sábado, 30 de novembro de 2019
Em Tudo Havia Beleza
Leio Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Vilas, com o mesmo fascínio com que li os livros de Sebald, com a mesma impressão de que humanidade atinge ali um cúmulo — e demorando a leitura com o mesmo pânico por saber que os livros (e os autores) são finitos.
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
A melancolia de um misantropo
Paul Mason, no seu livro optimista sobre a humanidade e a inteligência artificial, diz, grosseiramente resumindo, que a superação deste capitalismo em furibunda crise de existência passa pela cooperação. Eu se fosse um deus seria um em que o Nick Cave de “Into My Arms” poderia acreditar. A minha vontade divina é ter sempre, em todas as ocasiões e circunstâncias, a coragem de ficar a um canto a ler e a espreitar a humanidade sem nunca intervir. A crença que consubstancio, menos ambiciosa ou mais utópica, é que já estaria bem se as pessoas não se atropelassem umas às outras.
Mas talvez haja também nisto uma forma de cooperação. Um misantropo é ainda um contribuinte para o bem comum, porque, tirando os casos extremos de eremitas, faquires e artistas da fome, come e bebe com apetite e paga as suas despesas e impostos com menos desagrado do que a maioria dos industriais e empreendedores a quem o capitalismo reza pela salvação. Uma sociedade de misantropos assim seria talvez pouco animada pelos padrões actuais de irrequietude e chinfrineira, de interacção símia, mas estaria, por natureza, muito mais preparada para assinar um pacto de não-agressão. Estaria, sem cinismo, muito mais preparada para retomar um ideal de União Europeia, a melhor das Uniões Europeias, uma em que cobriria o continente uma espécie de melancolia escandinava, com tudo o que ela traz de produtivo, bem-estar social e favorecimento da leitura.
Mas para que a melancolia de um misantropo seja para ele fonte de felicidade suponho que faça falta uma humanidade em tonta correria, a voltear no seu habitat urbano com afã de traça em candeeiro. O misantropo é feliz por contraste. Desdenha a humanidade mas precisa dela para se recordar de como os seus dias poderiam ser piores se tivessem um propósito social.
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Mark Kozelek, Knausgård e a arte aos cinquenta*
De visita rotineira e esperançada a um blogue aparentemente decesso, parei mais do que o habitual na canção ‘This My Dinner’, que ali encima como epitáfio a coluna desactualizada de posts. É sempre um gosto ouvir aquele tema dos Sun Kil Moon, de Mark Kozelek, mas desta vez atentei na letra e quis acompanhar a lê-la uma segunda audição da música. Fez-me pensar num Karl Ove Knausgård que, em vez de romancista, fosse cantor e escrevesse letras para canções. E não por a letra de ‘This My Dinner’ ser uma espécie de hino à Noruega e aos noruegueses. Kozelek (fui ler mais letras e uns artigos sobre o homem) escreve as letras dos seus últimos álbuns no registo que se chama em amaricano stream of consciousness — o mesmo que James Joyce usou em Ulisses para pôr a sua Molly Bloom a discorrer na cama — e portanto são de esperar minudências, cenas do quotidiano, disparates, embirrações, obsessões, ansiedades, contradições, uma ou outra lamúria e alguns insultos e palavrões. Há ali (mas não só) o mesmo prazer do detalhe insignificante, do episódio sem grandeza e do relato autobiográfico cru.
Como Knausgård, Kozelek é inconveniente, não sei se também para a família, mas certamente para jornalistas. Uma delas escreveu um artigo no The Guardian contando como foi chamada de bitch ao vivo num concerto onde Kozelek relatou com duvidosa seriedade uma troca de e-mails entre eles. (Depois disse que estava a brincar. E depois reincidiu). De resto, o estilo spoken word e improvisado de Kozelek serve ao vivo por vezes mais para gozar e insultar o mundo à sua volta (outros músicos, jornalistas, público, fãs) do que para trips poéticas ou místicas a la Morrison Hotel, ainda que soe de forma semelhante.
E é curioso como a letra pode mudar todo o estado de espírito que uma canção nos sugere. Aquela voz angustiada e requebrada, por vezes melosa e outras tantas empolgada como um comandante de pelotão pessimista, parece falar-nos de dramas amorosos, crises existenciais ou combates fatais a travar, e na verdade pode estar apenas a contar-nos como lavou as suas meias num hotel de Madrid entre paragens numa digressão. É o mesmo desconcerto que Neil Hannon (o senhor Divine Comedy) despeja sobre nós se estivermos distraídos das suas letras irónicas e humorísticas e nos focarmos apenas no barítono sofrido que ele deixa escorrer para o microfone. Ninguém atento dançava slows nos anos oitenta ao som de músicas dos Divine Comedy**. Hoje ninguém dança slows, mas ainda não se inventou a imunidade ao mal de amor, pelo que convém vigiar as expressões e as poses quando se ouve publicamente Sun Kil Moon.
Não quero com isto desdenhar o que pode haver de literatura e poesia nas letras de Mark Kozelek (seria como ignorar a Beat Generation). Pelo contrário: eu apreciei muito, honestamente, como literatura, o políptico A Minha Luta, de Knausgård , e estou aliás chateado com a demora na tradução do último volume. (Bem sei que a geração anterior à minha, que não viveu os anos oitenta, prefere o À La Recherche, mas isso é por uma questão de proximidade vivencial.)
Aos cinquenta sabemos apreciar como arte sincera a resposta que Mark deu a uma nossa compatriota no final de um concerto em Espinho (relatada na letra de ‘Soap for Joyful Hands’):
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* Um título tonto para um post tonto
Como Knausgård, Kozelek é inconveniente, não sei se também para a família, mas certamente para jornalistas. Uma delas escreveu um artigo no The Guardian contando como foi chamada de bitch ao vivo num concerto onde Kozelek relatou com duvidosa seriedade uma troca de e-mails entre eles. (Depois disse que estava a brincar. E depois reincidiu). De resto, o estilo spoken word e improvisado de Kozelek serve ao vivo por vezes mais para gozar e insultar o mundo à sua volta (outros músicos, jornalistas, público, fãs) do que para trips poéticas ou místicas a la Morrison Hotel, ainda que soe de forma semelhante.
