segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Saído do nevoeiro II
Entretanto chega um outro tipo ao balcão, sem mistérios nem sugestões.
Um daqueles que se limitam a pedir mais um fino e a fechar os olhos em frente a
ele, cabeceando sem ambiguidades, saindo depois em ziguezagues e cantarolando
baixinho uma canção pimba de desencontros amorosos ou, premonitoriamente, de tragédias
na auto-estrada.
Saído do nevoeiro
O termómetro ameaça com zero graus. A neblina começa por sitiar a
cidade barrando os flancos poente e nascente e depois sobe dos rios e encobre
as ruas. Ele entra no estabelecimento para fugir do frio nocturno — percebe-se
ao cabo de uns segundos —, mas as suas roupas, as suas barbas e o seu cabelo (negros)
não estão suficientemente desalinhados para que o classifiquemos sem dúvidas como um
sem-abrigo. Ou, como é mais usado por aqui, um «bêbado».
Varre o interior com um olhar que não implora nem acusa e senta-se numa
das duas mesas livres à entrada, debaixo do plasma que transmite o jogo da
noite. De mãos nos bolsos do casaco, fixa o tampo de fórmica e recolhe-se como
um monge que meditasse e aguardasse digna e pacientemente a distribuição do
caldo. Por acção da temperatura agradável da sala o seu corpo amolece, inclina-se,
a cabeça vai descendo de encontro à mesa. Não como se cabeceasse à lareira: é
um movimento lento mas contínuo, sem recuos ou estremeções. Os taxistas e
outros habitués do café vão fazendo
no intervalo das jogadas apostas sobre se chegará a bater ou não com o nariz na
mesa. Não lhes ocorrem outras ideias sobre a personagem que saiu do nevoeiro.
Apenas a chalaça indiscreta, sobranceira, pueril. O empregado que passa dá uma
palmada na mesa para o acordar e avisar que a mesa faz falta.
De súbito, um cliente avança de uma posição discreta no balcão e com
modos suaves pergunta-lhe se quer uma sopa. Ele não reage com indignação
ressentida, fermentada a álcool, nem fica humildemente agradecido. Estremunha
um pouco e depois informa em voz baixa, neutra, que preferia um prato de
batatas fritas. Os taxistas mantêm um olho indeciso no plasma e outro nas
barbas do Rasputine. O cliente anui com naturalidade, batatas fritas é uma
opção nutricional como outra qualquer.
Daquele momento em diante, o homem saído do nevoeiro é também um
cliente, mesmo que a expensas de outrem, e o empregado age em consonância. Abandona
os modos paternalistas e censórios, traz-lhe uma toalha de papel, talheres e
guardanapo. Parece até afectuoso, talvez contagiado pelo gesto do cliente anónimo,
que entretanto retomou sem considerandos o seu lugar na linha que do balcão assiste
ao Estoril-Benfica.
Mais alguém se sentiu contagiado ou achou que faltava naquela mesa
acompanhamento líquido e uma taça de vinho tinto é servida, sem gracejos nem moralismos.
O das barbas come as batatas e bebe o vinho. Não procura colocar o copo a jeito
de um encore, ainda que decerto lhe
não caísse mal. No fim, limpa-se minuciosamente com o guardanapo e, sem
palavras nem emoções aparentes, mendigo de passagem ou incógnito Rei Artur
regressado da Cruzadas, volta com dorida fleuma para o nevoeiro de onde saiu.
Estranhamente, cá dentro ninguém fica a discutir a lata do indigente ou
a identidade do nobre, e não sei se deva atribuir isso ao nevoeiro se a mais um
golo do Benfica.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Diário de fim-de-ano (5)
Autocarros
Na verdade, não posso censurar a senhora do casaco de peles que
protagoniza a entrada anterior deste diário. O meu próprio rabo está longe de
apreciar a ideia de se fazer transportar em autocarro. Desde que há vinte anos,
durante quinze meses, fui cliente demasiado assíduo das rodoviárias nacionais, ganhei
uma profunda aversão a essa forma de viajar, embora lhe reconheça as virtudes
ecológicas. Na altura era um assalariado do Exército, e os vinte e cinco contos
que recebia não davam para passagens de avião (que também não estavam
disponíveis, de qualquer modo).
Quando se é militar, dorme-se em qualquer lado e em qualquer posição, diz
a lenda, mas eu era um militar pouco convicto e o meu sono era demasiado leve e
cheio de pesadelos. As viagens à sexta e ao domingo eram para mim horas de
tortura, incluindo a tortura do sono. Tanto que ficar de serviço ao
fim-de-semana significava um alívio que estupidamente não reconhecia. O
Exército obrigava-me a fazer muitas coisas, mas não a ir a casa nas folgas. E
até me dava de comer se eu decidisse passar o sábado e o domingo no quartel.
Mas eu achava que gastar metade do tempo em viagens horríveis e à espera de
ligações ferroviárias e rodoviárias que demoravam eternidades me faria esquecer
as agruras da vida militar. Não fazia. Fazia-me enjoar e estourar o pré em
cerveja (e bifanas, nas raras vezes que sobrava dinheiro para comida).
De maneira que andei duas décadas a fugir de autocarros. (Não ganhei a
mesma aversão ao comboio, talvez porque só os autocarros me davam aquele vago
mas garantido enjoo, que permanecia horas depois da viagem.) Quando há três ou
quatro anos uma viagem para o Vietname implicava ir na Rede de Expressos até
Madrid, não fiquei triste por o motorista se ter esquecido de nós numa deserta
paragem do Alentejo à meia-noite. Parecia-me até haver uma certa lógica
naquilo. Eu não gostava de autocarros; eles retribuíam a animosidade deixando-me
apeado. Tendo em consequência viajado de carro, com todas as despesas pagas, incluindo
o parque de estacionamento durante quinze dias em Madrid-Barajas, senti-me a
enganar a empresa transportadora. Não era só a estupefacção por uma empresa
nacional assumir de pronto e voluntariamente um erro e decidir em tempo útil
medidas práticas e compensatórias para o cliente apeado; era uma sensação de
culpa, como se eu tivesse planeado aquilo tudo para conseguir fazer com que a
viagem de carro fosse uma inevitabilidade paga pela Rede de Expressos.
De lá para cá, mérito da troika e do Governo, tenho recorrido ao
autocarro mais vezes do que as que desejaria — terminando sempre com o mesmo velho
enjoo. Animo-me contando as páginas que leio em cada viagem e que não leria se
viajasse de carro. Ou pensando na investigação antropológica e literária que
oito ou nove horas em autocarros permitem.
Permitem alguma, reconheço. (Mas não tão confortável quanto viajar o mesmo
número de horas ou o dobro num autocarro no Vietname; ali as viaturas de longo
curso possuem uma espécie de beliches que nos permitem dormir mais ou menos estendidos,
se ultrapassarmos a crise claustrofóbica, e acordar com dores no pescoço ou nas
pernas — em vez de embrulhados do estômago.)
Na penúltima viagem que fiz para atravessar a nossa bem-amada pátria, saiu-me
um tipo que passou a primeira hora a agradecer aos estudantes universitários que
connosco viajavam (e ele não conhecia pessoalmente) o sucesso da sua carreira.
Devia-lhes a eles o crescente número de contratos e a recente notoriedade de que
desfrutava. Vestia um fato comprado nos chineses, com uma gravata fina de
cabedal, e, com os seus trinta anos e figura franzina, usava um bigodinho de
actor porno. Era um cantor pimba — os estudantes sabem onde está o talento.
As restantes sete horas, o do fato passou-as a negociar sexo pelo
telefone. Não me entendam mal: o engate estava consumado, percebeu-se logo na
primeira chamada. O que acontecia era que a rede (dele ou dela) estava fraca e
a ligação estava sempre a cair. Também tinha havido um arrufo qualquer e eles
tinham de passar por todo o processo de acusações, amuos, chantagens, ameaças,
declarações e beijinhos repenicados antes de tratarem do negócio pendente. Como
a chamada caía sempre que as coisas pareciam avançar e eles tinham tempo (o
cantor não ia a lado nenhum antes de chegar a Bragança e ela também parecia
estar com tempo e disposição implicante), de cada vez que o telefone dele
repetia um hit foleiro (talvez o último
sucesso do dono como toque personalizado) as coisas voltavam ao início. Foi
preciso chegarmos a Penacova para que o tipo começasse finalmente a soletrar o
que pretendia dela. E o que pretendia era S. E. X. O. Assim mesmo, soletrado. Ésse, é, xis, ó. Cinco vezes soletrado,
tantas quanto as que a chamada caiu entre Penacova e Castro D’Aire. Ou nos
estava a tomar a todos que o ouvíamos ali no autocarro por parvos incapazes de
decifrar o seu acrónimo ou aquilo era já uma forma de sexo tântrico à
distância. Deve ter tido o seu orgasmo por alturas de Bigorne porque adormeceu
como um anjo e até Vila Real não se olhe ouviu mais um pio. Finalmente. Juro
que alguns de nós tinham estado a pensar fazer uma colecta para o mandar às
putas numa das paragens.
