhe aprazia fazer para alegrar a hora de ponta, quebrar a rotina do tráfego urbano. Por dentro, contudo, tremia de vergonha e raiva como… varas verdes. E à noite o sono demorava-se porque se detinha, sádico, a reviver e a dramatizar o acontecimento.
Trinta anos depois, numa prova da decadência do mundo ocidental, o que lhe apoquenta os dias automobilizados é não ter gás no ar-condicionado.
É certo que na maioria dos locais inclinados onde na altura estacionava, mesmo em lazer, era quase sempre fácil encontrar nas redondezas pedras, calhaus ou rebos adequados à função travatória, mas nenhum dava ao manuseamento as mesmas garantias de higiene que os seus paralelos polidos por décadas de serviço numa calçada do Estado Novo. Se tinha de pegar num calço de cada vez que parava a carroça em plano inclinado, nada o obrigava a sujar as mãos em pedra alheia, exposta sabe-se lá a quê. Bastava enfiar a mão debaixo do banco e retirar de lá uma das suas pedras-de-toque. Pelo contrário, se tivesse de perder um minuto ou mais a seleccionar o melhor seixo em cada local de parqueamento íngreme, nada lhe garantia que ainda houvesse 4L na rampa quando ele regressasse para contrariar a gravidade. Do mesmo modo que ninguém no seu perfeito juízo aceitaria hoje um carro sem travão de mão ou seu equivalente, ele não dispensava os seus hexaedros de granito.
A vara de aço, heliaço, sobra da armadura de um pilar ou viga, com a sua superfície marcada por nervuras transversais oblíquas (muito úteis quando era Verão e as mãos transpiravam), entrava em funções uns segundos após cerca de cinquenta por cento das vezes em que ele rodava a chave para accionar o motor. Poder-se-ia dizer, dado o uso frequente, que era um complemento da chave da ignição que, por razões compreensíveis, não usava no porta-chaves.
Segundo rezam os anais da época, as escovas do motor de arranque tendiam, sobretudo com altas temperaturas, a colar na superfície interior do cilindro onde estavam aprisionadas. Os mecânicos diziam que era o metal das escovas a fundir, mas podia-se legitimamente suspeitar de uma revolta. Bem, revolta não, que isso era precisamente o que as escovas recusavam fazer. Talvez insurreição. E isso contrariava-se fazendo vibrar o metal do invólucro para descolar os fios das escovas no seu interior.
A sua acção subsequente a cada volta em falso da ignição era, portanto, brandir a verga de aço, não como quem vareja azeitonas ou rebate a bola no baseball, mas como quem cutuca com displicência um formigueiro ou como quem crava repetidamente uma lança no coração da besta, dependendo das circunstâncias e das emoções. Abria o capot e cutucava o motor de arranque com carinho se ele se recusava a funcionar de manhã antes de ir para o trabalho, compreendendo a sua angústia e pronto para lhe agradecer uma nega sustentada. Em contrapartida, à hora de sair para petiscadas ou copos, percutia-o, impaciente e nervoso, como um êmbolo humano desgovernado, pronto para desferir vergastadas a torto e a direito como Cristo aos vendilhões do templo.
Nas ocasiões em que o motor da 4L ia abaixo, por deficiência ou envelhecimento da viatura, ou, concedamos a hipótese académica, por aselhice do condutor (imaginemos o pára-arranca de uma fila ou um semáforo a ficar verde e o carro a recusar-se a pegar de novo porque as benditas escovas voltaram a colar), lamentava não ter a vara o diâmetro, a alma e a utilidade de uma bazuca, mas saía sorridente do lugar do condutor, abria o capot com as pontas dos dedos, entalando-lhe com experimentada e coreográfica eficácia a escora oleosa, e dava pancadinhas elegantes no motor de arranque, mais parecendo um mágico a agitar a sua varinha ou um maestro sulcando o ar com a sua batuta, como se aquilo fosse apenas uma performance que lhe aprazia fazer para alegrar a hora de ponta, quebrar a rotina do tráfego urbano. Por dentro, contudo, tremia de vergonha e raiva como… varas verdes. E à noite o sono demorava-se porque se detinha, sádico, a reviver e a dramatizar o acontecimento.
