terça-feira, 27 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
O bom senso que falta
«A economia engana-nos. Promete-nos a felicidade, mas as pessoas não são felizes. É preciso, antes de mais, trabalhar menos. É estúpido trabalhar cada vez mais, para produzir cada vez mais, para desperdiçar cada vez mais. É preciso acabar com este massacre: produzir menos, porque não é necessário produzir cada vez mais, trabalhar menos e se trabalharmos menos as pessoas podem trabalhar todas e ter tempo livre. »
(...)
Sente-se um profeta?
De modo nenhum. Sou um homem normal. Fico sobretudo surpreendido que nem todos pensem como eu, porque me parece que tenho bom senso.»
(...)
Sente-se um profeta?
De modo nenhum. Sou um homem normal. Fico sobretudo surpreendido que nem todos pensem como eu, porque me parece que tenho bom senso.»
Gangues
«Actos de vandalismo atingem familiares de dirigente do PND-madeira.»
Há quem tenha concepções destas de democracia. Não é só na Madeira. A complacência dos "partidos do arco governativo" (e a nossa complacência) ainda nos há-de de sair cara.
Há quem tenha concepções destas de democracia. Não é só na Madeira. A complacência dos "partidos do arco governativo" (e a nossa complacência) ainda nos há-de de sair cara.
sexta-feira, 16 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
O tempo e a prosa
Leio alguém dizer que aprecia uma determinada escrita sem
malabarismos nem instintos barrocos e lembro-me que isso é um sentimento comum
a muita gente, incluindo críticos e editores. Talvez por isso a D. Quixote
tenha desistido de Javier Marías a um terço de O Teu Rosto Amanhã e ainda nenhuma outra editora tenha retomado o
fio à meada, ou saltado para Los
Enamoramientos. Não que Marías tenha exactamente uma escrita barroca ou uma
carreira no circo, mas as suas frases longas, a procura em directo da palavra
certa, por tentativas, ou a busca da melhor definição por soma de ideias,
acumular de proposições ou conjecturas, o diálogo tenso entre opostos, a
exploração de condicionais ou possibilidades, o arsenal que usa não para
conseguir dizer tudo e roubar espaço à sugestão mas para concluir que o inefável
e a dúvida permanecem, permanecem a insatisfação e a incerteza — mesmo que os
dissequemos com minúcia forense à mesa de autópsias —, as suas frases longas, dizia, e a sua escrita elegante mas complexa, são talvez um estorvo no mercado português.
O tempo não está para longas dissertações a propósito de um
biscoito, prefere videntes mais assertivos e breves. Talvez este tempo creia
que a vida é simples, definível em três frases curtas; que alguns substantivos
e um par de verbos explicam as pessoas, todas as pessoas, e as acções, todas as acções; que os dicionários devem
fazer fitness até se tornarem léxicos
escanzelados de passarela, sem carne nem substância nem multiplicidade. Talvez não vivamos todos
no mesmo tempo.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Serviço cívico obrigatório
Imagine que é proprietário de um edifício no Porto e que um street artist dotado lhe decora aquela fachada
que você ia ter de mandar pintar mais dia, menos dia. O seu entusiasmo com a
obra e o alívio financeiro doravante vão durar-lhe pouco. A Câmara tem uma
proposta de higiene pública que, entre outras medidas, pretende mobilizar os
proprietários para um movimento cívico sem precedentes. Quando digo mobilizar não estou a falar de apelos, incentivos,
sensibilizações. A coisa tem as suas reminiscências militares, é um
recrutamento compulsivo, é serviço cívico
obrigatório. Se a sua fachada é grafitada, logo terá um fiscal à perna a
exigir-lhe uma de duas coisas: que apresente uma queixa-crime contra o vândalo
ou o artista (quando identificados) ou proceda de imediato à remoção do graffito. A terceira via é pagar uma
multa de 400 a mil euros.
Com Rui Rio não se brinca, ou as pessoas exercem voluntariamente, digamos assim, os seus deveres cívicos ou pagam
multa. Não é chantagem — é pedagogia. Não é coerção — é um convite irrecusável ao
uso do livre-arbítrio. No sentido certo.
