terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Referências culturais

Notar a frequência com que os meus escritos evocam banda desenhada, música pop, cinema ou livros pouco recomendáveis remete-me para a pergunta certeira que Nuno Costa Santos faz no Marginal Ameno
«como é que alguém com 40 anos pode criar hoje — nas escritas, nas representações, nas artes em geral — fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.»

Na verdade, e não desfazendo, não andamos assim tão longe dos helenistas e dos latinistas de gerações anteriores. Eles evocam As Metamorfoses e nós Asgard, versão Marvel. Eles falam da Odisseia de Homero e nós da saga sobre a ascensão e queda do Daredevil, por Frank Miller. Somos todos bons rapazes, amantes de seres fantásticos e aventuras. Uns, nostálgicos de canções napolitanas, outros, de 16 Lovers Lane. No fundo, ninguém sai da adolescência, tenha ela como referência a Renascença ou os eighties.

Uma semana de férias

Sempre gostei de gente encurralada. Assim de repente lembro-me de um pelotão americano no Estreito de Bering à espera dos russos num filme sobre a terceira guerra mundial, Tex Willer numa colina à espera dos índios, uma multidão sozinha em casa à espera de zombies em ene variações cinemáticas sobre o mesmo tema e um escritor de asa ferida atolado numa cabana setentrional à espera do degelo da Primavera. Fascina-me a tensão da espera. Ou talvez me fascine a sensação de isolamento, de solidão extrema, tipo último homem na terra face ao seu destino. Eis porque gostei de Eu Sou a Lenda (até aparecerem outros humanos).
A neve é um bom contexto para histórias de encurralados e/ou solitários. Eu, que me vejo com frequência masoquista na posição de encurralado, odeio que não neve neste país de brando clima. Abasteci a despensa de conservas para o dia em que nevasse para uma semana e de cada vez que recorro a elas é apenas porque há uma crise económica, forma pífia de encurralamento.
Um dos males de se ser adulto fora da ficção é estar-se encurralado e não se poder simplesmente ficar em casa à espera dos zombies, como Penélope à espera de Ulisses mas com menos carinho e mais zagalotes. Quando se é adulto e não se é personagem de um filme ou de um livro, como é minha triste condição, um tipo tem de sair para conviver com os zombies, fingir-se um deles, agir como eles, com o mesmo tipo de prazeres e ambições.
Por isso quando, a propósito de férias, me perguntaram qual o meu local de sonho para uma semana em Portugal eu respondi sem hesitar: «a Herdade da Coitadinha, Barrancos».
Que era um fim-de-mundo, disseram com pasmo depois de eu explicar onde ficava. Exactamente. Se o limite é o território nacional, não vejo onde possa desejar mais estar do que naquele belíssimo cu de judas.
Não falo de cor. Já lá estive e sei bem o quão isolado e desejavelmente pouco frequentado é o sítio. Estudei-lhe a geologia e parece-me solo pouco consistente. O castelo de Noudar ali perto já viu algumas das suas fundações cederem com inveja da Torre de Pisa. Tenho esperança de que quando lá me conseguir hospedar por uma semana se abram entre mim e a civilização barrancos como fossos de profundidade Senhor dos Anéis (não aquelas valazitas que hoje dão nome ao sítio) e que a assim a minha semana se torne residência definitiva. Confio na bondade humana para me fazer descer víveres em pára-quedas, mas estou disposto a enganar-me nesse item e a viver de raízes.
Ah, ir uma semana para a Herdade da Coitadinha e já não sair. Livros e uma carabina, eis a minha bagagem. Livros para as necessidades básicas da vida e a carabina para a eventualidade de apodrecidas visitas indesejadas. Isso e uma nevada canadiana em Barrancos. Mas canadiana de Grise Fiord, não de Toronto. Nos terraços da Herdade da Coitadinha, que já experimentei, está-se como nos terraços de Davos (e o tempo é igualmente relativo).

Não peço muito mais para as minhas férias. Talvez uma mantinha a cobrir as pernas, se realmente nevar.

Duetos



Todas as décadas têm os seus duetos felizes. Peter Gabriel abraçou-se a Kate Bush em “Don’t give up” (1986). Nick Cave, a PJ Harvey em “Henry Lee” (1996), tendo depois Polly Jean cometido infidelidade com Thom Yorke em “This mess we’re in”(2000).

“Strange weather” (2014), original de Keren Ann que junta Anna Calvi e David Byrne, tem a felicidade de fazer uma ponte entre os sixties e o século XXI, e não é pela participação de David Byrne (aliás, da geração de 70). Anna Calvi é uma excelente criadora também pelas reminiscências velvetundergroundianas da sua voz e da sua guitarra.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Tenho saudades do Alentejo — mas não é isso que faz de mim um mau transmontano.

Abduzido pela música

A música, como a literatura, transporta-nos. É um velho cliché e, como tantos velhos clichés, uma verdade. Mas em alguns momentos da minha vida a música foi para mim menos Ambrósio e mais Mr. Scott, não tanto por o meu imaginário permanecer intergaláctico mas porque a deslocação promovida pela música era do género teletransporte, sugava-me a alma e materializava-a através de um feixe numa realidade paralela. Só assim se compreende, por exemplo, que certa noite na alta adolescência eu subisse a rua e em vez de torcer o nariz ao rádio que a Maria da Luz sintonizara em volume de arraial no passeio desse por mim a dançar a “Billie Jean”, do Michael Jackson. É certo que tinha andado a tentar aprender a linha de baixo da canção, mas geralmente mantinha na intimidade esse tipo de desvio de personalidade. Era Verão e havia possivelmente lua cheia, mas não me lembro de nenhuma visão que quase me parasse o coração (caso contrário teria dançado o “Thriller”). Aquilo era abdução pura, um metafísico tabefe gaulês que de mim só deixava as sandálias em modo moonwalk no passeio. Era eu por interposta pop a convidar o Álvaro de Campos sensacionista que havia em mim a calçar os meus sapatos (sim, felizmente também me acontecia a ouvir Depeche Mode, mesmo antes de eles terem gravado a canção). Depois a música acabava — depressa demais, como sempre acontece com a pop/rock (que saudades tinha do Barroco) — e lá ficava eu aturdido a sacudir o pó da roupa como se tivesse acabado de fazer a Route 66 ou de acompanhar Bento de Góis na primeira viagem europeia terrestre da Índia para a China (e toda a gente sabe como ficamos cheios de pó se vamos a pé da Índia para a China). 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O Brecht dos bons observadores

