quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A crise e a cultura: manigâncias

O ilusionista Luís de Matos, citado num artigo do JN, vê um lado positivo na crise que (também) afecta o sector cultural: «algumas companhias, cuja razão de existir sempre foi o facto de que certo dia conseguiram passar a ser subsidiadas, vão acabar.»
Aparentemente, este regozijo com o fim de companhias não tem origem num sentimento de injustiça ou inveja, porque no mesmo artigo o ilusionista revela que «só neste ano já fez 40 espectáculos à bilheteira» e, sublinha, «todos com lucro». Luís de Matos não tem portanto razões para cobiçar o famigerado «subsídio». Donde poderíamos concluir que quem se congratula com a extinção de companhias é o cidadão contribuinte que há nele.
Mas não. O seu é um desabafo de agente cultural. Ouçam-no: «A forma como se financia a cultura em Portugal é profundamente desmotivadora para quem trabalha e altamente proteccionista para os chamados subsídio-dependentes». (Luís de Matos trabalha; certas companhias, não, deduz-se.)
Lido com atenção, o discurso do ilusionista revela-se, afinal, apenas mais um lamento pela falta de apoios. Como português genuíno que é, o mágico não se incomodaria com uma ajudinha do Estado. Incomoda-se, sim, com a existência de «companhias que são subsidiadas há mais de duas décadas e, invariavelmente, os seus espectáculos têm 20 ou 30 espectadores». (Não revelou ao jornal se a contagem de cabeças nas plateias, ao longos dos anos, incluiu, generosamente, a do próprio ilusionista.)

Este género de manifestos ocorre com alguma frequência, artistas ou produtores que fazem coexistir no mesmo parágrafo a vaidadezinha pelo sucesso comercial e o lamento pela falta de apoio do Estado. Não notam a incoerência, são verdadeiros artistas portugueses.

Um pouco mais à frente, reforçando a sua perspectiva da crise enquanto bondoso «processo de selecção natural» e a confiança na sua própria fórmula, Luís de Matos diz que «quem faz bem, nada deve temer». Só não explicou o que entende por «fazer bem». Devem as companhias optar pela prestidigitação em vez do teatro ou da dança? Ou acredita o mágico que obteria idêntico sucesso comercial se encenasse Beckett ou mesmo o «imperecível» Shakespeare? Talvez o segredo de ter público para a dança não esteja em levar à cena «O Quebra-Nozes» no Natal, mas em ter o Luís de Matos a interpretar Merce Cunningham ou Pina Bausch. O Estado deveria era despejar dinheiro em produções destas, êxitos garantidos de bilheteira. Quem não pagaria para ver?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Goddamn!

Curioso. Tirando a Helena Matos a assobiar para o lado (embora razoavelmente certa no assunto abordado), o blogue Blasfémias esteve hoje silencioso. Ressaca eleitoral?

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Povo, povão, povaréu


Há doze anos, no defunto Eito Fora:
Quem me conhece sabe que tenho em grande estima o nosso Eça de Queirós. Não é que me agrade ser chato, mas, como alguém disse, o cérebro tem razões que o coração desconhece. Ao ex-cônsul em Cuba admiro-lhe sobretudo a ironia. Este ano foi o aniversário da sua morte e a moda de dizer-se que «o Eça é sempre actual» ganhou novo ímpeto. Por ironia (agora do destino), sinto-me completamente démodé. É que há coisas que nem ao janota do monóculo lembrava.Num editorial do Districto de Évora, de há mais de cem anos, Eça fazia uma compungente apologia do povo. Confesso que li o texto imerso em lágrimas. Deixei-me abater pela saudade e corroer pelos remorsos. Eu, que me tinha por cínico, fiquei uma lástima, condoído da minha condição de membro da plebe. Mas, passado o pranto, dei-me conta do anacronismo da prosa. Em vão procurei naquele rol das virtudes do bom povo alguma analogia com os dias de hoje. Vejamos:Reza o editorial que «há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão». Com tal mote, predispus-me a olhar o meu semelhante com profundidade, procurando descobrir-lhe no rosto boçal a alma virtuosa. A exemplo do mestre, entalei sob o sobrolho esquerdo uma lupa de laboratório. Deambulei por ruas e praças em busca do vulgo. Observei-o no catre onde se recosta, na tasca onde bebe, no confessionário onde genuflecte, no prostíbulo onde se confirma, vi-lhe a manga do casaco, catei-lhe os piolhos, mas nada me revelou. Vi nas secretarias, nos gabinetes, nos cabeleireiros, nos jipes, subi montes, desci vales, revirei as pedras da calçada, espreitei atrás de árvores, mergulhei nas sarjetas, remexi as lixeiras — absolutamente nada. Fiz jogging em hipermercados, estive in nos restaurantes da moda, assisti a desfiles, fui a festas loucas, li a Nova Gente — riennothing.Desesperado, fiz maratonas na TV e na Internet vendo o Big Brother (uma casa portuguesa, diziam): em nenhum momento os anjos cantaram hossanas como naquele velho texto do periódico eborense.Em boa verdade, não encontrei o povo de que falava o José Maria. Corri o espectro social de uma ponta à outra: revoltou-se-me o estômago, ganhei uma úlcera, uma neurose, tornei-me suicida — sem resultados.Onde está aquela «raça de homens com instintos sagrados e luminosos»? Onde param as «divinas bondades do coração»? Que é feito da «inteligência serena e lúcida»? Que é do «amor pelo trabalho» e da «adoração pelo bem»?Aquele povo definhou. Está extinto. Tem sete palmos de terra por cima. Eclipsou-se.O povo actual, o nosso povo, o povo das estatísticas de iliteracia, do share de audiências, dos hipermercados, dos telemóveis, conservou os defeitos do bom povo queirosiano — mas perdeu todas as virtudes. Salvo meia dúzia de idosos que vão enfeitando os umbrais das portas das aldeias históricas de Portugal, o povo dos dias de hoje é (só) abjecto. Lava-se, corta e limpa as unhas, vai à escola, opina, vota, compra o "Expresso" — mas repugna. Trapaceiro, calaceiro, invejoso, cobiçoso, imbecil, inepto, boçal, cavalgadura, asno — eis uma sucessão de termos queirosianos quase elogiosos para o povo actual.

