Ler Proust* em quarentena pandémica é uma actividade que não se exerce sem certos momentos de culpa. À luz desta época e sobretudo desta retirada profilática, a experiência humana tem nas páginas da Recherche, ocupadas exclusivamente com personagens privilegiadas e anacrónicas, tanto de frívolo e distante e parece tão inoportuna e cínica a elevada experiência estética que a leitura representa que nos sentimos a transgredir, não o Estado de Emergência, mas as regras básicas não escritas da empatia humana. Avançamos cada página ciliciando-nos porque devíamos estar a ver conferências oficiais, a estudar gráficos e relatórios, a ler artigos de peritos em epidemiologia e especialistas em apocalipse económico e a assistir a directos da arte confinada no Instagram. E porém o que ficamos, quando despegamos do teletrabalho, é sentados a ler à janela, atentos às modulações da luz de Abril-águas-mil, espreitando as manobras imperturbáveis das nuvens sobre a serra — e escutando a conversa oca do senhor de Norpois ou pendentes de saber se haverá reencontro nos Campos Elísios entre Gilberte Swann e o jovem e tolamente atormentando narrador.
* Sim, continuo, volume 2.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
quarta-feira, 15 de abril de 2020
Observando (online) a vida selvagem
Tenho no blogue uma rubrica, algo descontinuada, que se dedica a pequenas observações da vida selvagem. Hoje, com a fauna confinada ao lar, esta prática zoológica está mais condicionada mas não é menos possível. A bicheza está agora, mais do que nunca, com maior ou menor empenho, investida no papel de concorrente de um Big Brother universal. Na impossibilidade de conviver como habitualmente, passa o tempo a mostrar nas redes sociais os cantos da casa, a estante cheia de bibelôs, o bar, a mesa posta e pós-prandial, os comensais, o sofá, os pijamas, produz vídeos de tolices mais ou menos encenadas e já falta pouco, se ainda falta, para alguém começar um directo de um coito mal disfarçado sob o edredão (pontapés e murros já deve ter havido bastantes, mas quem os dá geralmente não filma e a mera notícia deles está de momento a aguardar uma solução estatística). Não tarda, as televisões, que agora têm as equipas de reportagem confinadas como antes já tinham os escrúpulos, encontrarão no Instagram os conteúdos das suas grelhas futuras, com júbilo dos felizes contemplados.
A idade da Internet e das redes sociais fez-nos desaproveitar colectivamente a oportunidade que antes, numa época não muito remota, tantos desejavam: a de uma desculpa para ficar em casa a ler horas a fio, sem remorsos. Perde-se a oportunidade porque se perdeu antes o hábito, a curiosidade, o desejo. A pergunta «que livro levaria para uma ilha deserta» ficou de repente sem resposta, porque já só a uma minoria ocorre nesta nova era levar livros seja para onde for, incluindo para uma quarentena — embora ninguém se esqueça do telemóvel, vá para onde vá. Selfies e stories com palmeira, areal e mar seriam a ocupação mais provável do habitante único da tal ilha mítica ou retórica.
Mas em certos casos os remorsos persistem, porque há uma dimensão moral neste capitalismo absurdo do crescimento infinito que pune as peças da engrenagem que deixem de rodar como previsto, mesmo que a avaria ou a paragem da máquina não sejam culpa delas. Passam assim alguns a quarentena a dar voltas à cabeça para encontrar formas de serem úteis à economia, quando a maior utilidade, própria e social, por razões sanitárias e cívicas, para o presente e para o futuro, seria, precisamente, ficar em casa — a ler.
A idade da Internet e das redes sociais fez-nos desaproveitar colectivamente a oportunidade que antes, numa época não muito remota, tantos desejavam: a de uma desculpa para ficar em casa a ler horas a fio, sem remorsos. Perde-se a oportunidade porque se perdeu antes o hábito, a curiosidade, o desejo. A pergunta «que livro levaria para uma ilha deserta» ficou de repente sem resposta, porque já só a uma minoria ocorre nesta nova era levar livros seja para onde for, incluindo para uma quarentena — embora ninguém se esqueça do telemóvel, vá para onde vá. Selfies e stories com palmeira, areal e mar seriam a ocupação mais provável do habitante único da tal ilha mítica ou retórica.
Mas em certos casos os remorsos persistem, porque há uma dimensão moral neste capitalismo absurdo do crescimento infinito que pune as peças da engrenagem que deixem de rodar como previsto, mesmo que a avaria ou a paragem da máquina não sejam culpa delas. Passam assim alguns a quarentena a dar voltas à cabeça para encontrar formas de serem úteis à economia, quando a maior utilidade, própria e social, por razões sanitárias e cívicas, para o presente e para o futuro, seria, precisamente, ficar em casa — a ler.
sábado, 11 de abril de 2020
Delongando Proust
O meu Proust vai lento, previsivelmente lento. As trezentas páginas que li parecem-me equivaler, em tamanho e dedicação, a dois romances ou ensaios que tivessem sido escritos um século depois, de tanto que me obrigo a voltar ao início de cada longa frase para ficar com a certeza de ter entendido sem equívocos sujeito, predicado e complementos. Por vezes sugiro-me que poderia poupar o trabalho e ficar pelo tom, por uma ideia geral das partes, do enredo, mas depois obrigo-me a reconhecer que só no entendimento pleno das frases poderei captar a filigrana do estilo e do pensamento — essenciais, como sabia de antemão.
Nos melhores momentos, como há pouco, antes de ter tido a infeliz ideia de vir aqui lavrar este dispensável e humilhante testemunho, consigo aquele alheamento social e metafísico, aquela entrega incondicional, aquela imersão que fazem com que as frases se sucedam ininterruptas e musicais e inteligíveis, e vogo pelos parágrafos como um steadycam num longo plano-sequência, com a mesma agilidade mecânica e a mesma atenção fluida mas ávida e operante da câmara que ele suporta. Mas logo alguma coisa do mundo real, mesmo posto em quarentena, quebra o feitiço, e de novo tropeço, de novo agarro razões para retirar os olhos das páginas. Se não é o mundo real, é o pequeno mundo de referências vãs que me povoa a cabeça. Ao virar a página, os olhos passaram pelo marcador que estou a usar, um souvenir de Carcassonne, e logo me veio, obstinada, a lembrança de ter reparado nele quando, precisamente, coincidentemente, páginas e horas atrás, lia uma passagem onde Swann desprezava o arquitecto Viollet-le-Duc a propósito do castelo de Pierrefonds que Odette ia visitar pela mão dos agora odiados Verdurin — o mesmo arquitecto que tinha reconstruído a Carcassonne que eu visitara por intermédio da Ryanair.