O Observador é uma bela ideia na imprensa portuguesa: junta num mesmo antro uma quantidade jeitosa de situacionistas. Torna-se mais fácil evitar a seita quando sabemos onde ela se acoita e é também mais simples mantermo-nos actualizados (basta um clique) quando, enquanto verdadeiros democratas, procuramos a nossa dose higiénica de contraditório. (Na verdade, não é bem isso que ali se procura, não vale a pena sermos generosos — nem escondermos a nossa compulsão pornógrafa.)

Numa das produções recentes daquela folha online lemos de um tal Mário Amorim Lopes: 
«Quando financiamos uma peça de Brecht de um qualquer encenador que jura que a cultura deve ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança é um preço demasiado elevado a pagar.»*

O parágrafo é todo um programa — e de uma subtileza antológica. Imagine-se que o rapaz escolhia outro dramaturgo; por exemplo, um daqueles gregos um pouco menos odiados pela direita Observadora: Sófocles, Eurípedes. Ou o inglês Shakespeare. O sofisma teria um impacto diferente. Aqui e ali, um ou outro velho conservador torceria a sua penca, sentado em frente às prateleiras de bom carvalho da biblioteca do solar. Um clássico grego é um clássico, raios, e Stratford-upon-Avon não é assim tão longe de Oxford. Há sempre uma criança que se pode sacrificar para salvar os clássicos, como sabia Churchill. Com dramaturgo de outra família literária, o voluntarismo do neófito seria remetido para a gaveta das inanidades próprias da juventude. Mas ele soube jogar em terreno seguro e lá colheu as suas palmaditas nas costas.

Jogou aliás tão pelo seguro que usou para sofismar esse democraticamente odiado universo da performance teatral. Imagine-se que ele tinha dito, por exemplo, quando financiamos uma apresentação da 9.ª Sinfonia de um qualquer maestro que jura que Beethoven é património da humanidade e a sua interpretação deve ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vidaHaveria por certo chatice da próxima vez que o avô descesse à capital para a sua ida sazonal ao S. Carlos.
Ou imagine-se que Amorim se atrevia ainda mais, num acto de verdadeira rebeldia juvenil (hipótese meramente académica, já se sabe), e saía para outros campos semânticos: quando financiamos uma empresa que paga impostos na Holanda, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. Ou, já num assomo de loucura: quando financiamos pornograficamente prémios a gestores, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança para enriquecer uma classe não raro incompetente e criminosa que se julga incensada e merecedora de todo o dinheiro que nega aos outros é um preço demasiado elevado a pagar.

Mas não. Quem escreve no Observador não se atreve a boutades divertidas como estas. Os bons conservadores preferem piadas onde se bate sempre no ceguinho do Brecht (aliás felizmente já tão pouco habitual nos teatros quanto decerto o próprio Amorim Lopes).


*A prosa tem um contexto alegadamente racional que pode ser livremente aferido aqui: http://observador.pt/opiniao/quanto-vale-uma-vida/

João Miguel Tavares segrega pessoas de estatura mediana

Aborrecido com o hábito de ainda se confundir a direita com os ricos e a esquerda com os pobres (a quem ocorre tal coisa?), João Miguel Tavares resolveu introduzir um novo «eixo político» para separar as águas de forma mais democrática, digamos. Esse novo eixo dividiria o espectro político em «alto/baixo». Ouçamo-lo: 
«Neste novo “alto” poderíamos incluir tanto a habitual casta económica e política, como os detentores de privilégios corporativos, os burocratas que dificultam a livre iniciativa ou os especialistas na arte de fugir aos impostos; enquanto no novo “baixo” poderíamos colocar não só os pobres, mas também os reformados que se sentem espoliados, os jovens que nunca conseguiram um emprego, e todos aqueles que vêem a sua ascensão social dificultada pelas mais variadas redes de interesses que dominam os estados contemporâneos.»

Ora, a não ser que JMT reconheça que todas as pessoas honestas e boas são pobres (o que se diria uma surpresa na sua mundividência), esta nova divisão acrescenta a um novo maniqueísmo uma omissão ou um estigma. Um tipo que mantenha um emprego conseguido por mérito e não passe fome ou não existe no Portugal tavaresco ou é detentor de um privilégio corporativo, um burocrata que dificulta a livre iniciativa, enfim, um especialista na arte de fugir aos impostos. Acreditando que JMT não se vê a si mesmo como uma destas pessoas, temos de concluir que faz parte da habitual casta económica e política. Ou então é um pobre, já que não parece um dos reformados que se sentem espoliados nem um dos jovens que nunca conseguiram um emprego. A não ser, claro, que Tavares se sinta como um daqueles que vêem a sua ascensão social dificultada pelas mais variadas redes de interesses que dominam os estados contemporâneos e aí está tudo explicado, incluindo a sua divertida proposta taxonómica.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Objectos inúteis

Para elevar o ecrã do portátil ao nível dos olhos e tentar contrariar a marreca de horas a mais ao teclado, uso uma biografia de Mao Tsé-Tung, um volume sobre castelos e uma escalfeta velha. São três objectos que não me fazem falta. De crápulas sei já o suficiente. Para castelos deixei de ter posses. Contra o frio rasteiro calço uns eficazes peúgos de lã grossa e áspera. Este é, contudo, um pragmatismo diferente daquele que com alegria incauta erigiu a babélica torre sobre a secretária.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Densidade