2. Tempos houve em que o mundo estava dividido em vários estratos. Mesmo sob risco de me acusarem de feudal, enumero-os: povo, burguesia, clero e nobreza. Havia uma divisão muito clara dos defeitos — cada classe tinha os seus. Hoje, a mistura desconcerta. A classe média é um albergue espanhol pior que o velho PSD e o actual PS: cabe lá tudo. Quer a gente insultar alguém e não sabe, em rigor, que epítetos lhe atribuir. Tudo se confunde num despropósito que haveria de indignar os nossos antepassados. E as restantes classes — baixa e alta — apenas se distinguem pela quantidade (ou ausência) de notas no banco. O resto, maneiras, educação, conhecimento, nivelou-se. Por baixo. Tal como os grandes partidos de esquerda e direita convergem, nestes dias pragmáticos, num grande centrão, as velhas classes diluíram-se numa só, que acumula os defeitos de todas: o povão.As classes unem-se pela falta dela. De classe. O assalariado reserva a noite para ver as novidades do "Big Brother" — o patrão grava-as em vídeo. A sopeira perde horas a ver a Maria — a patroa lê a Caras. O prestador de serviços filosofa exclusivamente sobre os programas de futebol que vê — o profissional liberal vai aos programas expor a metafísica da bola. O cidadão comum tem caprichos imbecis — o governante não olha a meios para agradar ao povão (de que, de resto, faz parte).Quando alguém fala do povo deve, além de se persignar, ter em conta que fala da quase totalidade da população portuguesa. O advento da democracia trouxe muitas coisas, mas acima de tudo obrigou as classes a submeterem-se à ditadura do povo. Do mais reles povo.Aqueles que defendiam a ditadura do proletariado e hoje estão tristes e desiludidos, não o deveriam estar. O proletariado não venceu a luta de classes — fez mais, assimilou as outras classes. Só que no processo perdeu as virtudes. Quem está hoje nos diversos órgãos de poder é o mais vil, o mais boçal povo. O povo não se pode queixar da má governação porque é ele quem governa. Não temos líderes políticos — temos representantes do povo. Os detentores de cargos públicos estão lá para satisfazer os piores caprichos do povo. (E fazem-no com suma perfeição e requinte!)O povo do tempo do Eça era boçal, ignorante, crédulo, rústico, bruto — mas tinha virtudes. Hoje é boçal, ignorante, crédulo, suburbano, bruto — e tem telemóvel.

3. Eu queria, sinceramente, fazer apologia de grandes sentimentos, nobres virtudes, sãs qualidades; queria seguir o exemplo do Eça e emocionar-me com o povo — mas dou comigo rondando a necrofilia. Quando leio sobre "o saber ancestral e sereno do povo", vejo um padre dando a extrema unção; quando alguém fala no "povo bom e honesto", aguardo que o coveiro recolha a pá; quando ouço que "o povo não é parvo", sei que é dia de visita ao cemitério; quando me lembram que "o povo é quem mais ordena", eis a minha vez de descer à cova — resigno-me e espero pela autópsia que me hão-de fazer.Para já, vou arranjar um lugar no umbral de uma porta ao lado de alguém que não tenha a infelicidade de saber que «o povo unido jamais será vencido»... 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sketch book

Partir-se a rir
Duas senhoras de idade, balanceando bastões ou bengalas, sapatos de desporto, calças de fato de treino. A mais nova fala e a outra ouve, retorque de vez em quando, faz perguntas. A dada altura, a senhora mais velha fica para trás, bengala fincada no chão, mão no peito. Decorrem segundos de incerteza. O que significa aquele silêncio, aquela pausa? Apoplexia? A iminência de um ataque cardíaco devido ao esforço da caminhada? O mundo fica suspenso. Então a mais nova vira-se para trás e afinal está sorridente. A outra explode por fim numa gargalhada que a estremece da cabeça aos pés, a desequilibra. Tinha sido dita uma pilhéria entre elas e o corpo da mais velha já não se entrega a um riso desbragado e franco sem uma preparação, o apoio da bengala. Retomou a passada apenas quando as ondas de choque cómicas desceram a níveis menos sísmicos.