Hoje a viagem começou com um rapaz de óculos e sete anos, um saco
carregado de Angry Birds, um telemóvel com jogos dos mesmos bichos e som de flippers e uma inesgotável tendência
para falar. Mal me sento num autocarro, enfio as trombas no jornal ou no livro
para evitar pendurar numa orelha o letreiro roubado no hotel: do not disturb. Se não trago um desses
comigo, escrevo numa folha A4: «Este passageiro dispensa conversas, obrigado». Por
vezes basta-me mostrar a cara que Deus me deu. Com o puto nenhum dos três
métodos deu resultado. Devia estar a necessitar de mais dioptrias. A minha
sorte foi que a avó, do outro lado da coxia, estava profundamente empenhada no
seu papel educacional e respondia por mim às indagações do puto, antes que eu tivesse
de lhe mostrar uma outra espécie de angry
bird. A nossa conversa resumiu-se assim ao que se segue:
Puto: — Sabes o que eu gostava de ser quando for grande?
Eu: — …
Puto: — Aposto que não sabes.
Eu: — …
Puto: — Vou-te dizer: lambe-botas.
Avó: — Não sejas tolo.
Eu: — Excelente escolha.
O futuro lambe-botas não se coibiu, todavia, de me contar que o Natal
não tinha corrido lá assim muito bem no que se referia a presentes. Tinham
roubado a carteira ao pai em Espanha, com todos os cartões de crédito, e ele
não conseguiu substituí-los em tempo útil. Estive para lhe perguntar, com um
sadismo vingativo, se não tinha já idade para deixar de acreditar no Pai Natal
e em histórias daquelas, mas depois ocorreu-me que o pai do puto tinha sido sensato
ao resistir a contar a verdade sobre o Gaspar. Aos sete anos devemos ser poupados
à merda do Homem-do-Saco, mesmo que sejamos uns chatos do caraças.
O resto daquela etapa da viagem foi pacífico, o puto finalmente
desistiu de mim e azucrinou apenas a avó.
Puto: — Avó, viste o Star Wars?
Avó: — Não, não vi.
Puto: — Não viste A Guerra nas Estrelas?!...
Avó: — Ah, esse vi.
Puto: — E quem conheces da Guerra
na Estrelas?
Avó: — O Mr. Spock.
Puto: — O Mr.
Spock?!...
Avó: — Sim, um senhor com as orelhas muito grandes.
Puto: — Estás xexé?!...
***
Avó: — Quando tiveres uma namorada contas-me?
Puto: — Eu tenho uma
namorada.
Avó: — Ai sim? E como se chama?
Puto: — Frankenzilla.
Avó: — Estás xexé?!...
Antes de Viseu, noite cerrada, o autocarro para subitamente junto a um
café no meio de nenhures. O motorista informa, autoritário: «Dois minutos», e o
passageiro começa de imediato a abrir a braguilha na sua correria para o quarto
de banho. Regressa a apertar o cinto e com ar de duplo alívio. Tinha
conseguido. No prazo.
A meu lado, o passageiro que bebera uma das três cervejas que trazia no
saco, com um gesto contrariado desistiu das restantes. Decerto pensou que se lhe
tocasse a ele pedir uma paragem não prevista dois minutos seriam insuficientes.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Diário de fim-de-ano (4)
São
dois casais à mesa do almoço. Vão rilhando azeitonas e listando destinos de
viagens. Singapura, China, Rússia, Vietname, Brasil, Dinamarca... Existe um
país no mundo? Eles estiveram lá. É uma competição, mas como são amigos e o
almoço é o último do ano, os ânimos estão pacificados. Contentam-se em ser
montras de si mesmos, da sua vaidade, e quase não há discórdia ou contestação
sobre a beleza de um destino ou a qualidade de um hotel defendidas pelo outro
casal. Têm outros processos: sim, concedem que a coisa mencionada é excelente;
mas, se lhes permitem, não podem deixar de assinalar uma outra excelência a
poucos quarteirões dali. Ou na cidade ao lado. E aproveitam para introduzir um
novo país.
Na
Índia, a mulher do casaco de peles conseguiu cruzar toda a nação sem ter de
usar uma casa de banho que não fosse a higienizada de um hotel ou restaurante
incluídos no roteiro, tal o planeamento e a eficácia da agência de viagens.
Louva tanto a empresa e insiste tanto no feito que ficamos com a ideia de que a
agência de viagens lhe teria proporcionado um penico de ouro, se uma
necessidade súbita a acometesse entre Varanasi e Jaipur.
Já
na Finlândia, aliás um país de novos ricos, as coisas não correram tão bem. A
senhora não gosta de viajar de autocarro, fica-lhe a doer horrivelmente o rabo.
Por isso tinha-se mostrado um pouco horrorizada com a viagem de horas que a
amiga disse ter feito entre Helsínquia e S. Petersburgo. Ela também andou de
autocarro na Finlândia, mas num percurso mais pequeno, claro. O que não impediu
que as coisas corressem mal. Houve uma avaria e ela e o marido ficaram duas
horas inteiras à espera que a reparassem. Não enviaram um autocarro novo,
fizeram-nos esperar no local, vejam lá vocês. Definitivamente, a Finlândia foi
uma das piores viagens da sua vida. Paisinho cinzento e detestável.
A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.
A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.
Diário de fim-de-ano (3)
Falando
em horas extra, o mesmo monge-fantasma poderia já agora descer à Rua Infantaria
15 pelas sete da tarde que teria trabalho a fazer. As badaladas de um sino,
quando coincidentes com a hora de fecho seja do que for, têm nos portugueses o
mesmo efeito automático da sineta de Pavlov, e os espécimes em estudo nem
sempre são aqui cães, ou sequer funcionários públicos. A mesma urgência de
partir, a mesma antipatia e a mesma estupidez podem ocorrer em estabelecimentos
privados. O visitante pode ser igualmente instado a despachar-se por um
proprietário particular, e se quiser pagar as suas compras depois da sétima
badalada pode receber como resposta a informação de que o multibanco já está
desligado, sem que lhe seja proposta uma forma alternativa de pagamento. “Já
fechámos, já passa das sete” (sim, já quase não se ouve o eco da última
badalada), e isso justifica a expressão sobranceira, vingativa, vitoriosa da
dona da loja de artesanato. Os turistas entreolham-se, desolados, intrigados, e
deixam a mercadoria sobre o balcão, partindo convictos de que a senhora terá
outras fontes de rendimento. De qualquer modo, como a loja até tem produtos de
interesse e paira uma certa frustração no ar, os turistas partem também
desejando cruzar-se com o monge que, descendo do Convento a chocalhar os ossos,
virá por justiça transformar as noites da lojista num pesadelo.
Diário de fim-de-ano (2)
Já em Tomar conseguimos chegar ao centro histórico e ao Convento de Cristo sem necessidade de tomar grande contacto com a boçalidade urbanística do século XX. Ela existe, acompanha-nos ao longo das estradas, pressentimo-la a sitiar a cidade velha, na outra margem do Nabão, como uma horda de bárbaros às portas da urbe; vemo-la das muralhas do castelo, se por má sorte o nevoeiro levanta um pouco do véu. Mas por enquanto, neste lado do rio, parece existir uma relativamente sã convivência entre os velhos muros e os modernas aspirações plebeias. Ao contrário de outras cidades portuguesas, o centro histórico de Tomar, tanto quanto se pode concluir numa visita curta, está razoavelmente vivo, tem comércio, serviços, gente.
Talvez esse espírito de convivência esteja exemplarmente expresso no centenário Paraíso, um desses históricos cafés centrais de amplo pé-direito e decoração imperial que certas terras deixam ruir e outras transformam em alguma coisa completamente diferente e em geral mais imbecil. O Café Paraíso tem de manhã as senhoras da sociedade a tomar o seu café ou chá, com os cônjuges mergulhados no Expresso ou no Diário de Notícias. Ao final da tarde, chegam para aperitivos e finos — com um livro ou um jornal aberto sobre a mesa, se não houver companhia para o debate — os últimos intelectuais do burgo. À noite, até às duas da manhã, juntam-se os pós-adolescentes noctívagos, uma rapaziada abundante que preenche toda a lotação e a certa altura transborda para a rua, engrossando à porta do Paraíso o botellón local.
Claro que Tomar não escapa incólume à fatalidade de ser portuguesa. Também o seu magnífico Convento precisa de ser assombrado; no caso, por algum monge que não esteja possuído por um espirito de funcionário público. Um que entre uivos e gemidos tenebrosos pudesse explicar ao staff do monumento que se o horário de fecho de um espaço é às cinco e meia não se tenta pôr os turistas na rua toda uma meia hora antes, não se eles já estão nos troços finais do percurso de visita. As diligências pós-fecho são para serem realizadas após o fecho. Se precisarem de renegociar o seu horário com a entidade patronal, façam-no. O turista paga pelo horário dele.