Meio à procura de alienação fílmica, meio enganado pelas estrelinhas do Público (dois críticos, 4 estrelas, não li a sinopse), fui um destes dias ver Blackhat – Ameaça na Rede. Não é uma comédia, mas diverti-me como se estivesse a ver uma (o filme é mauzinho). A dada altura, numa homenagem ao mítico MacGyver, o protagonista improvisa armamento e equipamento de protecção pessoal. Para este fim, envolve os seus abdominais em revistas, e, num dos raros momentos sérios da noite, fiquei a pensar quão eficaz seria aquele colete improvisado contra balas e facas. Concluí que bastante, se se tratasse de revistas com artigos densos. Colectâneas de textos do Ministério da Educação, por exemplo. Impenetráveis.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

My own private blitz

A abóbada nocturna da cidade tem sido nos últimos tempos varrida por focos de luz, e honestamente não vejo que fosse absurdo dar por mim em certas noites de nevoeiro pacientemente à espera dos bombardeiros (quem nunca desejou a ira dos céus?), com aquele misto de fascínio pela sofisticação das máquinas e terror pelo que elas transportam no porão.
Sim, há nesta espécie de indagação metafísica de uns tantos LEDs a perscrutar futilmente a escuridão celeste uma longínqua evocação do Blitz londrino. Mas na verdade não são bombardeiros o que espero encontrar quando sigo o rasto de luz até ao seu desvanecimento. Também não é Deus. Nem sequer sentido (sei que há sentido em fazer a captação de clientes através de baterias de luz: a luz seduz e guia). O que busco no ponto onde a electricidade é devorada pela negrura são ovnis. Não exactamente porque mantenho a minha bagagem nerd (o que é verdade), mas porque, de tudo (bombardeios, Deus, sentido, orientação), um encontro imediato de terceiro grau, na sua imponderabilidade, nas suas possibilidades infinitas (o Universo é o limite), é a última coisa que guarda para mim uma promessa de fascínio. Não é assim tão patético, há quem seja religioso ou tenha uma ideologia ou um clube.


P.S. É avisadamente que os estabelecimentos não arriscam a piada de utilizar a marca de Batman nos seus focos de luz: poderiam atrair o tipo errado de noctívagos. Quem sabe, de todos os anjos vingadores que aguardam a sua vez nas trevas de uma cidade, quantos não se formaram com a DC Comics?

domingo, 11 de janeiro de 2015

Pássaro na gaiola

Está um frio de rachar e, submerso em camadas de vestuário de acordo com os receituários meteorológicos, ouço pássaros em plenos fôlego e inspiração melódica. Não duvido da minha sanidade, mas pelo sim pelo não encosto os phones à orelha para checkar: no meio de tantas páginas abertas para os trabalhos de hoje alguma terá talvez música de fundo ornitológica. Porém, não. Os pássaros não esperam por padecer da nostalgia de ar livre (mesmo que siberiano) e do consequente impulso que senti há pouco quando me permiti espreitar a janela por segundos. Os pássaros recusam-se à ladainha humana de ser domingo e ter de trabalhar e ficar meses sem passear pelos montes. Os pássaros voam assobiando ou assobiam voando, e que se foda a vidinha responsável e burguesa! Onde raios pus as minhas asas e o diapasão?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Não, não sou Charlie Hebdo

Durante uma boa parte da minha vida adulta escrevi textos críticos e satíricos de pendor social ou político. Antes tinha feito cartoon (é verdade), primeiro como argumentista, depois, por desistência do parceiro, também como desenhador. Não eram grande coisa, os meus cartoons, tanto no traço como no humor. Embora aquilo me desse bastante gozo, não sei se haverá algum por que possa sentir qualquer ponta de orgulho. Guardo parte deles na garagem, mas há mais de uma dúzia de anos que não lhes toco. Quando o fizer, provavelmente o papel de jornal desfaz-se-me nas mãos e não me parece triste nem injusto que isso aconteça. Inicialmente assinava-os com pseudónimo, mais por timidez e insegurança (ou por consciência não assumida da sua mediocridade) do que por receio de represálias. Mas em algum momento devo ter percebido (finalmente) que, medíocres ou não, era cobardia não assinar os desenhecos e passei a fazê-lo. O mundo, acertadamente, não se comoveu com o gesto, a Terra não alterou a sua órbita.
Quando passei para as colunas de opinião, em publicações próprias ou alheias, a ironia e a irrisão acentuaram-se. Ganhei os meus primeiros inimigos para a vida, mas quase todos inimigos cordiais e até afáveis, devo dizê-lo.
Por ocasião do III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, se não estou em erro, escrevi para o extinto Semanário Transmontano, onde era na altura cronista regular, um texto a ridicularizar sarcasticamente o evento e as suas pretensões e o director resolveu publicá-lo em letra gorda na primeira página. O jornal foi distribuído no Congresso e eu resolvi aparecer no local, com suposta heroicidade, para dar a cara pelas minhas palavras (ou talvez deva dizer honestamente, para recolher os louros pela boutade). De novo com justiça, a nata transmontana ali reunida não deu pela minha presença: não houve vaias, assobios, ameaças à integridade do escriba petulante e traidor. Só o meu ego saiu ferido.
De resto, tirando ocasionais reacções frouxas, a minha intervenção cívica através da crítica e da sátira pareceu-se demasiado a um passeio bucólico pelos bosques. Só a espaços senti ter despertado algum ódio atávico, geralmente vertido em colunitas azedas, algumas convenientemente anónimas, e apenas em duas ocasiões as reacções ao que escrevi traziam implícitas ameaças de consequências. Numa noite de vitória eleitoral de uma facção que eu satirizara nas minhas crónicas, um militante mais eufórico ofereceu-me o seu olhar de pura raiva hooligan e perdigotou palavras de exemplares democraticidade e fair play (confirmando, aliás, involuntariamente, o que eu escrevera sobre a seita, mas isso ele jamais poderia perceber). Pela mesma época, certo figurão resolveu informar uma audiência (não apenas privada, infelizmente para a sua honra) que os meus escritos eram razões suficientes para ele mexer cordelinhos e conduzir-me ao desemprego. Deve ter-se sobrestimado ou arrependido, porque continuei empregado.

