sábado, 29 de setembro de 2012
Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão
O Secretário de Estado da Cultura tem sido
acusado de insensibilidade perante as artes. Há um ano no Governo e, tirando umas
pilhérias sobre o dinheiro, diz-se, não cunhou nada que se veja. Ora, isto é
injusto, esta percepção do SEC como emissor de moeda. Ele não está lá para
isso. O SEC não é um patrono, um mecenas. Essas eram atribuições de príncipes e
papas, e, como se sabe, o Estado além de laico é republicano. À maneira yankee, nestes dias.
Não se julgue, contudo, que ao SEC a arte
passa ao lado. Não. No último ano ele tem-se preocupado bastante com a área.
Sobretudo depois das cinco da tarde, depois de ter largado o serviço e as
mangas de alpaca. Quem o acusa de não ter obra devia ler a edição de 31 de Agosto do oficioso Correio da Manhã. Há
obra. Ela chama-se O Coleccionador de Erva
e foi prometida ao editor José Alberto Valente até 15 de Setembro, para ser apresentada
ao público em Novembro.
Talvez não fosse bem isto que os amantes das
artes esperavam, mas cada um faz o que pode. E Deus sabe como tem sido difícil
o ano para o SEC. Ponham-se no lugar dele. Um novo emprego, cheio de
responsabilidades, numa época terrível para o sector, um emprego que, agora
mais do que nunca, exigiu empenho, entrega, imaginação, criatividade, liderança,
visão. Um homem comum nestas circunstâncias chega a casa derreado, não consegue
pensar noutra coisa. Talvez beba um whisky
ou dois, mas de certeza que sonha à mesma com as mil e uma diligências que tem
de fazer no dia seguinte para salvar o barco, de certeza que ocupa a inescapável
insónia a cismar nos dramas que testemunhou ou nos projectos que tem em mãos.
Um homem comum nestas circunstâncias não conseguiria escrever uma linha depois
do emprego, se lograsse ter um «depois do emprego».
Mas o SEC não é um homem comum. O SEC é, antes
de mais, um Escritor. E não se pede a um Escritor que interrompa a prosápia
só porque mudou de emprego, só porque lhe confiaram mais responsabilidades, só porque tem uma pasta melindrosa nas mãos. Um Escritor escreve, é tudo o que ele faz.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.
***
O novo livro do Secretário de Estado da
Cultura será muito popular. E sê-lo-á por um golpe de génio. O volume estava
para se chamar apenas O Coleccionador,
mas um dos spin doctors do Governo
previu o escândalo, a inoportunidade da edição, e sugeriu que se acrescentasse erva à obra. A ideia era apaziguar a
esquerdalhada das artes dando-lhe algo com que se identificar. O problema vai
ser convencê-la a enrolar as páginas antes de as queimar.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Chefe mas pouco: notas sobre a segurança do PM
Não fiz uma análise intensiva das imagens televisivas que
mostram o chefe da segurança do Primeiro-Ministro a passar-se. Mas identifiquei
um padrão: o dos cães de estimação a reagirem em defesa do dono. Ali estava um
exemplar impulsivo, com a perspicácia e a subtileza de um doberman jovem, apenas crescido de corpo. Imaginem o que aquele segurança
não fará quando os cidadãos passarem do insulto ao bufardo.
Também foi um pouco canina a corroboração dos agentes fardados
no exterior. O estudante detido para identificação podia ter-se manifestado
contra o PM, concederam — mas não com
insultos, repetiu um dos agentes. Estará o Governo a preparar-se para criminalizar
o insulto? É possível. E talvez a blasfémia. Ideologia para isso não lhe falta.
A ser assim, cos diabos, cheira-me que a polícia vai ter muito trabalho nos
próximos tempos. Nem os santos se livrarão de tanto praguejar.
Já vi aquele chefe de segurança à ilharga do PM algumas
vezes e, se não era exactamente um low
profile, também não denunciava ter o sangue assim tão quente. Isso mostra
que a) o estudante é particularmente dotado na arte de insultar, b) disse
alguma verdade incómoda, ou c) o Governo anda com o dedo leve no gatilho. Nervosos,
meus senhores?
Alguém devia explicar ao chefe da segurança do Sr. Primeiro-Ministro
que a sua função não é ladrar aos manifestantes. A sua função é deixar-se crivar
de balas em vez do dono. Não vê filmes?