Talvez esse espírito de convivência esteja exemplarmente expresso no centenário Paraíso, um desses históricos cafés centrais de amplo pé-direito e decoração imperial que certas terras deixam ruir e outras transformam em alguma coisa completamente diferente e em geral mais imbecil. O Café Paraíso tem de manhã as senhoras da sociedade a tomar o seu café ou chá, com os cônjuges mergulhados no Expresso ou no Diário de Notícias. Ao final da tarde, chegam para aperitivos e finos — com um livro ou um jornal aberto sobre a mesa, se não houver companhia para o debate — os últimos intelectuais do burgo. À noite, até às duas da manhã, juntam-se os pós-adolescentes noctívagos, uma rapaziada abundante que preenche toda a lotação e a certa altura transborda para a rua, engrossando à porta do Paraíso o botellón local.
Claro que Tomar não escapa incólume à fatalidade de ser portuguesa. Também o seu magnífico Convento precisa de ser assombrado; no caso, por algum monge que não esteja possuído por um espirito de funcionário público. Um que entre uivos e gemidos tenebrosos pudesse explicar ao staff do monumento que se o horário de fecho de um espaço é às cinco e meia não se tenta pôr os turistas na rua toda uma meia hora antes, não se eles já estão nos troços finais do percurso de visita. As diligências pós-fecho são para serem realizadas após o fecho. Se precisarem de renegociar o seu horário com a entidade patronal, façam-no. O turista paga pelo horário dele.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Diário de fim-de-ano (1)
Assombrações
Não sei se D. Afonso, Conde de Ourém, era um desses nobres que juraram manter-se devotos dos costumes e das tradições até à morte ou se tinha ambição maior e tencionava depois do decesso permanecer em espirito a assombrar os vindouros, como é apanágio dos seus primos escoceses. Se teve isto na ideia, falhou: não consta nem no Correio da Manhã que Ourém seja uma terra assombrada. Não por antepassados tão distantes, pelo menos.
Ourém, ou antes, a Vila Nova de Ourém é uma terra feia que deve causar lancinantes dores de alma a um espírito vaidoso como o de D. Afonso. Alguém que em vida construiu um paço tão elegante e distinto como aquele que (ainda) se ergue na colina, com vistas bucólicas sobre a Serra de Aire e envolvência, deve certamente sofrer horrores com aquilo que no século XX fizeram com o vale e com a paisagem que podia admirar da sua moradia.
Um tipo até pode achar ridícula essa coisa de morrer e transformar-se numa alma penada que passa o resto da eternidade em camisa de dormir a arrastar correntes pelas assoalhadas do castelo, mas quando em vida se constroem umas torres catitas como as do Paço de Ourém dificilmente se resiste à tradição de infernizar a posteridade, se a posteridade tratou de conspurcar o território que um dia foi o nosso condado.
Não simpatizo com a monarquia, mas simpatizo com nobres suficientemente snobs e rabugentos para se darem ao trabalho de permanecer uns séculos por perto da coutada a zelar por ela — ou a assombrá-la em havendo boas razões para isso.
Vila Nova de Ourém — que ao deixar cair em 1991 o “Vila Nova” na verdade usurpou o nome da medieval e bonita povoação na colina do castelo — é uma daquelas cidades onde de bom grado deixaria à solta o meu amigo Dinamite com umas dúzias de velas do explosivo homónimo. Mas como a actividade bombista é injustamente proibida em Portugal, deveria a junta de turismo da região mandar construir uma variante rodoviária que levasse os visitantes ao castelo e ao paço sem cruzar a cidade no vale. Toda a sinaléctica deveria ignorar a existência da Vila Nova. Os próprios mapas nacionais, se o país se estimasse, não teriam qualquer referência à Vila Nova de Ourém. Da existência de Vila Nova de Ourém saberiam os seus impotentes ou cúmplices habitantes e mais ninguém. O mundo deveria ser poupado a uma terra que prefere hastear a bandeira do município na assustadora sede nova que recentemente construiu em vez da restaurar a antiga e simpática que lhe fica ao lado. Vila Nova de Ourém não merece o património da colina nem o nome que indevidamente usa. Merece que algum herdeiro de bom gosto e honra invoque numa noite de lua cheia o vaidoso Conde D. Afonso e que este desça do castelo ao vale com fúria demolidora, cuspindo napalm pelas ventas.
E quem diz Ourém diz meio país.
sábado, 29 de dezembro de 2012
O fim da fé
Costumava acreditar no capitalismo e na automatização e informatização
dos sistemas de produção. O capitalismo assegurava o crescimento geral e estimulava
o desenvolvimento da democracia. A automatização libertava o homem para o ócio.
Entretanto perdi a fé.
Não me confundam: a automatização e a informatização são em si
excelentes, mas não me parecesse nada evidente que hoje estejam ao serviço da
humanidade. O capitalismo continua interessado em garantir a máxima produção
com o menor custo, mas já não há ninguém (com poder) interessado em garantir
emprego para os humanos. E, paradoxalmente, a aspiração ao ócio passou a ser uma vergonha, um pecado.
Já não temos como acreditar que os processos e os mecanismos do
capitalismo e da investigação tecnológica garantem a renovação dos empregos. O
crescimento global permanente é uma impossibilidade e a inovação tecnológica não
está a assegurar suficientes novos empregos. O rácio entre chips e humanos é-nos simplesmente desfavorável.
Não havendo epidemias e cataclismos que dizimem suficiente população, o
mínimo bem-estar geral só pode ser assegurado por uma diferente redistribuição
da riqueza. Mas também isso é algo que o capitalismo não parece nada interessado
em providenciar. O capitalismo, tal como praticado nos dias que correm, é uma
bela ideia que nos condena.
À falta de outra inspiração, hoje no supermercado evito as caixas
automáticas; procuro um funcionário de carne e osso, mesmo que isso signifique
estar alguns minutos numa fila.
É uma espécie de luta. Uma luta que perderei, claro: no final, os custos
da mão-de-obra extra serão acrescentados às minhas despesas e não deduzidos aos
dividendos dos accionistas.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Do estado das artes
«(…) durante 30 anos de absoluta liberdade não
apareceram “actividades culturais” de qualidade e consequência: em 2012
continua a não haver teatro, dança, ballet e tudo o resto.» Vasco Pulido
Valente, in Público de 23/12/2012
No mesmo artigo em que reconhece que a cultura sempre viveu
financeiramente mal neste país, Vasco Pulido Valente é capaz de cometer a frase
tremendista acima e de afirmar que os produtores (culturais) «mais do que
merecem» a ausência de público. Público que, aliás, tem um manifesto
«desinteresse ou repugnância» pela «presença ou só o cheiro da Cultura».
Ora, é curioso que o anacoreta Valente, que reconhece a atávica alergia
tuga à cultura e o subfinanciamento da dita, não hesite, como sempre faz, em
culpar os produtores culturais pelo (suposto) fracasso das artes em Portugal.
Se não soubéssemos que a especialidade pulidiana são os raciocínios
mancos servidos com prosa gourmet,
talvez estranhássemos. Ou se não conhecêssemos a necessidade patológica que o arquétipo
do velho rezingão tem de considerar Portugal um esgoto.
Curiosamente, nem estou de acordo com a premissa de que a cultura tem
sido subfinanciada. Ou por outra: nos últimos dez anos houve orçamentos
simpáticos para a cultura, o que acontece é que, como aliás VPV também refere, em
Portugal a cultura é um chapéu de abas muito amplas. Tão amplas que tem sido
possível acolher na sua sombra com uma regularidade e um cachet impressionantes o cançonetista Tony Carreira e uma miríade
de epifenómenos.
Se não há público em Portugal para a cultura é porque aos portugueses
têm sido servidas doses maciças de imbecilização nas TVs, nas rádios e nas
escolas. Quase todo o espaço público português, incluindo a RTP e os artigos do
triste Vasco, está ao serviço da estigmatização das artes. Para os media nacionais, teatro em Portugal são
as comédias do sr. José Pedro Gomes. As comédias de J. P. Gomes (por vezes hilariantes)
já eram quase tudo o que a maioria dos portugueses suportava e quase tudo a que
a maioria dos portugueses assistia, mas a crise veio trazer uma súbita
necessidade de humor ao país. Os nossos concidadãos, néscios e carentes como
crianças órfãs, nunca foram encarados como seres inteligentes e interessados em
alguma coisa diferente da anedota, mas agora a anedota é também caridosa e salvífica.
Ainda ontem na Prova Oral da Antena 3, do sintomático Alvim, se reforçava esta
crença, à sua maneira, natalícia.
Pelo seu lado, as escolas, na senda dos programas televisivos de
talentos anónimos, estão mais apostadas em levar os meninos ao palco do que em
sentá-los na plateia. As escolas, corpos docentes inteiros, como as TVs, seguem
a ideia de que quem é capaz de gorjear uma cançoneta sem cair do palco é um
portento das artes. E estão igualmente disponíveis para incensar o talento
mimético e acéfalo. Na mesma medida em que, com honrosas excepções, estão indisponíveis
para fazer qualquer pedagogia ou ilustração, aliás o seu mester.
(As universidades não contam para a educação nacional; são geralmente inúteis
nesta equação das artes.)
E entretanto, ao contrário do que é apregoado no espaço mediático da
paróquia, as artes lusas recomendam-se vivamente. (Posso sustentá-lo com uma
lista, se alguém o desejar.) Concedo que seja necessário ir aos teatros e aos
museus para saber disso — mas as televisões, as escolas e a opinião pública,
incluindo a última página do Público
ao fim-de-semana, não sabem como se sentar calma, anónima, regular e atentamente
numa plateia. É este, e não outro, o drama das artes em Portugal.
