quinta-feira, 13 de junho de 2019
Terminado mais um livrito — outro que há-de ficar na gaveta ou, havendo sorte e merecimento, ver-se editado piedosamente por uma das pequenas chancelas que gostam do risco e do prejuízo —, pronto o livrito, dizia, há que manter viva a ilusão de que isto, esta insistência, faz algum sentido. Escrever por mera estratégia de sobrevivência mental, é o que é. Em todo o caso, rei morto, rei posto. Opus 6, abertura:
domingo, 5 de maio de 2019
Venezuela
Nos dias que passam, em que sonho com um eremitério de livros, uma vida à margem, a política apenas me interessa na medida em que dela posso ser vítima — ou seja, preocupa-me, mas não sinto o ímpeto de a discutir de viva voz ou de me envolver em movimentos. Pessimismo resignado, talvez seja o diagnóstico. Não há como não ficar deprimido quando se vê o circo de políticos e comentadores, nos media ou nas redes sociais, reduzindo tudo a torneios, organizados em claques ou falanges como seitas ou quadrilhas.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
sábado, 4 de maio de 2019
Dança contemporânea
Quando hoje penso em problemas de expressão já não é o romance, abordado no post anterior, que me ocupa a mente, mas por exemplo a dança contemporânea, que representa um problema, se quisermos, já não tanto de semântica mas de evolução de um género artístico. No binómio «dança contemporânea», o significado de dança é alterado ou matizado pelo adjectivo que lhe sucede, mas de uma maneira que uma parte das pessoas, os leigos, não capta na sua totalidade.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.
Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.
Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Romance ou o significado das palavras
Durante muitos anos, a palavra «romance» pareceu-me inadequada para definir o género de livros que define. Isto porque, no meu mundo cultural, romance começou por significar apenas «relação amorosa», e na fase inicial de leitor interessava-me tudo menos ler histórias de amor, que imaginava sempre melosas, fúteis e cheias de clichés como as das fotonovelas. Talvez tivesse nisto um papel a imposição cultural que tradicionalmente ditava uma dupla separação por géneros: as fotonovelas e as histórias de amor eram para raparigas; os rapazes, se liam, liam histórias de cowboys e de aventuras.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Livros e séries televisivas
A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
terça-feira, 30 de abril de 2019
Eppur si muove: alguns polípticos
Apesar das negras profecias em auto-realização mencionadas
no post anterior, continua a haver,
por entre toda a futilidade impressa, um número muito simpático de edições que
nos salvam os dias.
Ainda há pouco tempo era fácil encontrar, por
exemplo, numa mesma livraria, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, na nova tradução de Pedro Tamen, e os
cinco* de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård,
a quem chamaram o Proust escandinavo ou
o Proust do século XXI.
Alguns dos profetas do fim da literatura virão
naturalmente defender que é já uma infâmia mencionar aquelas duas obras numa
mesma frase quanto mais falar de Proust a propósito do norueguês.
A questão sobre se é legítimo invocar o autor de Em Busca do Tempo Perdido a propósito
dos livros de Knausgård é um pouco ociosa, tanto mais que, depois de Proust,
todo o exercício retrospectivo em literatura se tornou de uma forma ou doutra proustiano. De resto, a legitimidade a
debater em A Minha Luta é mais do
domínio da ética social do que da literatura. O valor literário de Knausgård é
evidente para quem o leia sem juízos prévios. Eu discutiria antes a necessidade,
para mim escusada, de o seu políptico ter sido editado como puramente
autobiográfico. Não pelo que o autor conta da sua vida, mas pelo que expõe da de
alguns familiares ou conhecidos.
Em literatura é válida a suspeita de que todo o livro
tem algo de autobiográfico. Mas a tecelagem que a ficção elabora com o material
biográfico resulta numa coisa nova, que foca o interesse do leitor, em termos
de narrativa, no construído e não no factual, na obra de arte como um universo
próprio, singular, que não depende do nosso para ser, embora possa ter dependido
dele para nascer.
Não impede isto que um livro de ficção seja em simultâneo
um fresco de uma época ou de uma cultura, de uma geração ou de uma geografia.
Não lemos a distopia 1984 sem pensar
no estalinismo (ou nos próximos totalitarismos). Os volumes de Knausgård
dispensavam o rótulo de autobiográficos-sem-filtros para serem boa literatura.
Talvez vendessem menos numa primeira fase, sem a polémica (a que se somou a do
título), mas não teriam menos interesse. E deixariam um leitor como eu menos
constrangido.
De dois outros polípticos admiráveis que a literatura
contemporânea produziu se pode igualmente dizer que são em maior ou menor grau autobiográficos,
num caso com a ajuda do próprio autor, no outro apenas conjecturando isso, como
quase sempre podemos fazer se não tivermos nada melhor em que ocupar a mente.