É por este triste currículo que me sinto obrigado a confessar ter sentido uma certa vergonha a acompanhar a minha comoção com a morte dos cartoonistas e jornalistas do Charlie Hebdo. A afirmação Je Suis Charlie que pus como foto de perfil no Facebook é sincera na sua solidariedade, mas é simultaneamente cabotina, equívoca. Não, não sou Charlie. Eu não tenho a bravura, a grandeza daqueles homens. Eu não escrevo textos nem faço desenhos corajosos como os daquelas pessoas que morreram em Paris. Eu não vivo a um passo da ameaça terrorista. As minhas actividades e as minhas opiniões não me expõem a perigos quotidianos potencialmente fatais. Poderia passar os dias, aqui neste canto da periferia europeia, a republicar cartoons sobre cretinos e fanáticos muçulmanos, católicos, judeus, hindus e nacionalistas e provavelmente morrer de velhice, cirrose ou de um AVC — não com balas ou bombas.
Mas sobretudo não sou Charlie porque com os anos tenho demasiadas vezes cedido à inércia e à preguiça e deixado de me rir — rir ironicamente, sarcasticamente, ferozmente, acintosamente, publicamente — das pequenas iniquidades e dos pequenos ayatollahs que neste país também frutificam. A minha resolução de ano novo deveria ser a de voltar a rir às gargalhadas com certa regularidade. Enquanto isso não acontecer, vou ali trocar a foto do Facebook por uma igualmente solidária mas menos pretensiosa.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O último acto

[Já agora, que diabos, fica aqui em nova versão o contito referido no post anterior.]