Talvez a magia tivesse sido igualmente interrompida se o marcador fosse um recuerdo da Córdova judia, que também uso com frequência — não tenho falta de iniciativa na hora de procrastinar, e a interrupção nem sempre acontece quando estou menos enlevado. Esta, por exemplo, deu-se a meio de uma das passagens mais sublimes e que mais me prenderam deste primeiro volume: a chegada de Swann ao palacete da marquesa de Saint-Euverte, ela própria, a chegada, uma espécie de plano-sequência em que acompanhamos a «melancolia indiferente», sonâmbula mas observadora, do protagonista quando entra, é recebido pelos criados no vestíbulo, sobe a escadaria, é registado e entra na sala de concertos, onde nos espera a mais irónica e deliciosa descrição de tipos, comportamentos e relações sociais, os mais deliciosos pensamentos e diálogos a que a fauna se dedica enquanto o pianista tenta o seu melhor Chopin.
Talvez devesse ter lido Em Busca do tempo Perdido quando li outros grandes monstros, Montanha Mágica, Guerra e Paz, O Som e a Fúria, Ulisses (este com pouco proveito, reconheço). Naquela época conseguia as horas de dedicação sem reservas que hoje me faltam e, sobretudo, tinha o espírito menos vocacionado para alimentar as páginas inúteis de um blogue ou de uma rede social. Havia um tempo assim, recordo-me.
Nos melhores momentos, como há pouco, antes de ter tido a infeliz ideia de vir aqui lavrar este dispensável e humilhante testemunho, consigo aquele alheamento social e metafísico, aquela entrega incondicional, aquela imersão que fazem com que as frases se sucedam ininterruptas e musicais e inteligíveis, e vogo pelos parágrafos como um steadycam num longo plano-sequência, com a mesma agilidade mecânica e a mesma atenção fluida mas ávida e operante da câmara que ele suporta. Mas logo alguma coisa do mundo real, mesmo posto em quarentena, quebra o feitiço, e de novo tropeço, de novo agarro razões para retirar os olhos das páginas. Se não é o mundo real, é o pequeno mundo de referências vãs que me povoa a cabeça. Ao virar a página, os olhos passaram pelo marcador que estou a usar, um souvenir de Carcassonne, e logo me veio, obstinada, a lembrança de ter reparado nele quando, precisamente, coincidentemente, páginas e horas atrás, lia uma passagem onde Swann desprezava o arquitecto Viollet-le-Duc a propósito do castelo de Pierrefonds que Odette ia visitar pela mão dos agora odiados Verdurin — o mesmo arquitecto que tinha reconstruído a Carcassonne que eu visitara por intermédio da Ryanair.
Talvez a magia tivesse sido igualmente interrompida se o marcador fosse um recuerdo da Córdova judia, que também uso com frequência — não tenho falta de iniciativa na hora de procrastinar, e a interrupção nem sempre acontece quando estou menos enlevado. Esta, por exemplo, deu-se a meio de uma das passagens mais sublimes e que mais me prenderam deste primeiro volume: a chegada de Swann ao palacete da marquesa de Saint-Euverte, ela própria, a chegada, uma espécie de plano-sequência em que acompanhamos a «melancolia indiferente», sonâmbula mas observadora, do protagonista quando entra, é recebido pelos criados no vestíbulo, sobe a escadaria, é registado e entra na sala de concertos, onde nos espera a mais irónica e deliciosa descrição de tipos, comportamentos e relações sociais, os mais deliciosos pensamentos e diálogos a que a fauna se dedica enquanto o pianista tenta o seu melhor Chopin.
Talvez devesse ter lido Em Busca do tempo Perdido quando li outros grandes monstros, Montanha Mágica, Guerra e Paz, O Som e a Fúria, Ulisses (este com pouco proveito, reconheço). Naquela época conseguia as horas de dedicação sem reservas que hoje me faltam e, sobretudo, tinha o espírito menos vocacionado para alimentar as páginas inúteis de um blogue ou de uma rede social. Havia um tempo assim, recordo-me.
Da bola de cotão ao comunismo
Na casa onde morava há duas décadas tinha bolas de cotão que tratava pelo nome, tal a intimidade e a antiguidade do nosso mútuo conhecimento. Na verdade, na altura li ou ouvi esta piada num livro ou numa soap opera e recorria a ela com frequência para dar um certo glamour decadente ao que era apenas desmazelo e preguiça. Hoje, nesta distopia súbita mas demorada ou sem retorno, continuo a pagar à pessoa que me limpa o apartamento, embora seja eu quem agora lida com o pó, os detergentes e a esfregona. Faço-o, o pagamento, por solidariedade, mas talvez também por gratidão mais ou menos consciente por ter tido nesta última década e meia alguém que, com diligência, a troco de uma verba que não era nenhuma fortuna, me deixava a casa habitável. E também com esperança de que alimentar uma certa normalidade seja a forma de garantir essa normalidade no futuro, de garantir que se isto passar ainda haja do outro lado, na outra pessoa, ânimo para me limpar a casa — um fio de Ariadne para sair do labirinto e continuar de casa asseada.
A normalidade na nossa vida depende da normalidade na vida dos outros, da sua sobrevivência, desde logo, e da sobrevivência da sua disponibilidade para tarefas que complementam as nossas e fazem a nossa vida mais confortável. Tendo em conta a crise económica violenta que nos anunciam para o fim da quarentena (vamos da pandemia ao pandemónio), diria que a normalidade das nossas vidas, a normalidade essencial das nossas vidas, passará por reinventar o capitalismo tornando-o mais solidário e redistributivo. Mas isto talvez seja só o comunista que há em mim a vir ao de cima enquanto vejo lá fora, na rua deserta, os homens do lixo a recolher o que produz um bairro confinado ao sofá.
A normalidade na nossa vida depende da normalidade na vida dos outros, da sua sobrevivência, desde logo, e da sobrevivência da sua disponibilidade para tarefas que complementam as nossas e fazem a nossa vida mais confortável. Tendo em conta a crise económica violenta que nos anunciam para o fim da quarentena (vamos da pandemia ao pandemónio), diria que a normalidade das nossas vidas, a normalidade essencial das nossas vidas, passará por reinventar o capitalismo tornando-o mais solidário e redistributivo. Mas isto talvez seja só o comunista que há em mim a vir ao de cima enquanto vejo lá fora, na rua deserta, os homens do lixo a recolher o que produz um bairro confinado ao sofá.