Refiro-me à série sobre Patrick Melrose,
de Edward St Aubyn, e à tetralogia A Amiga
Genial, de Elena Ferrante.
Os livros de St Aubyn são apresentados como semi-autobiográficos e isso é suficiente
para nos proteger de remorsos quanto a um voyeurismo descarado, porque é
suficiente para proteger a privacidade das pessoas que se relacionaram com o
autor: nada, a não ser as declarações de Edward, nos autoriza a escolher que
partes são factuais e que partes são pura invenção. Na incerteza criada pelo
prefixo semi acolhe-se a intimidade
das pessoas que inspiraram as personagens.
No caso de Ferrante, li poucas referências a que se
trate de material autobiográfico e, em todo o caso, tal é supérfluo, uma vez
que a autora permanece oficialmente desconhecida. Por outro lado, as
especulações mais acreditadas sobre a identidade de Ferrante referem-se a
pessoas biograficamente diferentes das protagonistas da tetralogia.
Mas se falei em autobiografia a propósito de A Amiga Genial foi apenas para poder
integrar a obra neste texto, porque não são o detalhe intimista e o forte carisma com
que Lila e Lenù foram desenhadas que nos permitem declará-las pessoas vivas,
embora nos permitam integrá-las na galeria de grandes personagens da literatura
universal.
O que têm em comum estes três polípticos, oriundos de
diferentes geografias e tradições, adoptando diferentes formas narrativas e
estilísticas, é a qualidade literária. Nenhum deles dispensa a leitura de
Proust, Waugh, Dickens ou Goethe, para citar genealogias possíveis, mas só no
sentido em que é uma pena um leitor não ter uma visão alargada e retrospectiva do
cânone literário, porque qualquer deles tem lugar nesse mesmo cânone por mérito
próprio.
* Em Portugal falta editar o sexto volume.
sábado, 27 de abril de 2019
Profetas do fim do livro
De entre os vários tipos de catastrofistas em relação
ao futuro dos livros, é justo destacar três. O primeiro tipo é constituído por
sujeitos que, ao atingirem uma determinada idade ou por terem coleccionado um
certo número de lombadas, afirmam já terem lido tudo o que de bom a literatura
poderia dar à humanidade. Alguns, com maior ou menor grau de franqueza consigo
próprios, sugerem que, passe a imodéstia, até contribuíram para essa dádiva. Não
há já nada que se possa escrever que ainda não tenha sido escrito, asseguram, não
há já nada a descobrir na literatura. O que não confessam a si mesmos, a não
ser talvez se expostos aos métodos de Guantánamo, é que lançam o anátema sobre
o futuro dos livros por ressentimento, por receio de sombra, porque,
compreensivelmente, o mundo já não lhes interessa, ou, suponho, para cumprirem,
paternalistas, o que se espera de todos nós a partir de certa altura, desdenhando
os novos textos como desdenhamos a música feita pelas novas gerações.
O segundo tipo de bandarras do fim dos livros são cidadãos
ou cidadãs de extracção assaz comum mas que a televisão, a propósito de nada, arvorou
em vedetas e que, consequentemente, inelutavelmente, tragicamente, escrevem e
publicam. Estes em geral não anunciam o fim do livro em si mesmo, porque
pretendem eles próprios cometer mais algumas edições, mas o fim da literatura, essa disciplina inútil.
Valem-se da estatística e de uma versão muito particular de democracia: a maior
parte das pessoas, dizem, já não tem disposição para ler livros como
antigamente, chatíssimos e intrincados, indecifráveis, sem propósito; o que
agora interessa são as biografias e as inconfidências dos assim chamados vips,
o seu pensamento, na hipótese indemonstrada de terem um. Fazem por isso do
mundo editorial um circo de horrores, com o diligente contributo de
supermercados e grupos de livrarias.
Um terceiro tipo de pregadores do armagedom vem geralmente da área das
novas tecnologias ou das novas tendências, seja lá isso o que for. São
informáticos ou designers,
publicitários ou ted talkers, gurus
ou por vezes meros contadores de anedotas (vulgo, stand up comedians). O problema para os que se integram neste tipo
não é propriamente o livro, que não lêem, mas a velhice dele, o seu carisma démodé, o seu arcaísmo. A verdade é que,
mesmo quando transposto para suportes digitais, com hiperlinks e vídeos a pular a cada linha, um livro, se lido com
certa atenção do início ao fim, implica uma postura profundamente anti-moderna:
estática, concentrada, silenciosa, individualista, alheia ao ruminar da manada e
aos fluxos sociais. A leitura de livros, se levada a sério, utiliza ferramentas
pior do que analógicas, como a memória, a imaginação, a inteligência, a
sensibilidade, implicando a vontade de compreender e de visualizar autonomamente
o que é sugerido pelo autor, ignorando as fotos ou vídeos auxiliares, os templates
interactivos e os grafismos apelativos, e, no acto, desinteressando-se
profundamente, ou rechaçando mesmo, ó desfaçatez!, as intervenções do personal coach, e dispensando o riso
geral do rebanho, até porque, ó reaccionarismo!, nem sempre os livros têm como
resultado gargalhadas — e as modernas profissões de visionários abominam o que
não é para riso, riso fácil.