Trinta anos depois, numa prova da decadência do mundo ocidental, o que lhe apoquenta os dias automobilizados é não ter gás no ar-condicionado.
quinta-feira, 11 de julho de 2019
Maria de Fátima Bonifácio traída
Maria de Fátima Bonifácio é uma senhora assaz preconceituosa e muito ressentida da perda de privilégios familiares, de classe e raciais. Em geral, a sua prosa, mesmo quando pretensamente académica, limita-se a dissertar com vileza e fel na perspectiva do trauma pessoal. Não foi o seu mais recente artigo que desvelou isto. Para quem nunca a tenha lido ou tenha memória curta, há todo um arquivo no Público de lamentáveis redacções afins, apenas por vezes mais vestidinhas de casaco de malha, como adequado à brisa e ao pensamento solarengos. É por isso patético que João Miguel Tavares ou José Manuel Fernandes, entre outros, venham fingir aborrecer-se (mais um do que o outro) com as torpezas da amiga, que ainda assim desculpam (mais um do que o outro). Salvo distracção minha, a senhora Bonifácio não inaugurou agora uma nova linha de pensamento, ainda que possa ter-se desbocado um pouco mais. Por isso, estes senhores, que mereciam tabefes por admirarem tal musa, merecem agora chicotadas por lhe serem desleais. Podemos tolerar que a nossa direita tenha tolos e tolas como pensadores, mas é imperdoável que se revele hipócrita.
Entretanto, coitada da senhora dona Maria de Fátima: acostumada a palmadinhas nas costas, percebeu da pior maneira ter chegado à idade das velhas tias da corte, incentivadas a dizerem de tudo nos saraus de família, mas apelidadas de inconvenientes ou xexés quando dizem o mesmo perante um público menos caseiro.
Entretanto, coitada da senhora dona Maria de Fátima: acostumada a palmadinhas nas costas, percebeu da pior maneira ter chegado à idade das velhas tias da corte, incentivadas a dizerem de tudo nos saraus de família, mas apelidadas de inconvenientes ou xexés quando dizem o mesmo perante um público menos caseiro.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Terminado mais um livrito — outro que há-de ficar na gaveta ou, havendo sorte e merecimento, ver-se editado piedosamente por uma das pequenas chancelas que gostam do risco e do prejuízo —, pronto o livrito, dizia, há que manter viva a ilusão de que isto, esta insistência, faz algum sentido. Escrever por mera estratégia de sobrevivência mental, é o que é. Em todo o caso, rei morto, rei posto. Opus 6, abertura:
domingo, 5 de maio de 2019
Venezuela
Nos dias que passam, em que sonho com um eremitério de livros, uma vida à margem, a política apenas me interessa na medida em que dela posso ser vítima — ou seja, preocupa-me, mas não sinto o ímpeto de a discutir de viva voz ou de me envolver em movimentos. Pessimismo resignado, talvez seja o diagnóstico. Não há como não ficar deprimido quando se vê o circo de políticos e comentadores, nos media ou nas redes sociais, reduzindo tudo a torneios, organizados em claques ou falanges como seitas ou quadrilhas.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
sábado, 4 de maio de 2019
Dança contemporânea
Quando hoje penso em problemas de expressão já não é o romance, abordado no post anterior, que me ocupa a mente, mas por exemplo a dança contemporânea, que representa um problema, se quisermos, já não tanto de semântica mas de evolução de um género artístico. No binómio «dança contemporânea», o significado de dança é alterado ou matizado pelo adjectivo que lhe sucede, mas de uma maneira que uma parte das pessoas, os leigos, não capta na sua totalidade.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.
Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.
Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Romance ou o significado das palavras
Durante muitos anos, a palavra «romance» pareceu-me inadequada para definir o género de livros que define. Isto porque, no meu mundo cultural, romance começou por significar apenas «relação amorosa», e na fase inicial de leitor interessava-me tudo menos ler histórias de amor, que imaginava sempre melosas, fúteis e cheias de clichés como as das fotonovelas. Talvez tivesse nisto um papel a imposição cultural que tradicionalmente ditava uma dupla separação por géneros: as fotonovelas e as histórias de amor eram para raparigas; os rapazes, se liam, liam histórias de cowboys e de aventuras.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Livros e séries televisivas
A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
terça-feira, 30 de abril de 2019
Eppur si muove: alguns polípticos
Apesar das negras profecias em auto-realização mencionadas
no post anterior, continua a haver,
por entre toda a futilidade impressa, um número muito simpático de edições que
nos salvam os dias.