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Da pandemia à utopia
Aquilo a que por estes dias se chama «cultura» tem tantas facetas, abrange sectores e géneros tão variados, grupos artísticos e sociais tão distintos, classes profissionais tão diversas, escolas de gosto, tribos e gerações tão irreconciliáveis, é um tal saco de gatos, em suma, que fazer um festival «de música» para ajudar só podia espoletar mal-entendidos e controvérsia, gerar invejas e ódio, como de resto sempre geraram todos os programas de apoio às artes, da Grécia ao Covid-19, passando por Florença.
Talvez, por isso, como alguém já disse, «a resposta para a dificuldade dos trabalhadores desta área» (como para a dos taxistas, por exemplo) «tem de vir da Segurança Social e não do Ministério da Cultura», que só por equívoco semântico tem sede no Palácio da Ajuda.
Já a resposta para a «cultura» propriamente dita, em tempos de pandemónio ou não, tem de vir da sociedade civil. Uma coisa é a sobrevivência física ou digna de pessoas, outra é a sobrevivência das artes que elas praticam. E as artes só sobrevivem se a sociedade civil as procurar, as frequentar, as reclamar — e aceitar pagar por elas, directamente ou via impostos (a forma moderna de mecenato). Mais do que sermos entretidos em casa (quem é que raios na civilização ocidental não se preveniu com livros para um tempo assim!?), do que precisamos agora é de planear um futuro onde a Segurança Social ainda existe e não abandona ninguém e o Ministério da Cultura é relevante na sociedade que teremos então. A quarentena como revolução silenciosa; da pandemia à utopia, enfim.
Talvez, por isso, como alguém já disse, «a resposta para a dificuldade dos trabalhadores desta área» (como para a dos taxistas, por exemplo) «tem de vir da Segurança Social e não do Ministério da Cultura», que só por equívoco semântico tem sede no Palácio da Ajuda.
Já a resposta para a «cultura» propriamente dita, em tempos de pandemónio ou não, tem de vir da sociedade civil. Uma coisa é a sobrevivência física ou digna de pessoas, outra é a sobrevivência das artes que elas praticam. E as artes só sobrevivem se a sociedade civil as procurar, as frequentar, as reclamar — e aceitar pagar por elas, directamente ou via impostos (a forma moderna de mecenato). Mais do que sermos entretidos em casa (quem é que raios na civilização ocidental não se preveniu com livros para um tempo assim!?), do que precisamos agora é de planear um futuro onde a Segurança Social ainda existe e não abandona ninguém e o Ministério da Cultura é relevante na sociedade que teremos então. A quarentena como revolução silenciosa; da pandemia à utopia, enfim.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Neve em tempos de pandemia
Ontem de manhã nevou e, como acontece sempre que neva abaixo dos oitocentos metros, instalou-se por instantes, aqui no Norte, uma sensação de excepcionalidade que não foi diminuída pelas circunstâncias singulares actuais mas que tornou cómica (e eventualmente operativa) a expressão «com um tempo assim só apetece ficar em casa».
terça-feira, 31 de março de 2020
Casas mal-amadas
Numa zona de lameiros havia na minha infância, à margem da estrada, duas casas com graça: uma com alvura e estilo Raul Lino e outra construída numa simetria de pedra à vista e portadas sangue-de-boi que, pela majestade aparente, se diria senhorial mas, pelo estilo arquitectónico e época de construção, o não era. Ambas tinham nos seus lotes de terreno árvores que as emolduravam e ramadas que as ladeavam. A casa de pedra na verdade não tinha árvores, tinha o seu próprio bosque, de que ela era o centro, como clareira encantada que se entrevê. Era, também por isso, uma casa toda mistério e promessas que provocava desejo de posse.
Nenhum de nós amantes pueris que por ela passávamos e anelávamos quotidianamente logrou na vida ganhar dinheiro para compras assim, e isso irmana-nos, a nós e à casa, no infortúnio.
Como a vida não é um conto de fadas mas quase sempre epopeia reles de videirinhos, o novo proprietário fez nela obras de renovação que incluíram derrubar as árvores e a ramada. É agora uma desolação e um embaraço vê-la. No descampado dos lameiros surge frágil, exposta às intempéries, e nua, o que nos obriga a desviar os olhos por pudor. E se o não fazemos, se a espreitamos (e devassamos), notamos como a arquitectura é afinal menos nobre do que parecia, mais grosseira. Falta-lhe a moldura verde a dar vida à pedra bruta e arte à cantaria tosca, a interromper a monotonia cinzenta e a encobrir com mistério de folhagem o que nela há de menos conseguido.
Virá o Verão e a inclemência do sol, mas só a casa, habituada a muitas décadas de sombras frondosas e acolhedoras, nos há-de merecer pena, com a sua pele fina agora sujeita ao melanoma das casas mal-amadas; os proprietários, esses, hão-de decerto resistir bem à canícula — com bonés de basebol, amplos e coloridos guarda-sóis da Super Bock e, talvez, infame evocação da velha latada, uma rede de plástico verde sobre os carros.
Nenhum de nós amantes pueris que por ela passávamos e anelávamos quotidianamente logrou na vida ganhar dinheiro para compras assim, e isso irmana-nos, a nós e à casa, no infortúnio.
Como a vida não é um conto de fadas mas quase sempre epopeia reles de videirinhos, o novo proprietário fez nela obras de renovação que incluíram derrubar as árvores e a ramada. É agora uma desolação e um embaraço vê-la. No descampado dos lameiros surge frágil, exposta às intempéries, e nua, o que nos obriga a desviar os olhos por pudor. E se o não fazemos, se a espreitamos (e devassamos), notamos como a arquitectura é afinal menos nobre do que parecia, mais grosseira. Falta-lhe a moldura verde a dar vida à pedra bruta e arte à cantaria tosca, a interromper a monotonia cinzenta e a encobrir com mistério de folhagem o que nela há de menos conseguido.