Pai e filho
O pai leva o filho pequeno, quase bebé, ao colo. Param em frente ao bar eternamente por concessionar e espreitam pelo vidro. Lá dentro, ausência de mobiliário e garrafas dispersas pelo chão. O puto aponta e diz: «Coca-cola». O pai ri-se, mostra-se orgulhoso do feito. Talvez ache que é bom para o miúdo aprender cedo a reconhecer os produtos e as marcas que balizam a sociedade. Parece seguro afirmar que aquele miúdo já tem um clube, o pai decerto ensinou-o a papaguear o nome do seu. É isto que um pai faz.

Tendência Nabokov
A (pouca) idade, o corte de cabelo, o andar, as sapatilhas, a t-shirt, sobretudo os calções curtos e a frase: «E ele olha para mim e, tipo, calou-se, e eu fiquei assim, tipo a olhar para o lado». Não há dúvidas: lolitas de marca, um género em voga. Roupas e atitude de catálogo fashion, léxico de MTV. Talvez no mundo da moda para massas alguém tenha sido suficientemente irónico para apelidar o estilo de «tendência Nabokov».

Garça-real



Há três anos, num início de Outono chuvoso, descobri ao accionar o limpa-pára-brisas uma ave inusitada do outro lado do Corgo. Tinha estacionado de frente para o rio e dormitava sobre o livro. Ver o bicho pousado no pinheiro devolveu-me a alegria que o tempo cinzento e a chuva tinham roubado e ocupou-me o resto da tarde. Primeiro, a tentar identificar o alien penado e pesado. De seguida, esperando que se mexesse ou, ainda melhor, voasse, com uma trajectória favorável. Depois, a torcer para que, voando, regressasse ao poleiro original, para se deixar mirar de novo intensamente. Naquela altura ignorava que se tratava de uma garça-real e que estes bichos são capazes de ficar horas imóveis, ou quase. A verdade é que caiu a noite e mais não pude observar do que aquele perfil de cabeça recolhida entre os ombros.
Percebo pouco de pássaros, mas compenso com o muito que gosto deles. (Talvez um dia me torne observador de aves certificado, como o Jonathan Franzen; capa da Time é que não será tão fácil, mas nunca se sabe.) E por gostar deles dedico-lhes mais do que uma vista de olhos. Foi assim que pus de lado a suspeita mais fácil mas também menos entusiasmante de que se tratava de uma cegonha. Estas não abundam por aqui, mas os avistamentos são ainda assim suficientemente comuns para refrearem o entusiasmo. Contudo aquela “cegonha” distinguia-se das outras, até um amador como eu o notava. Penas cinzentas no dorso, aquela forma de recolher o pescoço... Fui consultar o guia de aves e este concordava comigo em como não era uma cegonha.
No dia seguinte, já em modo de jogging, voltei a espreitar o pinheiro curvado onde a bicha pousara e ali estava ela, como se não se tivesse movido de um dia para o outro. Vi-a então com frequência durante semanas, sempre sozinha, pousada no mesmo pinheiro derreado, raramente em voo, até que, instalado o Inverno, desapareceu, talvez em busca de clima mais favorável e de companhia do sexo oposto.
Para minha curiosidade e alegria, no ano seguinte ali estava de novo. Quer dizer, nada garantia que fosse a mesma ave, mas como pensar o contrário ao vê-la quotidianamente no mesmo pinheiro, com a mesma pose vigilante e solitária? Coincidência? O local tem um atractivo genérico para a espécie? Talvez.
A garça-real não é uma ave rara em Portugal, ocorre um pouco por todo o lado e com abundância no litoral e no Alentejo. Mas nesta parte de Trás-os-Montes não é assim tão frequente. Eu nunca tinha visto nenhuma e outras pessoas confirmam a raridade.
Ontem regressou, pelo terceiro ano consecutivo. Permito-me imaginar que é o mesmo animal e que, desobedecendo à máxima, todos os anos volta a um local onde foi feliz, porque amado. E talvez a sua presença seja também uma retribuição. Sinto-a assim, quando nos observamos mutuamente, cada um do seu lado do rio, dois bichos de temperamento solitário.