Leitura natalícia: o lado B do Natal
Ontem li este livrinho com seis deliciosos "Contos de Natal que a avó nunca te vai contar". É uma colectânea adequadamente subversiva de quatro autoras e autores catalães e um português. A editora tem o belo nome de O Lado Esquerdo e um logótipo de causar inveja. Já vou tarde para o aconselhar como leitura obrigatória destas festividades, mas 1) Natal é quando um homem quiser e 2) mesmo que não queira, para o ano também há Natal. O livro foi editado em 2010 mas o que são dois anos em dois mil de cristandade? Em Vila Real vende-se na Traga Mundos. Outros povos podem talvez encomendá-lo do Alentejo à mãe Natàlia (a editora) através do site http://oladoesquerdo.org/.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Impostor
Como alguém que há vários plebiscitos vota em branco, não me cabe
defender a honra de quem quer que seja na política, incluindo a esquerda. A
direita tem, aliás, boas razões para rebolar de riso com o caso do impostor da
ONU. Quem espera um D. Sebastião, acaba por ter um, diáfano e inútil como todos
os mitos e mitómanos. E a esquerda teve o seu com o sr. Artur Baptista da
Silva.
Contudo, as gargalhadas da direita deviam acabar no momento em que
estivesse disposta a reconhecer como também ela crê nos seus impostores. No
caso, um bastante mais prejudicial ao país: o sr. Miguel Relvas.
Cedo se percebeu que Relvas era má rês, quando o vimos enredado nas
suas contradições, nas suas ocultações, nas suas mentiras, na sua bazófia de
chico-esperto impune. No entanto, a direita, tão desesperada para acreditar num
governo mais liberal do que o costume (o que até é compreensível), foi sendo
condescendente, relativizando, ignorando, fechando os olhos, contemporizando. O
tipo era um desqualificado, um oportunista, um cretino, à sua maneira um impostor, mas era o impostor dela.
Hoje a direita bem pensante, Helena Matos e Vasco Pulido Valente vagamente
incluídos, bastante depois de todo o português com dois neurónios e sentido de
honestidade, já reconhecem que o sr. Relvas é uma voraz mancha no cadastro e um
tiro no pé do Governo. (Embora nem sempre estendam o raciocínio para denunciar
as más razões por que ele continua lá, as suas ligações perigosas a
Passos.) Mas na verdade, tirando uma ou outra hipócrita indignação, ninguém faz muita coisa para que o homem saia. Sair
Relvas é cair o Governo, como todos sabemos, e isso, um Governo de direita mais liberal, é coisa que a direita não pode perder, mesmo que tenha de
continuar a aguentar, e nós com ela, os seus doutores que não o são, os seus ministros que não o são (não da república, pelo menos), os seus impostores.
A direita poder rir da estupidez da esquerda e dos jornalistas
portugueses, mas infelizmente nós, os do voto em branco ou os da genitália no
boletim, não vamos poder rir da estupidez da direita e do seu Governo de
impostores. Não dá muita vontade de rir quando se está sem cheta no bolso a ver
os negócios e a merda que fazem com o país.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Civilização perdida
É claro que quando li Os Maias era um adolescente retardado e pensei que fosse um livro sobre uma civilização perdida...
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Os Maias e o fim do Mundo
Não percebo esta coisa sobre Os Maias e o fim do mundo. Li o livro todo
e não me lembro de nada sobre o assunto. (Já foi há muito tempo, é verdade.) Quem
disse que era hoje? O João da Ega?
Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")
Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro
lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de
a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um
cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de
ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping
fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias
palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô,
que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a
tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não
percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a
lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita
gente no shopping à espera de falar
com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando
ela vai lá.) Os pais se calhar ainda
estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias
para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a
entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente
telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir
desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como
acontece sempre que vão os dois ao shopping.
Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem
feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor
passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?
Tem razão
O Jornal de Notícias é que
não acha justa a distinção de que é alvo o Correio da Manhã. E tem razão. Cada vez tem mais razão.
Correio da Manhã
Não há muitas coisas certas na vida, mas é seguro defender que se um
cronista é de direita mais tarde ou mais cedo nos vai remeter para o Correio da Manhã, mesmo que surpreendentemente
não escreva lá. Se queremos conhecer o país, dizem, devemos ler aquele jornal.
Viver no país, passar a semana atulhado no país, ser quotidianamente atropelado
pelo país não chega — é preciso ler o matutino.
A ideia daqueles cronistas é fazer-nos notar como o povo continua
violento e selvagem, não estejamos nós por acaso distraídos. Mas não o fazem
como uma forma de denúncia, de censura do primitivismo popular, de acusação por
as instituições não estarem a melhorar a sociedade. Não insistem nisto para
apelar à mudança do statu quo, como
se poderia imaginar.
Não. Se os cronistas de direita acenam com o Correio da Manhã como sinaleiros de aeroporto é porque precisam de nos
acusar regularmente de não vivermos neste país, de não conhecermos o país. Não
importa que se cometam atrocidades em Portugal — o que é grave é nós ignorarmos
alguma delas, que alguma nos escape. Não importa quantas violações, quanta
violência conjugal, quantos roubos e assassinatos, quantos ossos partidos e
membros decepados — desde que possam culpar-nos por não estarmos atentos. O
grave não é o quotidiano ser horrendo — é nós pensarmos que ele pode ser
diferente e tentarmos viver felizes apesar dele.
Estes cronistas não invocam o Correio
da Manhã para nos lembrarem como o país é bárbaro e devia ser mudado. Fazem-no
porque querem que partilhemos o seu fascínio pelo sangue. E, sejamos justos, esta
vontade de partilhar até revela que há neles alguma coisa de bom.
1. O saca-rolhas
De trás do balcão, o cozinheiro assiste ao programa, divertido, enquanto
deita um olho aos grelhados. Restam dois clientes nas mesas e um deles assiste
ao mesmo programa. Trocam episódicas observações e piadas sobre o que vêem.
Na televisão aparece Manuel Luís Goucha. Riem mais um pouco. O
cozinheiro insinua a dado passo que aquele apresentador também precisava de «um
saca-rolhas», e ri-se da espirituosidade do seu dito. O cliente também ri, mas
depois recompõe-se. Quer dizer, o crime foi uma brutalidade, mas, bem, o
colunista era uma pessoa detestável. O tipo passou-se e vai apanhar uns anos,
claro, aquilo não se faz, mas olhe que o outro era mesmo…
O cliente, habituée da casa,
é uma pessoa assertiva, informada, cheia de opiniões e certezas sobre tudo e
uns trocos. Com frequência atinge um certo grau de empolgamento e utiliza
argumentos veementes, de autoridade. O cozinheiro costuma ficar a ouvi-lo,
pendente da sua sabedoria. Desta vez também tomou um tempo a avaliar-lhe as
palavras. Depois decidiu que aquilo era sanção. Voltou-se de novo para a TV, chocarreiro:
«Gouchita, Gouchita...»
2. Cantado ao vivo
Num outro programa, de cantorias, duas figuras públicas mostram os seus
dotes. Em rodapé a legenda: «Cantado ao vivo.» O que pretendem com aquilo? Que
nos espantemos com o talento da dupla? Ou que desculpemos a sofrível qualidade
do que se ouve? «Ao vivo», neste caso, é a informação que pede palmas
redobradas ou que evoca as limitações da tecnologia? Alguém na régie daquele canal está entusiasmado
com as vedetas e espera que leiamos o ponto de exclamação que se esqueceu de
colocar no final da legenda ou aquilo é apenas o realizador a informar que não
pode fazer nada quanto à desgraça que ouvimos? Talvez seja alguém
suficientemente irónico e confiante na capacidade dos espectadores para decifrarem
a sua pequena boutade. Não é
impossível que haja alguma vida inteligente na TV generalista.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Do râguebi à Casa dos Segredos
Fruto de um desses equívocos que, repetidos displicentemente, se
transformam em mitos, imaginava o râguebi como um desporto de cavalheiros, um
reduto onde a força bruta andava a par das boas maneiras. O râguebi ilustrava mais
do que outro desporto ou ofício a hipótese de a sensibilidade e a robustez
coincidirem num mesmo corpo macho. No campo era preciso aguentar placagens
violentas, mas também observar de bom ânimo as regras. Havia a dureza do embate
físico e a compreensão do regulamento.
Era uma luta primitiva conduzida com as rédeas do sangue-frio. Os jogadores de râguebi,
habituei-me a pensar, eram super-homens, mais pelo autocontrolo emocional do
que pelo poder muscular.
Ilusão minha. Hoje, na mesa ao lado, trataram de fazer ruir o mito. Falavam
de uma equipa universitária de râguebi, mas podiam estar a falar de uma
quadrilha de rufias. Os jogadores ali mencionados eram tipos que, se não
estivessem bêbados, estavam a andar à porrada. Geralmente acumulavam.