Virá o Verão e a inclemência do sol, mas só a casa, habituada a muitas décadas de sombras frondosas e acolhedoras, nos há-de merecer pena, com a sua pele fina agora sujeita ao melanoma das casas mal-amadas; os proprietários, esses, hão-de decerto resistir bem à canícula — com bonés de basebol, amplos e coloridos guarda-sóis da Super Bock e, talvez, infame evocação da velha latada, uma rede de plástico verde sobre os carros.
segunda-feira, 30 de março de 2020
Paisagem com Proust
Detenho-me agora, ao olhar pela varanda, em pormenores da paisagem em que até há pouco não me demorava ou ignorava. Acontece isto não exactamente por haver mais vagar para a contemplação (ainda não encontrei essa benesse na quarentena), mas por se ter insinuado no meu espírito por instantes um sentimento de reclusão, com uma nota ou outra de ameaçada irreversibilidade, imaginários corvos pousando a sua negrura nos ramos em frente. Penso, entre o extasiado e o taciturno, que há ainda um privilégio em ter vistas tão desafogadas e amplas no lado poente da casa; que são piores as janelas que esbarram em feia arquitectura ou frontarias intrusivas (como as minhas do lado nascente) ou em cercas de prisão e piores ainda mais as vistas sem sequer janelas, como as dos condenados na solitária. Olho por isso a serra e o céu acima dela com avidez — como em certa ocasião, também num Março, deitado a espreitá-los numa viagem de ambulância, me imaginei fazendo-o pela última vez, com o mesmo grau de exagerada dramatização que me encorajava a rir de mim próprio a disfarçar o mesmo grau de plausibilidade.
Hoje, talvez por ser domingo e estar a ler Proust e as suas esperadas longas referências a paisagens, flores e sentimentos pastoris, os meus pensamentos andam muito pelos campos da minha adolescência. Na estrada que descubro para os lados de Lordelo e que nunca tinha dado conta de existir para esta varanda (também porque dantes havia mais árvores entre mim e as faldas da serra) vejo um caminho que evoca outros que em algum momento percorri ladeados de flores ou de uma paleta de verdes frescos, feliz como se pode ser na Arcádia.
É a Primavera a insinuar-se, com as suas promessas de alegria, desta vez menos verosímeis, e é o manto de benfazeja irrealidade que, na nossa memória, cobre quase tudo o que alguma vez vimos e vivemos.
Ao contrário do adolescente Proust, os rapazinhos da minha aldeia não davam passeios pós-prandiais em família; não hesitavam depois do pernil, consoante a meteorologia, entre o lado de Swann e o lado de Guermantes, excepto num raro domingo de festa ou feriado, mas então com planos menos bucólicos e certamente menos literários. Sobretudo não estavam os rapazinhos da minha aldeia, mesmo os que como eu tinham o privilégio de vaguear pelos campos, educados por um acumular de leituras e observação de telas para apreciar uma explosão de flores ou um entardecer — o pôr-do-sol, que os apanhava geralmente desprevenidos, uns a trabalhar, outros em actividades de gang inofensivo, se tinham liberdade para isso, era pouco mais do que a hora a que regressavam para o descanso os primeiros ou a que tinham de decidir os segundos se havia ou não proveito em desafiar a autoridade materna (o domínio paterno, e a consequente fúria, estava reservado para insolências mais severas).
Contudo diria que recordo os rapazinhos da minha aldeia, alguns deles, pelo menos, igualmente propensos a estacarem perante Gilberte, se o acaso os pusesse em presença dela. Imagino-os depois parados num campo (numa pausa da sementeira, uns, apoiados na enxada; numa interrupção do jogo da bola, outros, os mais privilegiados) à espera que o vento que faz ondular a vegetação lhes traga uma mensagem de Gilberte. Vejo-os sobretudo, eles que como o jovem Proust a acharam bela e não suportam a humilhação de serem ignorados ou rejeitados, capazes de facto de a ofenderem ou dela escarnecerem para que lhes dê atenção — não porque tenham mais tempo ou inspiração do que teve o narrador de Do Lado de Swann, mas porque há de todo o modo o hábito desse comportamento na genética de grupo, a que até os mais sensíveis demoram a escapar.
Hoje, talvez por ser domingo e estar a ler Proust e as suas esperadas longas referências a paisagens, flores e sentimentos pastoris, os meus pensamentos andam muito pelos campos da minha adolescência. Na estrada que descubro para os lados de Lordelo e que nunca tinha dado conta de existir para esta varanda (também porque dantes havia mais árvores entre mim e as faldas da serra) vejo um caminho que evoca outros que em algum momento percorri ladeados de flores ou de uma paleta de verdes frescos, feliz como se pode ser na Arcádia.
É a Primavera a insinuar-se, com as suas promessas de alegria, desta vez menos verosímeis, e é o manto de benfazeja irrealidade que, na nossa memória, cobre quase tudo o que alguma vez vimos e vivemos.
Ao contrário do adolescente Proust, os rapazinhos da minha aldeia não davam passeios pós-prandiais em família; não hesitavam depois do pernil, consoante a meteorologia, entre o lado de Swann e o lado de Guermantes, excepto num raro domingo de festa ou feriado, mas então com planos menos bucólicos e certamente menos literários. Sobretudo não estavam os rapazinhos da minha aldeia, mesmo os que como eu tinham o privilégio de vaguear pelos campos, educados por um acumular de leituras e observação de telas para apreciar uma explosão de flores ou um entardecer — o pôr-do-sol, que os apanhava geralmente desprevenidos, uns a trabalhar, outros em actividades de gang inofensivo, se tinham liberdade para isso, era pouco mais do que a hora a que regressavam para o descanso os primeiros ou a que tinham de decidir os segundos se havia ou não proveito em desafiar a autoridade materna (o domínio paterno, e a consequente fúria, estava reservado para insolências mais severas).
Contudo diria que recordo os rapazinhos da minha aldeia, alguns deles, pelo menos, igualmente propensos a estacarem perante Gilberte, se o acaso os pusesse em presença dela. Imagino-os depois parados num campo (numa pausa da sementeira, uns, apoiados na enxada; numa interrupção do jogo da bola, outros, os mais privilegiados) à espera que o vento que faz ondular a vegetação lhes traga uma mensagem de Gilberte. Vejo-os sobretudo, eles que como o jovem Proust a acharam bela e não suportam a humilhação de serem ignorados ou rejeitados, capazes de facto de a ofenderem ou dela escarnecerem para que lhes dê atenção — não porque tenham mais tempo ou inspiração do que teve o narrador de Do Lado de Swann, mas porque há de todo o modo o hábito desse comportamento na genética de grupo, a que até os mais sensíveis demoram a escapar.
quinta-feira, 26 de março de 2020
Ioga para seniores ou do terço à saudação ao sol
Nesta quarentena ainda não corri uma maratona na varanda, como fez Elisha Nochomovitz, mas, porque nas saídas profissionais vou geralmente fechado no carro como num escafandro e, cidadão exemplar, evitei até agora correr no parque com receio de incentivar outros, tenho vindo a submeter-me todos os dias a vinte minutos de ioga para tot…, perdão, para seniores, instado por quem comigo partilha a cela.