De resto, atendendo ao historial do Presidente da Câmara, é de supor
que não adianta você desculpar-se com a qualidade da obra, mesmo que se trate
de um Rembrandt de aerossol: arrisca-se a que o fiscal, emulando o chefe, saque
logo da pistola à simples menção da palavra arte.
Barragens coloridas
Depois de projectar filmes com avezinhas e paisagens nos paredões das
barragens como prova de que o seu coração é verde, a EDP resolveu agora arregimentar
arquitectos e artistas de renome para branquear colorir ou conceber as
suas obras.
Não devemos ser insensíveis a toda a arte pública e não custa ver
sensatez na ideia de pôr arquitectos qualificados a procurarem soluções
inteligentes que minimizem o impacto daquele tipo de obras. Contudo, no que se
refere à EDP é também previdente deixar-se sempre um pé para trás. Como
resistir à tentação de ver nisto uma manobra de diversão? O amarelo da barragem
da Bemposta tem o potencial de gerar uma discussão mais fácil e apaixonada (e
inócua) do que uma que incida sobre a razoabilidade do plano nacional de
barragens. Ou sobre o tarifário da empresa.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Botões-de-punho
A Sábado traz na capa um
padre com uma elegância irrepreensível. Parece que se trata do líder do Opus
Dei. Não li a reportagem que a capa ilustra, mas presumo que não é sobre fé,
altruísmo ou bondade, não é sobre preceitos cristãos ou nobres sentimentos
humanos. É talvez sobre dinheiro e poder. Os botões de punho na camisa do
senhor padre alimentam a suspeita.
A propósito daquela peça, o gabinete de imprensa do Opus Dei emitiu um
comunicado: «O retrato do Opus Dei que a reportagem faz lembra, nalguns pontos, a caricatura que Dan Brown esboçou no livro “Código Da Vinci”. A capa da revista é, nesse sentido, sintomática.»
Talvez, talvez a reportagem padeça da síndroma de Brown, não custa
imaginar. No entanto, há questões. O que fazem aqueles botões-de-punho na
camisa do senhor padre? Foram lá postos pela revista?
Certos monárquicos, alguns industriais e muitos yuppies adoram botões-de-punho.
Padres que se querem mostrar iguais aos outros homens vestem calças de ganga,
bebem minis ou jogam à bola. Botões-de-punho não igualizam — distinguem. Distinguem
geralmente quem está do lado do dinheiro.
Das virtudes da austeridade, digamos assim
A Ler faz 25 anos e eu deixei
de a comprar com regularidade. Não porque me tenha zangado com ela ou a ache
supérflua. Também comecei por vezes a mudar de corredor para não passar em
frente à Bertrand local. Estou a portar-me bem e a viver de acordo com as
minhas posses.
Debate
É certo que ainda tenho Pedro Lomba como um tipo de direita sensato e
que, quando o lia há uns anos, apreciava boa parte do que escrevia António
Barreto, mas na conjuntura actual pergunto-me o que será um debate com Pedro Lomba e José Manuel
Fernandes, moderado por António
Barreto.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
As coisas que Francisco Assis evoca
Há uns vinte anos havia eleições e o nosso baterista arranjou um gig, como se diria hoje, para tocarmos
num comício que tinha como orador convidado Francisco Assis, então presidente
da Câmara de Amarante. Éramos na altura suficientemente generosos para não estranharmos
que alguém da nossa idade fosse presidente de câmara. E gostasse de o ser. Não
recordo se nos pagavam (espero que sim) e recordo menos ainda o que tocámos,
certamente as coisas inadequadas do costume. Andávamos a evitar uma carreira-padrão:
não éramos punks, não nos excitava o hard rock ou o heavy metal, os Ramones, os
Deep Purple ou os Rolling Stones. Não para emular. Não queríamos aliás imitar
nada; a ânsia da originalidade foi talvez o que nos condenou. Ou isso ou uma
das mil coisas que fizemos mal. Como subir ao palco do Rock-Rendez-Vous (versão
pechisbeque da RTP2) com o percussionista usando o fato de casamento, camisa de
folhos, laço blue velvet e tudo. (Eu
era o do fato de três peças verde-claro, camisa creme de belo riscado vermelho,
gravata rosa, a desafiar com o baixo Epiphone uma turba de teenagers contratados no bas-fond
lisboeta, com um tipo da produção a tentar segredar-me sobre o ombro
irrequieto, a meio do concerto, câmaras a gravar, que não devia excitar as
feras, podia correr mal, os putos gostavam era dos Xutos, não estavam
preparados para uma linha trad/folk/urbano/pop/rock/glam/foleira como a que nós
acabáramos de inventar. Uma felicidade não existir Youtube.)