sábado, 29 de setembro de 2012

«Relvas alerta para perigo da falta de confiança nos políticos europeus»


Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão

O Secretário de Estado da Cultura tem sido acusado de insensibilidade perante as artes. Há um ano no Governo e, tirando umas pilhérias sobre o dinheiro, diz-se, não cunhou nada que se veja. Ora, isto é injusto, esta percepção do SEC como emissor de moeda. Ele não está lá para isso. O SEC não é um patrono, um mecenas. Essas eram atribuições de príncipes e papas, e, como se sabe, o Estado além de laico é republicano. À maneira yankee, nestes dias.
Não se julgue, contudo, que ao SEC a arte passa ao lado. Não. No último ano ele tem-se preocupado bastante com a área. Sobretudo depois das cinco da tarde, depois de ter largado o serviço e as mangas de alpaca. Quem o acusa de não ter obra devia ler a edição de 31 de Agosto do oficioso Correio da Manhã. Há obra. Ela chama-se O Coleccionador de Erva e foi prometida ao editor José Alberto Valente até 15 de Setembro, para ser apresentada ao público em Novembro.
Talvez não fosse bem isto que os amantes das artes esperavam, mas cada um faz o que pode. E Deus sabe como tem sido difícil o ano para o SEC. Ponham-se no lugar dele. Um novo emprego, cheio de responsabilidades, numa época terrível para o sector, um emprego que, agora mais do que nunca, exigiu empenho, entrega, imaginação, criatividade, liderança, visão. Um homem comum nestas circunstâncias chega a casa derreado, não consegue pensar noutra coisa. Talvez beba um whisky ou dois, mas de certeza que sonha à mesma com as mil e uma diligências que tem de fazer no dia seguinte para salvar o barco, de certeza que ocupa a inescapável insónia a cismar nos dramas que testemunhou ou nos projectos que tem em mãos. Um homem comum nestas circunstâncias não conseguiria escrever uma linha depois do emprego, se lograsse ter um «depois do emprego».
Mas o SEC não é um homem comum. O SEC é, antes de mais, um Escritor. E não se pede a um Escritor que interrompa a prosápia só porque mudou de emprego, só porque lhe confiaram mais responsabilidades, só porque tem uma pasta melindrosa nas mãos. Um Escritor escreve, é tudo o que ele faz.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.


***

O novo livro do Secretário de Estado da Cultura será muito popular. E sê-lo-á por um golpe de génio. O volume estava para se chamar apenas O Coleccionador, mas um dos spin doctors do Governo previu o escândalo, a inoportunidade da edição, e sugeriu que se acrescentasse erva à obra. A ideia era apaziguar a esquerdalhada das artes dando-lhe algo com que se identificar. O problema vai ser convencê-la a enrolar as páginas antes de as queimar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Chefe mas pouco: notas sobre a segurança do PM


Não fiz uma análise intensiva das imagens televisivas que mostram o chefe da segurança do Primeiro-Ministro a passar-se. Mas identifiquei um padrão: o dos cães de estimação a reagirem em defesa do dono. Ali estava um exemplar impulsivo, com a perspicácia e a subtileza de um doberman jovem, apenas crescido de corpo. Imaginem o que aquele segurança não fará quando os cidadãos passarem do insulto ao bufardo.
   
Também foi um pouco canina a corroboração dos agentes fardados no exterior. O estudante detido para identificação podia ter-se manifestado contra o PM, concederam — mas não com insultos, repetiu um dos agentes. Estará o Governo a preparar-se para criminalizar o insulto? É possível. E talvez a blasfémia. Ideologia para isso não lhe falta. A ser assim, cos diabos, cheira-me que a polícia vai ter muito trabalho nos próximos tempos. Nem os santos se livrarão de tanto praguejar.

Já vi aquele chefe de segurança à ilharga do PM algumas vezes e, se não era exactamente um low profile, também não denunciava ter o sangue assim tão quente. Isso mostra que a) o estudante é particularmente dotado na arte de insultar, b) disse alguma verdade incómoda, ou c) o Governo anda com o dedo leve no gatilho. Nervosos, meus senhores?

Alguém devia explicar ao chefe da segurança do Sr. Primeiro-Ministro que a sua função não é ladrar aos manifestantes. A sua função é deixar-se crivar de balas em vez do dono. Não vê filmes?

De resto, se queria que o país não lhe conhecesse a cara conseguiu exactamente o oposto. Saltar para cima de um insultador e de uma câmara daquela forma é tão néscio como concorrer ao Big Brother com a esperança de não ser filmado.  

Se queria proteger o Primeiro-Ministro tapava-lhe as orelhas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pequenos posts perfeitos

«Setecentos
Voltaire dizia que para ter sucesso não bastava ser estúpido, era também preciso ter boas maneiras. Como o mundo mudou.»