Não vou cometer publicamente a desfaçatez de dizer que não aprecio a modalidade (sobretudo porque já o fiz em privado) e na verdade, depois da tortura inicial, a sessão tem vindo a ser suportável, mesmo proveitosa, e abriu-me a mente para outras práticas e horizontes que até há pouco não imaginava possíveis (comecei também, por exemplo, a preparar-me para a Volta à França numa bicicleta estática). No entanto, a súbita constatação, ao acordar todas as manhãs, de que depois das abluções me irei voluntariar sorrindo para a aula online da Miss Cole Chance ainda me deprime mais do que a ideia, também subitamente concretizada, de ser agora uma personagem distópica dum filme série Z.
A contrariedade (já um pouco escusada) que se instala no meu corpo e no meu espírito recém-levantados da cama é semelhante à que me oprimia nos jantares de Maio da década de setenta, quando antecipava os quinze minutos de tortura que me eram servidos como sobremesa durante todo o tempo que durava o «mês de Maria». Consta que a Nossa Senhora, quando apareceu na trip bucólica e famélica dos três pastorinhos, penteando o cabelo e colorida como um arco-íris jaggeriano, lhes pediu «insistentemente» que rezassem o terço todos os dias. O povo português, que tem uma tara por tradições instantâneas, logo instituiu que dali em diante em Maio, mês da primeira aparição, se rezaria diariamente o terço em todas as casas católicas. Nos anos setenta a minha ainda era uma casa católica e eu uma criança a quem o 25 de Abril não trouxera a liberdade prometida. Sentava-me com os meus irmãos e irmãs numa roda ao lado da mesa da cozinha, a ver os dedos da minha mãe, que liderava a sessão, devorarem com uma lentidão desesperante as contas do terço (como um Pacman sádico ou instalado numa máquina com um processador fraquito), ganhando um pouquinho de ânimo de cada vez que ela chegava àquelas contas maiores que, como metas volantes, marcavam etapas no mantra interminável das Avé-Marias e introduziam, como falsas pausas, a variante nada refrescante do Glória-a-Deus seguido do Pai-Nosso, ansiando então pela terceira meta volante, que nos permitia iniciar com olhos silenciosos (os lábios sempre em ladainha) a contagem decrescente para a meta final, representada pela cruz como num Calvário e na verdade adiada por umas Salve-Rainhas e uns Credos também eles repetidos interminavelmente e ainda intercalados por mais três Avé-Marias (não eram consideradas suficientes as cinquenta anteriores) e — por que não? — um Pai-Nosso, até que, finalmente, com as seis crianças quase desfalecidas e a implorarem progressistas por uma lei da eutanásia infantil, mais pálidas do que as da família Adams, finalmente, dizia eu, a minha mãe enrolava o terço numa das mãos e com um sorriso talvez beatífico dava por concluída a sessão.
Não demorávamos a amar de novo a minha mãe (as crianças esquecem rápido), mas não me recordo de as agruras do terço me terem aberto o espírito como as do ioga me abrem o peito na «saudação ao Sol» que, de estores abertos, ofereço gratuitamente como artista-em-casa aos vizinhos do prédio fronteiro.
Não vou cometer publicamente a desfaçatez de dizer que não aprecio a modalidade (sobretudo porque já o fiz em privado) e na verdade, depois da tortura inicial, a sessão tem vindo a ser suportável, mesmo proveitosa, e abriu-me a mente para outras práticas e horizontes que até há pouco não imaginava possíveis (comecei também, por exemplo, a preparar-me para a Volta à França numa bicicleta estática). No entanto, a súbita constatação, ao acordar todas as manhãs, de que depois das abluções me irei voluntariar sorrindo para a aula online da Miss Cole Chance ainda me deprime mais do que a ideia, também subitamente concretizada, de ser agora uma personagem distópica dum filme série Z.
A contrariedade (já um pouco escusada) que se instala no meu corpo e no meu espírito recém-levantados da cama é semelhante à que me oprimia nos jantares de Maio da década de setenta, quando antecipava os quinze minutos de tortura que me eram servidos como sobremesa durante todo o tempo que durava o «mês de Maria». Consta que a Nossa Senhora, quando apareceu na trip bucólica e famélica dos três pastorinhos, penteando o cabelo e colorida como um arco-íris jaggeriano, lhes pediu «insistentemente» que rezassem o terço todos os dias. O povo português, que tem uma tara por tradições instantâneas, logo instituiu que dali em diante em Maio, mês da primeira aparição, se rezaria diariamente o terço em todas as casas católicas. Nos anos setenta a minha ainda era uma casa católica e eu uma criança a quem o 25 de Abril não trouxera a liberdade prometida. Sentava-me com os meus irmãos e irmãs numa roda ao lado da mesa da cozinha, a ver os dedos da minha mãe, que liderava a sessão, devorarem com uma lentidão desesperante as contas do terço (como um Pacman sádico ou instalado numa máquina com um processador fraquito), ganhando um pouquinho de ânimo de cada vez que ela chegava àquelas contas maiores que, como metas volantes, marcavam etapas no mantra interminável das Avé-Marias e introduziam, como falsas pausas, a variante nada refrescante do Glória-a-Deus seguido do Pai-Nosso, ansiando então pela terceira meta volante, que nos permitia iniciar com olhos silenciosos (os lábios sempre em ladainha) a contagem decrescente para a meta final, representada pela cruz como num Calvário e na verdade adiada por umas Salve-Rainhas e uns Credos também eles repetidos interminavelmente e ainda intercalados por mais três Avé-Marias (não eram consideradas suficientes as cinquenta anteriores) e — por que não? — um Pai-Nosso, até que, finalmente, com as seis crianças quase desfalecidas e a implorarem progressistas por uma lei da eutanásia infantil, mais pálidas do que as da família Adams, finalmente, dizia eu, a minha mãe enrolava o terço numa das mãos e com um sorriso talvez beatífico dava por concluída a sessão.