Mudara-se para as montanhas no início da semana com o objectivo de passar o Verão. Não tinha exactamente um projecto a que se entregar, nada mais do que uma mala cheia de livros e a necessidade absoluta de não ver ninguém, ninguém conhecido, pelo menos.
Escolheu uma vila pequena sem outros atractivos além de uma paisagem discreta e um festivalzinho de música clássica num fim-de-semana de Agosto (reparar no festival fora uma cedência de que esperava não se vir a arrepender). Alugou por oito semanas o bungalow com uma lareira e um alpendre virado para um vale profundo. Ficava nos arredores da povoação e fora o único a ser erigido de um complexo turístico falhado.
A cabana não estava nas melhores condições, era frágil, em madeira, mas tinha conforto suficiente, mais do que muitas casas nas redondezas. Usaria o alpendre tanto quanto possível. Quando não estivesse ali sentada a ler os seus livros andaria a tentar perder-se pelos montes ou teria ido fazer as refeições à vila, guardando-se de fazer amizades. Por uma vez na vida, estava-se nas tintas para a educação ou para a cordialidade. Seria a velha antipática e egoísta que tinha o direito de ser.
Bem, talvez não tivesse esse direito. Não tinha sido exactamente o melhor dos seres humanos. Mas, que diabo, quem poderia atirar a primeira pedra? Não havia seres humanos bons e ela queria mesmo que se fodessem todos (estava velha e com um diagnóstico de senilidade galopante, podia, finalmente, usar o verbo foder).
No terceiro dia começou a nevar. Estava a tarde a meio e ela apenas se deu ao trabalho de achar ridículo nevar em pleno Verão, com aquele calor. De todo o modo, era-lhe indiferente. A lareira estava funcional, caso a temperatura baixasse, e havia lenha nas traseiras do bungalow. Além do mais, teria a sua desculpa: escusava de se censurar por ficar em casa em vez de ir caminhar pelas redondezas. Gostava do exercício físico — tivera sempre o culto do corpo, do movimento, fora bailarina —, mas agora já não via o mesmo interesse nisso.
O crepúsculo foi belo, teve de admitir. Duas forças em oposição: a noite que caía e a neve que teimava em manter os campos e os montes iluminados. Assistiu ao combate de rosto colado na janela e livro esquecido nas mãos. A noite ganhou, naturalmente, mas não foi uma vitória completa: não havia trevas, apenas uma penumbra que permitia ver muito mais do que os contornos das coisas. Ao redor da cabana estava até bem claro, como uma noite de filme. O branco da neve reflectia a luz eléctrica e a luz das estrelas, transformando a envolvência num décor de estúdio.
Então eles chegaram. Não se moviam como pessoas normais. Vinham acometidos de convulsões, como que afectados por danos neurológicos, tropeçando, caindo e levantando-se quais robots inadaptados ao terreno. Na aparência eram humanos, mas diferenciavam-se pelos movimentos, pela postura estranha do corpo, pela maneira impossível como mexiam e dispunham os membros.
Marionetas animadas, deu consigo a pensar. Alguns pareciam querer aproveitar a neve para deslizar. Outros simplesmente tombavam a cada dois passos, com violência. Levantavam-se de imediato, dir-se-ia que impulsionados por molas, para voltarem a cair no passo seguinte. Depois já nem tinham o trabalho de se levantarem, simplesmente saltavam no chão com o corpo na horizontal, em estertores de gatos atropelados, acrobáticos, conseguindo progredir no terreno desta forma.
Não era absurdo ver uma intenção coreográfica naquilo tudo. Pelo menos ela achava que era esse o espírito que animava os visitantes. Talvez porque não estava disposta a ceder ao pânico fácil e estereotipado de se imaginar na presença de uma dúzia de mortos-vivos.
No momento seguinte eles levantaram-se e juntaram-se em círculo, com os braços nos ombros uns dos outros, como uma equipa de râguebi disforme. Segredavam e parecia ouvir-se uma música alusiva à conspiração (de certeza o vento, que entretanto chegara). Fechou o livro e apagou a luz. Apetecia-lhe desfrutar aquilo intensamente — e ao mesmo tempo sentiu que era esse o gesto que se esperava dela, como se tudo naquela noite obedecesse a um guião.
E agora parecia que uma bomba rebentara no meio do conciliábulo lá fora: cada corpo foi projectado para um lado e os primeiros a conseguirem levantar-se tiveram uma reacção estranha: correram a atirar-se repetidamente contra a cabana.
Achou que devia abrir a porta — aquelas pessoas procuravam desesperadamente abrigo, por certo —, mas alguma coisa a fez permanecer à janela, a espreitar. Talvez eles desejassem, na verdade, derrubar-lhe a casa, fazê-la cair sobre a inquilina, sepultando-a viva. Era uma ideia terrível. Contudo, estava a ter prazer em observar a violência com que os visitantes se atiravam contra a casa, a forma coordenada, bela e perturbante como o faziam. Eram impactos de uma bizarria que assentava na violência e na invulnerabilidade de que pareciam beneficiar os atacantes. Daquele assalto não resultavam danos físicos para eles. Era possível sentir a força a que era submetida a estrutura de madeira da cabana a cada investida, mas não havia lesões ou queixumes.
O ataque obedecia a um padrão que ela esteve quase a decifrar, só que acabou por perder o fio ao raciocínio. Acontecia-lhe com crescente frequência. Estava velha, talvez com Alzheimer, não havia nada a fazer.
Um dos visitantes começou a mexer-se freneticamente, possuído por um demónio ou tomado por um feroz ataque epiléptico. Pareceram-lhe familiares, a pessoa e os movimentos. Era um homem jovem, de etnia oriental, e fazia coisas assombrosas com o corpo. Tinha a capacidade de o metamorfosear, dava-lhe novas formas e dimensões. Esticava-se e parecia uma pessoa alta, de longos membros, ou encolhia-se até ao chão e não era mais do que um pequeno monte de roupa enrugada sem nada dentro. Erguia-se de novo como uma pessoa franzina, pouco mais do que um cadáver emagrecido, e no momento seguinte ficava largo de ombros, os músculos recortados e imponentes. Dir-se-ia um daqueles bailarinos acrobáticos de que em tempos gostara tanto.
De súbito, o oriental esmagou o rosto contra a vidraça (sem a partir) e ela, com um susto, julgou reconhecer-lhe a cara. Não lhe faltaria mais nada, pensou, tanto trabalho para conseguir um Verão só para si e agora ter conhecidos a tentarem derrubar-lhe a cabana... Seria patética, se não fosse trágica, a ameaça de companhia.
Estava a tentar concentrar-se nas razões que levariam um grupo de desconhecidos (insistia em considerar que o eram) a encetar um ataque daquele género quando todos lá fora se imobilizaram, fixando um ponto qualquer para lá do círculo da luz branca artificial que rodeava o bungalow. Não falavam, mas o seu olhar dizia tudo: o inominável, nada menos do que isso. Ouviam-se passos pesados e uma música tensa.
Após alguns instantes fustigados pelo vento, um velho, mais aturdido do que ameaçador, atravessou a neve pisada do quintal. Passou em silêncio pelo grupo petrificado e veio postar-se de joelhos à frente da janela, no rosto uma expressão de súplica. Parecia-se de forma assombrosa com alguém que ela conhecera intimamente, amorosamente. E se era quem parecia, esta era então uma visita do além.
Aquele homem já não existia. Tanto quanto ela conseguia raciocinar, não devia estar ali, não podia estar ali. Teve um suspiro de enfado e deixou-se cair no sofá. Pior do que a visita de conhecidos era a visita de conhecidos mortos.
Olhou à sua volta, incomodada com a farsa. A cabana parecia parte de um cenário, as estrelas projectores num palco.
Uma voz sussurrou-lhe no interior da cabeça, como um ponto a segredar-lhe as deixas, e ela sobressaltou-se. A voz dizia-lhe: «Maria, agora sais da cabana e abraça-lo.»
Que demónios significava isto? Que epifania absurda era esta? Quem lhe falava? Que divindade não invocada lhe dava ordens? Tentou abafar aqueles murmúrios tapando os ouvidos com as mãos e nesse momento percebeu que tinha um auricular enfiado numa das orelhas.


[Inspirado em "32 Rue Vandenbranden", de Peeping Tom]

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Peeping Tom

Já me tinha acometido a sugestão de um conto a partir de um espectáculo de Peeping Tom, mas planear férias em função da agenda da companhia belga era a primeira vez. A dança contemporânea (no caso, o termo mais apropriado é tanztheater, até se quisermos evocar o ascendente de Pina Bausch) parece-me uma óptima bússola para os dias. Do mesmo modo que alguns guiam os seus passos pelos signos, pelo tarot ou pelo calendário futebolístico, se eu tivesse o tempo e o dinheiro orientaria hoje o meu quotidiano totalmente em função de certas tournées. Seria com imenso prazer e sem medo do ridículo uma espécie de groupie das grandes (e boas) companhias.

Não teria uma vida aborrecida ou pacata. Apesar da crise e da bruteza de uma boa parte dos dirigentes europeus, a oferta é muita. Um tipo (com dinheiro e tempo) ainda pode passar os seus dias de malas aviadas entre aeroportos, estações e hotéis, numa digressão que tem a vantagem de ser simultaneamente um roteiro por cidades interessantes. Só na pequena Bélgica, e para a produção mais recente da companhia, as opções eram Bruxelas, Antuérpia, Genk, Namur, Bruges ou Lovaina.