De resto, se queria que o país não lhe conhecesse a cara
conseguiu exactamente o oposto. Saltar para cima de um insultador e de uma
câmara daquela forma é tão néscio como concorrer ao Big Brother com a esperança
de não ser filmado.
Se queria proteger o Primeiro-Ministro tapava-lhe as orelhas.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Testemunho de Rosa*
«A mota fez-se ouvir subindo com dificuldade o caminho
que conduzia à nossa casa. Eu estava no balouço, como em tantas tardes, só que
naquele dia era de manhã. Eurico tinha dito que vinha almoçar e eu preparei um
almoço bom, uma coisa de que ele gostava. Mas preparei-o muito cedo e depois
fiquei sem saber o que fazer. Ou nada do que tinha para fazer era mais
importante do que o almoço e por isso não me apetecia meter outros trabalhos
pelo meio. Deixei o bico do fogão no mínimo e vim cá para fora, para o sol. Era
um dia lindo de Agosto e havia fumo no Parque. Uma coluna de fumo escuro a sair
das copas das árvores que era mesmo assustadora, como se houvesse ali um vulcão
ou coisa assim. O Parque era, para mim, que o via de cima, um prado. Se eu
quisesse, podia imaginar que não havia nenhum tronco de árvore por baixo, que
as copas não estavam suspensas e niveladas uns metros acima do solo, que o chão
era logo ali encostado às folhas como nos prados. Por vezes conseguia ver-me a
correr colina abaixo e a deixar-me rebolar por cima daquelas folhas, como em
pequena fazia nos terrenos para onde ia guardar o gado. Havia certos prazeres
que a gente perdia quando crescia e eu pensava se não tínhamos razão em não
querer crescer. Mas depois crescíamos e era ridículo se nos puséssemos a
rebolar nos prados. Claro que não havia prado nenhum ali e as copas das árvores
estavam muito altas, nalguns sítios a mais de trinta metros, que no Parque
plantaram-se espécies da América e da Austrália ou lá o que foi. Mas eu estava
no balouço quando a mota chegou. A minha cara estava a ficar morena porque eu
cantava virada para o Sol, com os olhos fechados e o queixo levantado, e a pele
queimava mesmo, se eu lhe pusesse a mão. Às vezes adormecia assim, não no
balouço, que tinha medo de cair, mas quando me encostava num banco, e o Eurico
dizia-me que vermelha estás, rapariga, mas gostava e eu gostava que ele
gostasse, dizia-lhe põe aqui a mão e ele punha e eu gostava mesmo muito. E o
pescoço também ficava bronzeado e o peito se eu abrisse dois botões da blusa,
ali ninguém nos via e podíamos abrir botões, ou podia eu, não havia mais
ninguém a não ser eu e o Eurico e ele abria a camisa toda e até a tirava,
ficava em tronco nu e era bonito de ver, eu gostava muito. Eu tinha aberto dois
botões e estava mesmo com muito calor e vermelha e só queria que ele chegasse
para lhe dizer põe aqui a mão, não, aqui, e rir-me por o fazer pôr-me a mão nos
peitos. Depois ele chegou e trazia um embrulho nos braços e eu fiquei radiante,
era tão bom quando ele se lembrava de trazer um presente. Mas Eurico vinha com
ar cansado e sério e eu abotoei a blusa e endireitei-me no balouço enquanto ele
se aproximava como os pastores nos presépios, com a cabeça baixa e a
estender-me os braços com o embrulho. Era uma coisa pequenina e não era um
embrulho, mas um cobertor pequeno enrolado à volta daquilo deixando apenas uma
abertura pequenina para respirar. No início ainda pensei que fosse algum animal
para fazermos criação ou assim, mas não havia feira naquele dia, onde raio
teria ele ido arranjar tal coisa. Claro que nas aldeias às vezes lhe davam uma
galinha ou um coelho para comermos e eu gostava que ele fosse assim popular em
todo o lado mesmo que não fosse de se rir muito, mas se hoje vinha almoçar a
casa era porque não tinha ido para as aldeias e portanto não podia ser isso.
Também era absurdo que ele trouxesse um animal de criação embrulhado num
cobertor, onde já se viu, e não era um ar de alegria gulosa o que ele trazia,
nem sequer era alegria, se eu consegui compreender bem o ar que ele trazia.