Pedro Mexia, no Lei Seca

Testemunho de Rosa*

«A mota fez-se ouvir subindo com dificuldade o caminho que conduzia à nossa casa. Eu estava no balouço, como em tantas tardes, só que naquele dia era de manhã. Eurico tinha dito que vinha almoçar e eu preparei um almoço bom, uma coisa de que ele gostava. Mas preparei-o muito cedo e depois fiquei sem saber o que fazer. Ou nada do que tinha para fazer era mais importante do que o almoço e por isso não me apetecia meter outros trabalhos pelo meio. Deixei o bico do fogão no mínimo e vim cá para fora, para o sol. Era um dia lindo de Agosto e havia fumo no Parque. Uma coluna de fumo escuro a sair das copas das árvores que era mesmo assustadora, como se houvesse ali um vulcão ou coisa assim. O Parque era, para mim, que o via de cima, um prado. Se eu quisesse, podia imaginar que não havia nenhum tronco de árvore por baixo, que as copas não estavam suspensas e niveladas uns metros acima do solo, que o chão era logo ali encostado às folhas como nos prados. Por vezes conseguia ver-me a correr colina abaixo e a deixar-me rebolar por cima daquelas folhas, como em pequena fazia nos terrenos para onde ia guardar o gado. Havia certos prazeres que a gente perdia quando crescia e eu pensava se não tínhamos razão em não querer crescer. Mas depois crescíamos e era ridículo se nos puséssemos a rebolar nos prados. Claro que não havia prado nenhum ali e as copas das árvores estavam muito altas, nalguns sítios a mais de trinta metros, que no Parque plantaram-se espécies da América e da Austrália ou lá o que foi. Mas eu estava no balouço quando a mota chegou. A minha cara estava a ficar morena porque eu cantava virada para o Sol, com os olhos fechados e o queixo levantado, e a pele queimava mesmo, se eu lhe pusesse a mão. Às vezes adormecia assim, não no balouço, que tinha medo de cair, mas quando me encostava num banco, e o Eurico dizia-me que vermelha estás, rapariga, mas gostava e eu gostava que ele gostasse, dizia-lhe põe aqui a mão e ele punha e eu gostava mesmo muito. E o pescoço também ficava bronzeado e o peito se eu abrisse dois botões da blusa, ali ninguém nos via e podíamos abrir botões, ou podia eu, não havia mais ninguém a não ser eu e o Eurico e ele abria a camisa toda e até a tirava, ficava em tronco nu e era bonito de ver, eu gostava muito. Eu tinha aberto dois botões e estava mesmo com muito calor e vermelha e só queria que ele chegasse para lhe dizer põe aqui a mão, não, aqui, e rir-me por o fazer pôr-me a mão nos peitos. Depois ele chegou e trazia um embrulho nos braços e eu fiquei radiante, era tão bom quando ele se lembrava de trazer um presente. Mas Eurico vinha com ar cansado e sério e eu abotoei a blusa e endireitei-me no balouço enquanto ele se aproximava como os pastores nos presépios, com a cabeça baixa e a estender-me os braços com o embrulho. Era uma coisa pequenina e não era um embrulho, mas um cobertor pequeno enrolado à volta daquilo deixando apenas uma abertura pequenina para respirar. No início ainda pensei que fosse algum animal para fazermos criação ou assim, mas não havia feira naquele dia, onde raio teria ele ido arranjar tal coisa. Claro que nas aldeias às vezes lhe davam uma galinha ou um coelho para comermos e eu gostava que ele fosse assim popular em todo o lado mesmo que não fosse de se rir muito, mas se hoje vinha almoçar a casa era porque não tinha ido para as aldeias e portanto não podia ser isso. Também era absurdo que ele trouxesse um animal de criação embrulhado num cobertor, onde já se viu, e não era um ar de alegria gulosa o que ele trazia, nem sequer era alegria, se eu consegui compreender bem o ar que ele trazia. Simplesmente foi-se chegando a mim a olhar-me com olhos que pediam perdão ou só olhos de súplica que não pediam perdão mas pediam ajuda. E eu cada vez mais inquieta e assustada, a sentir a felicidade descer-me pelo corpo, que se arrepiava ainda que estivesse o calor do meio-dia, a fazer também olhinhos de súplica, mas uma súplica diferente, uma que se condoía do ar desesperado dele e que lhe dizia diz qualquer coisa, homem, que trazes aí que te deixa assim como se te estivessem a matar os pais. E Eurico abriu a boca como um peixe num aquário e não disse nada porque as palavras não lhe saíam embora estivessem mesmo ali na ponta da língua onde a gente quase as conseguia ver. O que ele fez foi estender-me a criança e dizer sei que não é a mesma coisa, Rosa, e a criança começou a chorar nesse momento e antes de eu poder dizer alguma coisa tive de a segurar contra o peito e dizer pronto, pronto, enquanto a embalava da esquerda para a direita como via fazer às outras mulheres.»