E é curioso como a letra pode mudar todo o estado de espírito que uma canção nos sugere. Aquela voz angustiada e requebrada, por vezes melosa e outras tantas empolgada como um comandante de pelotão pessimista, parece falar-nos de dramas amorosos, crises existenciais ou combates fatais a travar, e na verdade pode estar apenas a contar-nos como lavou as suas meias num hotel de Madrid entre paragens numa digressão. É o mesmo desconcerto que Neil Hannon (o senhor Divine Comedy) despeja sobre nós se estivermos distraídos das suas letras irónicas e humorísticas e nos focarmos apenas no barítono sofrido que ele deixa escorrer para o microfone. Ninguém atento dançava slows nos anos oitenta ao som de músicas dos Divine Comedy**. Hoje ninguém dança slows, mas ainda não se inventou a imunidade ao mal de amor, pelo que convém vigiar as expressões e as poses quando se ouve publicamente Sun Kil Moon.
Não quero com isto desdenhar o que pode haver de literatura e poesia nas letras de Mark Kozelek (seria como ignorar a Beat Generation). Pelo contrário: eu apreciei muito, honestamente, como literatura, o políptico A Minha Luta, de Knausgård , e estou aliás chateado com a demora na tradução do último volume. (Bem sei que a geração anterior à minha, que não viveu os anos oitenta, prefere o À La Recherche, mas isso é por uma questão de proximidade vivencial.)
Aos cinquenta sabemos apreciar como arte sincera a resposta que Mark deu a uma nossa compatriota no final de um concerto em Espinho (relatada na letra de ‘Soap for Joyful Hands’):
«Mark, além da música, quais são as tuas outras paixões?»
Eu disse, «Eu tenho cinquenta anos, querida, acho muito relaxante estender-me no sofá
E também gosto de ler livros com os meus óculos de leitura novos
E gosto de ter cinquenta e não sofrer de cancro do pâncreas
E gostei de acordar depois de ter sido anestesiado para uma colonoscopia e descobrir que não tinha cancro do cólon
Queres saber quais são as minhas paixões além de viver o meu sonho de ser músico?
Estas são as respostas»
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* Um título tonto para um post tonto
** Isto é mentira, como sabem todos os então desesperados.
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Dia dos Fiéis Defuntos (com atraso)
«O que pensas dos cemitérios?»
«...»
«Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se havia que falar de estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas, ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas.
«Mas não era disto que queria falar. Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.
«Na minha família não se falava muito do passado, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.
«Era… É nos vivos que eu sinto a morte, o engano da vida. Frustrada a experiência da visita ao sepulcro familiar, pus-me a caminhar por entre os túmulos, a espreitar os nomes e os rostos, a ler epitáfios. O Inverno tinha entrado, o dia estava cinzento, havia fumo de chaminés à volta dos muros e ao longe ladravam cães, como se aquele fosse um cemitério de aldeia ou a cidade regressasse ao século dezanove. Ardiam velas em recipientes vermelhos por todo o lado, fazendo da paisagem uma massa viva, palpitante. Vários jazigos estavam submersos em ramos de flores, coloridas, ainda viçosas. Tinham passado por mim alguns grupos mas agora apenas havia outro homem, idoso. Eu vira-o fitar durante muito tempo uma das sepulturas, provavelmente rezando. Depois, deu meia volta e parecia que tomava resolutamente o caminho da saída. Mas algures a meio de uma das áleas mudou de ideias e enveredou por outro sector da necrópole, detendo-se aqui e acolá com ar pesaroso. Talvez o homem fosse demasiado velho, o último sobrevivente de uma geração cujos membros tinham sucumbido. (Ele passeava pelo cemitério como numa rua a cumprimentar os vizinhos; os seus vizinhos agora viviam ali.) Foi através dele que senti a morte, mas não porque o seu aspecto fosse débil, de alguém que devesse uns anos à cova, como se costuma dizer. Não porque os seus pensamentos se ocupassem apenas de gente morta, como de certeza ocupavam. Mas porque ele passou por mim sem me ver. Cruzámo-nos já no exterior do cemitério, no parque de estacionamento, quase a tocar os ombros, e ele apenas aconchegou as golas do casaco ao pescoço, como se acometido de súbita corrente de ar. Eu é que era o fantasma. Centenas de sepulturas, milhares de cadáveres ali ao lado e eu é que lhe provoquei calafrios. Era em mim que a morte estava, não no solo, mesmo que se tratasse do solo especializado em morte de um cemitério.»
[Excerto de Aranda, 2011]
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
As artes do palco na era dos telemóveis
Um interessante artigo do The New York Times (embora com um título que não abrange toda a sua temática, «Filming the Show: Pardon the Intrusion? Or Punish It?») aborda o debate que se instalou entre críticos e contemporizadores do uso de telemóvel em recintos de espectáculos. O tema já não é só motivo de conversa entre espectadores ou artistas após uma má experiência: cresceu para entrar em livros como The Reasonable Audience, uma obra que trata dos debates contemporâneos sobre etiqueta no teatro.
Entre exemplos de artistas que tiram os aparelhos a espectadores desobedientes ou interrompem as suas performances em retaliação contra os que filmam e consultam telemóveis e referência a críticas a uma tradição de etiqueta obsoleta — mas «recente», lembram-nos, já que no tempo de Shakespeare as audiências eram descontraidamente interventivas e ruidosas —, o artigo cita uma profecia talvez perturbadora mas nem por isso menos plausível: «as pessoas que se entregam totalmente e impõem rituais arcaicos e anacrónicos que requerem à partida um enorme capital cultural serão completamente irrelevantes daqui a quinze anos.»
O futuro será então dos ignorantes e buliçosos. Já desconfiávamos.
As razões por que os telemóveis podem ser tidos como intrusivos ou desadequados em recintos de espectáculos são diversas e merecem também discussões diferentes. A recolha indevida de imagens e som é um assunto, eventualmente de foro legal, sobretudo entre artistas e público transgressor de direitos protegidos. Já os braços adejantes, a luz dos ecrãs e os sons que os aparelhinhos emitam intrometem-se e em muitos casos perturbam a atmosfera da performance, quebram a concentração ou o encanto, tanto dos artistas quanto dos espectadores nas imediações.