Simplesmente foi-se chegando a mim a olhar-me com olhos que pediam perdão ou só
olhos de súplica que não pediam perdão mas pediam ajuda. E eu cada vez mais
inquieta e assustada, a sentir a felicidade descer-me pelo corpo, que se
arrepiava ainda que estivesse o calor do meio-dia, a fazer também olhinhos de
súplica, mas uma súplica diferente, uma que se condoía do ar desesperado dele e
que lhe dizia diz qualquer coisa, homem, que trazes aí que te deixa assim como
se te estivessem a matar os pais. E Eurico abriu a boca como um peixe num
aquário e não disse nada porque as palavras não lhe saíam embora estivessem
mesmo ali na ponta da língua onde a gente quase as conseguia ver. O que ele fez
foi estender-me a criança e dizer sei que não é a mesma coisa, Rosa, e a
criança começou a chorar nesse momento e antes de eu poder dizer alguma coisa
tive de a segurar contra o peito e dizer pronto, pronto, enquanto a embalava da
esquerda para a direita como via fazer às outras mulheres.»
* in Hotel do Norte
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Determinismo a la carte
«Que parte não perceberam: não há dinheiro!» Esta é uma forma estúpida
de expressar as coisas, dotada do carisma e do potencial mobilizador de um
preguiça pendurado pelas unhas, mas é possível que esteja certa. As reivindicações
sectoriais, no seu egoísmo cego, conseguem aqui e ali um alívio para as suas
particulares dores (quanto mais acima estiverem na hierarquia do capitalismo
mais o conseguem), mas não resolverão nada de geral e fundamental.
Provavelmente a crise é de tal forma que não nos vai restar alternativa ao
empobrecimento e ao desemprego, ao desemprego desamparado. A distopia deixou de
ser um género literário ou cinematográfico para ser o degrau seguinte da
evolução. Talvez regressem a fome, a guerra, as deambulações fantasmais de
massas esfaimadas. O fluxo urbano será no futuro constituído por hordas cambaleantes
de novos caçadores-recolectores, antecedidas de breves incursões iradas de
gangues apocalípticos à procura do último supermercado, da última mercearia, da
última lata de conservas. Antes disso, um bife, quando aparecer, há-de novamente
ter de chegar para uma família, e a semana de trabalho, para os que o tiverem, deixará
de ser inglesa para ser neo-helénica (seis dias, não é?) e depois asiática (full time). Regressaremos às hortas, à
pesca à linha, à economia baseada na troca de artigos, e um dia a população na
Terra começara finalmente, naturalmente, a regredir.
Talvez os crentes na austeridade estejam certos e não mais possa haver
classe média, assistência social, solidariedade de estado. Talvez seja até
justo irmos ao encontro do nosso lugar no Terceiro Mundo, o destino a cobrar-nos
a arrogância e o egoísmo de séculos, a cobrar-nos a imprevidência de cigarras patetas
e eleitores imbecis. Sim, talvez não haja alternativa ao castigo.
Mas em que momento começarão o Governo e os poderes na Europa a testar
outras vias? Em que momento concederão que por este caminho o desemprego não vai diminuir nunca? Quando estarão
dispostos a aceitar que, com o empobrecimento geral da sociedade, era natural, expectável, que houvesse um empobrecimento
proporcional dos ricos?
Que constatação determinista, fria, escolheram os líderes europeus: que
tem de haver pobres ou que tem de
haver ricos? Dito de outra maneira: para a gente que nos governa, a pobreza generalizada
é inevitável ou é a riqueza de uns poucos que é em qualquer circunstância
inegociável?
Ócio: a última fronteira da humanidade
Num tempo em que os economistas parecem gurus lunáticos, com a
fiabilidade de um Zandinga, e quando a economia avançou tanto na capacidade de
distribuir bem-estar quanto a ciência na capacidade de prever sismos, talvez
não fossem de deitar fora certas considerações que circulam na net, como as atribuídas
a Agostinho da Silva no que toca à, mais tarde ou mais cedo, fatal incapacidade
de o capitalismo assegurar emprego generalizado e de isso não ser por si um mal
(ócio: a última fronteira da humanidade). Para cenários futurísticos, não viria
mal em considerar-se desde já um que pensasse na partilha do trabalho, em
horários individualmente reduzidos,
sustentada por uma melhor redistribuição da riqueza produzida. Não é bem
comunismo. Talvez bom senso?
O pateta elegante
Já me aconteceu antes, regressar de um curto período sem internet
nem jornais e levar com a realidade nas ventas. Não há nenhuma surpresa, não é
isso. O anúncio de Passos Coelho era previsível (como tudo nele), mas esperar as
más notícias não nos alivia do mal que elas, quando ditas, oficializam e na
hora começamos a sentir.