Tocar coisas inadequadas não era uma obsessão, um capricho, mas acontecia-nos.
Num bar minhoto chamado O Comboio, onde
as pessoas se sentavam em reservados, como nas lanchonetes americanas ou no Alfa Pendular, teimámos
durante uns quarenta e cinco minutos em apresentar as nossas versões de standards jazz e folk americanos, para
tédio geral. Pouco antes do intervalo, demos finalmente alegria à terra quando ao
guitarrista lhe ocorreu dedilhar o nome do bar numa alusão pimba (apita o comboio, estão de certeza a ouvir a cena). Era uma
ironia, uma piada, mas os clientes adormecidos levaram a coisa a sério:
levantaram-se e dançaram, como mortos obedecendo a, digamos, Emanuel (não o Messias). Perante aquilo, o resto
da banda teve de acompanhar uma extended
version do tema. A segunda parte, se recordo bem (e espero que sim, que o
passado se vergue aos interesses da minha memória), preenchemo-la com
improvisos minimais repetitivos de Roadhouse
Blues — foi a nossa vingança.
No comício, não posso jurar que tenhamos tocado depois de Assis falar,
mas o longo discurso da figura empatou-nos de qualquer maneira, ficámos
pendentes do seu término, ou para finalmente passarmos vergonha em palco quando já nos tinha passado a bebedeira ou
para desmontarmos a aparelhagem. E como ele falou. Não as horas ininterruptas de
Castro, mas ainda assim mais do que era humanamente suportável. Desconfio que a
maioria dos que assistiram ao comício correu no domingo seguinte a votar no
adversário do candidato que ele defendia.
Não é que não acerte — não há muito para discordar no seu artigo de
hoje no Público, era este o meu ponto —, mas um tipo arrepia-se
só de lhe ouvir o timbre. Para o ler é preciso tapar-lhe a cara e o nome com o
polegar. Viram alguém a segurar o jornal assim? Era eu.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Álcool a mais
São três, duas delas de mini-saia, todas de tacões. Madrugada. Cambaleiam um pouco e gritam muito: estão eufóricas, é assim que se exprime o sentimento, tanto quanto sabem. Por vezes ensaiam coros, mas, porque lhes falta o talento ou sobra o álcool, não chegam a dar-lhes corpo, não chegam sequer a decidir-se por hinos desportivos ou canções da moda. Enquanto atravessam a estrada, partem nos paralelos os seus copos ou as suas garrafas de cerveja, como vêem fazer aos rapazes noutras noites. Congratulam-se ruidosamente pelo feito, como se tivessem superado uma prova, acertado num alvo difícil, embora aquilo não lhes tivesse exigido qualquer perícia ou cálculo. Não precisam de méritos ou motivos para celebrar, celebram, é tudo. Do outro lado da estrada há carros parados. Uma delas faz um desvio e, puxando a saia, experimenta levantar a perna, acertar com o tacão num farolim. A gravidade e o chão irrequieto não ajudam. Desiste à terceira tentativa, antes de cair. Contorna então o veículo e, ameaçadora, ataca o espelho lateral com mão bamba. A menos cambaleante das três espreita por cima do ombro e diz «chega» e repete a voz de comando, mas não arrisca desacertar o passo. A primeira insiste, tenta um novo golpe, mas sai-lhe outro safanão frouxo, dos que se dão com piedade a um gato arisco ou a um bebé caprichoso. Talvez receie magoar-se ou a capacidade para golpes firmes já não se lhe equipare à vontade de os aplicar. Urra agora de frustração e depois levanta o queixo, com desdém. Que se foda. Considera-se à mesma vitoriosa, aprendeu que o pode fazer mesmo que não vença nada. Junta-se por fim às outras duas num novo cambalear rua abaixo. O espelho sobrevive.