O primeiro problema, o dos direitos de som e imagem, se se entender grave o suficiente, pode ter uma solução legislativa e tecnológica, havendo vontade política e ambiente social favorável: os recintos estarem legal e tecnicamente habilitados a impedir o funcionamento de telemóveis, mesmo contra a vontade dos donos dos aparelhos.
O segundo problema — aquele que é verdadeiramente uma questão, não de etiqueta, mas de comportamento, de sensibilidade estética e respeito pelo trabalho e atenção dos outros — não remete necessariamente para intervenções legislativas ou intromissões tecnológicas. A sensibilidade e o respeito não se legislam e o seu policiamento não tem resultados muito animadores. Estas coisas podem ensinar-se ou pelo menos estimular-se em escolas e famílias funcionais, mas precisam sobretudo de sociedades e media que não estejam globalmente obcecados com a standardização e a forçada descomplexificação do mundo.
Uma peça de teatro ou dança não é geralmente a mesma coisa que um concerto de rock, tanto ao nível dos decibéis provenientes do palco como ao da experiência estética que constitui. Embora possa haver peças que, legitimamente, se propõem o mesmo tipo de catarse ou celebração colectiva que um concerto de rock, muitas outras há que implicam observação minuciosa e permanente de expressões, posturas e movimentos, análise continuada dos quadros compostos na cena, audição extensiva de discursos e diálogos e elementos da sonoplastia — ou seja, implicam atenção e concentração, não apenas para entendimento da peça mas para uma plena fruição estética. Para um prazer completo.
O problema é que a sociedade, pastoreada pelas agências de comunicação e pelos media, em particular as televisões, tende a desprezar experiências estéticas que não sejam alienantes da mesma exacta maneira que as grandes manifestações de massas, como se houvesse menos possibilidade de prazer numa peça de teatro ou dança ou num concerto para gente atenta.
Por conveniência e convenção medíocres (e às vezes por algum snobismo de uma das partes), reduz-se o conceito de prazer e entretenimento a manifestações artísticas em que o elemento intelectual desempenha um papel menor, em que se pede ao espectador passividade mental, mesmo que se lhe permita ou estimule actividade física de resposta, incluindo dançar no lugar ou acenar coreograficamente telemóveis.
Esta divisão entre cultura e entretenimento, que se utiliza para de forma simplista separar o que tem interesse estético do que é mero divertimento festivo, promove equívocos, rapidamente aproveitados pelos arautos da mediocridade para apelidar de aborrecida e cinzenta toda a manifestação artística que não nos faça (ou permita) bater o pé ou não instigue à gargalhada automática, reflexiva. Daí a referência hiperbólica ao «contrato» vigente em concertos de música clássica como «ritual arcaico e anacrónico que requer à partida um enorme capital cultural» (sendo «o enorme capital cultural» basicamente dar-se a pessoa ao trabalho de ler o programa, ter aprendido a identificar nele os andamentos das peças e saber que, por definição do género que tem as suas razões, não são esperadas manifestações do público, ou seja, palmas, entre andamentos).
Talvez haja um certo snobismo no mundo da música clássica. Talvez os músicos não fizessem mal em deixar de lado o smoking. Talvez fosse mais produtivo, em salas menos especializadas, o maestro explicar no início onde serão menos perturbadoras da concentração as eventuais manifestações de louvor ou tédio do público do que franzir censoriamente as sobrancelhas ou brandir ameaçadoramente a batuta de cada vez que alguém, fora do tempo, bate palmas para aplaudir ou apenas relaxar o corpo. Talvez fosse mesmo de aceitar, gratamente, humildemente, as manifestações do público em qualquer altura da performance, sendo elas genuínas. E é sem dúvida de abolir o tradicional ramo de flores para solistas ou maestro, excepto quando oferecido por um amante que, enlevado pela prestação musical, arrisca sair do anonimato.
É a etiqueta da cultura clássica, um certo formalismo ritual e eventual rigidez, denunciados não raro com veemência exagerada, que fornecem a desculpa a certos indivíduos para se anunciarem como rebeldes contra o elitismo e o snobismo cultural e não como promotores de uma ideia limitada e medíocre de espectáculo.
Advogar uma certa modernização de guarda-roupa e postura ou apelar a alguma flexibilidade por parte de orquestras e concertistas não é, contudo, a mesma coisa que achar razoável a intromissão de telemóveis numa sinfonia — a não ser que o concerto tenha sido desenhado e amplificado para menorizar esse impacto, para ser uma outra experiência.
Seria idiota soçobrar perante o admirável mundo novo da tecnologia, que por definição e vício de classe pretende a cada upgrade soterrar o mundo como o conhecemos. Muitos dos que se excitam com a ideia de revolução tecnológica alimentam um determinado grau de ressentimento. Sentem-se excluídos do mundo anterior (por falta de oportunidades, dificilmente por responsabilidade própria) e vêem num futuro niilista, de terra queimada, a oportunidade de vingança ou de encontrar o seu lugar ao sol. Veja-se a postura de tantos informáticos em relação às humanidades.
Mas a ideia de revolução, tecnológica ou não, é também uma aspiração eterna da juventude, frequentemente consubstanciada numa rebeldia sem causa. O artigo do The New York Times também introduz este elemento no debate sobre etiqueta no mundo do espectáculo: «Tanto o teatro como a música clássica têm uma base de fãs envelhecida e desejam atrair audiências mais diversificadas e jovens e há quem sugira que insistir em restrições comportamentais é uma forma de elitismo desanimadora.» Tomar como universo único o teatro e a música clássica é já um preconceito; outro, ou pelo menos uma cedência sem luta, é considerar que têm bases de fãs envelhecidas. Em todo o caso, aceitando que assim possa ser, continua a ser um erro desistir da experiência do silêncio e da atenção apenas para atrair públicos jovens, porque isso significa em muitos casos desistir da experiência da música e do teatro em si mesma.