* in Hotel do Norte

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Determinismo a la carte

«Que parte não perceberam: não há dinheiro!» Esta é uma forma estúpida de expressar as coisas, dotada do carisma e do potencial mobilizador de um preguiça pendurado pelas unhas, mas é possível que esteja certa. As reivindicações sectoriais, no seu egoísmo cego, conseguem aqui e ali um alívio para as suas particulares dores (quanto mais acima estiverem na hierarquia do capitalismo mais o conseguem), mas não resolverão nada de geral e fundamental. Provavelmente a crise é de tal forma que não nos vai restar alternativa ao empobrecimento e ao desemprego, ao desemprego desamparado. A distopia deixou de ser um género literário ou cinematográfico para ser o degrau seguinte da evolução. Talvez regressem a fome, a guerra, as deambulações fantasmais de massas esfaimadas. O fluxo urbano será no futuro constituído por hordas cambaleantes de novos caçadores-recolectores, antecedidas de breves incursões iradas de gangues apocalípticos à procura do último supermercado, da última mercearia, da última lata de conservas. Antes disso, um bife, quando aparecer, há-de novamente ter de chegar para uma família, e a semana de trabalho, para os que o tiverem, deixará de ser inglesa para ser neo-helénica (seis dias, não é?) e depois asiática (full time). Regressaremos às hortas, à pesca à linha, à economia baseada na troca de artigos, e um dia a população na Terra começara finalmente, naturalmente, a regredir.
Talvez os crentes na austeridade estejam certos e não mais possa haver classe média, assistência social, solidariedade de estado. Talvez seja até justo irmos ao encontro do nosso lugar no Terceiro Mundo, o destino a cobrar-nos a arrogância e o egoísmo de séculos, a cobrar-nos a imprevidência de cigarras patetas e eleitores imbecis. Sim, talvez não haja alternativa ao castigo.
Mas em que momento começarão o Governo e os poderes na Europa a testar outras vias? Em que momento concederão que por este caminho o desemprego não vai diminuir nunca? Quando estarão dispostos a aceitar que, com o empobrecimento geral da sociedade, era natural, expectável, que houvesse um empobrecimento proporcional dos ricos?
Que constatação determinista, fria, escolheram os líderes europeus: que tem de haver pobres ou que tem de haver ricos? Dito de outra maneira: para a gente que nos governa, a pobreza generalizada é inevitável ou é a riqueza de uns poucos que é em qualquer circunstância inegociável? 

Ócio: a última fronteira da humanidade

Num tempo em que os economistas parecem gurus lunáticos, com a fiabilidade de um Zandinga, e quando a economia avançou tanto na capacidade de distribuir bem-estar quanto a ciência na capacidade de prever sismos, talvez não fossem de deitar fora certas considerações que circulam na net, como as atribuídas a Agostinho da Silva no que toca à, mais tarde ou mais cedo, fatal incapacidade de o capitalismo assegurar emprego generalizado e de isso não ser por si um mal (ócio: a última fronteira da humanidade). Para cenários futurísticos, não viria mal em considerar-se desde já um que pensasse na partilha do trabalho, em horários individualmente reduzidos, sustentada por uma melhor redistribuição da riqueza produzida. Não é bem comunismo. Talvez bom senso?

O pateta elegante

Já me aconteceu antes, regressar de um curto período sem internet nem jornais e levar com a realidade nas ventas. Não há nenhuma surpresa, não é isso. O anúncio de Passos Coelho era previsível (como tudo nele), mas esperar as más notícias não nos alivia do mal que elas, quando ditas, oficializam e na hora começamos a sentir.
Leio agora os jornais e os blogues e deparo aqui e ali com perfis do Primeiro-Ministro, todos excessivos, todos errados. Estive poucas vezes perto dele, mas em algumas estive suficientemente perto para notar como Passos Coelho me faz lembrar o irmão de um amigo de há vinte anos: os mesmos olhos claros, os mesmos somíticos lábios finos, as mesmas sobrancelhas em calimérico vê invertido (já imortalizadas numa versão de célebre quadro piegas a pedir intervenção especializada de Celina Giménez), o mesmo cabelo ternamente alourado, à betinho, de minuciosa risca ao lado e com um corte que lhe deixa coberto o arco (ou ogiva spockiana?) superior das orelhitas, o mesmo queixo proeminente, quase, quase à Kirk Douglas, a mesma fotogenia de boneco de cera hollywoodesco — e o mesmo vazio sideral entre as orelhas.
Como o irmão do meu amigo, Passos Coelho tem presença e vaidade, faz-se notar e fala com voz segura, autorizada, mesmo quando diz alarvidades. Os imprudentes e os deslumbrados rendiam-se ao halo do irmão do meu amigo — na verdade um caixeiro-viajante ao serviço de uma multinacional do perfume ou da aspirina. Vanglória ou placebos eram o seu negócio e ganhava bom dinheiro com isso, o elegante pateta alegre.
No Governo, está de um lado o insustentável Relvas, com as suas negociatas e representando certos interesses com rabo de fora; do outro, estão os dogmáticos Gaspar e Santos Pereira, espécie de ultrazelosos marxistas do capital prontos para irem ao fundo com a sua cartilha, que é, nos dias que correm, tão útil como a carta de ligeiros para os submarinos de Portas; e no meio está Passos Coelho, vendendo com os seus melhores colgate, gravata e argumentário de literatura inclusa o que lhe impingem os outros três — sem olhar às contra-indicações. Tal como o irmão do meu amigo, Passos Coelho é um bom ventríloquo dos seus incumbentes — mas infelizmente a sua prosódia de papagaio só é boa para ele e para os seus patrões, não para o país que num dia de humor delirante o elegeu.