Nem sempre parece fácil transmitir ou explicar este interesse. Dir-se-ia que o gosto do cidadão médio europeu está demasiado cercado pela estreiteza medíocre dos media para se se sentir autorizado a curiosidades ou extravagâncias.

Naquela noite em Bruxelas, as nossas guias da cidade acompanhavam-nos em parte talvez por delicadeza de anfitrião — não tinham o hábito de ir ao KVS, e Peeping Tom era novidade. Mas a suposta sensatez de as prevenirmos contra alguma estranheza que pudessem vir a presenciar era na verdade uma cedência ao preconceito e à condescendência: não houve distinção entre o nosso entusiasmo e o entusiasmo delas no final da peça simultaneamente perturbadora, terna e cómica que é “Vader”. Devíamos saber: não é necessário ter visto outras produções da companhia (ou sequer ser iniciado no género) para a apreciar. Basta ter a inteligência e a sensibilidade activadas.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia

Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.

Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.

(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Mademoiselle Marcelle La Pompe, aliás, Renée Dunan

A realidade pode ser ainda mais truculenta e divertida do que já achávamos. Alertam-me que o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle La Pompe», que me serviu há dias para prosa a armar, é na verdade obra de Renée Dunan, escritora, crítica, poeta, anarquista, dadaísta e feminista francesa que provavelmente emparelhou com alguma da clientela surrealista do café La Fleur en Papier Doré. Marcelle La Pompe era apenas um dos seus vários pseudónimos.
(Devia saber que os meus dois vagos anos lectivos de francês não me autorizavam hermenêutica deste calibre.)

Alguns links úteis:
http://lenaweb.voila.net/Dunan/Reneee_Dunan01.jpg

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

E-musas

Uma vez escrevi em directo no blogue, durante semanas, um conto longo que em boa parte se inspirava na persona de PJ Harvey de alguns vídeos e tinha como banda sonora obsessiva um outro vídeo com uma música igualmente obsessiva de Radiohead — “Street Spirit (Fade Out)”. Lembrei-me disto enquanto imaginava a vida de escritor na Antiguidade Clássica: uma actividade dura, sem o YouTube e sem essa invenção fundamental que é o loop.
A estatuária grega, falando de musas, tinha a vantagem (também táctil) dos volumes, uma tridimensionalidade que o YouTube ainda não tem, mas faltava-lhe o movimento, e seria necessária uma sucessão de estátuas para cobrir toda a expressividade do rosto de PJ: a inocência e a perversidade, a candura e a dureza, a melancolia e a violência. Retratá-la seria trabalho para toda uma guilda medieval. Já manter uma trupe dias a fio a tocar a mesma música sairia caro em broa e vinho, algo que a electrónica nos poupa.
O progresso não é só máquinas a substituir caixas de supermercado e portageiros nas auto-estradas. É dar-nos acesso às musas de uma forma que antes só era possível a gente com dinheiro ou imaginação.

sábado, 13 de dezembro de 2014

O primeiro murro e os seguintes

«Não visitei o quarto senão quando o Hotel era uma ruína sem ponta de nobreza, disse eu a Leonardo. Não que eu concordasse que nobreza teria sido um termo adequado para caracterizar aquele edifício, pese embora o facto de alguma nobreza nacional ter em tempos ali pernoitado. Mas a decadência tem o poder de exaltar o que a antecede, disse eu, e nas madeiras apodrecidas, nas paredes esburacadas, no mobiliário despedaçado podia imaginar-se um luxo ou pelo menos uma distinção maior do que aquela que na verdade existira.
Durante muito tempo não soube que intuição me levara àquele exacto compartimento e depois descobri que a intuição nada tinha a ver com o assunto. Em 1998 eram ainda visíveis as marcas claras dos calendários na parede (ou eu imaginei que aquilo eram marcas de calendários) e o crucifixo de madeira preta permanecia, tutelar, na parede onde se encostara a cabeceira da cama. Depois o Hotel do Norte foi demolido e o espaço que ele ocupava no chão entretanto nivelado era ridiculamente pequeno, parecia impossível que naquela reduzida clareira do Parque pudesse ter existido semelhante edifício e que por ele tivessem passado tantas épocas e tantas vidas.
Leonardo permanecia atónito depois da nossa aventura no clube de jazz. Tínhamo-nos escapado sem qualquer problema, mas abandonáramos o corpo inanimado de Octávio e eu sabia que isso iria pesar na consciência dele, mesmo que nos tivéssemos certificado, à distância, como malfeitores compassivos ou arrependidos, de que os amigos dele o tinham enfiado numa ambulância não muito depois da minha agressão.
Ter imaginado que estes acontecimentos me iriam deixar sem interlocutor (que importância tinha a minha história perante a enormidade daquilo que Leonardo e eu fizéramos?, era isto que Leonardo estaria a pensar naquele momento) fez-me desejar acelerar o relato, saltar etapas, chegar ao seu término, mas logo percebi que era uma coisa estúpida de fazer. Aquilo não podia ser varrido para debaixo do tapete, ignorado como mais um incidente numa noite excessiva de copos, nem sequer sepultado debaixo da torrente de revelações que eu reservara para Leonardo naqueles últimos dias, dez anos depois da minha primeira partida. Ele olhava para mim e — eu percebia — continuava a ver-me erguer o postalete e a fazê-lo descer sobre a cabeça de Octávio, felizmente sem usar a circunferência aguçada da base. Se fosse um dos seus próprios pacientes, Leonardo ter-se-ia aconselhado a afastar-se de mim, pelo menos enquanto não conseguisse ultrapassar o trauma, resolver o impasse existencial, moral, em que se afundara. Mas eu não era apenas parte do problema, ou nem sequer era o problema. Leonardo precisava de mim para se ver a si próprio a perder o juízo. Eu era o espelho, era mais fácil ver-se reflectido em mim de navalha na mão prestes a consumar uma loucura. Se tivesse de pensar sobre isto a sós — o que decerto também faria: à noite, na cama; durante a curta viagem de carro para o consultório; nos únicos momentos em que eu o deixava sozinho —, talvez não tivesse coragem de o fazer, pelo menos não profundamente, não tão cedo, não sem se socorrer de uma boa dose de whisky. A minha presença solicitava o que de racional e profissional havia nele, mesmo que desta vez a vocação tivesse de ser posta ao serviço da sua auto-análise.
Eu queria ajudá-lo forçando a normalidade. Estava de regresso à cidade para lhe contar a minha história e era isso que iria fazer, já que nada tinha acontecido — queria eu que parecesse, queria eu que fosse verdade — que impusesse uma mudança de planos. Mas daquela noite em diante tivemos de lidar também com a presença opressora dos fantasmas de Leonardo, que disputavam aos meus o espaço sofisticado do seu gabinete, ou todos os outros sítios por onde andámos.