Uma das características do confronto geracional nos tempos que correm é a cobardia e a desistência dos adultos. Décadas de propaganda televisiva e cinematografia mainstream dirigidas a jovens ou adolescentes tornaram muitos adultos envergonhados do seu estado, como se fossem gadjets obsoletos à espera de substituição por novos modelos. E contudo a experiência humana não se restringe a uma só das fases da vida, como sabe quem cresceu, se tornou adulto ou envelheceu sem se sentir diminuído mas antes enriquecido pelo que viveu e vive. Nada da experiência humana dispensa, por inerência, o ter sido jovem, mas muito do conhecimento e fruição do mundo depende de se ter crescido e acumulado experiências e saber. Além disso, salvo nos casos em que o nosso cérebro parou na adolescência, há experiências estéticas, com o seu capital de prazer, que implicam sermos adultos e termos acumulado anos de vivências, do mesmo modo que outras há que, tendo sido prazenteiras no seu tempo, se revelam numa fase posterior da vida insatisfatórias.
É por isso fundamental a ideia de que progredir não é igual a abdicar. A tecnologia serve para facilitar tarefas, não para iludir o entendimento e simplificar a experiência do mundo, coisas inelutável e desejavelmente complexas. Por outro lado, conquistar o interesse da juventude para determinadas manifestações artísticas não passa necessariamente por as transformar de tal modo que elas deixam de ser o que são. Além disso, não é irrazoável defender a existência de propostas artísticas que sejam por natureza excluídoras de jovens ou adolescentes, excepto se estes se derem ao trabalho de crescer, precocemente ou no tempo certo, para elas.
Defender, em suma, que se pode estar em qualquer peça de peça de teatro ou dança (ou concerto para gente atenta, para usar uma definição anterior) como num concerto de rock ou numa rave não é um ataque audaz e admirável ao velho elitismo das classes cultas ou a regras arcaicas de etiqueta; não é uma defesa da democratização e da simplificação do acesso à cultura (talvez do direito a ser-se, por fatalidade, opção ou natureza, ignorante e espectador): é sobretudo uma voluntária redução do leque das experiências estéticas possíveis, uma imposição de uma outra forma de estar, massificada, protofascista, que exclui os que desejam desfrutar colectivamente de um espectáculo em silêncio, sem perturbações alheias à performance.
Entre exemplos de artistas que tiram os aparelhos a espectadores desobedientes ou interrompem as suas performances em retaliação contra os que filmam e consultam telemóveis e referência a críticas a uma tradição de etiqueta obsoleta — mas «recente», lembram-nos, já que no tempo de Shakespeare as audiências eram descontraidamente interventivas e ruidosas —, o artigo cita uma profecia talvez perturbadora mas nem por isso menos plausível: «as pessoas que se entregam totalmente e impõem rituais arcaicos e anacrónicos que requerem à partida um enorme capital cultural serão completamente irrelevantes daqui a quinze anos.»
O futuro será então dos ignorantes e buliçosos. Já desconfiávamos.
As razões por que os telemóveis podem ser tidos como intrusivos ou desadequados em recintos de espectáculos são diversas e merecem também discussões diferentes. A recolha indevida de imagens e som é um assunto, eventualmente de foro legal, sobretudo entre artistas e público transgressor de direitos protegidos. Já os braços adejantes, a luz dos ecrãs e os sons que os aparelhinhos emitam intrometem-se e em muitos casos perturbam a atmosfera da performance, quebram a concentração ou o encanto, tanto dos artistas quanto dos espectadores nas imediações.
O primeiro problema, o dos direitos de som e imagem, se se entender grave o suficiente, pode ter uma solução legislativa e tecnológica, havendo vontade política e ambiente social favorável: os recintos estarem legal e tecnicamente habilitados a impedir o funcionamento de telemóveis, mesmo contra a vontade dos donos dos aparelhos.
O segundo problema — aquele que é verdadeiramente uma questão, não de etiqueta, mas de comportamento, de sensibilidade estética e respeito pelo trabalho e atenção dos outros — não remete necessariamente para intervenções legislativas ou intromissões tecnológicas. A sensibilidade e o respeito não se legislam e o seu policiamento não tem resultados muito animadores. Estas coisas podem ensinar-se ou pelo menos estimular-se em escolas e famílias funcionais, mas precisam sobretudo de sociedades e media que não estejam globalmente obcecados com a standardização e a forçada descomplexificação do mundo.
Uma peça de teatro ou dança não é geralmente a mesma coisa que um concerto de rock, tanto ao nível dos decibéis provenientes do palco como ao da experiência estética que constitui. Embora possa haver peças que, legitimamente, se propõem o mesmo tipo de catarse ou celebração colectiva que um concerto de rock, muitas outras há que implicam observação minuciosa e permanente de expressões, posturas e movimentos, análise continuada dos quadros compostos na cena, audição extensiva de discursos e diálogos e elementos da sonoplastia — ou seja, implicam atenção e concentração, não apenas para entendimento da peça mas para uma plena fruição estética. Para um prazer completo.
O problema é que a sociedade, pastoreada pelas agências de comunicação e pelos media, em particular as televisões, tende a desprezar experiências estéticas que não sejam alienantes da mesma exacta maneira que as grandes manifestações de massas, como se houvesse menos possibilidade de prazer numa peça de teatro ou dança ou num concerto para gente atenta.
Por conveniência e convenção medíocres (e às vezes por algum snobismo de uma das partes), reduz-se o conceito de prazer e entretenimento a manifestações artísticas em que o elemento intelectual desempenha um papel menor, em que se pede ao espectador passividade mental, mesmo que se lhe permita ou estimule actividade física de resposta, incluindo dançar no lugar ou acenar coreograficamente telemóveis.
Esta divisão entre cultura e entretenimento, que se utiliza para de forma simplista separar o que tem interesse estético do que é mero divertimento festivo, promove equívocos, rapidamente aproveitados pelos arautos da mediocridade para apelidar de aborrecida e cinzenta toda a manifestação artística que não nos faça (ou permita) bater o pé ou não instigue à gargalhada automática, reflexiva. Daí a referência hiperbólica ao «contrato» vigente em concertos de música clássica como «ritual arcaico e anacrónico que requer à partida um enorme capital cultural» (sendo «o enorme capital cultural» basicamente dar-se a pessoa ao trabalho de ler o programa, ter aprendido a identificar nele os andamentos das peças e saber que, por definição do género que tem as suas razões, não são esperadas manifestações do público, ou seja, palmas, entre andamentos).