Ainda há pouco tempo era fácil encontrar, por
exemplo, numa mesma livraria, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, na nova tradução de Pedro Tamen, e os
cinco* de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård,
a quem chamaram o Proust escandinavo ou
o Proust do século XXI.
Alguns dos profetas do fim da literatura virão
naturalmente defender que é já uma infâmia mencionar aquelas duas obras numa
mesma frase quanto mais falar de Proust a propósito do norueguês.
A questão sobre se é legítimo invocar o autor de Em Busca do Tempo Perdido a propósito
dos livros de Knausgård é um pouco ociosa, tanto mais que, depois de Proust,
todo o exercício retrospectivo em literatura se tornou de uma forma ou doutra proustiano. De resto, a legitimidade a
debater em A Minha Luta é mais do
domínio da ética social do que da literatura. O valor literário de Knausgård é
evidente para quem o leia sem juízos prévios. Eu discutiria antes a necessidade,
para mim escusada, de o seu políptico ter sido editado como puramente
autobiográfico. Não pelo que o autor conta da sua vida, mas pelo que expõe da de
alguns familiares ou conhecidos.
Em literatura é válida a suspeita de que todo o livro
tem algo de autobiográfico. Mas a tecelagem que a ficção elabora com o material
biográfico resulta numa coisa nova, que foca o interesse do leitor, em termos
de narrativa, no construído e não no factual, na obra de arte como um universo
próprio, singular, que não depende do nosso para ser, embora possa ter dependido
dele para nascer.
Não impede isto que um livro de ficção seja em simultâneo
um fresco de uma época ou de uma cultura, de uma geração ou de uma geografia.
Não lemos a distopia 1984 sem pensar
no estalinismo (ou nos próximos totalitarismos). Os volumes de Knausgård
dispensavam o rótulo de autobiográficos-sem-filtros para serem boa literatura.
Talvez vendessem menos numa primeira fase, sem a polémica (a que se somou a do
título), mas não teriam menos interesse. E deixariam um leitor como eu menos
constrangido.
De dois outros polípticos admiráveis que a literatura
contemporânea produziu se pode igualmente dizer que são em maior ou menor grau autobiográficos,
num caso com a ajuda do próprio autor, no outro apenas conjecturando isso, como
quase sempre podemos fazer se não tivermos nada melhor em que ocupar a mente.
Refiro-me à série sobre Patrick Melrose,
de Edward St Aubyn, e à tetralogia A Amiga
Genial, de Elena Ferrante.
Os livros de St Aubyn são apresentados como semi-autobiográficos e isso é suficiente
para nos proteger de remorsos quanto a um voyeurismo descarado, porque é
suficiente para proteger a privacidade das pessoas que se relacionaram com o
autor: nada, a não ser as declarações de Edward, nos autoriza a escolher que
partes são factuais e que partes são pura invenção. Na incerteza criada pelo
prefixo semi acolhe-se a intimidade
das pessoas que inspiraram as personagens.
No caso de Ferrante, li poucas referências a que se
trate de material autobiográfico e, em todo o caso, tal é supérfluo, uma vez
que a autora permanece oficialmente desconhecida. Por outro lado, as
especulações mais acreditadas sobre a identidade de Ferrante referem-se a
pessoas biograficamente diferentes das protagonistas da tetralogia.
Mas se falei em autobiografia a propósito de A Amiga Genial foi apenas para poder
integrar a obra neste texto, porque não são o detalhe intimista e o forte carisma com
que Lila e Lenù foram desenhadas que nos permitem declará-las pessoas vivas,
embora nos permitam integrá-las na galeria de grandes personagens da literatura
universal.
O que têm em comum estes três polípticos, oriundos de
diferentes geografias e tradições, adoptando diferentes formas narrativas e
estilísticas, é a qualidade literária. Nenhum deles dispensa a leitura de
Proust, Waugh, Dickens ou Goethe, para citar genealogias possíveis, mas só no
sentido em que é uma pena um leitor não ter uma visão alargada e retrospectiva do
cânone literário, porque qualquer deles tem lugar nesse mesmo cânone por mérito
próprio.