A primeira vez que desejei enfiar um murro na cara de alguém, disse eu a Leonardo, não estava convencido, por razões físicas e morais, de que o podia fazer. Ignorava a extensão da minha força por nunca a ter verdadeiramente posto à prova e inibia-me o excesso de doutrina católica. Temia que um murro não fosse suficiente e eu não fosse capaz de sustentar a briga ulterior, mas temia ainda mais que o Céu estivesse de facto a observar-me e fosse testemunha da minha iniquidade. Fingia então indiferença, superioridade, desprezo. Passei a fazê-lo com demasiada frequência, ignorando o quanto era acreditado naquele meu papel (embora, no íntimo, supusesse que pouco: não poderia transmitir esses sentimentos, ou a ausência de sentimentos, uma vez que o que sentia era raiva, impotência, desejo de vingança). Eu lia algures que uma pessoa podia transmitir beleza, se se sentisse bela, ou confiança, se se sentisse confiante. O carisma, recitava de cor depois de ter lido, era algo químico, como o odor que os cães pressentem quando não conseguimos conter o medo. Mas eu sentia medo e raiva e ressentimento, como poderiam os outros ignorá-lo? Não agredia a murro todos aqueles que injustamente me incomodavam — o preto era também um medroso —, mas os meus pensamentos apresentavam um currículo de serial killer, ou pelo menos de alguém demasiado violento, incapaz de conter a cólera. Foi a consciência de que, para todos os efeitos, eu era um pecador, que me era impossível não transgredir em pensamentos e, consequentemente, impossível evitar o Inferno, que me fez entrar numa nova etapa da minha vida. A lógica infantil moldada pela catequese salvou-me, embora não da maneira que os catequistas desejariam. Convenci-me, por volta dos doze anos, de que era um pecador reincidente e que não tinha grandeza bastante para a redenção, já que não conseguia arrepender-me de cada maldade que pensava. Se havia uma paridade entre os actos e os pensamentos, por que me continha eu?
Quando a ocasião se proporcionou de novo, disse eu a um Leonardo enfraquecido mas ainda capaz de atenção, tinha-me livrado do obstáculo moral e desenvolvera uma estratégia para evitar a briga que consistia em dar o primeiro murro — e dar também todos os seguintes, numa sucessão e ritmo que imobilizasse o adversário antes de ele ter tempo de reagir e notar que era mais forte. Jogávamos futebol. Ou jogavam os outros, e eu limitava-me a sonhar que em algum momento poderia ser chamado a substituir um dos da nossa equipa (fazia figas para que alguém se aleijasse o suficiente para ter de sair do campo). Estava de pé junto à linha imaginária que delimitava a área de jogo quando um rapaz mais velho, que não jogava, se aproximou pelas costas e me puxou os calções até aos joelhos, perdido de riso e a gritar para as raparigas que assistiam envergonhadas se era verdade ou não que também a minha pila era preta.
Por segundos que me pareceram eternos, fiquei ali com os calções em baixo a sentir a maior humilhação da minha vida. Depois, baixei-me para os puxar para cima e com o mesmo movimento apanhei um pau do chão e atirei-me com ele para cima do tipo que me fizera aquilo. Não parei de lhe bater enquanto não houve sangue e quando terminei já não sentia raiva nem sentia nada. À minha volta todos estavam parados a olhar, sem decidirem o que fazer. Eu tinha sido o ofendido, era meu direito retaliar, mas na sua apatia eles pareciam buscar uma razão para se lançarem em grupo sobre mim. Abandonei no mesmo momento o jogo em que não participara e abandonei a obsessão em sentir-me injustiçado, rejeitado. Dali em diante seria verdadeiramente capaz da indiferença, do desprezo, não raro da superioridade. Passei por eles como numa despedida, a aguentar os seus olhares confusos e nervosos, vazio de sentimentos e estados de espírito.
Terminei a história sem convicção, não estava convencido de que as coisas se tinham passado assim, de que aquele tinha sido um momento inaugural ou sequer que tivesse existido. Por vezes, imaginava a minha biografia, ou alguns episódios dela, como uma ficção que eu próprio reescrevia de acordo com uma disposição posterior. Leonardo deve ter percebido esta hesitação e interpretou-a como se eu estivesse a tentar algo para o confortar, a inventar uma parábola, uma coisa que relativizasse o seu acto e lhe apontasse pistas sobre como lidar com ele e com o futuro, se acaso Octávio recuperasse com vontade de continuar a sua saga importunadora. Talvez fosse assim de facto, talvez esta história não fizesse parte da narrativa inicial que eu tinha para Leonardo e a tivesse inventado no momento, para ele e para mim, como uma forma de lhe ser útil.»

in Hotel do Norte

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Catalogue des prix d’amour

[O senhor flagrado não é Paul Nougé, apesar do ar satisfeito]