Leio agora os jornais e os blogues e deparo aqui e ali com perfis
do Primeiro-Ministro, todos excessivos, todos errados. Estive poucas vezes perto
dele, mas em algumas estive suficientemente perto para notar como Passos Coelho
me faz lembrar o irmão de um amigo de há vinte anos: os mesmos olhos claros, os
mesmos somíticos lábios finos, as mesmas sobrancelhas em calimérico vê
invertido (já imortalizadas numa versão de célebre quadro piegas a pedir
intervenção especializada de Celina Giménez), o mesmo cabelo ternamente alourado,
à betinho, de minuciosa risca ao lado e com um corte que lhe deixa coberto o
arco (ou ogiva spockiana?) superior das orelhitas, o mesmo queixo proeminente, quase,
quase à Kirk Douglas, a mesma fotogenia de boneco de cera hollywoodesco — e o
mesmo vazio sideral entre as orelhas.
Como o irmão do meu amigo, Passos Coelho tem presença e vaidade,
faz-se notar e fala com voz segura, autorizada, mesmo quando diz alarvidades. Os
imprudentes e os deslumbrados rendiam-se ao halo do irmão do meu amigo — na
verdade um caixeiro-viajante ao serviço de uma multinacional do perfume ou da
aspirina. Vanglória ou placebos eram o seu negócio e ganhava bom dinheiro com
isso, o elegante pateta alegre.
No Governo, está de um lado o insustentável Relvas, com as suas
negociatas e representando certos interesses com rabo de fora; do outro, estão
os dogmáticos Gaspar e Santos Pereira, espécie de ultrazelosos marxistas do
capital prontos para irem ao fundo com a sua cartilha, que é, nos dias que
correm, tão útil como a carta de ligeiros para os submarinos de Portas; e no
meio está Passos Coelho, vendendo com os seus melhores colgate, gravata e
argumentário de literatura inclusa o que lhe impingem os outros três — sem
olhar às contra-indicações. Tal como o irmão do meu amigo, Passos Coelho é um bom
ventríloquo dos seus incumbentes — mas infelizmente a sua prosódia de papagaio
só é boa para ele e para os seus patrões, não para o país que num dia de humor delirante
o elegeu.
domingo, 26 de agosto de 2012
Aritmética para totós
Custavam menos ao país os 40 milhões da RTP2 do que vão custar os 140 milhões da concessão da RTP1. Não só em euros.
sábado, 25 de agosto de 2012
Caminhada de sábado à tarde
São um casal, vêm equipados com sapatilhas, calções e t-shirts coloridas, a dela laranja, a dele
amarelo de colete reflector. Algo correu mal ao estacionar. Vêem-se a discutir
apontando o carro, ora aproximando-se dele, ora afastando-se alternadamente com
ar de quem já ouviu tudo e se vai embora, o outro que se foda. Mas voltam atrás
e repetem argumentos. À distância percebe-se nos gestos o mal-estar,
adivinham-se as expressões de ultraje e raiva. Partem por fim juntos, com
passada desportiva sincronizada, lado-a-lado para mais uma caminhada saudável
no parque. São um casal, é isto que fazem: desentenderem-se e aturarem-se.
Desentenderem-se e aturarem-se até ao dia em que não se aturam mais ou se
tornam indiferentes um ao outro.
Mas eis que ela volta atrás, cento e cinquenta metros depois. Traz a
chave na mão, mete-se no carro e estaciona-o como deve ser, alinhado com as
riscas brancas no pavimento. Isto ela conseguiu corrigir, o carro mal
estacionado. Retoma a caminhada com o ar decidido de quem fez a coisa certa e
devolve-lhe a chave ao passar por ele. Ele também está a corrigir qualquer
coisa — a meia na perna, os cordões da sapatilha — mas ela não espera, prossegue
o seu caminho.
Saíram fora do campo de visão e não se vê o desfecho, mas talvez ele a apanhe, agora que tem o equipamento ajustado, corrigido.
Saíram fora do campo de visão e não se vê o desfecho, mas talvez ele a apanhe, agora que tem o equipamento ajustado, corrigido.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
RTP, extorsão e papalvos
Fecha-se a RTP2 (porque é cara e tem fraca
audiência) e os contribuintes continuarão a pagar 140 milhões para um privado
(provavelmente angolano) fazer o “serviço público” definido pelo Governo
PSD/CDS. Como “privatização”, é brilhante. Privatização do dinheiro público.