Talvez haja um certo snobismo no mundo da música clássica. Talvez os músicos não fizessem mal em deixar de lado o smoking. Talvez fosse mais produtivo, em salas menos especializadas, o maestro explicar no início onde serão menos perturbadoras da concentração as eventuais manifestações de louvor ou tédio do público do que franzir censoriamente as sobrancelhas ou brandir ameaçadoramente a batuta de cada vez que alguém, fora do tempo, bate palmas para aplaudir ou apenas relaxar o corpo. Talvez fosse mesmo de aceitar, gratamente, humildemente, as manifestações do público em qualquer altura da performance, sendo elas genuínas. E é sem dúvida de abolir o tradicional ramo de flores para solistas ou maestro, excepto quando oferecido por um amante que, enlevado pela prestação musical, arrisca sair do anonimato.
É a etiqueta da cultura clássica, um certo formalismo ritual e eventual rigidez, denunciados não raro com veemência exagerada, que fornecem a desculpa a certos indivíduos para se anunciarem como rebeldes contra o elitismo e o snobismo cultural e não como promotores de uma ideia limitada e medíocre de espectáculo.
Advogar uma certa modernização de guarda-roupa e postura ou apelar a alguma flexibilidade por parte de orquestras e concertistas não é, contudo, a mesma coisa que achar razoável a intromissão de telemóveis numa sinfonia — a não ser que o concerto tenha sido desenhado e amplificado para menorizar esse impacto, para ser uma outra experiência.
Seria idiota soçobrar perante o admirável mundo novo da tecnologia, que por definição e vício de classe pretende a cada upgrade soterrar o mundo como o conhecemos. Muitos dos que se excitam com a ideia de revolução tecnológica alimentam um determinado grau de ressentimento. Sentem-se excluídos do mundo anterior (por falta de oportunidades, dificilmente por responsabilidade própria) e vêem num futuro niilista, de terra queimada, a oportunidade de vingança ou de encontrar o seu lugar ao sol. Veja-se a postura de tantos informáticos em relação às humanidades.
Mas a ideia de revolução, tecnológica ou não, é também uma aspiração eterna da juventude, frequentemente consubstanciada numa rebeldia sem causa. O artigo do The New York Times também introduz este elemento no debate sobre etiqueta no mundo do espectáculo: «Tanto o teatro como a música clássica têm uma base de fãs envelhecida e desejam atrair audiências mais diversificadas e jovens e há quem sugira que insistir em restrições comportamentais é uma forma de elitismo desanimadora.» Tomar como universo único o teatro e a música clássica é já um preconceito; outro, ou pelo menos uma cedência sem luta, é considerar que têm bases de fãs envelhecidas. Em todo o caso, aceitando que assim possa ser, continua a ser um erro desistir da experiência do silêncio e da atenção apenas para atrair públicos jovens, porque isso significa em muitos casos desistir da experiência da música e do teatro em si mesma.
Uma das características do confronto geracional nos tempos que correm é a cobardia e a desistência dos adultos. Décadas de propaganda televisiva e cinematografia mainstream dirigidas a jovens ou adolescentes tornaram muitos adultos envergonhados do seu estado, como se fossem gadjets obsoletos à espera de substituição por novos modelos. E contudo a experiência humana não se restringe a uma só das fases da vida, como sabe quem cresceu, se tornou adulto ou envelheceu sem se sentir diminuído mas antes enriquecido pelo que viveu e vive. Nada da experiência humana dispensa, por inerência, o ter sido jovem, mas muito do conhecimento e fruição do mundo depende de se ter crescido e acumulado experiências e saber. Além disso, salvo nos casos em que o nosso cérebro parou na adolescência, há experiências estéticas, com o seu capital de prazer, que implicam sermos adultos e termos acumulado anos de vivências, do mesmo modo que outras há que, tendo sido prazenteiras no seu tempo, se revelam numa fase posterior da vida insatisfatórias.
É por isso fundamental a ideia de que progredir não é igual a abdicar. A tecnologia serve para facilitar tarefas, não para iludir o entendimento e simplificar a experiência do mundo, coisas inelutável e desejavelmente complexas. Por outro lado, conquistar o interesse da juventude para determinadas manifestações artísticas não passa necessariamente por as transformar de tal modo que elas deixam de ser o que são. Além disso, não é irrazoável defender a existência de propostas artísticas que sejam por natureza excluídoras de jovens ou adolescentes, excepto se estes se derem ao trabalho de crescer, precocemente ou no tempo certo, para elas.
Defender, em suma, que se pode estar em qualquer peça de peça de teatro ou dança (ou concerto para gente atenta, para usar uma definição anterior) como num concerto de rock ou numa rave não é um ataque audaz e admirável ao velho elitismo das classes cultas ou a regras arcaicas de etiqueta; não é uma defesa da democratização e da simplificação do acesso à cultura (talvez do direito a ser-se, por fatalidade, opção ou natureza, ignorante e espectador): é sobretudo uma voluntária redução do leque das experiências estéticas possíveis, uma imposição de uma outra forma de estar, massificada, protofascista, que exclui os que desejam desfrutar colectivamente de um espectáculo em silêncio, sem perturbações alheias à performance.
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
LER de Verão
Saiu mais uma edição da LER e está de apetite. Assinalo três novidades (e continuo uma tradição): 1) este número das revista não inclui as páginas com os livros do trimestre; 2) os Manifestos de Francisco José Viegas foram publicados no blogue posteriormente (embora, como antes, sejam repescados do Correio da Manhã); 3) não há Manifestos de Bruno Vieira Amaral (mas isso só dá conta quem como eu tem a picuinhice de ir confirmar as iniciais que assinam os textinhos).
domingo, 13 de outubro de 2019
Conservadorismo e fanatismo
O artigo que Vasco M. Barreto (blogger autor do excelente Ouriq) escreveu para o Público é um importante exercício de pedagogia — e não principalmente pelo que desvela do lado fanático de João Miguel Tavares (e, por extensão, de tantos conservadores). A sua leitura ajuda a esclarecer bastante o debate político-ideológico sobre as alterações climáticas. Resumi-lo é um exercício inadequado; leiam-no em toda a sua extensão, por favor:
https://www.publico.pt/2019/10/10/ciencia/opiniao/joao-miguel-tavares-estado-tempo-1889147Há no artigo, por outro lado, algumas ideias que são de utilidade não só no tema específico das alterações climáticas mas no debate em geral entre “progressistas” e “conservadores” (à falta de melhores definições). Cito duas passagens do mesmo ponto:
«(…) o fanatismo inegável de alguns ecologistas anima o jornalista a extremar também a sua posição (…), entrando voluntariamente num daqueles ciclos de retroacção positiva em que a certeza parece nascer do mero antagonismo e vai ficando cada vez mais desligada da evidência e da sensatez.»