Se saíam em viagem, faziam questão de aterrorizar os empregados de estações de
serviço e partir algum mobiliário, como as mais aplicadas claques de futebol.
Não concebiam estar em público sem demonstrar de alguma forma violenta o seu
poder, como machos alfa de um grupo de símios. De alguns dos espécimes descritos
pareceu-me difícil assegurar se tinham sido recrutados numa universidade ou num
asilo de doidos furiosos. Não ouvia suficientemente bem a conversa para ter a
certeza.
De tudo isto os comensais, três machos e uma fêmea, riam, divertidos,
sem espanto, conhecedores e apreciadores da fauna. Ninguém naquela mesa deve
ter crescido na mesma ingenuidade que eu.
Havia, contudo, alguma inexactidão nos relatos, porque quando um deles
mencionava certos jogadores célebres havia quem dissesse que a esse a idade
tirara o ímpeto, enquanto outros diziam que, pelo contrário, estava mais combativo
do que nunca. E retorquiam que o façanhoso antes referido pela outra parte é
que estava já numa pré-reforma de chá e rotary
club.
Talvez porque tivesse havido algum exagero nas façanhas descritas e percebessem
que com os celerados do râguebi o sangue na mesa diminuiria (a não ser que eles
próprios o fizessem derramar insistindo nas divergências), os comensais
passaram logo que puderam para o estudante universitário comum, esse vândalo
sem prática desportiva obrigatória cuja selvageria era mais consensualmente
reconhecida e admirada.
Ouvi-lhes que, a propósito da prática frequente de atirar copos de
vinho tinto à alvura do tecto, houve um restaurante cansado de manchas rubras que passou a servir apenas
vinho branco em jantares universitários. E isso levantou na mesa a difícil questão
de saber se a culpa da excitação púbere é da permissividade dos estalajadeiros se
da zurrapa que dão a beber aos discentes. Outro assunto em debate era se os
proprietários de restaurantes teriam meios de, por si sós, impedir os grupos
universitários de sair sem pagar quando isso lhes apetecia ou se teriam sempre
de recorrer à polícia. Apresentavam exemplos, referiam casos de sucesso, de
jantares por cobrar.
Não era preciso olhar-lhes os rostos para perceber que os meus co-comensais
não tinham abandonado a universidade assim há tantos anos: havia naquela mesa
semi-domesticada certas saudades da selva.
Mas os feitos académicos já não me interessavam. Deixei de ligar à
conversa, matutando na possibilidade de a equipa de râguebi daquela mesa não
ser representativa do râguebi em geral — não desistimos facilmente das nossas
ilusões, da nossa candidez.
Voltei a reparar neles quando ouvi que de novo litigavam em matérias candentes.
Sexo em público? Todos tinham testemunhado, claro. No Brasil, dizia um. Naquela
ilha espanhola (como se chama?, Palma de Maiorca), gabava-se outro. Na Madeira,
subiu a parada a moça, dentro de água. Isso era vulgar, desvalorizou um
terceiro, admiração seria na areia. Está bem, insistiu ela, mas viam-se mesmo
os movimentos.
Isto, percebi depois, vinha a propósito da Gabriela e da importância de perceber se na telenovela original «elas»
andavam assim tão descascadas e, presumo, se se viam mesmo os movimentos. A mãe
de um assegurava que sim; a mãe de outro que não. A do terceiro dizia que era
possível, porque lá no Brasil as coisas sempre tinham sido assim mais…
Como na Casa do Segredos,
aliás. Tinham visto aquela parola? Não, a outra, a que se gabava de ser formada
e dar aulas e mais não sei o quê e num concurso tinha falhado ao apontar no
mapa Vila Real. Quer dizer, como pode alguém não saber onde fica Vila Real, admirou-se
o geógrafo que um dia tinha visto sexo na ilha de «Palma de» Maiorca.
Os parolos sempre acham que a suprema ignorância é alguém não saber
onde fica a nossa terra.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
O Cavalo de Turim: abertura e encerramento
Se O Cavalo de Turim não fosse uma obra de arte por várias outras razões, sê-lo-ia suficientemente pelos quatro minutos e vinte e dois segundos do vídeo acima, a cena de abertura. Durante esse tempo, tudo o que nos é mostrado é a evolução no terreno de um cavalo que puxa uma carroça com um homem sentado nela.
É certo que se ouve a peça musical de Mihâly Vig, e esta poderia ser desfrutada de olhos fechados durante todos os quatro minutos. Mas quando a ouvimos olhando convictamente o ecrã fruímo-la melhor, temos uma experiência mais forte, somos conduzidos a um outro nível de sensações. Imagem e som funcionam como uma peça única, uma instalação. Se fosse curador de um centro de arte contemporânea, gostaria de obter licença para projectar numa sala, em loop, estes poderosos 4’22’’, e duas ou três vezes por dia eu seria um dos visitantes da sala, como uma personagem de Don Delillo ou um gestor onanista candidato às listas de desemprego deste Governo.
O cinema pode ser uma coisa para fruir contemplando, como quadros em museus ou orquestras em palcos. O Cavalo de Turim é uma obra dessas, que durante duas horas e meia nos pede que contemplemos. A maioria das pessoas ignora o apelo. Se não ignorasse, se adquirisse um bilhete, talvez irrompesse um tumulto na sala ao fim de vinte minutos, pateadas, assobios, indignações, exigências de reembolso. Béla Tarr não fez o filme para valer os seis euros que custa um bilhete de cinema num multiplex. O filme incomodaria as pipocas, os comentários jocosos, as trocas de sms. Seria aborrecido.
Para O Cavalo de Turim não há mais de umas poucas de dezenas de espectadores que se submetem ao ritual colectivo do silêncio e da contemplação. Exibi-lo não é uma actividade lucrativa, do ponto de vista monetário. Contudo, exibi-lo é um trabalho que alguém tem de fazer, se queremos comunidades decentes, que respeitam os interesses das suas minorias silenciosas e contemplativas. Da sua reserva de inteligência e bom gosto, talvez nos seja permitido dizê-lo.
A democracia não é uma questão de escolha, é a questão anterior da possibilidade e liberdade de escolha. Que o mercado não assegura. Talvez o Governo tivesse o dever de pensar nisto antes de fechar a RTP2 e preparar o terreno para outros males de lesa-intelecto. Se quisesse ser respeitado.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A televisão a cores…
Já fui um gajo de fé. Em rapaz acreditava no progresso. A televisão lá em
casa era a preto e branco, mas eu tinha a certeza de que mais tarde ou mais
cedo ela ia começar a dar a cores. Em certos filmes da minha preferência, os
céus iam azulando, adivinhavam-se já pontinhos de verde nas árvores, pinceladas
de vermelho nas poças de sangue. Era o aparelho a esforçar-se. Púnhamos-lhe a
mão e ele estava quente, com a febre de se colorir. Mesmo a desoladora areia
que em tantas noites de Inverno ocupava o ecrã em horário nobre amarelecia de
semana para semana, a caminho de ser um Saara tremeluzente.
…e O Cavalo de Turim
Ontem, enquanto via o filme O Cavalo de Turim, evoquei aquela
fé antiga. Era o meu espírito num contraponto entre a juvenil alegria da crença
na cor e a não menos prazerosa melancolia da escala de cinzas. Naquela fase, o
filme ainda hesitava entre o vazio do branco e a opressão do negro (não havia
outras escolhas). Depois toda a evocação cessou, a resistência era inútil,
desajustada: o filme rendeu-se definitivamente a um negrume formal e metafórico. E eu com ele.
Banda sonora
...para o post anterior e para o que se seguirá dentro de duas horas:
(Belíssima
peça musical de Mihâly Vig para e omnipresente em O Cavalo de Turim.)
1. Correr à noite
Gosto de correr com a noite instalada. Bem, gosto de correr sempre, mas
de uma forma particular quando, no Inverno, as trevas já desceram sobre a
cidade. Uma parte do percurso que faço, no vale estreito do rio, não tem
iluminação pública, e em noites sem nuvens e sem Lua é uma insensatez correr ali,
no breu profundo. Insensatez que cometo repetidamente, sem hesitações, com uma alegria
intransmissível. Por (raras) vezes encontro outras pessoas (quase vou de encontro a outras pessoas), e nessas
ocasiões pigarreamos um aviso mútuo no derradeiro instante ou rimos uns para os
outros da iminência de chocarmos, cúmplices anónimos, sombras sem rosto, felizes
debaixo dos nossos capuzes ou dentro dos nossos gorros e da nossa insânia.
Nas noites nubladas, em particular naquelas de nuvens baixas, quase
névoa, o percurso fica razoavelmente alumiado, efeito do reflexo da iluminação
da cidade nas nuvens. E a noite é então ali um mundo levemente estranho, com uma luzência
avermelhada, como um dia de eclipse solar, uma insónia no Árctico ou em Marte,
assim surreal e acolhedor.
De todas as noites, a mais fascinante para a corrida nocturna é a de
Consoada, na hora em que as pessoas se estão a instalar para a ceia e deixam as
ruas desertas excepto nos largos onde ardem madeiros. Na Consoada, não se imagina
que andemos na rua, que desçamos ao parque. A margem do rio é o último sítio onde
somos esperados. Correr ali nessa hora é o mais próximo que se pode estar da solidão
adâmica ou do isolamento pós-apocalíptico. Quem quereria isso, não é? Quem quereria
experimentar uma ausência primitiva ou pós-civilizacional de seres humanos?