O problema dos que estimam os livros e os acham
indispensáveis é que espécimes destes três tipos de nostradamus em cuecas estão nos
conselhos de administração dos grupos económicos e editorais, são os CEOs, os pivots e os bibelots mais bem pagos das televisões, estão na política,
legislam, discursam na assembleia, são enviados engravatadamente para o
parlamento europeu, dirigem organismos públicos, constituem a coluna dorsal das
juventudes partidárias que fazem o arco e a flecha da governação, estão nas direcções
escolares e académicas e não raro nas bibliotecas públicas e no Ministério da
Educação, propagam-se como uma arma biológica inoculada por um poder sinistro, como
o vírus da mediocridade replicando-se a si mesmo.
O fim do livro — que será também o fim da
civilização, se me permitem a minha própria profecia — é assim sobretudo uma
forma colectivista de wishful thinking
à qual foram dados todos os meios para realizar os seus próprios desejos
travestidos de previsões. Como se órgãos vitais de um organismo conspirassem alegremente
para o haraquiri do portador. E não, claro, por razões de honra, mas apenas por vilania
ou infantilismo de carácter.
(Eppur si muove.)
sexta-feira, 12 de abril de 2019
'Ensaio sobre a perturbação do sono'
O blogue Aventar fez dez anos e convidou-me para escrever um texto. Saiu-me este longo 'Ensaio sobre a perturbação do sono'. (Ainda bem que o blogue não é em papel.)
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Quando eu morava ali
«Quando eu morava
ali não sentia grande curiosidade por aves (e suponho que seriam então mais
abundantes), mas não julgo que recebêssemos com frequência visitas de
garças-reais, se as recebíamos de todo. Aquele mundo era mais campestre do que
o que o veio substituir, mas era paradoxalmente mais habitado, com bulício humano
junto ao lago, mesmo num crepúsculo cinzento e chuvoso de Dezembro como o que
acolheu o meu regresso. Eu era agora outra mulher, capaz de me deter a olhar
uma paisagem e de reparar no que nela havia de raro ou peculiar, e uma
garça-real de pé junto à água, iluminada por um candeeiro muito mais antigo na
terra do que a sua espécie, parecia-me algo de inusitado em qualquer sítio que
a visse — ali adquiria foros de aparição. Ela deu pela minha presença quando
cheguei a uns trinta metros de distância da margem e pôs-se de lado, a
espreitar-me os movimentos pelo canto do olho, com o pescoço desenhando aquela
silhueta característica em ponto de interrogação. Pareceu-me adequada a sua
postura: assinalava graficamente as suas dúvidas quanto às minhas intenções e,
num sentido mais lato, as minhas próprias dúvidas quanto aos meus objectivos.
Não fugiu quando, num gesto de mecânica contemporaneidade, tirei o telemóvel da
bolsa para a fotografar. O flash
iluminou impotentemente a noite que se instalara e eu percebi que era inútil, estava demasiado longe e não
havia luz suficiente para a câmara, apenas os arbustos perto de mim sairiam visíveis na foto.
Tudo o que colheria daquele primeiro momento era uma impressão que não poderia
provar, a somar-se às outras que transportava comigo em igual condição havia três
décadas.
Depois de alguns
minutos a olharmo-nos, senti-me autorizada a avançar, confiante em que a garça
teria decifrado as minhas intenções pacíficas. Estava enganada. A bicha abriu
lentamente as asas, segura no seu cálculo das distâncias (não a alcançaria nem
que corresse), deu um passo gracioso em frente e elevou-se nos ares com uma
pequena rabanada de vento.
Ocupei o seu
lugar na beira da água, tentando ver o lago e as redondezas pelos olhos de um
frequentador recente, mas faltava ao meu olhar virgindade: tudo ali, o que
havia e o que já não estava, tinha impressionado a minha retina há muito, como a
luz que fixamos demasiado tempo e continuamos a ver mesmo depois de fecharmos
os olhos. Os candeeiros públicos poderiam desligar-se — como tantas vezes
acontecia nos Invernos da adolescência — que eu continuaria a poder ver através
da escuridão, nem que fossem os espectros a cujo apelo acorrera.