Os portugueses julgavam que tinham elegido um
governo, mas na verdade elegeram o Xerife de Nottingham.
A RTP1 não fazia serviço público. Quando muito, fazia
servicinhos aos governos, e nem todos
de cariz sexual. Ou fazia o serviço
em público (era impossível não dar pelo cheiro). Se não se é coprófago, é-se de
opinião que um canal como a RTP1 devia ser fechado, implodido, incinerado — ou,
se quiserem, vendido (podia dar para adubos, sabe-se lá). Mas quando um licenciado
express coadjuva um espectador do La
Feria no Governo aparecem melhores ideias. Como esta de pagar a um privado para
fazer o lindo serviço que a RTP1 fazia.
Ok, não será bem o mesmo serviço. Os neurónios
extra que aqueles dois contrataram para juntar ao par que possuem matutaram e
concluíram que terá de haver um novo caderno de encargos definido pelo actual
Governo. Sim, porque cada um gosta de fazer a sua própria merda. De resto,
ninguém tem dúvidas que se algum Governo houve em Portugal capaz de definir um
serviço público de televisão ele foi
eleito em Junho do ano passado. Serviço público e este Governo são como unha e
carne: a unha deles, a nossa carne.
Portanto este hibrido pegajoso de PSD e CDS espremerá
a cabecinha para criar um novo conceito de serviço público. Não precisava de se
dar ao trabalho: já sabemos que o resultado será um novo preconceito de serviço público. Um preconceito cultural, ideológico
e económico. Um serviço público adaptável à sacrossanta lei da oferta e da
procura. Exactamente aquilo que o país nunca
teve e estava a precisar.
Alguns dirão que a venda da RTP serviria melhor os interesses nacionais. Haveria um razoável
encaixe financeiro e, ao fim e ao cabo, a merda que iria para o ar seria a
mesma. Quer dizer, nesta concessão, o operador privado terá de se preocupar com receitas (não
muito, é certo) e terá de competir pela sua quota de audiências medíocres (isso estará no caderno de encargos). Porquê
hão-de então os contribuintes continuar a pagar por um serviço que outros operadores
privados já garantem? E porque hão-de os contribuintes pagá-lo a uma empresa
privada?
Porque em certas circunstâncias ser papalvo é bom.
Ser papalvo sob a gestão de um executivo PSD é bom. Foi isso que o esbirro
António Borges veio dizer aos portugueses em nome do cobarde do Xerife de
Nottingham.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Prédios
1.
Vi-o
de cabeça levantada — medindo o colosso com ar entendido, o indicador
percorrendo os pisos com minúcia de sapador — e por momentos pensei que estudava
a distribuição de cargas adequada para implodir um dos prédios “Coutinho” cá do
burgo. Mas não. Era só um turista divertido, contando quantos pisos o
mamarracho tinha acima das vivendas em redor, recolhendo amostras para uma
antropologia lusitana, tirando fotos para o seu álbum de aberrações de Portugal.
2.
O anúncio lista os atractivos do apartamento à venda num andar
estratosférico do Porto. Das muitas virtudes mencionadas, só uma é
verdadeiramente irresistível: o andar tem vista para «a relva do Estádio do
Dragão». Não era dito qual dos tufos
da relva do Estádio do Dragão — o anúncio carecia de detalhe.
Mas era um anúncio inteligente, dirigido a um vasto especto
de compradores. Entre os candidatos a morar em tão celestial nuvem estão
inúmeros portistas detentores de binóculos e, desconfio, alguns benfiquistas com
licença de porte de carabina com mira telescópica.
3.
Os edifícios residenciais por vezes adoptam nomes que lhes
garantem distinção, ou, em fase de venda, lhes prometem compradores. Não vi até
à data nenhum título capaz de despertar mais o instinto consumista num sem-abrigo
do que “Varandas da A4”. A A4 é, adivinharam, uma auto-estrada — e alguém concebe
melhor forma de passar os dias domésticos do que à varanda a ver o tráfego
Porto-Amarante? Eu não.
Cristo faz parapente: a foto
Era a esta aparição que se referia este post ("Cristo faz parapente").
P.S. Bonita, não é? A foto é de Paulo Araújo.
Ontem
1. Tecnologia Gutenberg
Às cinco e meia da tarde, na piscina, julguei por
momentos que o meu cérebro fora sequestrado pela silly season.
Tinha pago mais de cinco euros para ficar sentado numa cadeira de lona a sofrer
as sevícias de uma selecção musical idiota, com o volume regulado para surdos
profundos. Depois, ufa!, lembrei-me que podia abrir o livro ou ir nadar.