Não demorávamos a amar de novo a minha mãe (as crianças esquecem rápido), mas não me recordo de as agruras do terço me terem aberto o espírito como as do ioga me abrem o peito na «saudação ao Sol» que, de estores abertos, ofereço gratuitamente como artista-em-casa aos vizinhos do prédio fronteiro.
domingo, 22 de março de 2020
Tirando Proust da quarentena
Há livros ou formas de escrita (estou-me a lembrar de Lobo Antunes) que são como danças de salão, ou danças do mundo, se quiserem: além de conhecer os códigos, os passos que as definem, precisamos, para desfrutar as danças, de entranhar o ritmo da música, sentir que o corpo vai com naturalidade. Há poucos anos descobri ou confirmei que não tenho queda (nem na verdade gosto) para dançar tudo o que não seja mosh*, mas hoje, com certo optimismo quanto ao percurso da quarentena, reiniciei Em Busca do Tempo Perdido, consciente de que teria de me expor com persistência e tempo à lenta e arrastada melopeia proustiana para que a determinado momento pudesse ser levado gingando (em câmara lenta, claro está) por ela. Ainda não estava nesse ponto, mesmo tendo ultrapassado a marca da primeira tentativa, mas já me começava a parecer possível a dança — quando tocaram para jantar. Temo agora que o bolero se tenha desconchavado outra vez.
(Mas haja esperança: este embuste literato-aristocrático de campainhas para jantar, quando tudo o que houve a fazer foi tirar coisas do microondas pela própria mão, sem a assistência de serviçais nem campânulas de prata, pode significar já uma leve contaminação benéfica da, digamos, respiração literária do moço de Paris. Que, pensando bem, morreu de pneumonia.)
*Mentira, isto do mosh.
(Mas haja esperança: este embuste literato-aristocrático de campainhas para jantar, quando tudo o que houve a fazer foi tirar coisas do microondas pela própria mão, sem a assistência de serviçais nem campânulas de prata, pode significar já uma leve contaminação benéfica da, digamos, respiração literária do moço de Paris. Que, pensando bem, morreu de pneumonia.)
*Mentira, isto do mosh.
Vendo a coisa pelo lado positivo
Com mais ocasião para ir à varanda olhar a serra e silêncio à noite na rua (os universitários debandaram e a adolescência ainda não quebrou a quarentena, não aqui), falta pouco para me sentir um Thoreau.
domingo, 8 de março de 2020
Meta-embaraço
Na mesma sessão de jogging do post anterior, um casal caminhando à minha frente e dando-se as mãos de braços estendidos, como se preocupado apenas com a transmissão aérea do vírus, ocupa toda a largura do trilho e preparo-me para o ultrapassar usando a estreita faixa de erva entre o caminho e um atoleiro. A escassos metros, o elemento masculino do casal apercebe-se da minha chegada pelas suas costas e delicadamente tenciona deixar-me passagem pelo meio dos dois, largando a mão da amada e encostando-se à esquerda, para a faixa de erva que eu planeara usar. Quer porque a inércia da corrida e a má forma já não me permitem mudar radicalmente de rumo, quer porque gosto de passar pela vida discreto, sem perturbar ou partilhar o caminho dos outros, tudo o que consigo é não atropelar o tipo alargando um pouco mais o arco da ultrapassagem pela esquerda — o que me põe a chapinhar pesadamente no lamaçal durante todos os longos segundos que levo a deixá-los para trás. Sem me voltar, ouço o ohhh culpado e embaraçado do rapaz e embaraço-me eu também por ter os pés em equilíbrio precário e sujo na lama e por o ter deixado embaraçado a ele com a minha mania de contornar todas as multidões, mesmo que de dois. Embaraço-me ainda por lhe ter, provavelmente, salpicado as calças, que ele trazia tão estimadas e esticadas. Continuo, como faço sempre, olhando em frente, como se apenas tivesse olhos para a meta — mesmo não sabendo o que seja e a que distância se encontra.
Padecimento
Passo por ele a correr, mas a música que vai a ouvir está bem alta e percebem-se distintamente a voz e os requebros de Elvis Presley. Não tem idade para ter sido fã in illo tempore, mas parece suficientemente nostálgico para que o Rei tenha sido companhia marcante na sua juventude.
Quando regresso, encontro-o noutro sector da minha pista de jogging. Está agora sentado a uma mesa de piqueniques. Elvis canta uma daquelas que fazem chorar as pedras da calçada. Ele, de cotovelos no tampo, cabisbaixo, esfrega os olhos lacrimejantes; ouço-o fungar. Talvez a música o lembre de amores antigos. Ou então é apenas o Covid 19.
Quando regresso, encontro-o noutro sector da minha pista de jogging. Está agora sentado a uma mesa de piqueniques. Elvis canta uma daquelas que fazem chorar as pedras da calçada. Ele, de cotovelos no tampo, cabisbaixo, esfrega os olhos lacrimejantes; ouço-o fungar. Talvez a música o lembre de amores antigos. Ou então é apenas o Covid 19.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Narciso
Estava há poucos dias no seu novo emprego de recepcionista de uma clínica dentária quando reparou no rapaz que todas as tardes passava em frente à porta envidraçada da rua e espreitava para o interior. De início foi só a curiosidade de ver quotidianamente um gajo bonito, fazer apostas consigo mesma sobre se viria hoje, sem atraso, se olharia. Depois, convenceu-se de que aquela passagem já não era uma coincidência, que havia um motivo, e que o motivo era ela. O rapaz descobrira por acaso a nova recepcionista atrás do balcão, encantara-se e, porque era tímido, não ousava entrar, limitava-se a fazer olhares, expressões subtis e gestos mais ou menos discretos no tempo que demorava a percorrer os três metros de envidraçado. Algumas semanas mais tarde, por iniciativa e manobras dela, que o foi descobrir nos locais onde ele parava à noite, ficaram de certa forma namorados. Na última vez em que estiveram juntos, ela fez um escândalo porque ele não parava de olhar por cima do ombro dela para uma rapariga noutra mesa, com aquelas expressões que conhecia bem.
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Futebol
Há muito que o mundo do futebol vive, já não num estado de excepção, mas numa «norma» que contamina o resto da sociedade e transforma em politicamente incorrecto o que vou escrever a seguir.
No futebol, uma falta intencional, mesmo que provoque lesão no jogador adversário, pode ser não só desculpada ou louvada mas também desejada, implorada pelos dirigentes e aficionados, se ela tiver importância no resultado do jogo — a única coisa que verdadeiramente passou a interessar, o fim que justifica todos os meios.