Passaram mais
alguns minutos e a garça regressou, sobrevoando com um gazear irritado a
pequena enseada. O seu jantar ficara decerto a meio e queria por isso que eu
fosse embora, lhe devolvesse o território de caça. Não lhe disputei o direito a
estar ali, já não era uma prerrogativa minha. Afastei-me a deambular,
voltando-me de vez em quando com um desejo melancólico de beleza selvagem e
inconsciente, talvez tentando aprender com ela como reocupar um terreno de onde
fomos desalojados.»
[Início de uma novela ou romance em gestação lenta, lentíssima]
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
S.T.T.L.
Os
anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado,
cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não
voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que
ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos
sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para
o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou
no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza.
Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a
família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos
se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas
namoradas.
O
tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a
partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta,
ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas
de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à
taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas
de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores
tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o
recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata
de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas.
Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos
para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o
bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na
barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia
esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas
prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos
ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No
Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o
impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na
maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis
sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a
cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se
encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza
uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer
assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não
apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou
subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem
caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha
pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que
gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam
estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no
meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições
(estava, avidamente).
A
sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais
intrincados quanto para lobrigar as rocas
mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para
os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por
preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem
onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos.
De
resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o
descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida
mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por
interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria
apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e
do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda
era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia
quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados
do Sporting.
Nos
anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os
seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos,
que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de
cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo
de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os
sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe
tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A
paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira
que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou
um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se
para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou
passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações
eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio
adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que
havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com
queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então
afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá
entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta
de lhe termos descoberto o fingimento.
Com
o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em
determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma
pessoa difícil.
Mas
os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de
sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava
ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava
o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar
tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para
escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o
tio era então o meu segundo pai.
Sit tibi terra levis.
Sit tibi terra levis.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Boa notícia
O meu amigo J. F. Borges retomou o blogue Divina Comédia. E em grande forma.
Ressurgimento
1657 dias após a sua morte, este blogue ressuscitou. Ou talvez tenha reencarnado. Da vida anterior conserva certos vícios, sobretudo a tendência para ser irritantemente sintético nos textos que exibe. Preguiça disfarçada. Mas a preguiça tem vantagens, algumas de alcance cósmico: o mundo ainda não se deu ao trabalho de acabar.
sábado, 26 de janeiro de 2019
«A bosta da bófia»
A polícia, como se sabe, é amada por todos os portugueses. Sempre
que há uma operação stop de surpresa, os tugas rejubilam e correm ao encontro
dos agentes. Se a operação inclui medição da taxa de alcoolémia, o Zé português
fica tonto e desfaz-se em mesuras e elogios, escolhendo os melhores adjectivos
do rico vocabulário nacional. Se por azar o carro do tuga não é apanhado pelo
radar (não por falta de empenho do condutor, bem sabemos), este vai logo ao
multibanco fazer um donativo generoso, superior à multa a que tinha direito, e pelo
Natal envia um postal delicado para a esquadra. Quem passa na estrada dá sempre
sinal da presença da polícia aos condutores que vêm em sentido contrário para
que ninguém perca a oportunidade de cumprimentar os agentes, não fosse algum
distraído passar sem os ver e honrar. Donos de bares não fecham os
estabelecimentos a horas só para poderem ser visitados pela polícia, que
recebem como as crianças receberiam o Pai Natal, se ele aparecesse: com carinho,
abraços e beijos gulosos. Comerciantes anseiam pela ASAE ou por qualquer tipo
de fiscalização só para poderem acolher os agentes que por vezes acompanham os inspectores.
Nos estádios, os adeptos descamisam-se e atropelam-se para irem abraçar os
agentes destacados, que receberam desde o apito inicial com gestos de calorosa
afabilidade e cânticos aprendidos nos mais virginais livros de salmos.
*Deliciosa expressão roubada à excelente escrita de Francisco José Viegas, de quem infelizmente tanto tenho discordado.
Mas eis que um preto se apropria dos hábitos e palavras
nacionais para se dirigir publicamente à polícia como «a bosta da bófia». Os
pretos não são, por definição, portugueses, logo não podem dirigir-se às
auctoridades* com as mesmas palavras que um português usaria. Ainda assim teve
sorte Mamadou Ba. Se tivesse recorrido a uma expressão ainda mais reiterada e genuinamente
tuga, por exemplo, «a puta da bófia», certamente não seria apenas ameaçado.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
La Palisse
Vejo amigos a partilharem posts no Facebook onde se dizem intransigentemente do lado da PSP. Pensei, ingénuo, que os meus amigos estavam do lado das pessoas de bem, fossem elas polícias ou civis. Não sabia, cândido, que nisto também tínhamos de seguir a cartilha do futebol e escolher um clube com o qual estamos em todas as circunstâncias, sem metafísica nem escrúpulos.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Diário de uma boina Basca
Quando soube que Vasco Pulido Valente regressara aos jornais com um diário publicado semanalmente no Público,
não saquei logo a pistola porque não uso, mas pensei de imediato no prazer de
me lançar na escrita contrapontística de um diário anti-Vasco. Saiu-me na hora um
título e tudo: Diário de uma boina basca.