Experimentei nadar e deu resultado: debaixo de água quase não se ouve a música.
No entanto, esta solução revelou-se ineficaz a longo prazo — há limites para o
tempo que aguentamos sem respirar (se não estivermos assim tão
desesperados com a música). Agradeci sem sinceridade ao nadador-salvador por me
ter trazido à tona (eu estava assim tão desesperado) e, de
volta à cadeira, abri o livro. Iniciou-se de imediato o processo de
teletransporte dali para fora. Devia ter optado desde logo pela tecnologia
Gutenberg.
2. Efectivamente, escuto as conversas
Na esplanada do restaurante ouvia-se à noite música de
altifalantes. O largo da terra era ali ao lado e este era o fim-de-semana da
festa. (O meu cérebro tinha sido sequestrado pela silly
season, caso contrário o que fazia ali eu?) De qualquer modo, o conjunto
ainda não tinha começado a tocar, pelo que as lesões nos tímpanos eram para já
reversíveis. Se eu saísse antes das 23h00 as coisas não iam de certeza piorar.
Mas pioraram. Pode haver coisas piores do que
altifalantes roufenhos a debitar hits pimba. Como por exemplo
sentar-se na mesa ao lado da nossa um par de machos lusitanos ébrios de 4x4 e de
uma meia dúzia de cervejas bebidas no fim de uma tarde a rolar no monte.
Ao lado da sua irrequietude envolta em t-shirts com
logótipo e do seu vozear de gorila na tundra (talvez a imagem certa seja
chimpanzés com voz de hienas), as músicas do grupo Chave D’Ouro que se ouviam
antes pareciam suites de Bach para
violoncelo.
Não havia uma piscina por perto para onde me pudesse
atirar (com a base de cimento do guarda-sol amarrada ao pescoço) e em vez de um
livro tinha trazido o Expresso. (Céus, o Expresso!) Estava portanto dependente da
velocidade da cozinha e da velocidade das minhas mandíbulas. O chef não
colaborou (as mandíbulas sim, quando finalmente lhes foi dada a oportunidade),
pelo que tive de suportar a minha meia hora de calvário ouvindo as
conversas da mesa ao lado. Nada a que não esteja habituado. Quer porque apenas
posso frequentar restaurantes populares (troika obligé), onde as
conversas são geralmente mantidas aos berros de licitadores num leilão de
porcos, quer porque tenho o vício estúpido de recolher matéria para livros que
ninguém quer editar, provavelmente ninguém quer ler, e eu decerto não sei escrever.
domingo, 19 de agosto de 2012
A acordeonista
A excursão desce do autocarro para lanchar. Saem do porão os comes e
bebes, as arcas e os copos descartáveis, os garrafões e os banquinhos
articulados. Para o fim do repasto, quando os ânimos estão aquecidos e as
gargantas anseiam pela desgarrada, sai o acordeão. É uma adolescente que o
carrega e é ela que o tocará. Com um olhar distante: o rosto voltado para o
rio, para a estrada, para as crianças nos balouços, para as copas das árvores,
raramente encarando as teclas que prime ou os cantadores que se desafiam e os
foliões que os rodeiam. Dos dedos saltitantes saem-lhe melodias tradicionais,
populares, faceiras, por vezes com letras apimentadas. Mas a sua expressão não
se altera, não transparece a alegria das peças que a acordeonista executa nem
ruboresce com as palavras brejeiras que os outros cantam. A sua expressão
permanece neutra. Talvez entediada. Talvez desolada. Talvez desesperada.
Amaldiçoando a vocação, o talento. Amaldiçoando-se por o ter deixado
manifestar-se e pelos dias de aprendizagem e treino. Se fosse duma família
aristocrata do século XIX, talvez a tivessem forçado às aulas de piano — e os
seus recitais nos serões que a família ofereceria seriam igualmente mecânicos,
contrariados, ao serviço de interesses e gostos que não seriam os seus, não seriam
os de mademoiselle Bovary.
sábado, 18 de agosto de 2012
Dinamite
O meu amigo é especialista em perfuração com
explosivos. Recentemente contrataram-no para uma intervenção no metro de Roma,
mas não há qualquer relação entre isso e as notícias de que o Coliseu está a
ficar inclinado.