Mosquitos em Bruxelas parecia-me um contra senso, imaginando-os bichos eminentemente meridionais ou amigos de ambientes de gente pobre. Mas quando me começaram a cair no copo lembrei-me que sou pobre e meridional. Não, não foi isso. Quando passei a usar a vetusta base de copos como tampa contra os dípteros kamikazes, tomei consciência do sítio onde estava: La Fleur en Papier Doré (Het Goudblommeke in Papier para os amigos flamengos), um café que respeita o seu ilustre passado mantendo, quase sem a espanar, a decoração original. A Flor em Papel Dourado é um estaminet fundado em 1366, mas não creio que houvesse nenhum mosquito dessa colheita. Os que partilharam comigo o cabernet e mais tarde nadaram nos meus sucos gástricos deveriam ser do tempo da última remodelação do botequim, acontecida, diria, na transição de oitocentos para novecentos. Gosto de sítios assim, com verdadeira história. E se tomasse notas no meu moleskine (ou, menos romanticamente, usasse a câmara do telemóvel), poderia hoje reproduzir na íntegra, poupando o trabalho de inventar tema e coerência para um post, a piéce de résistance das antiquarias que enfeitam, emolduradas, amareladas e empoeiradas, as paredes da casa. Refiro-me ao tarifário de um prostíbulo, de 1915.
Não me parece que o nome do café derive deste dístico utilitário, mas podia: o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle Lapompe”1 é um belo documento histórico em papel dourado pelo tempo. E a flor… vocês sabem.
A informação disponível no café refere que Magritte e os surrealistas belgas passavam ali os dias, e acredito que eles tenham reparado, como eu, que chez Marcelle Lapompe2 havia descontos se o cliente não precisasse de luz (já a vela custava 15 cêntimos). Talvez, pensando bem, o tarifário tenha sido esquecido ali por um dos surrealistas, depois de o ter consultado disfarçadamente no meio de um exemplar que fingia ler de L’Amour Fou, do condiscípulo francês. Ou, quem sabe, o papelito comprometedor caiu do bolso de um Paul Nougé vindo de se ter feito “glouglouter le poireau”3, depois de “faire sucer une pastille de menthe a l’opératrice”. Tudo é possível (refiro-me à cronologia): o tarifário diz que “anula todos os precedentes”, mas pode ter vigorado nas décadas seguintes (é consultar a inflação da época).
A tabela de Mademoiselle Lapompe — que eu mesmo que tivesse tomado notas na verdade não citaria, por pudor — é simultaneamente um documento de grande objectividade e um catálogo de metáforas e eufemismos de 1915 para essa outra metáfora e esse eufemismo intemporal que é o “amor”.

Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.

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1 Ok, fui pesquisar na Internet, comprovando de passagem a minha teoria de que hoje não é preciso levar máquina fotográfica para as viagens, alguém já tirou as fotografias de que precisamos.
2 Na Rue du Chant-Noir, número, adivinharam, 69.
3 Pardon my french.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A necessidade de flanar

Algumas ruas aqui em volta fazem-me por estes dias lembrar Roma, a caminho do Trastevere. Nada nas ruas sem Tibre nem classicismo desta cidade se parece a Roma, excepto as coloridas folhas de plátano coladas ao chão pela chuva. Mas é de Roma que me lembro ao contemplar o que o Outono fez às folhas. O que me teria sucedido de interessante ali, se descontarmos estar desobrigado de horários e compromissos?
O caminhar à noite pela margem esquerda do rio, indagando abstraidamente a corrente rápida e acastanhada, o cruzar a Ponte Fabricio com vaga e preguiçosa curiosidade estética e histórica não estavam balizados por nenhum prazo ou ânsia, não tinham nenhum objectivo que não fosse descobrir algures, sem urgência, uma taberna simpática com preços módicos. E percebo que é isso o que de importante me aconteceu em Roma. Isso, essa suspensão do tempo, do trabalho, da existência social mesmo que misantropa, esse interlúdio da vida quotidiana que deambular por uma cidade estrangeira pode significar.
Há um prazer, uma leveza, um sentimento de eternidade quando se vagueia por uma cidade sem pressa nem destino nem desejos nem gente conhecida. Não é talvez de Roma que me lembro, mas de flanar por uma cidade atapetada de folhas no fim do Outono. Não é de Roma que tenho saudades (que patético seria reclamar-me saudoso de uma capital de fim-de-semana), mas daquela versão de mim que não tinha agenda.

Descubro que sou, por aspiração (e julgo que natureza íntima), uma espécie de flâneur. Um flâneur rústico, pelo menos provinciano, mas um flâneur. Fui-o quando saía de fim-de-semana da tropa e tinha de queimar horas entre estações de Lisboa ou do Porto. Fui, então, um flâneur do Cais do Sodré a Santa Apolónia, de S. Bento a Campanhã, fazendo grandes desvios pré-baudelerianos (no sentido de inconscientes de si), preferindo calcorrear horas a fio as cidades do que passar o tempo de espera em bancos frios e sujos de apeadeiro ou em cafés para cuja cerveja não tinha dinheiro. Fui um flâneur à maneira torguiana (figura que, contudo, me não desperta interesse), pisando em todas as oportunidades o saibro dos caminhos e escalando as rochas dos montes. Fui, a espaços, com certa pretensão walterbenjaminiana, digamos, um flâneur à medida das pequenas terras onde vivi ou procurando erguer-me ao tamanho de algumas das que visitava.

Mas só hoje, ao regressar a casa e aos deveres, ao olhar com nostalgia este tapete de folhas nesta terra que não é Roma, percebo mais intensamente que a felicidade talvez seja não aceitar na vida mais do que solas de sapatos e bilhetes low cost.

Algo que na verdade já devia ter intuído quando em Bruxelas me pus, não sem embaraço, — como aqueles fãs que vão a Paris visitar o túmulo de Jim Morrison — à procura dos sítios por onde andou o narrador flanante de Cidade Aberta, de Teju Cole. Não era uma emulação ou uma excentricidade constrangedora das que por vezes me assolam — era uma acusação e um apelo dirigidos a mim mesmo.