domingo, 26 de agosto de 2012

Aritmética para totós

Custavam menos ao país os 40 milhões da RTP2 do que vão custar os 140 milhões da concessão da RTP1. Não só em euros.

sábado, 25 de agosto de 2012

Caminhada de sábado à tarde

São um casal, vêm equipados com sapatilhas, calções e t-shirts coloridas, a dela laranja, a dele amarelo de colete reflector. Algo correu mal ao estacionar. Vêem-se a discutir apontando o carro, ora aproximando-se dele, ora afastando-se alternadamente com ar de quem já ouviu tudo e se vai embora, o outro que se foda. Mas voltam atrás e repetem argumentos. À distância percebe-se nos gestos o mal-estar, adivinham-se as expressões de ultraje e raiva. Partem por fim juntos, com passada desportiva sincronizada, lado-a-lado para mais uma caminhada saudável no parque. São um casal, é isto que fazem: desentenderem-se e aturarem-se. Desentenderem-se e aturarem-se até ao dia em que não se aturam mais ou se tornam indiferentes um ao outro.

Mas eis que ela volta atrás, cento e cinquenta metros depois. Traz a chave na mão, mete-se no carro e estaciona-o como deve ser, alinhado com as riscas brancas no pavimento. Isto ela conseguiu corrigir, o carro mal estacionado. Retoma a caminhada com o ar decidido de quem fez a coisa certa e devolve-lhe a chave ao passar por ele. Ele também está a corrigir qualquer coisa — a meia na perna, os cordões da sapatilha — mas ela não espera, prossegue o seu caminho.
Saíram fora do campo de visão e não se vê o desfecho, mas talvez ele a apanhe, agora que tem o equipamento ajustado, corrigido.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

RTP, extorsão e papalvos

Fecha-se a RTP2 (porque é cara e tem fraca audiência) e os contribuintes continuarão a pagar 140 milhões para um privado (provavelmente angolano) fazer o “serviço público” definido pelo Governo PSD/CDS. Como “privatização”, é brilhante. Privatização do dinheiro público.
Os portugueses julgavam que tinham elegido um governo, mas na verdade elegeram o Xerife de Nottingham.

A RTP1 não fazia serviço público. Quando muito, fazia servicinhos aos governos, e nem todos de cariz sexual. Ou fazia o serviço em público (era impossível não dar pelo cheiro). Se não se é coprófago, é-se de opinião que um canal como a RTP1 devia ser fechado, implodido, incinerado — ou, se quiserem, vendido (podia dar para adubos, sabe-se lá). Mas quando um licenciado express coadjuva um espectador do La Feria no Governo aparecem melhores ideias. Como esta de pagar a um privado para fazer o lindo serviço que a RTP1 fazia.
Ok, não será bem o mesmo serviço. Os neurónios extra que aqueles dois contrataram para juntar ao par que possuem matutaram e concluíram que terá de haver um novo caderno de encargos definido pelo actual Governo. Sim, porque cada um gosta de fazer a sua própria merda. De resto, ninguém tem dúvidas que se algum Governo houve em Portugal capaz de definir um serviço público de televisão ele foi eleito em Junho do ano passado. Serviço público e este Governo são como unha e carne: a unha deles, a nossa carne.

Portanto este hibrido pegajoso de PSD e CDS espremerá a cabecinha para criar um novo conceito de serviço público. Não precisava de se dar ao trabalho: já sabemos que o resultado será um novo preconceito de serviço público. Um preconceito cultural, ideológico e económico. Um serviço público adaptável à sacrossanta lei da oferta e da procura. Exactamente aquilo que o país nunca teve e estava a precisar.

Alguns dirão que a venda da RTP serviria melhor os interesses nacionais. Haveria um razoável encaixe financeiro e, ao fim e ao cabo, a merda que iria para o ar seria a mesma. Quer dizer, nesta concessão, o operador privado terá de se preocupar com receitas (não muito, é certo) e terá de competir pela sua quota de audiências medíocres (isso estará no caderno de encargos). Porquê hão-de então os contribuintes continuar a pagar por um serviço que outros operadores privados já garantem? E porque hão-de os contribuintes pagá-lo a uma empresa privada?