* Em Portugal falta editar o sexto volume.
sábado, 27 de abril de 2019
Profetas do fim do livro
De entre os vários tipos de catastrofistas em relação
ao futuro dos livros, é justo destacar três. O primeiro tipo é constituído por
sujeitos que, ao atingirem uma determinada idade ou por terem coleccionado um
certo número de lombadas, afirmam já terem lido tudo o que de bom a literatura
poderia dar à humanidade. Alguns, com maior ou menor grau de franqueza consigo
próprios, sugerem que, passe a imodéstia, até contribuíram para essa dádiva. Não
há já nada que se possa escrever que ainda não tenha sido escrito, asseguram, não
há já nada a descobrir na literatura. O que não confessam a si mesmos, a não
ser talvez se expostos aos métodos de Guantánamo, é que lançam o anátema sobre
o futuro dos livros por ressentimento, por receio de sombra, porque,
compreensivelmente, o mundo já não lhes interessa, ou, suponho, para cumprirem,
paternalistas, o que se espera de todos nós a partir de certa altura, desdenhando
os novos textos como desdenhamos a música feita pelas novas gerações.
O segundo tipo de bandarras do fim dos livros são cidadãos
ou cidadãs de extracção assaz comum mas que a televisão, a propósito de nada, arvorou
em vedetas e que, consequentemente, inelutavelmente, tragicamente, escrevem e
publicam. Estes em geral não anunciam o fim do livro em si mesmo, porque
pretendem eles próprios cometer mais algumas edições, mas o fim da literatura, essa disciplina inútil.
Valem-se da estatística e de uma versão muito particular de democracia: a maior
parte das pessoas, dizem, já não tem disposição para ler livros como
antigamente, chatíssimos e intrincados, indecifráveis, sem propósito; o que
agora interessa são as biografias e as inconfidências dos assim chamados vips,
o seu pensamento, na hipótese indemonstrada de terem um. Fazem por isso do
mundo editorial um circo de horrores, com o diligente contributo de
supermercados e grupos de livrarias.
Um terceiro tipo de pregadores do armagedom vem geralmente da área das
novas tecnologias ou das novas tendências, seja lá isso o que for. São
informáticos ou designers,
publicitários ou ted talkers, gurus
ou por vezes meros contadores de anedotas (vulgo, stand up comedians). O problema para os que se integram neste tipo
não é propriamente o livro, que não lêem, mas a velhice dele, o seu carisma démodé, o seu arcaísmo. A verdade é que,
mesmo quando transposto para suportes digitais, com hiperlinks e vídeos a pular a cada linha, um livro, se lido com
certa atenção do início ao fim, implica uma postura profundamente anti-moderna:
estática, concentrada, silenciosa, individualista, alheia ao ruminar da manada e
aos fluxos sociais. A leitura de livros, se levada a sério, utiliza ferramentas
pior do que analógicas, como a memória, a imaginação, a inteligência, a
sensibilidade, implicando a vontade de compreender e de visualizar autonomamente
o que é sugerido pelo autor, ignorando as fotos ou vídeos auxiliares, os templates
interactivos e os grafismos apelativos, e, no acto, desinteressando-se
profundamente, ou rechaçando mesmo, ó desfaçatez!, as intervenções do personal coach, e dispensando o riso
geral do rebanho, até porque, ó reaccionarismo!, nem sempre os livros têm como
resultado gargalhadas — e as modernas profissões de visionários abominam o que
não é para riso, riso fácil.
O problema dos que estimam os livros e os acham
indispensáveis é que espécimes destes três tipos de nostradamus em cuecas estão nos
conselhos de administração dos grupos económicos e editorais, são os CEOs, os pivots e os bibelots mais bem pagos das televisões, estão na política,
legislam, discursam na assembleia, são enviados engravatadamente para o
parlamento europeu, dirigem organismos públicos, constituem a coluna dorsal das
juventudes partidárias que fazem o arco e a flecha da governação, estão nas direcções
escolares e académicas e não raro nas bibliotecas públicas e no Ministério da
Educação, propagam-se como uma arma biológica inoculada por um poder sinistro, como
o vírus da mediocridade replicando-se a si mesmo.
O fim do livro — que será também o fim da
civilização, se me permitem a minha própria profecia — é assim sobretudo uma
forma colectivista de wishful thinking
à qual foram dados todos os meios para realizar os seus próprios desejos
travestidos de previsões. Como se órgãos vitais de um organismo conspirassem alegremente
para o haraquiri do portador. E não, claro, por razões de honra, mas apenas por vilania
ou infantilismo de carácter.