Uma amiga do meu amigo tinha toupeiras no jardim e
queixava-se disso. Ele resolveu intervir. Minou o terreno, com cargas
cirurgicamente distribuídas e ligadas entre si, posicionou-se, e, accionando o
detonador à distância, rebentou com o jardim. Foi uma limpeza, diz. E bonito: o
jardim elevou-se uns trinta centímetros, com um fragor surdo, e regressou ao
chão. Revolto como se tivesse andado por ali um engaço furioso. Não havia mais
toupeiras. Nem jardim. Agora era só passar um ancinho e semear nova relva, disse
ele, com aquele sorriso de menino, de menino traquinas. Um sorriso de Calvin.
Perguntei-lhe como se chamava a amiga, mas não, não era a Susie.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Cristo faz parapente
No meu percurso de jogging aparece a
certa altura um Cristo crucificado. Não, não é um milagre. Cristo não me
escolheria para aparições dessas, não sou uma testemunha credível:
demasiada propensão para crer no fantástico. Trata-se de uma escultura
religiosa postada em frente a uma capela. À distância, parece uma espécie de
cruz ortodoxa, com um segundo travessão acima da cabeça de Cristo. Mas este
travessão é maior e não menor, e vinte passadas depois confirmamos que é na
realidade uma cobertura em chapa, para que o Filho de Deus não molhe a coroa de
espinhos.
Entre estes dois momentos, ou entre estas duas
distâncias, há uma outra ilusão. A dez passadas, sem óculos, a cobertura — com
as suas duas águas mas sem vértice na cumeeira, curva como um tecto de hangar,
ligada por duas tiras ao madeiro onde Cristo tem os braços — surge insuflada
como um pára-quedas. É como se o Nazareno praticasse parapente.
Não sei se é assim que Ele desce dos Céus nos dias de
aparições, suponho que não. Seria como “caminhar” nas águas sobre uma prancha
de surf, excitante porém fraudulento. Todavia, um Cristo “radical”,
que também fizesse a Sua ascensão escalando com as mãos e pés-de-gato,
como todos os alpinistas, ao invés de o fazer flutuando com propulsão
telepática, seria certamente mais humano — e não mais um dos mutantes dos X-Men.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Piropos
Um documentário sobre piropos, informa o JN, criou polémica na Bélgica.
Ainda bem. Há coisas que têm de se discutir.
Não será preciso procurar atrás de giestas, debaixo de calhaus ou nas
caixas de comentários da Internet machistas defendendo o carácter inofensivo, divertido,
até elogioso dos piropos. Gente distinta e bem formada falará de excesso de
zelo, de radicalismo feminista, de frigidez. Tipos (homens) que, pela sua experiência pessoal, do seu ponto de vista, acham que nada de
mal há com os piropos. Tipos que, claro, não estão habituados a pôr-se no lugar
das mulheres.
Há mulheres que circulam na rua de headphones
ligados e olhos no chão para não terem de enfrentar a verve masculina. Há
mulheres que deixam de ir a uma piscina ou a uma praia ou a um café sozinhas
por não suportarem o voyeurismo e os permanentes e intrusivos gracejos
masculinos. Há mulheres que condicionam o seu vestuário para não darem azo a
olhares esgalgados e galanteios babosos, cuspidos a distâncias por vezes
abusivamente curtas, e não raro com mãos a acompanhar.
A sinfonia dos piropos é uma música que as mulheres não pediram e,
creio, a maioria dispensa. Além disso, as mulheres pressentem, sabem, sofrem na
pele que nem todos os homens conhecem o que separa um piropo da inconveniência,
da impertinência, do incómodo, do assédio. De algo pior. Só por isso, o piropo
é indefensável.
Não precisamos de muito esforço de imaginação para percebermos como as
mulheres têm a vida condicionada em relação aos homens, mesmo no civilizado e
liberal mundo ocidental. Pensem os homens um minuto nas coisas que as mulheres
não fazem como eles e talvez tenham uma ideia de como a defesa do piropo é uma
causa frívola, egoísta. Machista.
De resto, muitos homens experimentam (e não gostam) situações análogas,
quando a sua barriga proeminente, a sua careca precoce, o seu nariz aquilino, as
suas grandes orelhas, a sua reduzida estatura, a sua estupidez ou seja o que
for que tenham de característico são alvo de permanentes comentários e
gracinhas. Ou quando o seu desempenho no trânsito causa desagrado aos outros. Os
homens experimentam estas situações e não gostam, sentem a humilhação, o
incómodo, a intrusão e enfurecem-se, reagem, não raro com violência. Ou ficam
impotentes, a chorar de raiva, se a situação não lhes é favorável — como
geralmente não o é à mulher que ouve o piropo.