Porque em certas circunstâncias ser papalvo é bom. Ser papalvo sob a gestão de um executivo PSD é bom. Foi isso que o esbirro António Borges veio dizer aos portugueses em nome do cobarde do Xerife de Nottingham.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prédios

1.
Vi-o de cabeça levantada — medindo o colosso com ar entendido, o indicador percorrendo os pisos com minúcia de sapador — e por momentos pensei que estudava a distribuição de cargas adequada para implodir um dos prédios “Coutinho” cá do burgo. Mas não. Era só um turista divertido, contando quantos pisos o mamarracho tinha acima das vivendas em redor, recolhendo amostras para uma antropologia lusitana, tirando fotos para o seu álbum de aberrações de Portugal.
  
2. 
O anúncio lista os atractivos do apartamento à venda num andar estratosférico do Porto. Das muitas virtudes mencionadas, só uma é verdadeiramente irresistível: o andar tem vista para «a relva do Estádio do Dragão». Não era dito qual dos tufos da relva do Estádio do Dragão — o anúncio carecia de detalhe.
Mas era um anúncio inteligente, dirigido a um vasto especto de compradores. Entre os candidatos a morar em tão celestial nuvem estão inúmeros portistas detentores de binóculos e, desconfio, alguns benfiquistas com licença de porte de carabina com mira telescópica.
  
3. 
Os edifícios residenciais por vezes adoptam nomes que lhes garantem distinção, ou, em fase de venda, lhes prometem compradores. Não vi até à data nenhum título capaz de despertar mais o instinto consumista num sem-abrigo do que “Varandas da A4”. A A4 é, adivinharam, uma auto-estrada — e alguém concebe melhor forma de passar os dias domésticos do que à varanda a ver o tráfego Porto-Amarante? Eu não.

Cristo faz parapente: a foto


Era a esta aparição que se referia este post ("Cristo faz parapente").

P.S. Bonita, não é? A foto é de Paulo Araújo.

Ontem

1. Tecnologia Gutenberg
Às cinco e meia da tarde, na piscina, julguei por momentos que o meu cérebro fora sequestrado pela silly season. Tinha pago mais de cinco euros para ficar sentado numa cadeira de lona a sofrer as sevícias de uma selecção musical idiota, com o volume regulado para surdos profundos. Depois, ufa!, lembrei-me que podia abrir o livro ou ir nadar. Experimentei nadar e deu resultado: debaixo de água quase não se ouve a música. No entanto, esta solução revelou-se ineficaz a longo prazo — há limites para o tempo que aguentamos sem respirar (se não estivermos assim tão desesperados com a música). Agradeci sem sinceridade ao nadador-salvador por me ter trazido à tona (eu estava assim tão desesperado) e, de volta à cadeira, abri o livro. Iniciou-se de imediato o processo de teletransporte dali para fora. Devia ter optado desde logo pela tecnologia Gutenberg.

2. Efectivamente, escuto as conversas
Na esplanada do restaurante ouvia-se à noite música de altifalantes. O largo da terra era ali ao lado e este era o fim-de-semana da festa. (O meu cérebro tinha sido sequestrado pela silly season, caso contrário o que fazia ali eu?) De qualquer modo, o conjunto ainda não tinha começado a tocar, pelo que as lesões nos tímpanos eram para já reversíveis. Se eu saísse antes das 23h00 as coisas não iam de certeza piorar.
Mas pioraram. Pode haver coisas piores do que altifalantes roufenhos a debitar hits pimba. Como por exemplo sentar-se na mesa ao lado da nossa um par de machos lusitanos ébrios de 4x4 e de uma meia dúzia de cervejas bebidas no fim de uma tarde a rolar no monte.
Ao lado da sua irrequietude envolta em t-shirts com logótipo e do seu vozear de gorila na tundra (talvez a imagem certa seja chimpanzés com voz de hienas), as músicas do grupo Chave D’Ouro que se ouviam antes pareciam suites de Bach para violoncelo.
Não havia uma piscina por perto para onde me pudesse atirar (com a base de cimento do guarda-sol amarrada ao pescoço) e em vez de um livro tinha trazido o Expresso. (Céus, o Expresso!) Estava portanto dependente da velocidade da cozinha e da velocidade das minhas mandíbulas. O chef não colaborou (as mandíbulas sim, quando finalmente lhes foi dada a oportunidade), pelo que tive de suportar a minha meia hora de calvário ouvindo as conversas da mesa ao lado. Nada a que não esteja habituado. Quer porque apenas posso frequentar restaurantes populares (troika obligé), onde as conversas são geralmente mantidas aos berros de licitadores num leilão de porcos, quer porque tenho o vício estúpido de recolher matéria para livros que ninguém quer editar, provavelmente ninguém quer ler, e eu decerto não sei escrever.