Se confrontado de manhã com a ameaça a que esteve sujeita a sua propriedade, o dono do automóvel por certo hesitaria entre verberar a bebedeira das raparigas e agradecer a bebedeira das raparigas. Afinal: ia tendo prejuízo devido a álcool a mais ou álcool a mais fora a sua sorte?
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A arte portuguesa a gostar de si própria
Elisa Rodrigues - "Dumb" (com Júlio Resende).
Certa opinião publicada gosta de escarnecer das artes e da vida cultural portuguesas. Aparentemente, não temos produção nem talentos nem circuitos que justifiquem um orgulho nacional e muito menos o investimento de um centavo. Tais juízes têm na mente, é fácil presumir, Shakespeare, Mozart, Rembrandt e talvez Jonh Ford, poucos mais. Como se o estrangeiro fervilhasse de talentos históricos automáticos. Ou como se fora das circunscrições da Broadway, de West End e de Hollywood nada valesse realmente a pena. A arte, para estes árbitros do gosto, não é uma coisa viva, mas um estrato geológico que se apreciaria melhor num museu natural do que em auditórios, teatros, galerias, clubes, bares e antros afins. Por isso, não saem de casa, não se afastam das suas bibliotecas e dos seus CDs e DVDs (ou VHS), a não ser para uma ritual (ou turística) ida aos clássicos a Londres ou a Nova Iorque. Ironicamente, assemelham-se às massas na sua proverbial falta de curiosidade, com a pequena diferença de que as massas têm as televisões e as revistas sociais e a escola a atrofiar-lhes a atenção e o gosto e estas elites induzem a si próprias o ensimesmamento — reivindicando o alto patrocínio da História, como quem atesta a nobreza da família pelos fantasmas que lhe assombram o castelo.
E no entanto bastaria alguma atenção e uma pequena dose de generosidade, de abertura de espírito, para descobrir inúmeras possibilidades de prazer estético no país.
Os opinion makers em apreço estão para a pátria como certas populações para as suas cidades: é o mesmo provincianismo que constrói os dois géneros de passividade e ignorância. E se na província muitas vezes as pessoas partem duma vitimização genética, reflexa para denunciarem que habitam o deserto, o resultado final é que ambos os extractos sociais terminam exibindo com a arrogância dos néscios o seu desprezo pelo que existe e eles ignoram e juram não existir.
Recordo como numa das cidades mais bonitas e turísticas do interior do país, que frequentei, alguns autóctones diziam que aquela era uma terra onde não se passava nada, não havia sequer cinema. Havia (ainda há). Mas eles ignoravam, não procuravam, não estavam atentos, não tinham curiosidade. Havia cinema — e concertos e teatro (com menos frequência ou interesse) —; não havia era multiplex, ou shopping, ou pipocas, essas manifestações de uma outra contemporaneidade. Havia um auditório bem simpático e confortável (com programação comercial e alternativa) que infelizmente era por vezes um pouco prejudicado pela vozearia boçal na rua dos universitários que, não o frequentando, juravam pela sua inexistência, um ou outro fingindo até lamentá-la.
Em muitos lugares da província poucos reconhecem ou participam numa vida cultural interessante, quando ela existe, porque se habituaram a imaginar que isso apenas é possível numa grande cidade — construído e alimentado pelos outros. Como alguns escribas imaginam que uma vida cultural decente só é possível nas grandes capitais europeias — ou em certas épocas históricas do passado. Trata-se de um processo de auto-exclusão, de “boicote”, até, assente em ideias limitadas do que é ou pode ser uma vivência cultural. Trata-se de um processo de absentismo que não favorece o crescimento da oferta e, tantas vezes, promove o seu definhamento.
Quem viaje pela internet (e até há pouco tempo pelo país) munido do seu próprio mapa e de ânimo descobridor, disposto a fruir de experiências e não de preconceitos, pode ter belas surpresas e bons momentos. Portugal tem talentos nas artes suficientes para, se postos a circular, assegurarem um quotidiano interessante à maioria das cidades do país, pelo menos às capitais de distrito. Nos mais diferentes géneros musicais, na dança, no teatro, com as suas múltiplas expressões, nas artes plásticas. Quem, dos muitos que opinam, conhece de facto esta realidade ou está realmente disposto a conhecê-la (ou a reconhecê-la)?