Na noite de Consoada, a vontade de correr lado a lado com o rio (e só com
ele) digladia-se em mim com os sentimentos filiais e fraternais que a quadra me
exige. E perde quase sempre — tenho isso a favor da minha humanidade.
2. Correr na quarta dimensão
Sítios acolhedores para correr não são apenas o Éden e o the day after, esses lugares de
ausência. Mantendo isto num registo de sci-fi,
a quarta dimensão também se revela
assaz recomendável. Ambos os mundos oferecem possibilidades excitantes. Calcorrear
a solidão ou cruzar a urbe paralelo como um fantasma — capaz de ver, ouvir e
cheirar mas invisível, silencioso e inodoro, um ectoplasma de Reebok, sweatshirt e curiosidade impertinente —,
eis as duas faces da minha moeda. Na primeira, sou apenas eu e o mundo
não-humano: o ímpeto ruidoso e instigador do rio nas represas e nos rápidos e o
seu balsâmico murmúrio nas zonas de abrandamento, o canto livre de rouxinóis ou
melros insones, salamandras em vagares de lesma, com sorte a minha garça-real a
patinhar num baixio, como há três noites. Na outra face da moeda é todo o
mundo — e eu ausente dele, interceptando-o apenas com o olhar e com o vício de efabular,
coexistindo sem conviver.
sábado, 15 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Such a lovely day (jogging no parque)
Quilómetro 2
O miúdo
gostava do pai e da mãe. Eles não gostavam um do outro. Quando finalmente deram
o passo certo, o miúdo ficou triste como se diz da noite. Nos dias de custódia
do pai, ele informava-o de tudo ao contrário, ao falar de casa. No regresso,
fazia o mesmo ao apresentar o relatório do dia à mãe. Imaginava-se capaz de,
mentindo quanto ao que diziam os pais um do outro pelas costas, voltar a
uni-los. Depois pensou melhor. Quando eram uma família, o pai nunca o levava a
passear no parque, nunca jogava à bola com ele nem lhe comprava gelado. Não o
levava ao cinema nem se ria das piadas e das tropelias. Talvez aquele divórcio não
tivesse sido má ideia. Ao contrário do que diziam na escola, agora é
que ele tinha pai, mesmo que só de quinze em quinze dias.
Quilómetro 4
Duas miúdas ainda
com cara de anjos e roupas de marca macaqueiam sem inocência o andar e as
expressões de membros de um gangue. Detêm-se num cruzamento. Hesitam quanto ao
caminho a seguir. Uma delas sugere a esquerda, tem menos gente e mais árvores.
Vão de certeza fumar às escondidas.
Quilómetro 6
São um casal,
pouco mais do que adolescentes, fotografam-se e fotografam o parque inteiro.
Fazem poses. Escolhem ângulos. Demoram-se. Parecem sensíveis à beleza outonal.
Quilómetro 8
Um homem pára
o carro. Dir-se-ia saído de uma máquina de envernizar e de engomar. Os sapatos
pretos brilham, têm reflexos prateados, de tão novos. As calças, com um vinco
como um fio-de-prumo, e o blusão anguloso, de corte impecável, parecem adereços
de uma produção de moda. O bigode foi acabado de aparar, milimetricamente. O
cabelo, branco como farinha, ainda molhado do duche ou embebido em gel, tem
desenhados os riscos do pente, paralelos e direitos como carris na estepe
russa. O carro é um BMW e, apesar da propensão do dono para os alinhamentos
perfeitos, foi estacionado numa diagonal negligente, ignorando as marcas no
pavimento, ocupando dois lugares. À patrão, diz o povo.
Quilómetro 9
Lá estão de
novo as miúdas clandestinas, casacos pendurados na cerca de madeira, os braços
nus em Dezembro para reforçar o desafio façanhoso com que nos olham. Batem os
maços de tabaco na mão como vêem fazer aos mais velhos, forçando a saída de
mais um cigarro. Mal podiam esperar para o fazer. Mas, olhemos melhor: não é um
maço de tabaco. É o telemóvel. Talvez tenham vindo só passar a tarde no parque,
raios.
Quilómetro 10
O casal de fotógrafos
está agora à saída da última ponte pedonal a sul. Ele de joelho no chão, ágil,
ela a sorrir para ele, tímida e encantadoramente, nas suas calças sexy e inesperado casaco comprido. São
amorosos e sensuais. Mas depois ele fala, com voz grossa, grosseira, sotaque de
guna, «Tá quéta, caralho! Foda-se, tá quéta!», e o (meu) idílio acaba-se, não importa
como lhe responde ela.
Quilómetro 12
Último
cruzamento. O percurso transforma-se numa rampa em paralelos. Na esquina, duas
figuras, versões femininas de Dom Quixote e Sancho Pança. Cada uma delas tem a sua própria preocupação. A da frente, alta, magra, calções curtos
sobre meias pretas, pernas torneadas, camisola de gola alta realçando estrategicamente
o peito, diz que o problema são os saltos, que se enfiam nas juntas da calçada.
A outra, baixita e redondita, sapatos rasos, tentando acompanhar, diz que o
problema é a subida. E eu, esbaforido, concordo com ela.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Voz
Por vezes lamento ter-me cruzado com os dois volumezinhos mágicos de Uma Campanha Alegre. O país não
precisava de mais um queirosiano.
Tenho mentido quando digo que não houve nenhum livro que mudou a minha
vida. Aqueles mudaram. Não porque tenha decidido imitar o estilo do autor, mas
porque me era impossível evitar fazê-lo. Desde novo imito (ou tento) o que quer
que me tenha encantado na hora anterior. Se havia mundial de futebol, no fim das
transmissões não queria mais do que jogar à bola; quando o hóquei tinha a importância
de passar na RTP1 (o único canal português que apanhávamos lá em casa em certa
altura), os meus velhos sapatos ganhavam rodas e tudo servia de stick. Havia hipismo nas Romanas? No dia
seguinte estava a saltar briosamente obstáculos, às costas de mim mesmo.
Festival da Canção? Subia ao palco, Vítor Espadinha esforçado. Super-Homem?
Saltava do terraço. Coboiadas? Filmes de guerra? Ficção-científica? Aceitava
qualquer papel, versatilidade era o meu nome. Quando dei com as Farpas era inevitável que elas
contaminassem tudo o que escrevi a seguir. A questão é que as coisas que imitava
antes não tinham o génio do Eça de Queirós e, consequentemente, o impacto duradouro de um
trauma de infância.
A prosa queirosiana é uma armadilha (enreda-se sobre si mesma), uma maldição. Usa as palavras como
quem usa o lápis do caricaturista e usa
as palavras, no sentido em que se aproveita delas para os seus lúdicos e pouco
sérios intentos. O escritor queirosiano tem aliás a seriedade de uma anedota
num funeral. E a conveniência de um inimigo do defunto. Quando se senta a
escrever, até pode ter boas intenções, vontade de elogiar isto ou aquilo, mas
acaba sempre a distorcer, a exagerar, a procurar os vícios e os defeitos, a
procurar o pior — e formas imaginativas de o afirmar.
Malogradamente, o exercício é prazenteiro. Vicia. Voltamos sempre a ele
como ao pó. É preciso esforço (ou neura) para escrever alguma coisa noutra
perspectiva, noutro tom.
Quando passei a tentar a ficção, insisti em livrar-me da influência do mafarrico
do monóculo. O meu Aranda (opus II),
por exemplo, cometeu a proeza de se inspirar num livro de Martins Amis (esse
queirosiano inglês) sem lhe imitar a
prosa, o melhor do autor. O que demonstra como podemos ficar estúpidos quando
queremos ser órfãos.
Talvez tenha entretanto encontrado a minha voz. (Ou mais do que uma — sabem
como é, esquizofrenia, transtorno bipolar, essas coisas). Parece que os
escritores são pessoas que passam o tempo à procura duma voz, como certos
religiosos literais ou certos hóspedes de manicómio, e eu não me esquivo à
presunção. O que de resto, com o narcisismo, me parece bastante típico de um
queirosiano.
***
P.S. Queriam post mais auto-evidente? Pretendia falar de coisas boas, espectáculos que vi, livros que li,
músicas que ouvi, sítios que visitei — matérias de que o país precisa —, mas acabei previsivelmente na caricatura.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Cretinos ideológicos
O fim do Câmara Clara é um exemplo de como a crise tem as costas largas. É
a prova de que estes tipos que nos governam são, entre outras coisas, gente
tosca ou cretinos ideológicos. Quer dizer, era aquele programa uma das
«gorduras do Estado»?
Seremos um país pobre por erros nossos e fado, fatalidade. Mas seremos um
país espiritualmente pobre porque somos governados por pobres
de espírito, apoiados por outro género de cretinos (de carreira ou opção) que
não tiram o cu do sofá para ver um espectáculo e quando nele instalados não
lêem um livro*.
*Alguns lêem-nos, mas como se sabe a literatura não evitou os nazis, como
evitaria estes pequenos preconceituosos?
«Pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova»?
O
«pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova», ontem aqui mencionado, seria um
escrito desnecessário ou redundante, dei-me hoje conta ao voltar a passar os
olhos pelo artigo que o crítico da Ler
escreveu sobre David Foster Wallace. Desnecessário porque quando Rogério
Casanova escreve sobre Infinit Jest já
parece uma personagem da própria obra a fazê-lo, pelo espantoso conhecimento que
revela do livro, pela idiossincrasia da sua prosa e mesmo pelo carácter de
coisa abstracta do crítico. Casanova poderia também, facilmente, ser um avatar
de DFW, lêmo-lo com o mesmo fascínio e a mesma estranheza. Ou talvez um misto
de programa informático e implante neurológico do escritor, deixado por este
para se activar após a publicação (americana) do livro. As crónicas de Rogério
Casanova e as suas críticas literárias, não há como pensar de outro modo, são decerto
apêndices d’A Piada Infinita. (E
esta caricatura, embora pareça, não é pejorativa).
Mas
o tal «pequeno ensaio» seria também redundante porque Casanova já tem uma breve
caricatura n’Os Idiotas, livrinho
que, se pedirem mesmo muito, talvez uma editora tenha a bondade e a sageza de
publicar no ano de eleições autárquicas que se aproxima.
Periférica
Uma amiga recente anda a ler a Periférica e diz que, «carago, é como estar apaixonada por um namorado morto!». Gosto desta abordagem, pela boa-disposição e pela franqueza médico-legista.
O post «Expectativas»,
surpreendentemente popular, trouxe evocações da revista que um dia fizemos,
quando éramos jovens e tesos. É agradável recordar aqueles tempos, mas pouco
útil sentirmo-nos órfãos deles. Por definição, os órfãos não recuperam a progénie.
Que sentimento então?
A Periférica deveria ser uma
coisa para nos lembrarmos daqui a quarenta anos, em jantares de velhos
combatentes ou no lar, em robe e babete, se o alzheimer o permitisse.
Entretanto, deveríamos ser deixados em paz a escrever os nossos livros, a
plantar as nossas árvores, a fazer os nossos filhos, a casarmo-nos e a divorciarmo-nos,
a fingirmos que temos uma carreira útil. A Periférica
deveria ser o projecto que nos orgulharíamos de ter oportunamente morto e que
nos arrependeríamos tarde demais de não ter desenterrado, quando confrontados com o fracasso
das nossas vidas individuais. A hipótese necrófila não deveria ser posta uma década
apenas depois de o bicho ter visto a luz do dia, meia dúzia de anos após o
óbito. Quer dizer, desenterrar-lhe o cadáver agora pode trazer surpresas
desagradáveis, como haver ainda carne agarrada aos ossos, um corpo incorrupto
que certos fanáticos quereriam de imediato pôr numa vitrina e adorar
religiosamente, organizar peregrinações, criar uma seita.
De resto, uma Periférica é
coisa que se faz aos vinte ou trinta, e da última vez que olhei havia gente
dessa idade no país. Por favor, rapaziada, não nos façam passar pelo ridículo de
vedetas dos eighties a voltar aos
palcos. Não somos génios como o Morrisey. Somos o Cliff Richard, temos
vinhas para plantar no Algarve e exemplares da primeira edição para assinar. Não
estamos velhos, bem sei, mas temos pneus e colesterol. Uma dor aqui e outra
ali. Prenúncios. Ou preguiça, pronto.
Não, não estamos de novo a ficar jovens — mas estamos de novo a ficar
tesos, sem cheta, e isso é perigoso. Era agora que uma rapaziada qualquer nos
pedia para usar o nome da rosa, a cedência do título, o direito à criatividade
sob a égide periférica. Era agora que o país se surpreendia com outros pretensiosos zés quaisquer
que se punham a fazer uma nova Periférica
a partir duma moita na Beira Alta ou duma fraga em Melgaço. Agora. Antes que
fiquemos mais pelintras e isso nos dê ideias estúpidas. Antes que nos despeçam
e fiquemos sem nada mais útil para fazer. Antes que imaginemos que o nosso projecto para os
anos cinzentos que aí vêm é tirar a capa e as calças de lycra do armário, é encenarmos a noite dos mortos-vivos, é fazermos
o número 15 da Periférica — em vez de
algo com sangue fresco, algo que inclua bombas e atentados, por exemplo.
Talvez haja um projecto para quarentões lisos e desempregados, mas não
tem de ser o de zombies quebra-corações, não tem de ser uma ridícula reunion band. Ou tem?
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Expectativas
Faz mais de 10 meses que, por razões financeiras, deixei o luxo de comprar
a Ler. Hoje não resisti, tive uma
recaída, interrompi o processo de recuperação da frugalidade. Confio que os avalistas
da minha transformação num homem parcimonioso aceitem que a tentação era
demasiado grande, mesmo para um cristão-novo como eu: entrevistas a Philip Roth
e Vítor Silva Tavares, Rogério Casanova sobre David Foster Wallace…
Infelizmente a aquisição da revista implicou a queda noutro vício em remição:
leitura em espaço público com copo de vinho à frente. Não são os malefícios mais
previsíveis da exposição e do álcool que temo, mas a frustração que posteriormente
me toma. Enquanto leio a revista em ambiente de fumo e copos, encho-me de um
espírito de tertúlia, mesmo que à mesa não haja mais ninguém. Registo
mentalmente tantos comentários e considerações sobre os textos que leio,
acometem-me tantas ideias que temo precisar de fundar hoje mesmo uma outra
revista só para recolher toda a prosa que me ocorre. Talvez comece mais um
romance ou livro de contos. Um longo post
cúmplice sobre o «what if?» que Roth
diz ter levado à escrita de todos os seus livros. Quem sabe um pequeno ensaio caricatural
sobre o Casanova.
Mas nesta idade já não há embriaguez que dure. Caminho os duzentos metros
até casa, ligo o computador, calço as pantufas e aqueço o chá e… fico cinco
horas acordado para escrever aquela coisita sobre os albaneses que nenhum de vocês queria ler.
Já fiz quarenta há quatro, mas apetece citar o Pedro Mexia na sua crónica
de sábado, comemorativa da entrada no clube da ternura: «Aos 40 anos, vivo com “expectativas
diminuídas”, diminutas, em diminuição.»
Felizmente, ao contrário dele, as minhas expectativas tendem a voltar
quotidianamente, mesmo que para esbarrarem uma e outra vez na dura realidade.
Os albaneses
Vítor Silva Tavares, entrevistado para a Ler e falando dos seus ódios de estimação, refere a dado passo a
figura dos albaneses, esses inimigos que temos de instituir para balizar
as nossas palavras e as nossas acções, para que nós mesmos tenhamos mais
sentido. (A ideia virá do livro A Tia
Júlia e o Escrevedor, de Vargas Llosa, que não li.)
Um albanês não tem
necessariamente de ser alguém que nos provoca antipatia pessoal, mas é em todo
o caso um indivíduo que voluntária ou involuntariamente representa algo que
detestamos e nos puxa pela língua.
No debate público nacional, os albaneses
não são forçosamente pessoas concretas. A designação original pretende aliás
remeter para um protótipo, uma categoria, uma abstracção. Um determinado
indivíduo pode ser um albanês pela
sua intrínseca capacidade de representar a espécie odiada, mas albaneses podem ser (e são-no demasiadas
vezes) apenas uns fantasminhas modelares que dão jeito para o tipo de discurso
que queremos proferir, para o tipo de ideias que queremos defender.
Convém estar alerta para os perigos que o abuso de albaneses acarreta. É preciso perceber que a albanização do debate cria uma realidade artificial. Quando de um lado
e doutro das questões os contendores apenas argumentam contra os seus albaneses, na verdade não argumentam
contra ninguém — ou deixam de fora do debate as pessoas moderadas, sensatas, capazes de
verem os prós e os contras das coisas, de verem os erros alheios e reconhecerem
os próprios.
Os jornais e os blogues estão cheios de gente que, infelizmente sem
talento queirosiano, se dedica a ridicularizar o adversário ou a estigmatizá-lo,
pondo em prática uma ancestral e desleal forma de desvalorizar argumentos. Ora, quando isso
não cumpre a função de nos entreter com qualidade literária, limita-se a dar
corpo à expressão «diálogo de surdos».
Na magna questão da crise é assim que acontece: há uma catrafiada de
gente a discutir com as suas caricaturas, a esmurrar os seus imaginários sacos
de boxe, e a deixar desolados e sem interlocutor os cidadãos moderados que
sobram. E são os moderados que podem salvar o país.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Alentejo
Durante a maior parte da minha vida, fui de paisagens montanhosas.
Talvez ser transmontano tivesse nisso um papel (mesmo que o meu “patriotismo”
sempre tivesse sido débil). Achava a planície monótona, sem segredos, com todas
as possibilidades demasiado à vista, sem espaço para a imaginação, para
fantasiar sobre o que se oculta por trás de um monte ou na sombra de um vale
profundo.