«Por mera aversão epidérmica aos progressistas e à “extrema-esquerda”, os conservadores abandonaram a causa ecologista que já foi deles e deveria continuar a ser de quem estima o princípio da precaução…»
Quando comecei a ler jornais e a ter uma ideia vaga das várias tendências políticas e de pensamento na sociedade contemporânea, o conservadorismo tinha para mim um certo apelo. Havia nalguns dos seus representantes uma elegância, um bom-gosto, uma erudição, uma ironia, um cepticismo, uma moderação, uma sensatez e até uma bonomia que me pareciam louváveis. Mesmo que a parte mais activa de mim estivesse com os revolucionários, com os que pretendiam mudar coisas, achava útil aquela reserva de precaução. Décadas depois, os conservadores tornaram-se frequentemente cínicos, extremistas ou fanáticos, tomados de uma vertigem niilista tão perturbante e “imoral” quanto a de uma certa ideia popularizada de anarquia terrorista.
Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.
A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.
O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.
Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.
A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.
Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.
Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.
A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.
O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.
Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.
A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.
Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.
sábado, 12 de outubro de 2019
A sensação que por vezes me acomete de que pertenço já a outro mundo é ratificada quando de tempos em tempos consulto as estatísticas do blogue e descubro que os acessos ali registados são quase todos a partir de blogues moribundos ou mortos, inactivos há anos. Como se os fantasmas de outros blogues viessem ao velório do meu.
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Livros que brilham como se tivessem luz própria*
À noite estendi-me nos lençóis lavados, a cheirar a fresco (ou ao sucedâneo de frescura deixado pelo detergente da máquina), agradavelmente cansado, satisfeito, com uma vaga sensação de vitória, e aquele livrinho pareceu-me brilhar como a superfície dos raros móveis onde aplicara o Pronto ou dos mosaicos onde, talvez desajustadamente, vertera e esfregara o Cif. O dia tinha sido de sol e, se isso inicialmente me enevoara o espírito, quando, auto-enclausurado, me obriguei a limpezas, deixou, por outro lado, uma encantadora memória de luminosidade geométrica no parquet descolado, de janelas trespassadas pela luz declinante, que perdurou à noite.
A leitura da novela foi quase extática, epifânica, como se o próprio Espírito Santo tivesse resolvido, com jovialidade de cordeiro primaveril antes de pressentido o sacrifício, derramar-se nas páginas daquele exemplar da colecção «Ficção Universal» das Publicações Dom Quixote. Tudo naquele livro de capas brancas, o que dele emanava para mim, era luz, luz meridional, luz quente, e bem-estar, joie de vivre, Riviera Maya sem sargaço. Bem sei: alguém ia declaradamente morrer e as causas e os métodos da morte não eram bonitos nem radiantes. Mas havia a prosa, a narração. Dormi como um anjo e guardei essa memória de felicidade até hoje.
Bruno Vieira Amaral, logo na terceira página de Hoje Estarás Comigo no Paraíso, evoca e cita Crónica de Uma Morte Anunciada. Se o não fizesse ele, qualquer crítico do livro teria de o fazer. Não tanto pelos pontos de contacto circunstanciais que possam existir entre as histórias narradas pelos dois livros, mas pela luz que ambos reflectem. Ou emanam. O romance de BVA é, para mim, meridional como alguma literatura da América Latina. As páginas do livro iluminam-se da mesma maneira, até quando tratam, de igual modo, de misérias e tristezas humanas. Não falo exactamente de brilhantismo da prosa no sentido de mestria, mas de uma luminosidade óptica, palpável, de uma luz de trópicos que nos entre pelos olhos com as formas negras dos caracteres («da famíla Caslon, inspirados na tradição barroca holandesa do séc. XVII») que compõem as palavras impressas. A Baixa da Banheira de Bruno Vieira Amaral, já o tinha pensado na parte que li de As Primeiras Coisas (hei-de terminá-lo), podia bem localizar-se em Medelín ou lá onde a luz é muita e benfazeja, apesar dos esfaqueamentos.
O título Hoje Estarás Comigo no Paraíso não é, portanto, só bíblico — dirige-se directamente ao leitor com uma promessa que este pode bem dar por cumprida durante as horas de leitura (o Paraíso é eterno enquanto dura). Mesmo que não seja Primavera nem tenha havido barrela à tarde.
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* Abaixo de 451 Fahrenheit.
sábado, 14 de setembro de 2019
A Mulher do Meio
O novo livro de Ivone Mendes da Silva, A Mulher do Meio*, teve ontem uma boa crítica no Ípsilon e isso deixa-me contente. Porque são merecidos o juízo e a divulgação. A escrita diária de Ivone, publicada nas «redes sociais», é um bálsamo de inteligência e sentido estético. Abrigamo-nos nela da hediondez quotidiana. Vão e leiam-na.
*Edição Língua Morta.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
A seita
O universo da Chiado Books é como o de uma seita particularmente impudica em que todos pagam o dízimo para serem patetas felizes. O fundador da seita, ele próprio um génio ressentido que abandonou a religião ortodoxa por frustração (parece que no princípio dos tempos foi ignorado por trinta editoras), promete aos neófitos uma entrada no mundo dos autores contra a entrega de uma certa quantia. Como sói acontecer, a busca da felicidade por via de pagamento enriquece sobretudo o guru, que tipicamente se faz passear de Ferrari e, dêmos asas à imaginação, malas cheias de notas.
Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.
Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.
Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?
Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.
Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.
Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.
Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.
Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?
Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.
Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
A Europa no divã
Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.
Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie
Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.
É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.
Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.
O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.
Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).
Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.
A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.
Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.
O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.
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A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019
sábado, 10 de agosto de 2019
Sol coado
Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.
Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).
A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.
Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.
Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.
Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)
Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.