Jornalistas e escritores, outrora classes respeitadas, e até artistas pop, vão para as televisões debater com minúcia durante horas intermináveis os «casos do jogo» e, entre risadinhas ou leves indignações, lá arranjam forma de desculpar a falta, de a compreender ou de a justificar, se se dignam sequer falar dela duma perspectiva «moral», digamos. De resto, esta estirpe de intelectuais suspende alegremente o juízo crítico, a serenidade racional e o esforço de isenção quando se trata de futebol porque, já se sabe, a paixão clubística desculpa-se e a condição de associado pressupõe lealdade cega.
O futebol é, em suma, um particular mundo viril e neste particular mundo viril não se aplicam os princípios gerais da civilização. E desta forma gerações de pais levam gerações de filhos pequenos ao futebol e estes vão assimilando os comportamentos, a linguagem, a duplicidade de critérios, o pensamento fanático, a ideia geral de que tudo o que aprendem na escola ou «no lado feminino» da família pode ser rasurado se houver um enquadramento futebolístico.
E quase tudo vai tendo hoje um enquadramento futebolístico, ou tribal, se quisermos. A política, desde logo, onde, mais do que qualquer programa ideológico ou ideia de serviço público, nalguns partidos já vigora a fidelidade a líderes ou a facções organizadas para a mera conquista do poder. Mas também nas discussões sobre temas sociais, com os contendentes a cerrarem fileiras em claques que procuram vencer pelo ruído e pelo insulto. Pela «falta», se necessário.
Não admira que esta manhã, a propósito do caso Marega, se escreva um pouco por todo o lado que «no futebol sempre houve cânticos racistas e isso não costumava ser um problema.» E que o único deputado único candidato a fascista possa vir dizer que basicamente somos todos uns mariquinhas e ser aplaudido por milhares de energúmenos, alguns ainda a passarem por pessoas respeitáveis.
No futebol, uma falta intencional, mesmo que provoque lesão no jogador adversário, pode ser não só desculpada ou louvada mas também desejada, implorada pelos dirigentes e aficionados, se ela tiver importância no resultado do jogo — a única coisa que verdadeiramente passou a interessar, o fim que justifica todos os meios.
Jornalistas e escritores, outrora classes respeitadas, e até artistas pop, vão para as televisões debater com minúcia durante horas intermináveis os «casos do jogo» e, entre risadinhas ou leves indignações, lá arranjam forma de desculpar a falta, de a compreender ou de a justificar, se se dignam sequer falar dela duma perspectiva «moral», digamos. De resto, esta estirpe de intelectuais suspende alegremente o juízo crítico, a serenidade racional e o esforço de isenção quando se trata de futebol porque, já se sabe, a paixão clubística desculpa-se e a condição de associado pressupõe lealdade cega.
O futebol é, em suma, um particular mundo viril e neste particular mundo viril não se aplicam os princípios gerais da civilização. E desta forma gerações de pais levam gerações de filhos pequenos ao futebol e estes vão assimilando os comportamentos, a linguagem, a duplicidade de critérios, o pensamento fanático, a ideia geral de que tudo o que aprendem na escola ou «no lado feminino» da família pode ser rasurado se houver um enquadramento futebolístico.
E quase tudo vai tendo hoje um enquadramento futebolístico, ou tribal, se quisermos. A política, desde logo, onde, mais do que qualquer programa ideológico ou ideia de serviço público, nalguns partidos já vigora a fidelidade a líderes ou a facções organizadas para a mera conquista do poder. Mas também nas discussões sobre temas sociais, com os contendentes a cerrarem fileiras em claques que procuram vencer pelo ruído e pelo insulto. Pela «falta», se necessário.
Não admira que esta manhã, a propósito do caso Marega, se escreva um pouco por todo o lado que «no futebol sempre houve cânticos racistas e isso não costumava ser um problema.» E que o único deputado único candidato a fascista possa vir dizer que basicamente somos todos uns mariquinhas e ser aplaudido por milhares de energúmenos, alguns ainda a passarem por pessoas respeitáveis.
Ondas fundidas
O leitor de CDs do Chevrolet avariou há uns meses deixando-me refém das estações de rádio quando o silêncio se me torna perigoso por ir a conduzir demasiado desperto. Hoje a Antena 3 estava mais chata do que o habitual, com uma playlist que era uma egotrip de um apresentador qualquer. Mas só fui tentar a Antena 3 depois de passar sem ficar pela M80 (esse pecadilho geracional) porque a Antena 2 estava com uma intromissão. A meio de uma sinfonia simpática tinha começado a ouvir vozes. De início julguei que eram as vozes da minha cabeça a interferir com as ondas de rádio, mas notei que aquelas vozes tinham uma conversa um pouco mais cordial do que as minhas.
Algumas experiências de sintonização mais tarde, descobri que na zona do país em que circulava a Antena 2 e a Antena 1 estavam a partilhar a mesma frequência. Alguém no Lumiar ou lá onde é trocara inadvertidamente os fios ou carregara no botão errado, pensei. Mas no regresso, um par de horas depois, o problema persistia e agora era já o futebol que disputava as ondas com uma agudíssima soprano.
Demasiado pessimista para acreditar em conspirações benignas, nem por um momento imaginei, romanticamente, que alguém estava a boicotar o futebol com ópera. Não. Concluí logo que se tratava de uma acção pouco subtil para acabar com a alternativa clássica em favor do desporto único. Por estes dias já não há desaforos interditos para os sabotadores da civilização.
Algumas experiências de sintonização mais tarde, descobri que na zona do país em que circulava a Antena 2 e a Antena 1 estavam a partilhar a mesma frequência. Alguém no Lumiar ou lá onde é trocara inadvertidamente os fios ou carregara no botão errado, pensei. Mas no regresso, um par de horas depois, o problema persistia e agora era já o futebol que disputava as ondas com uma agudíssima soprano.