Durante uma semana diverti-me com a ideia e sobretudo com o título — mas não me
sentei ao computador. Quando finalmente o fiz, senti desolação: eu
não ia querer obrigar-me semanalmente a ler aquela prosa sádica que, sob o
argumento altruísta de nos mostrar o mundo como ele é, dedica fervor e fel à
defesa de um péssimo mundo possível mas não inevitável.
Para alguns bem-intencionados, a escrita alegadamente irónica
de Vasco cumpre hoje o papel das farpas de Eça de Queirós. Tem o mesmo espírito
endiabrado, o gosto de fustigar a nação. É certo que, como Eça, Vasco procura o
efeito e pretende ver o país por uma luneta. Mas o sátiro Eça elevava-se. O
sarcástico Vasco entrincheira-se. As suas frases têm o resultado, por vezes implícito mas
dificilmente involuntário, de defender posições conservadoras e cínicas.
Outros dizem que em certos aspectos a escrita de Vasco ressuma
anacronia como a de Eça. Talvez apenas porque Vasco, historiador, engalana
frequentemente a sua prosa punitiva com as casacas e as polainas da época. Mas
na verdade, apesar das recorrentes alusões a figuras e factos do século XIX, nem
o próprio Vasco pretende confundir-se com Eça, salvo na inconfessada ambição estética
de ser o irónico-mor da pátria. E de facto os dois autores não se confundem: a décalage de Eça, morto de um século, não nos
tolda o riso; já a pátina reaccionária do plumitivo Vasco, agora
redivivo, mendiga pena.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas
Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma
crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu
tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações
climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não
ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta.
Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado
por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no
horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os
outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Regar em tempo de seca
«Quando vês alguém a regar o jardim ou a lavar o carro e
sabes que estamos num período de seca, pensas logo que observas um egoísta que
se está nas tintas para o planeta e para as carências da humanidade e quer
apenas saber das suas necessidades ou prazeres. Mas há outra maneira de ver
este quadro, que não iliba necessariamente ninguém. As pessoas, incluindo
aquela que vês a pegar na mangueira, precisam de normalidade, e se, num
fim-de-semana em que tudo morre de sede à sua volta, vão para o jardim regar o
relvado ou o Mercedes em segunda mão é porque se querem manter estritamente
dentro dos parâmetros da previsibilidade (ou, no caso, da rotina do
fim-de-semana típico). Não aceitam a ocorrência de um cataclismo natural na sua
folga ou adoptar procedimentos extraordinários alheios a um dia livre. É por
isso que as festas de aldeia não se interrompem quando os montes ardem, ou que
os jogadores de cartas num café são os últimos a reagir a um acidente que se
deu na estrada lá fora.
A interrupção voluntária da normalidade, e sobretudo da normalidade
de um feriado, é, para a maioria, uma confissão inconsciente de fraqueza ou a
denúncia da sua impotência perante as leis que regem o universo, uma cedência à
morte. A normalidade mantida in extremis
não é apenas egoísmo — é resistência à adversidade e à contingência, recusa de
ceder o controlo. As pessoas, os teus vizinhos, regam em pleno Agosto árido
porque acreditam contra todas as evidências na infinitude dos recursos e porque
de outro modo teriam de reconhecer a precariedade dos fins-de-semana, a
superficialidade de manter um jardim e, em última circunstância, a inutilidade
de terem comprado um Mercedes.»
A percepção da imprensa
Os jornais ditos de referência são acusados por uns de alinhamento com o Governo e por outros de serem títeres da direita.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Tautologia
Francisco José Viegas achou necessário avisar-nos que os textos do seu blogue «são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã».
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
The Whole of the Moon
Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of
the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para
quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.
Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott
nas colunas sofríveis da Blondie, mas
recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse
momento, uma turba acabadinha de sair dum casting
para o Thriller de Michael Jackson:
trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos
remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e
espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última
versão do MSDOS.
Os que tinham dançado slows
retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por
vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de
volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos
escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.
Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar
para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto
—, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade
do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.
Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de
continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico,
ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso?
Não aos rapazes do Ípsilon, decerto.
Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol
Nas minhas
deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável
momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do
período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser
conhecida pela beleza.
As torres
ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma
cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram
cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas,
em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num
arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar
de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os
mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética,
porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é
belo.
O verde da
vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e
clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o
verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo
estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e
jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe
arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século,
as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram
ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais
eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um
ecrã verde.
Há países,
como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o
filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e
renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a
amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o
clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano.
Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia
sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros
semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios
de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas,
demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de
Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado,
e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à
ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua
representação escultórica e irónica.
A
Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do
século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na
Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca
arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega
por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos
de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Polígrafo
Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e
afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito
necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua
primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no
artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o
seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a
ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar
ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de
seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar
as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos,
corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes
de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer
seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e
literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas
nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.
domingo, 4 de novembro de 2018
Um Chavez de direita
Com Bolsonaro, a direita que se abstêm-ou-não-vê-nada-de-eticamente-reprovável ganhou, com justiça, o seu próprio Chavez.
Parabéns.
Podem começar a reciclar as lentes e a ver maravilhas onde antes viam (e bem) miséria.
Parabéns.
Podem começar a reciclar as lentes e a ver maravilhas onde antes viam (e bem) miséria.
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Do Coração Acordeão:
«A potência censora e nefasta do politicamente correcto é real, sim; o problema é toda a porcaria que entretanto se tem incluído na pastilha do remédio: já não há facho, xenófobo, racista, anti-semita e o raio que não se sinta vítima do — e, portanto, legitimado pelo — politicamente correcto. De quem antes se dizia boçal passou a dizer-se politicamente incorrecto, uma coisa boa, na medida em que é o contrário dessa coisa má que é o politicamente correcto.»
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
O melhor da direita liberal ou conservadora contra o Bozo
É reconfortante ver que à direita há quem tenha decência. Este texto de David Dinis diz o óbvio ululante sobre Bolsonaro e em simultâneo lembra-nos como no Observador, e em certas facções da direita dita conservadora, reina o mais puro fanatismo.
https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/
Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.
Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:
https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/
Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.
Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:
https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/francisco-mendes-da-silva/detalhe/conservador-nos-tempos-de-colera?ref=Opini%C3%A3o_outros
Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282
https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417
https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683
E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:
https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001
Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
«Um espaço político como o da direita das liberdades não pode resignar-se à apresentação de populistas como Bolsonaro ou Orban, lamento. Tem obrigação de saber canalizar as frustrações, as ansiedades, o desespero, para um projeto positivo, integrador, mobilizador.»O próprio João Miguel Tavares escreveu já dois textos impecáveis, mas depois voltou ao de sempre, com a velha e de momento inútil lengalenga da 'esquerda criadora de monstros' — o que nos põe a pensar se os artigos anteriores não foram apenas para alívio de consciência e registo histórico:
https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282
https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417
https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683
E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:
https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001
Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor
Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se
tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer
coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de
fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se
descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o
texto offline, fica como as focas no
parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de
recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar
a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar
a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a
ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.
Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura
a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente
se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das
suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha
sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou
ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a
escrever.
As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias
diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns
que de facto reflictam o mundo actual.
sábado, 13 de outubro de 2018
Maquilhando o cadáver
Passei anos a ler os nossos neoliberais lembrarem o pecado
de Neville Chamberlain, por vezes em termos que nem Churchill aprovaria. Hoje
constato que estão quase todos na primeira linha do branqueamento de Trump e de
Bolsonaro. E digo quase, porque,
perante o óbvio ululante, já há alguns que vão timidamente sugerindo que se demarcam,
pensando decerto na história póstuma.
A explicação do mundo contemporâneo
«Eis então o único mérito de Bolsonaro: ter criado uma circunstância perfeita para percebermos não só quem é de esquerda e de direita, mas sobretudo quem ainda se indigna com o discurso deste homem,inadmissível numa sociedade decente, e quem tem um ódio tal à ideologia de esquerda que está disposto a tolerar tudo.»Do Ouriquense.
(Ler ainda: «Leme»)
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
«Woodstock na Igreja»
Vendo-se incapaz de fazer desaparecer devoções e ritos populares
dedicados a deuses pagãos, a Igreja Católica ancestral resolveu incorporá-los na
sua própria caderneta hagiográfica e no seu calendário paralitúrgico. As festas
populares dizem-se de devoção a este ou aquele santo católico, mas uma boa
parte delas tem na sua origem e estrutura uma devoção e um costume pagãos.
A moeda de troca que a Igreja Católica aceitou pagar para
que o povo não rejeitasse a apropriação foi a bênção mais ou menos tácita do
lado profano das celebrações: a música, os bailes, as refeições pantagruélicas,
a bebida a rodos, uma alegria desenfreada e por vezes debochada, pouco
católica, em suma.
O corolário relativamente recente desta concordata plebeia foi
o livre-trânsito para a brejeirice da música pimba. Conquanto um bom punhado de
crentes não falte à missa e à procissão, a Igreja não vê qualquer inconveniente
em que no adro, na madrugada anterior, se rocem os corpos e cantem letras
libidinosas e frequentemente grosseiras, machistas, sexistas, atávicas e desafinadas.