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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]
terça-feira, 23 de julho de 2019
Panes e contratempos
Em certa época da sua vida conduzia uma Renault 4L e teve de adicionar dois acessórios aos equipamentos de origem da viatura: quatro quilos de um paralelepípedo de granito e cinquenta centímetros de uma vara de aço de doze milímetros. Estavam, a viatura e ele, ao serviço de uma empresa de engenharia, pelo que aqueles acessórios foram de fácil obtenção e ambos se revelaram de uma utilidade fulcral, ainda que em diferentes utilizações. O paralelepípedo, que ia substituindo sempre que necessário, era indispensável no estacionamento em rampas e a vara de aço como auxiliar do motor de arranque, quando este bloqueava.
É certo que na maioria dos locais inclinados onde na altura estacionava, mesmo em lazer, era quase sempre fácil encontrar nas redondezas pedras, calhaus ou rebos adequados à função travatória, mas nenhum dava ao manuseamento as mesmas garantias de higiene que os seus paralelos polidos por décadas de serviço numa calçada do Estado Novo. Se tinha de pegar num calço de cada vez que parava a carroça em plano inclinado, nada o obrigava a sujar as mãos em pedra alheia, exposta sabe-se lá a quê. Bastava enfiar a mão debaixo do banco e retirar de lá uma das suas pedras-de-toque. Pelo contrário, se tivesse de perder um minuto ou mais a seleccionar o melhor seixo em cada local de parqueamento íngreme, nada lhe garantia que ainda houvesse 4L na rampa quando ele regressasse para contrariar a gravidade. Do mesmo modo que ninguém no seu perfeito juízo aceitaria hoje um carro sem travão de mão ou seu equivalente, ele não dispensava os seus hexaedros de granito.
A vara de aço, heliaço, sobra da armadura de um pilar ou viga, com a sua superfície marcada por nervuras transversais oblíquas (muito úteis quando era Verão e as mãos transpiravam), entrava em funções uns segundos após cerca de cinquenta por cento das vezes em que ele rodava a chave para accionar o motor. Poder-se-ia dizer, dado o uso frequente, que era um complemento da chave da ignição que, por razões compreensíveis, não usava no porta-chaves.
Segundo rezam os anais da época, as escovas do motor de arranque tendiam, sobretudo com altas temperaturas, a colar na superfície interior do cilindro onde estavam aprisionadas. Os mecânicos diziam que era o metal das escovas a fundir, mas podia-se legitimamente suspeitar de uma revolta. Bem, revolta não, que isso era precisamente o que as escovas recusavam fazer. Talvez insurreição. E isso contrariava-se fazendo vibrar o metal do invólucro para descolar os fios das escovas no seu interior.
A sua acção subsequente a cada volta em falso da ignição era, portanto, brandir a verga de aço, não como quem vareja azeitonas ou rebate a bola no baseball, mas como quem cutuca com displicência um formigueiro ou como quem crava repetidamente uma lança no coração da besta, dependendo das circunstâncias e das emoções. Abria o capot e cutucava o motor de arranque com carinho se ele se recusava a funcionar de manhã antes de ir para o trabalho, compreendendo a sua angústia e pronto para lhe agradecer uma nega sustentada. Em contrapartida, à hora de sair para petiscadas ou copos, percutia-o, impaciente e nervoso, como um êmbolo humano desgovernado, pronto para desferir vergastadas a torto e a direito como Cristo aos vendilhões do templo.
Nas ocasiões em que o motor da 4L ia abaixo, por deficiência ou envelhecimento da viatura, ou, concedamos a hipótese académica, por aselhice do condutor (imaginemos o pára-arranca de uma fila ou um semáforo a ficar verde e o carro a recusar-se a pegar de novo porque as benditas escovas voltaram a colar), lamentava não ter a vara o diâmetro, a alma e a utilidade de uma bazuca, mas saía sorridente do lugar do condutor, abria o capot com as pontas dos dedos, entalando-lhe com experimentada e coreográfica eficácia a escora oleosa, e dava pancadinhas elegantes no motor de arranque, mais parecendo um mágico a agitar a sua varinha ou um maestro sulcando o ar com a sua batuta, como se aquilo fosse apenas uma performance que lhe aprazia fazer para alegrar a hora de ponta, quebrar a rotina do tráfego urbano. Por dentro, contudo, tremia de vergonha e raiva como… varas verdes. E à noite o sono demorava-se porque se detinha, sádico, a reviver e a dramatizar o acontecimento.
Trinta anos depois, numa prova da decadência do mundo ocidental, o que lhe apoquenta os dias automobilizados é não ter gás no ar-condicionado.
É certo que na maioria dos locais inclinados onde na altura estacionava, mesmo em lazer, era quase sempre fácil encontrar nas redondezas pedras, calhaus ou rebos adequados à função travatória, mas nenhum dava ao manuseamento as mesmas garantias de higiene que os seus paralelos polidos por décadas de serviço numa calçada do Estado Novo. Se tinha de pegar num calço de cada vez que parava a carroça em plano inclinado, nada o obrigava a sujar as mãos em pedra alheia, exposta sabe-se lá a quê. Bastava enfiar a mão debaixo do banco e retirar de lá uma das suas pedras-de-toque. Pelo contrário, se tivesse de perder um minuto ou mais a seleccionar o melhor seixo em cada local de parqueamento íngreme, nada lhe garantia que ainda houvesse 4L na rampa quando ele regressasse para contrariar a gravidade. Do mesmo modo que ninguém no seu perfeito juízo aceitaria hoje um carro sem travão de mão ou seu equivalente, ele não dispensava os seus hexaedros de granito.
A vara de aço, heliaço, sobra da armadura de um pilar ou viga, com a sua superfície marcada por nervuras transversais oblíquas (muito úteis quando era Verão e as mãos transpiravam), entrava em funções uns segundos após cerca de cinquenta por cento das vezes em que ele rodava a chave para accionar o motor. Poder-se-ia dizer, dado o uso frequente, que era um complemento da chave da ignição que, por razões compreensíveis, não usava no porta-chaves.
Segundo rezam os anais da época, as escovas do motor de arranque tendiam, sobretudo com altas temperaturas, a colar na superfície interior do cilindro onde estavam aprisionadas. Os mecânicos diziam que era o metal das escovas a fundir, mas podia-se legitimamente suspeitar de uma revolta. Bem, revolta não, que isso era precisamente o que as escovas recusavam fazer. Talvez insurreição. E isso contrariava-se fazendo vibrar o metal do invólucro para descolar os fios das escovas no seu interior.