Demasiado pessimista para acreditar em conspirações benignas, nem por um momento imaginei, romanticamente, que alguém estava a boicotar o futebol com ópera. Não. Concluí logo que se tratava de uma acção pouco subtil para acabar com a alternativa clássica em favor do desporto único. Por estes dias já não há desaforos interditos para os sabotadores da civilização.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Micção e valores
Uma e vinte da noite. A CMTV, no estrito cumprimento do seu dever moral, passa repetidamente um vídeo em que um alemão tatuado de trinta anos, como diz a legenda, urina num carro da PSP e ri. André Ventura e dois outros tipos comentam, graves. No tasco onde me retiro para ler e observar a vida selvagem, os poucos clientes e os funcionários, habitantes de madrugadas consecutivas de televisão daquela, indignam-se num coro mecânico, esperado. Lá fora, ignorando a pequena crise hertziana, as primeiras vagas de banais estudantes da universidade local começam a migração entre um bar e outro. Se a natureza apertar, como sói apertar, chegar-se-ão a uma esquina, a um poste, à penumbra azarada da entrada de um prédio, a uma árvore sobrante, ao pneu de um carro — da PSP, se tiver de ser — e urinarão, rindo, injustamente ignorados pelo televangelismo nacional.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Corvos-marinhos
É claro que há temas mais importantes e urgentes para comentar, mas as minhas notas do último mês resumem-se a quatro tópicos: «corvos-marinhos», «guarda-chuva», «raspadinha», «ler no café dos freaks». Ajuda talvez esclarecer que tomo notas mais por impulso sensual do que por imperativo intelectual. Uma epifania bucólica — já para não dizer pós-prandial — faz-me abrir o bloco-de-notas do telemóvel; um achado filosófico ou uma ponderosa conclusão política sob o duche lembram-me a trabalheira que dá construir uma argumentação e, ainda que honestamente comprometido com o dever de intervir, procrastino.
Opto assim pelos corvos-marinhos, e já menos para cumprir a inspiração do que para disfarçar a inércia.
Não os havia, tanto quanto sei, corvos-marinhos, assim como não havia garças-reais, cegonhas ou esquilos, no meu próprio e privado condado de Yoknapatawpha. Nas últimas duas décadas e meia toda esta fauna começou a aparecer, como que sublinhando a penas e caudas farfalhudas os índices de desertificação do INE (a disseminação de algumas espécies percorre o caminho inverso do crescimento populacional humano).
Descobrir novas espécies no meu próprio território foi talvez o que mais próximo tive de um deslumbramento a la Jules Verne (muitos anos depois de os ter lancinantemente desejado enquanto lhe lia os livros). Pode-se sentir o maravilhamento de um Attemborough por umas horas ou uns dias quando não se conta com novidades faunísticas na zona e sobretudo quando se é razoavelmente ignorante em questões zoológicas. Comecei, creio, por pasmar de queixo erguido ao longo de escassos quilómetros da planície ribeirinha do Avelames quando vi os primeiros bichos a planar que não eram aves de rapina e, percebi então, eram cegonhas, que só conhecia vagamente de condados distantes. Poucos anos depois persegui com a discrição possível enquanto fazia jogging na Nacional 206 a cauda encurvada e ruiva de um esquilo, sem saber então que pertencia a um esquilo. Em anos mais recentes, foi a garça-real que entrou para o meu zoo, à beira Corgo, sem se mexer, simplesmente pousada, encolhendo fleumática e premonitoriamente os ombros, no tronco curvado de um pinheiro (que, by the way, já não existe, e também isto é simbólico). Demorou-me uns dias e custou-me um guia ilustrado de aves descobrir-lhe a raça, mas ficámos amigos. A mais recente descoberta (não conta, por ser mascote urbana, o furão que me invadiu a varanda do terceiro andar num mês de Agosto e me deixou umas horas a ponderar-lhe a espécie e a ameaça fofa dos dentes) foi um par de corvos-marinhos que vi há quinze dias pousado em ramos altos junto ao lago, primeiro confundindo-o, em douta peritagem, com crias crescidas de garça-real e depois, ao notar que os bichos tinham pés de pato, buscando rendido na Internet outra genealogia.
Não tem interesse nenhum para a magna questão dos populismos na Europa este pasmar com espécies avícolas no perímetro de um lago, bem sei. Mas pareceram-me adequadas, agora que com a oficialização do Brexit se retoma a época da fox hunting, umas linhas de genuína zoofilia britânica, não como comentário, mas como lamento político.
Opto assim pelos corvos-marinhos, e já menos para cumprir a inspiração do que para disfarçar a inércia.
Não os havia, tanto quanto sei, corvos-marinhos, assim como não havia garças-reais, cegonhas ou esquilos, no meu próprio e privado condado de Yoknapatawpha. Nas últimas duas décadas e meia toda esta fauna começou a aparecer, como que sublinhando a penas e caudas farfalhudas os índices de desertificação do INE (a disseminação de algumas espécies percorre o caminho inverso do crescimento populacional humano).
Descobrir novas espécies no meu próprio território foi talvez o que mais próximo tive de um deslumbramento a la Jules Verne (muitos anos depois de os ter lancinantemente desejado enquanto lhe lia os livros). Pode-se sentir o maravilhamento de um Attemborough por umas horas ou uns dias quando não se conta com novidades faunísticas na zona e sobretudo quando se é razoavelmente ignorante em questões zoológicas. Comecei, creio, por pasmar de queixo erguido ao longo de escassos quilómetros da planície ribeirinha do Avelames quando vi os primeiros bichos a planar que não eram aves de rapina e, percebi então, eram cegonhas, que só conhecia vagamente de condados distantes. Poucos anos depois persegui com a discrição possível enquanto fazia jogging na Nacional 206 a cauda encurvada e ruiva de um esquilo, sem saber então que pertencia a um esquilo. Em anos mais recentes, foi a garça-real que entrou para o meu zoo, à beira Corgo, sem se mexer, simplesmente pousada, encolhendo fleumática e premonitoriamente os ombros, no tronco curvado de um pinheiro (que, by the way, já não existe, e também isto é simbólico). Demorou-me uns dias e custou-me um guia ilustrado de aves descobrir-lhe a raça, mas ficámos amigos. A mais recente descoberta (não conta, por ser mascote urbana, o furão que me invadiu a varanda do terceiro andar num mês de Agosto e me deixou umas horas a ponderar-lhe a espécie e a ameaça fofa dos dentes) foi um par de corvos-marinhos que vi há quinze dias pousado em ramos altos junto ao lago, primeiro confundindo-o, em douta peritagem, com crias crescidas de garça-real e depois, ao notar que os bichos tinham pés de pato, buscando rendido na Internet outra genealogia.
Não tem interesse nenhum para a magna questão dos populismos na Europa este pasmar com espécies avícolas no perímetro de um lago, bem sei. Mas pareceram-me adequadas, agora que com a oficialização do Brexit se retoma a época da fox hunting, umas linhas de genuína zoofilia britânica, não como comentário, mas como lamento político.
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