É por isso curioso ler agora que um conjunto de católicos e o próprio bispo de Santarém se indignaram porque no festival Bons
Sons (na aldeia de Cem Soldos) houve um concerto de música moderna portuguesa numa
capela («Woodstock na igreja», disseram, escandalizados). O protagonista do
concerto era essa figura mefistofélica que dá pelo nome artístico de Homem em Catarse
(googlem, só correm o risco de gostar).
A notícia vem em vários órgãos de comunicação, alguns dos
quais provavelmente nunca dedicaram uma linha ao festival e às actividades de
Cem Soldos mas não hesitaram perante esta polémica.
Se tivesse pelo menos a inteligência táctica que demonstrou há
séculos, a Igreja Católica estaria hoje a tentar seduzir o Bons Sons (e nós
esperando que sem sucesso). Assim, limitou-se a demonstrar de novo uma
estrutural estupidez e falta de gosto*.
(*Com a excepção do padre da paróquia.)
domingo, 2 de setembro de 2018
A invasão da joaninha
Na Polónia, se estivermos atentos, somos duma forma ou doutra
alertados para os perigos de sermos permissivos em relação à ameaça de regimes
fascistas ou totalitários como o nazi e o soviético, mas quando vemos a intensa
disseminação de supermercados Biedronka (a ‘Joaninha’ da Jerónimo Martins) e de
filiais do Millennium Bank (Millennium BCP) interrogamo-nos se não deveríamos
nós alertar os polacos quanto aos perigos que correm com esta nova ocupação.
sábado, 1 de setembro de 2018
Auschwitz e Birkenau ou o castelo de Drácula
Auschwitz e Birkenau não deviam ser visitados de Verão. O
Agosto polaco é demasiado benévolo, a paisagem verde demasiado bucólica, a
arquitectura demasiado harmoniosa (perdoem-me a observação) e as pessoas,
animadas pelo bom tempo, demasiado gentis para que possamos sentir na pele, nas
entranhas, a experiência extrema e terrível da vida num campo de extermínio
nazi.
A boa prestação da guia, assertiva no relato histórico e na
sugestão de que ele nos deve manter em alerta permanente, não chega a arrepiar profundamente
os visitantes, decerto condoídos mas temo que não muito mais do que o estariam
se visitassem uma masmorra da Inquisição, essa entidade velha de séculos e
anacrónica como calças à boca-de-sino, que ninguém acredita que voltem.
A escala desmesurada de Birkenau lá arranca os seus
murmúrios de espanto, mas julgo que os turistas do Holocausto apenas
interiorizariam a experiência se tivessem de se enterrar nas lamas do Outono ou
da Primavera ou de bater os dentes nas neves de Dezembro. Num Agosto assim, receio
que a visita a Auschwitz e Birkenau, com as suas latrinas limpas e a refulgente
cerâmica dos fogões de aquecimento, se pareça a uma visita aos jardins do castelo de
Drácula.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
Oświęcim
A ideia de pernoitar em Oświęcim* não é cara à maioria dos que
visitam a Polónia. A cidadezinha, tirando o que se poderia chamar de atractivo macabro
dos campos de Auschwitz e Birkenau, não parece ter outros predicados. Além
disso, os guias publicados, as agências internacionais de viagens e os postos
de informações no país sugerem em regra um tour
directo, com autocarro de ida e volta, a partir de Cracóvia, cidade turística
por excelência. O acesso por comboio regional não é difícil nem desconfortável
(observação que, bem sei, resulta frívola no contexto), mas os polacos, os
guias e as agências desconhecem ou desaconselham.
* Lê-se mais ou menos «óche-vién-tchim», daí «Auschwitz» em alemão.
Auschwitz constitui assim um dos vários programas da oferta
de Cracóvia, a par das montanhas de Zakopane, da descida às minas de sal, do rafting no Dunajec, do crazy tour à cidade satélite comunista de
Nowa Huta. Insere-se na rubrica «o que fazer» quando se está em Cracóvia à
espera de dicas. Visita-se como se visita mais um castelo, com as suas próprias
masmorras e histórias de tortura. Os turistas, quando têm a informação, a idade
ou o carácter suficientes, lá adoptam ao sair do autocarro a devida expressão
circunspecta, como quando visitam sem quererem parecer desrespeitosos um templo
de outra religião. Se lhes pedissem, descalçar-se-iam ou cobririam a cabeça,
mas muitos ficariam aborrecidos se não pudessem fotografar. No final das férias
terão disponível para os amigos um relato da visita, intercalado em histórias
de refeições deliciosas ou horríveis, dificuldades do câmbio monetário, noites
em bares e picardias sobre os polacos e as polacas.