(Eppur si muove.)
sexta-feira, 12 de abril de 2019
'Ensaio sobre a perturbação do sono'
O blogue Aventar fez dez anos e convidou-me para escrever um texto. Saiu-me este longo 'Ensaio sobre a perturbação do sono'. (Ainda bem que o blogue não é em papel.)
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Quando eu morava ali
«Quando eu morava
ali não sentia grande curiosidade por aves (e suponho que seriam então mais
abundantes), mas não julgo que recebêssemos com frequência visitas de
garças-reais, se as recebíamos de todo. Aquele mundo era mais campestre do que
o que o veio substituir, mas era paradoxalmente mais habitado, com bulício humano
junto ao lago, mesmo num crepúsculo cinzento e chuvoso de Dezembro como o que
acolheu o meu regresso. Eu era agora outra mulher, capaz de me deter a olhar
uma paisagem e de reparar no que nela havia de raro ou peculiar, e uma
garça-real de pé junto à água, iluminada por um candeeiro muito mais antigo na
terra do que a sua espécie, parecia-me algo de inusitado em qualquer sítio que
a visse — ali adquiria foros de aparição. Ela deu pela minha presença quando
cheguei a uns trinta metros de distância da margem e pôs-se de lado, a
espreitar-me os movimentos pelo canto do olho, com o pescoço desenhando aquela
silhueta característica em ponto de interrogação. Pareceu-me adequada a sua
postura: assinalava graficamente as suas dúvidas quanto às minhas intenções e,
num sentido mais lato, as minhas próprias dúvidas quanto aos meus objectivos.
Não fugiu quando, num gesto de mecânica contemporaneidade, tirei o telemóvel da
bolsa para a fotografar. O flash
iluminou impotentemente a noite que se instalara e eu percebi que era inútil, estava demasiado longe e não
havia luz suficiente para a câmara, apenas os arbustos perto de mim sairiam visíveis na foto.
Tudo o que colheria daquele primeiro momento era uma impressão que não poderia
provar, a somar-se às outras que transportava comigo em igual condição havia três
décadas.
Depois de alguns
minutos a olharmo-nos, senti-me autorizada a avançar, confiante em que a garça
teria decifrado as minhas intenções pacíficas. Estava enganada. A bicha abriu
lentamente as asas, segura no seu cálculo das distâncias (não a alcançaria nem
que corresse), deu um passo gracioso em frente e elevou-se nos ares com uma
pequena rabanada de vento.
Ocupei o seu
lugar na beira da água, tentando ver o lago e as redondezas pelos olhos de um
frequentador recente, mas faltava ao meu olhar virgindade: tudo ali, o que
havia e o que já não estava, tinha impressionado a minha retina há muito, como a
luz que fixamos demasiado tempo e continuamos a ver mesmo depois de fecharmos
os olhos. Os candeeiros públicos poderiam desligar-se — como tantas vezes
acontecia nos Invernos da adolescência — que eu continuaria a poder ver através
da escuridão, nem que fossem os espectros a cujo apelo acorrera.
Passaram mais
alguns minutos e a garça regressou, sobrevoando com um gazear irritado a
pequena enseada. O seu jantar ficara decerto a meio e queria por isso que eu
fosse embora, lhe devolvesse o território de caça. Não lhe disputei o direito a
estar ali, já não era uma prerrogativa minha. Afastei-me a deambular,
voltando-me de vez em quando com um desejo melancólico de beleza selvagem e
inconsciente, talvez tentando aprender com ela como reocupar um terreno de onde
fomos desalojados.»
[Início de uma novela ou romance em gestação lenta, lentíssima]
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
S.T.T.L.
Os
anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado,
cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não
voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que
ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos
sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para
o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou
no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza.
Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a
família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos
se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas
namoradas.
O
tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a
partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta,
ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas
de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à
taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas
de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores
tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o
recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata
de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas.
Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos
para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o
bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na
barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia
esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas
prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos
ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No
Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o
impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na
maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis
sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a
cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se
encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza
uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer
assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não
apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou
subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem
caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha
pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que
gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam
estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no
meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições
(estava, avidamente).
A
sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais
intrincados quanto para lobrigar as rocas
mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para
os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por
preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem
onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos.
De
resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o
descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida
mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por
interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria
apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e
do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda
era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia
quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados
do Sporting.