Hoje o Alentejo Interior é o meu paraíso na terra. A luz, a
profundidade de campo, a linha do horizonte, toda aquela cúpula celeste, a
fauna, a arquitectura, o interior das casas, os terraços, o meu alpendre de
Verão, o vinho, o Vovó Joaquina — está lá tudo o que preciso para ter dias
felizes.
Nestes tempos sem soluções económicas nem ofertas de emprego, façam do
Alentejo a Florida da Europa e de mim um anafado alemão na reforma. Aceito que
o façam compulsivamente.
Pensar pela própria cabeça
Muitos anos atrás, à entrada de uma discoteca, um de nós invocou uma
qualquer passagem do Guerra e Paz
para sustentar uma opinião ou ilustrar uma ideia. Um tipo que hoje é juiz
censurou-lhe a bengala: «Deixa lá o Tolstoi em paz. Não consegues pensar pela
tua cabeça?»
Não tenho a certeza de que a observação do futuro magistrado tenha sido
uma legítima defesa da independência de espírito. Talvez ele apenas quisesse
proibir as referências literárias com receio de não ter nenhuma para aduzir (não
era garantido que as suas leituras fossem muito além do Código Penal). Mas por
alguma razão este episódio sobreviveu na minha memória. Recordo-me dele com frequência.
Nos dias que correm, mais do que nunca.
O debate político é hoje dominado por gente que não frequentava aquela
discoteca (embora seja da geração que o fazia) e portanto não ouviu o sábio
conselho. O que é pena. Impressiona a quantidade de tipos, sobretudo de direita
(a esquerda é mais instintiva, menos escolar), que tem uma bibliografia no
lugar do cérebro, um cânone de pensamento político que consulta como a Bíblia e
a que obedece como ao Corão. A Ciência Política é, para estes espécimes, como
um manual de etiqueta ou um guia para uma vida saudável. Habituados a mergulhar
nos calhamaços e a tentar decorar as ideias dos outros, esqueceram-se de construir
as suas, e agora, perante qualquer dilema no quotidiano, não pensam no que
fazer, mas no que fariam as suas fontes bibliográficas.
A ideia romântica de que a direita e a esquerda tinham acabado, de que
a dicotomia não fazia sentido, não havia explicações ou soluções só de um lado,
durou pouco tempo. As novas gerações políticas activas são acerrimamente de
esquerda ou de direita. Muniram-se para a vida como alguém que vai às compras e
traz todos os produtos da mesma gama, compra todas as peças da colecção, o
pacote completo.
Este comportamento é meticuloso em certos exemplares de direita.
Refira-se um assunto, apresente-se um problema e eles logo se perguntam interiormente
o que diz o cânone sobre aquilo. Só depois comentam ou agem, como um capítulo
animado de uma das suas obras de referência. Fazem-no sem mencionar as fontes,
é certo, mas percebe-se que a ironia, o cinismo ou a fleuma são em segunda mão,
já vistos, prototípicos.
Finanças? Indústria? Agricultura? Artes? Já alguém pensou por eles, e
escreveu artigos ou livros sobre o tema. Sexo? Os seus autores também fornicavam,
sai um volume de capa dura.
Por vezes fico com a ideia de que a direita actual não tem militantes
entre as novas gerações, mas segundas e terceiras edições encadernadas a tecido
riscado e todas contentes por não estarem na prateleira.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Mulheres a fumar
Vejo-as com alguma frequência ao domingo, duas tipas sentadas no lancil
baixo do passeio a fumarem. É uma rua com uma certa constância de tráfego, e do
outro lado há edifícios com arcadas e um ou outro café. Daquele lado, um
passeio mais estreito, árvores e uma ravina para um nível mais baixo da cidade.
Porque escolhem sentar-se ali, num lugar de estacionamento vago, mesmo
numa noite fria como a de ontem? Que fascínio pelo lugar improvável, segurando
os cigarros com sorrisos mútuos, sorvendo o fumo com evidente prazer? Não são
adolescentes que necessitem de sair de casa para esconder o vício recente ou
que sintam a ânsia de o exibir ao trânsito, em desafio. Embora haja algo de
desafio nelas, uma certa cumplicidade que nos deixa ostensivamente de fora
enquanto estacionamos o carro.
Vestem roupas do género das que se podem encontrar na Sport Zone, na
secção de ar livre (montanha, trekking,
essas coisas). Talvez tenham acabado de chegar de uma caminhada e fumem um cigarro
revigorador antes de subirem para jantar. Talvez uma delas esteja de partida
para uma semana de trabalho fora e o cigarro seja a forma de se despedirem. Ou
terá chegado e aquilo é o reencontro? Riem por terem os maridos em cima, na
cozinha, a prepararem o jantar? Ou são elas um casal e esta é apenas uma das
muitas formas que têm de estarem bem uma com a outra?
Não lhes vou perguntar — mas não porque o pudor se imponha. É que não
preciso de respostas. Preciso de cenas daquelas, portas abertas à indagação e
ao devaneio. À intrusão. É esse o meu vício.
Salários e responsabilidades
Lembro-me que, anos atrás, fiquei contente quando descobri que certos pedreiros
ganhavam o dobro de mim. Não era exactamente o meu gene comunista a
manifestar-se, era a ideia de que se algo corresse menos bem, se tivesse de
sacrificar-me e ir trabalhar ao ar livre na intempérie, no inferno do Verão ou no
gelo do Inverno, pelo menos teria o consolo de saber que poderia ganhar bom dinheiro,
se trabalhasse mesmo muito.
Parecia-me uma correcta organização do mundo, o capitalismo a funcionar
da forma certa. Maior produtividade, maior vencimento. Boa remuneração para
trabalhos difíceis, mas necessários, que a generalidade dos homens de bom grado
recusaria.
Mas cedo descobri que aqueles casos eram excepções no tempo e no espaço.
O capitalismo, pelo menos na versão portuguesa, não premiava o esforço, não
tinha incentivos para as profissões duras. A pessoa tinha sorte ou azar, era
tudo. Ter uma profissão dura não era uma opção com um bom salário em vista, era
uma desgraça, algo em que se caía por falta de alternativas. As tabelas
salariais das profissões e das empresas não estavam feitas a pensar na
dificuldade do serviço. Na verdade, quanto mais sorte se tinha maior era o
vencimento. Quanto mais limpa e menos custosa fosse a função, mais bem paga ela
era. Supostamente porque a função mais limpa e mais confortável era também a
que tinha mais responsabilidade.
Só que responsabilidade não é um conceito lusitano. A palavra existe no
nosso dicionário, mas com outra semântica.
Para muita gente, conquistar uma posição mais alta na hierarquia de uma
empresa ou instituição é obter um privilégio, ascender a uma espécie de estado
de nobreza medieval. A sociedade portuguesa está cheia de viscondes e duques,
gente cujo vencimento superior ao dos seus subordinados não se destina a pagar
a responsabilidade, a liderança que devem assumir com dedicação. Um salário
alto é um dote, um tributo, algo que cai na conta ao fim do mês como a renda
devida ao sangue fidalgo. Um direito natural que não precisa de mais justificação
do que titulo outorgado ou herdado. Ser chefe de secção ou director de serviços
não significa que se tenha de chefiar ou dirigir coisa alguma. Significa apenas
que se tem uma comenda, que se conquistou o direito a receber mais do que o
comum dos mortais e a trabalhar menos do que eles.
Este tipo de viscondes tem aversão a ser incomodado com as questões do
serviço. É um ultraje que os subordinados lhes peçam uma orientação ou uma
decisão. Suas altezas não podem ser aborrecidas com matéria tão vil. Se
ascenderam ao estado ducal não foi para sujarem as mãos ou matarem a cabeça. «Eu
não posso ser incomodado com estas coisas», ouve-se-lhes com frequência, em tom
enojado ou escandalizado, sendo «estas coisas» o serviço por que são
responsáveis. O seu trabalho quotidiano, que lhes toma geralmente um décimo do
dia, segue uma vetusta tradição lusa: tratar do despacho. E o despacho,
como o próprio nome indica, consiste em despachar para os funcionários menores toda
a documentação e assunto que careça de resolução, sem mais nenhuma directriz do
que um seco «resolva» e a respectiva assinatura e carimbo. Caso o funcionário pretenda
manifestar dúvidas ou solicitar instruções deve preparar-se para lidar com a impaciência
ou a ira do superior — e para não obter nada do que necessite. Se tiver a
veleidade de insistir, talvez perceba de uma vez por todas o que significa
liderar ou dirigir, o que significa a responsabilidade:
«O amigo trate de resolver o assunto como bem entender e sem demoras», é a
resposta que obtém. «E fique sabendo que se isto der para o torto não vou ser eu
a cair». E o chefe tem razão, porque em Portugal aos chefes não se lhes exige
mais do que o pleno usufruto dos seus privilégios. Jamais ocorre em nenhuma
instância da hierarquia a peregrina ideia de pedir responsabilidades aos…
responsáveis. Mesmo as inspecções ou os tribunais, nas raras vezes em que são
chamados a pronunciar-se, desconhecem o conceito de responsabilização, a não ser que ele se possa aplicar a um qualquer
lacaio sem perigo para a nobreza.
Portugal não chegou aqui vindo do nada.
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