Não é portanto prevista ou sugerida uma estadia em Oświęcim
(embora a cidade tenha vários hotéis, e um deles, o Hampton by Hilton, fique mesmo
na entrada do pequeno centro histórico). Presumo que ninguém queira que os
turistas se aborreçam a cismar numa pacata cidade a braços com a sua ocupação
nazi e os seus blocos de habitação comunistas quando há tanta coisa excitante
para fazer no resto da Polónia.
No gueto de Varsóvia
1. Um grupo com
umas três dezenas de rapazes e raparigas, morenos na sua maioria, participa de
uma cerimónia no monumento que homenageia a revolta do gueto de Varsóvia. A
certa distância, estrategicamente colocados nas quatro esquinas de um rectângulo
imaginário, quatro jovens adultos, igualmente morenos, parecem apreciar o
cerimonial, mas percebe-se pelos movimentos de cabeça, pelos auriculares discretos
e pelo volume suspeito ao fundo das costas, sob a fralda da camisa, que montam
guarda. Armada.
Não há polícia polaca (ou loura) nas redondezas.
2. No museu contíguo,
cuja arquitectura do hall pretende
evocar a separação das águas do Mar Vermelho para a passagem franca dos judeus
perseguidos, os seguranças, mulheres e homens, são também morenos. E ríspidos,
rudes, autoritários. Deslocados, pensa-se. O bilheteiro, não divergindo do aspecto
judaico mas menos anguloso e mais bonacheirão e, ao contrário dos colegas na
entrada, simpático e afável, pede desculpa por o preço dos bilhetes não estar
visível e pede desculpa pela rudeza e antipatia da segurança. Sugere que se escreva
à direcção do Museu. Sugere sempre, as queixas são habituais. Ele próprio tem
dito aos chefes que essas coisas são pouco agradáveis.
Ficamos sem saber se ele é o judeu bom no sketch do polícia mau e do polícia bom
ou se concorda genuinamente que é um pouco perturbante (ou pelo menos irónico,
de uma ironia sem riso) que naquele museu se escondam os preços dos bilhetes e
se recebam com autoritarismo rude os visitantes.
Em todo o caso, apropriamo-nos da sugestão da separação das
águas e decidimo-nos pela visita.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras
Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e
não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular,
entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram
«grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do
século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a
palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente
os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como
abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e
grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras,
ocupado por crianças ou adolescentes.
Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra
«grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me
sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros
ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo»
era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como
acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol,
vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me
logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria.
De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau
— com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online
de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele
«groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a
delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».
Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto
Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos
e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que
eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente
«groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de
recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem,
portanto.
Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário
português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários
ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?
Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford,
no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando,
exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a
conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais
ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da
França?
Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX
e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a
maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e
não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter
escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou,
se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle,
chargé de faire les courses». Grumo, em suma.
Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das
termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo
que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente
para inglês que ele tinha sido um «Brumo».
Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta
concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
A insensatez da espeleologia na adolescência
Há no parque termal das Pedras Salgadas uma
mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha
adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a
solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por
curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto
filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
Logo a seguir ao portão, a mina divide-se
em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco
erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros
gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega
lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial
para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão,
também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e
álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém
entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana
naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos,
contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
Sobre o outro túnel, o da esquerda, não
havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação
histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da
entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um
buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para
demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
De Inverno, o terreno baixo por onde se
acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório
estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia
perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso
era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter
o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a
curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos
quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas
familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço
do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de
várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das
paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que
separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e
fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o
tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a
ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se
estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos
seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na
península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente
à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos
oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente
humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um
quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais
ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem
qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os
primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de
expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não
havia graffitis, beatas, garrafas,
camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que
era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.
Houve fascínio e regozijo, naturalmente,
como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto
Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim
do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada
para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por
fim adiar sine die a segunda fase da
expedição.
Havia, contudo, motivos de interesse
naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava
algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do
túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de
luz e medir assim o comprimento do túnel.
Dois de nós voltámos atrás com essa nova
missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a
parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização
do buraco.
Demos com o buraco, depois de saltar o muro
para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena
de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha
adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e
tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia,
certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras
expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que
passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas
à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da
direita.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Tílias
Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche
de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que
lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade,
quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores
que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar
(ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva.
Mas um barman que fala no cheiro das
tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável.
Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente
empatado Rússia x Bélgica.
Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos
querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes
aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas
áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato,
se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.
Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como
o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais
CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no
Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado
à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado
não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que
existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.
Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas,
com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos
espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico
algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e
regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a
copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças
de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do
que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que
fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se
preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado
a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.
O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente
a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para
quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da
história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar
o perfume das tílias.
O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo
ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente
de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a
cabeça e padecem de rinite opcional.
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