É só lembrarem-se disso da próxima vez que forem num carro e resolverem
buzinar as pernas da mulher que passa na berma, ou estiverem pendurados num
andaime e acharem que têm de comentar o decote que lhes passa por baixo, ou
sentados na esplanada se sentirem autorizados a assobiar a saia com que o vento
se mete, ou ao circular no passeio em manada entenderem guinchar como os excita
o traseiro da que vai à frente ou as mamas da que se aproxima em sentido
contrário.
Biologicamente, nem sempre é possível ao homem ficar impávido perante a
mulher. Há as hormonas e a sua influência no ritmo cardíaco. Há talvez intumescimento.
Mas é disso que trata a civilização: de dominar impulsos. Não matamos ou sequer
insultamos todos os que achamos que o merecem, pois não? Deixemos então as
mulheres em paz na sua vida ainda que
achemos que as suas formas merecem todos os elogios. Talvez elas até nos apreciem
mais por isso.
A educação é uma das formas de civilizar o selvagem que há em nós. Mas
por vezes, para sermos melhores pessoas, do que precisamos é de nos livrarmos
da educação que tivemos. Alijar o português mediterrânico, bigodudo e façanhudo
que há em nós é uma obrigação. E mesmo assim é insuficiente, como mostra o
documentário realizado na setentrional Bélgica.
domingo, 5 de agosto de 2012
Diário de férias (12)
E pronto, acabou-se a comissão de serviço. Acabaram-se as crónicas do
Alentejo Interior. Foi uma dura missão, difícil: a árdua horizontalidade e o
frio vasilhame de branco. A longa perscrutação da planície, percorrida com
lentidão e cautelas de sapador, ou apenas cartografada com imobilidade (mas não
insónia) de sniper — à sombra de um impiedoso
alpendre. Missão que o sentido do dever impele a continuar, por muitos e penosos
meses, mas que infelizmente a fraqueza humana força a interromper,
cobardemente, numa cedência hedonista a esse vício do instinto que é o trabalho.
Ah, a vil condição do homem!
***
Os longos dias meridionais foram curtos para as meditações da planície.
Havia assuntos a explorar que a sesta adiou, obliterou. Como a promissora e
literária coincidência de se chamar Demeter (Ceres) uma das personagens de A Informação*. Ou a suspeitada
especialidade de uma superconcorrida marisqueira na costa alentejana: enrolar
os clientes, como o mar enrola na areia (a reincidência vivida ou testemunhada de
lapsos — a conta insistindo em cobrar vinhos diferentes ou itens não consumidos
— parece sugerir uma infeliz tendência). Ou a descrição do paraíso no oásis
alentejano, passe a redundância: Herdade dos Grous, essa amostra do que a vida
devia ser — sol, água e vinho servidos pela arquitectura e pela natureza
ancestrais, comedidamente auxiliadas por judiciosa mão humana. Ou a presença
espectral, indagante (e, sim, risível, de incompleta transgressão adolescente) no
festival Sudoeste durante o concerto de Eddie Vedder — do lado de fora do
recinto, espreitando sobre a vedação. Ou o Magret
de Pato no Vovó Matilde: esse exemplo de como podem a imaginação e a ousadia
ser bem-sucedidas e quase luxuosas, esse recente ex-libris de Beja com as suas
cadeiras e mesas e pratos e talheres desirmanados, de antiquário humilde ou
sótão avoengo empoeirado e carpintaria rude, irmão mais novo da Galeria do Desassossego,
com ela pondo a cidade alentejana no mapa do desejo, ela que também está nesse
mapa por mão dos Virgem Suta, que tem o mesmo Jorge Benvinda como cara-metade.
Ou a morte e a vida do Teatro, representada ontem num palco ao ar livre da
planície: a morte para o grande público (risinhos, tiradas imbecis,
impaciência, desatenção, tentativa de reconhecer a celebridade dos actores, ruído,
o omnipresente rugir e resfolegar da turba numa proximidade distante, segura,
temerosa ou sobranceira, de expectativas defraudadas por incumprimento da imbecil
bitola imposta pela TV e pelos comediantes de sucesso, acarinhados pelos media e pelo poder) e a vida, a vida que
lhe dão algumas companhias e actores, só eles, abandonados pelos mecenas, o
poder, o público — e talvez a História, ou o progresso que a escreve.
* Martin Amis, Quetzal
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