Nos
anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os
seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos,
que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de
cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo
de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os
sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe
tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A
paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira
que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou
um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se
para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou
passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações
eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio
adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que
havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com
queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então
afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá
entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta
de lhe termos descoberto o fingimento.
Com
o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em
determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma
pessoa difícil.
Mas
os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de
sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava
ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava
o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar
tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para
escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o
tio era então o meu segundo pai.
Sit tibi terra levis.
Sit tibi terra levis.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Boa notícia
O meu amigo J. F. Borges retomou o blogue Divina Comédia. E em grande forma.
Ressurgimento
1657 dias após a sua morte, este blogue ressuscitou. Ou talvez tenha reencarnado. Da vida anterior conserva certos vícios, sobretudo a tendência para ser irritantemente sintético nos textos que exibe. Preguiça disfarçada. Mas a preguiça tem vantagens, algumas de alcance cósmico: o mundo ainda não se deu ao trabalho de acabar.
sábado, 26 de janeiro de 2019
«A bosta da bófia»
A polícia, como se sabe, é amada por todos os portugueses. Sempre
que há uma operação stop de surpresa, os tugas rejubilam e correm ao encontro
dos agentes. Se a operação inclui medição da taxa de alcoolémia, o Zé português
fica tonto e desfaz-se em mesuras e elogios, escolhendo os melhores adjectivos
do rico vocabulário nacional. Se por azar o carro do tuga não é apanhado pelo
radar (não por falta de empenho do condutor, bem sabemos), este vai logo ao
multibanco fazer um donativo generoso, superior à multa a que tinha direito, e pelo
Natal envia um postal delicado para a esquadra. Quem passa na estrada dá sempre
sinal da presença da polícia aos condutores que vêm em sentido contrário para
que ninguém perca a oportunidade de cumprimentar os agentes, não fosse algum
distraído passar sem os ver e honrar. Donos de bares não fecham os
estabelecimentos a horas só para poderem ser visitados pela polícia, que
recebem como as crianças receberiam o Pai Natal, se ele aparecesse: com carinho,
abraços e beijos gulosos. Comerciantes anseiam pela ASAE ou por qualquer tipo
de fiscalização só para poderem acolher os agentes que por vezes acompanham os inspectores.
Nos estádios, os adeptos descamisam-se e atropelam-se para irem abraçar os
agentes destacados, que receberam desde o apito inicial com gestos de calorosa
afabilidade e cânticos aprendidos nos mais virginais livros de salmos.
*Deliciosa expressão roubada à excelente escrita de Francisco José Viegas, de quem infelizmente tanto tenho discordado.
Mas eis que um preto se apropria dos hábitos e palavras
nacionais para se dirigir publicamente à polícia como «a bosta da bófia». Os
pretos não são, por definição, portugueses, logo não podem dirigir-se às
auctoridades* com as mesmas palavras que um português usaria. Ainda assim teve
sorte Mamadou Ba. Se tivesse recorrido a uma expressão ainda mais reiterada e genuinamente
tuga, por exemplo, «a puta da bófia», certamente não seria apenas ameaçado.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
La Palisse
Vejo amigos a partilharem posts no Facebook onde se dizem intransigentemente do lado da PSP. Pensei, ingénuo, que os meus amigos estavam do lado das pessoas de bem, fossem elas polícias ou civis. Não sabia, cândido, que nisto também tínhamos de seguir a cartilha do futebol e escolher um clube com o qual estamos em todas as circunstâncias, sem metafísica nem escrúpulos.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Diário de uma boina Basca
Quando soube que Vasco Pulido Valente regressara aos jornais com um diário publicado semanalmente no Público,
não saquei logo a pistola porque não uso, mas pensei de imediato no prazer de
me lançar na escrita contrapontística de um diário anti-Vasco. Saiu-me na hora um
título e tudo: Diário de uma boina basca.
Durante uma semana diverti-me com a ideia e sobretudo com o título — mas não me
sentei ao computador. Quando finalmente o fiz, senti desolação: eu
não ia querer obrigar-me semanalmente a ler aquela prosa sádica que, sob o
argumento altruísta de nos mostrar o mundo como ele é, dedica fervor e fel à
defesa de um péssimo mundo possível mas não inevitável.