A sua acção subsequente a cada volta em falso da ignição era, portanto, brandir a verga de aço, não como quem vareja azeitonas ou rebate a bola no baseball, mas como quem cutuca com displicência um formigueiro ou como quem crava repetidamente uma lança no coração da besta, dependendo das circunstâncias e das emoções. Abria o capot e cutucava o motor de arranque com carinho se ele se recusava a funcionar de manhã antes de ir para o trabalho, compreendendo a sua angústia e pronto para lhe agradecer uma nega sustentada. Em contrapartida, à hora de sair para petiscadas ou copos, percutia-o, impaciente e nervoso, como um êmbolo humano desgovernado, pronto para desferir vergastadas a torto e a direito como Cristo aos vendilhões do templo.
Nas ocasiões em que o motor da 4L ia abaixo, por deficiência ou envelhecimento da viatura, ou, concedamos a hipótese académica, por aselhice do condutor (imaginemos o pára-arranca de uma fila ou um semáforo a ficar verde e o carro a recusar-se a pegar de novo porque as benditas escovas voltaram a colar), lamentava não ter a vara o diâmetro, a alma e a utilidade de uma bazuca, mas saía sorridente do lugar do condutor, abria o capot com as pontas dos dedos, entalando-lhe com experimentada e coreográfica eficácia a escora oleosa, e dava pancadinhas elegantes no motor de arranque, mais parecendo um mágico a agitar a sua varinha ou um maestro sulcando o ar com a sua batuta, como se aquilo fosse apenas uma performance que lhe aprazia fazer para alegrar a hora de ponta, quebrar a rotina do tráfego urbano. Por dentro, contudo, tremia de vergonha e raiva como… varas verdes. E à noite o sono demorava-se porque se detinha, sádico, a reviver e a dramatizar o acontecimento.
Trinta anos depois, numa prova da decadência do mundo ocidental, o que lhe apoquenta os dias automobilizados é não ter gás no ar-condicionado.
quinta-feira, 11 de julho de 2019
Maria de Fátima Bonifácio traída
Maria de Fátima Bonifácio é uma senhora assaz preconceituosa e muito ressentida da perda de privilégios familiares, de classe e raciais. Em geral, a sua prosa, mesmo quando pretensamente académica, limita-se a dissertar com vileza e fel na perspectiva do trauma pessoal. Não foi o seu mais recente artigo que desvelou isto. Para quem nunca a tenha lido ou tenha memória curta, há todo um arquivo no Público de lamentáveis redacções afins, apenas por vezes mais vestidinhas de casaco de malha, como adequado à brisa e ao pensamento solarengos. É por isso patético que João Miguel Tavares ou José Manuel Fernandes, entre outros, venham fingir aborrecer-se (mais um do que o outro) com as torpezas da amiga, que ainda assim desculpam (mais um do que o outro). Salvo distracção minha, a senhora Bonifácio não inaugurou agora uma nova linha de pensamento, ainda que possa ter-se desbocado um pouco mais. Por isso, estes senhores, que mereciam tabefes por admirarem tal musa, merecem agora chicotadas por lhe serem desleais. Podemos tolerar que a nossa direita tenha tolos e tolas como pensadores, mas é imperdoável que se revele hipócrita.
Entretanto, coitada da senhora dona Maria de Fátima: acostumada a palmadinhas nas costas, percebeu da pior maneira ter chegado à idade das velhas tias da corte, incentivadas a dizerem de tudo nos saraus de família, mas apelidadas de inconvenientes ou xexés quando dizem o mesmo perante um público menos caseiro.
Entretanto, coitada da senhora dona Maria de Fátima: acostumada a palmadinhas nas costas, percebeu da pior maneira ter chegado à idade das velhas tias da corte, incentivadas a dizerem de tudo nos saraus de família, mas apelidadas de inconvenientes ou xexés quando dizem o mesmo perante um público menos caseiro.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Terminado mais um livrito — outro que há-de ficar na gaveta ou, havendo sorte e merecimento, ver-se editado piedosamente por uma das pequenas chancelas que gostam do risco e do prejuízo —, pronto o livrito, dizia, há que manter viva a ilusão de que isto, esta insistência, faz algum sentido. Escrever por mera estratégia de sobrevivência mental, é o que é. Em todo o caso, rei morto, rei posto. Opus 6, abertura:
domingo, 5 de maio de 2019
Venezuela
Nos dias que passam, em que sonho com um eremitério de livros, uma vida à margem, a política apenas me interessa na medida em que dela posso ser vítima — ou seja, preocupa-me, mas não sinto o ímpeto de a discutir de viva voz ou de me envolver em movimentos. Pessimismo resignado, talvez seja o diagnóstico. Não há como não ficar deprimido quando se vê o circo de políticos e comentadores, nos media ou nas redes sociais, reduzindo tudo a torneios, organizados em claques ou falanges como seitas ou quadrilhas.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
sábado, 4 de maio de 2019
Dança contemporânea
Quando hoje penso em problemas de expressão já não é o romance, abordado no post anterior, que me ocupa a mente, mas por exemplo a dança contemporânea, que representa um problema, se quisermos, já não tanto de semântica mas de evolução de um género artístico. No binómio «dança contemporânea», o significado de dança é alterado ou matizado pelo adjectivo que lhe sucede, mas de uma maneira que uma parte das pessoas, os leigos, não capta na sua totalidade.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.
Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.
Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Romance ou o significado das palavras
Durante muitos anos, a palavra «romance» pareceu-me inadequada para definir o género de livros que define. Isto porque, no meu mundo cultural, romance começou por significar apenas «relação amorosa», e na fase inicial de leitor interessava-me tudo menos ler histórias de amor, que imaginava sempre melosas, fúteis e cheias de clichés como as das fotonovelas. Talvez tivesse nisto um papel a imposição cultural que tradicionalmente ditava uma dupla separação por géneros: as fotonovelas e as histórias de amor eram para raparigas; os rapazes, se liam, liam histórias de cowboys e de aventuras.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Livros e séries televisivas
A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
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