Para alguns bem-intencionados, a escrita alegadamente irónica
de Vasco cumpre hoje o papel das farpas de Eça de Queirós. Tem o mesmo espírito
endiabrado, o gosto de fustigar a nação. É certo que, como Eça, Vasco procura o
efeito e pretende ver o país por uma luneta. Mas o sátiro Eça elevava-se. O
sarcástico Vasco entrincheira-se. As suas frases têm o resultado, por vezes implícito mas
dificilmente involuntário, de defender posições conservadoras e cínicas.
Outros dizem que em certos aspectos a escrita de Vasco ressuma
anacronia como a de Eça. Talvez apenas porque Vasco, historiador, engalana
frequentemente a sua prosa punitiva com as casacas e as polainas da época. Mas
na verdade, apesar das recorrentes alusões a figuras e factos do século XIX, nem
o próprio Vasco pretende confundir-se com Eça, salvo na inconfessada ambição estética
de ser o irónico-mor da pátria. E de facto os dois autores não se confundem: a décalage de Eça, morto de um século, não nos
tolda o riso; já a pátina reaccionária do plumitivo Vasco, agora
redivivo, mendiga pena.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas
Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma
crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu
tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações
climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não
ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta.
Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado
por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no
horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os
outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Regar em tempo de seca
«Quando vês alguém a regar o jardim ou a lavar o carro e
sabes que estamos num período de seca, pensas logo que observas um egoísta que
se está nas tintas para o planeta e para as carências da humanidade e quer
apenas saber das suas necessidades ou prazeres. Mas há outra maneira de ver
este quadro, que não iliba necessariamente ninguém. As pessoas, incluindo
aquela que vês a pegar na mangueira, precisam de normalidade, e se, num
fim-de-semana em que tudo morre de sede à sua volta, vão para o jardim regar o
relvado ou o Mercedes em segunda mão é porque se querem manter estritamente
dentro dos parâmetros da previsibilidade (ou, no caso, da rotina do
fim-de-semana típico). Não aceitam a ocorrência de um cataclismo natural na sua
folga ou adoptar procedimentos extraordinários alheios a um dia livre. É por
isso que as festas de aldeia não se interrompem quando os montes ardem, ou que
os jogadores de cartas num café são os últimos a reagir a um acidente que se
deu na estrada lá fora.
A interrupção voluntária da normalidade, e sobretudo da normalidade
de um feriado, é, para a maioria, uma confissão inconsciente de fraqueza ou a
denúncia da sua impotência perante as leis que regem o universo, uma cedência à
morte. A normalidade mantida in extremis
não é apenas egoísmo — é resistência à adversidade e à contingência, recusa de
ceder o controlo. As pessoas, os teus vizinhos, regam em pleno Agosto árido
porque acreditam contra todas as evidências na infinitude dos recursos e porque
de outro modo teriam de reconhecer a precariedade dos fins-de-semana, a
superficialidade de manter um jardim e, em última circunstância, a inutilidade
de terem comprado um Mercedes.»
A percepção da imprensa
Os jornais ditos de referência são acusados por uns de alinhamento com o Governo e por outros de serem títeres da direita.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Tautologia
Francisco José Viegas achou necessário avisar-nos que os textos do seu blogue «são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã».
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
The Whole of the Moon
Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of
the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para
quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.
Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott
nas colunas sofríveis da Blondie, mas
recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse
momento, uma turba acabadinha de sair dum casting
para o Thriller de Michael Jackson:
trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos
remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e
espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última
versão do MSDOS.
Os que tinham dançado slows
retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por
vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de
volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos
escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.
Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar
para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto
—, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade
do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.
Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de
continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico,
ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso?
Não aos rapazes do Ípsilon, decerto.
Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol
Nas minhas
deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável
momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do
período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser
conhecida pela beleza.
As torres
ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma
cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram
cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas,
em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num
arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar
de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os
mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética,
porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é
belo.
O verde da
vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e
clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o
verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo
estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e
jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe
arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século,
as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram
ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais
eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um
ecrã verde.
Há países,
como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o
filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e
renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a
amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o
clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano.
Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia
sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros
semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios
de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas,
demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de
Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado,
e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à
ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua
representação escultórica e irónica.
A
Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do
século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na
Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca
arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega
por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos
de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Polígrafo
Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e
afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito
necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua
primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no
artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o
seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a
ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar
ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de
seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar
as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos,
corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes
de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer
seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e
literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas
nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.
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