As políticas culturais em Portugal são determinadas por um povo deixado na ignorância e na apatia — e pela idiossincrasia dos influentes. Não estando pessoalmente interessada nos assuntos ou sendo a eles avessa, esta espécie permite-se ainda assim emitir pareceres e estigmas sobre eles. É com este historial e neste ambiente que se espera agora em Portugal que o povo pague bilhete para as artes.
Certa opinião publicada gosta de escarnecer das artes e da vida cultural portuguesas. Aparentemente, não temos produção nem talentos nem circuitos que justifiquem um orgulho nacional e muito menos o investimento de um centavo. Tais juízes têm na mente, é fácil presumir, Shakespeare, Mozart, Rembrandt e talvez Jonh Ford, poucos mais. Como se o estrangeiro fervilhasse de talentos históricos automáticos. Ou como se fora das circunscrições da Broadway, de West End e de Hollywood nada valesse realmente a pena. A arte, para estes árbitros do gosto, não é uma coisa viva, mas um estrato geológico que se apreciaria melhor num museu natural do que em auditórios, teatros, galerias, clubes, bares e antros afins. Por isso, não saem de casa, não se afastam das suas bibliotecas e dos seus CDs e DVDs (ou VHS), a não ser para uma ritual (ou turística) ida aos clássicos a Londres ou a Nova Iorque. Ironicamente, assemelham-se às massas na sua proverbial falta de curiosidade, com a pequena diferença de que as massas têm as televisões e as revistas sociais e a escola a atrofiar-lhes a atenção e o gosto e estas elites induzem a si próprias o ensimesmamento — reivindicando o alto patrocínio da História, como quem atesta a nobreza da família pelos fantasmas que lhe assombram o castelo.
E no entanto bastaria alguma atenção e uma pequena dose de generosidade, de abertura de espírito, para descobrir inúmeras possibilidades de prazer estético no país.
Os opinion makers em apreço estão para a pátria como certas populações para as suas cidades: é o mesmo provincianismo que constrói os dois géneros de passividade e ignorância. E se na província muitas vezes as pessoas partem duma vitimização genética, reflexa para denunciarem que habitam o deserto, o resultado final é que ambos os extractos sociais terminam exibindo com a arrogância dos néscios o seu desprezo pelo que existe e eles ignoram e juram não existir.
Recordo como numa das cidades mais bonitas e turísticas do interior do país, que frequentei, alguns autóctones diziam que aquela era uma terra onde não se passava nada, não havia sequer cinema. Havia (ainda há). Mas eles ignoravam, não procuravam, não estavam atentos, não tinham curiosidade. Havia cinema — e concertos e teatro (com menos frequência ou interesse) —; não havia era multiplex, ou shopping, ou pipocas, essas manifestações de uma outra contemporaneidade. Havia um auditório bem simpático e confortável (com programação comercial e alternativa) que infelizmente era por vezes um pouco prejudicado pela vozearia boçal na rua dos universitários que, não o frequentando, juravam pela sua inexistência, um ou outro fingindo até lamentá-la.
Em muitos lugares da província poucos reconhecem ou participam numa vida cultural interessante, quando ela existe, porque se habituaram a imaginar que isso apenas é possível numa grande cidade — construído e alimentado pelos outros. Como alguns escribas imaginam que uma vida cultural decente só é possível nas grandes capitais europeias — ou em certas épocas históricas do passado. Trata-se de um processo de auto-exclusão, de “boicote”, até, assente em ideias limitadas do que é ou pode ser uma vivência cultural. Trata-se de um processo de absentismo que não favorece o crescimento da oferta e, tantas vezes, promove o seu definhamento.
Quem viaje pela internet (e até há pouco tempo pelo país) munido do seu próprio mapa e de ânimo descobridor, disposto a fruir de experiências e não de preconceitos, pode ter belas surpresas e bons momentos. Portugal tem talentos nas artes suficientes para, se postos a circular, assegurarem um quotidiano interessante à maioria das cidades do país, pelo menos às capitais de distrito. Nos mais diferentes géneros musicais, na dança, no teatro, com as suas múltiplas expressões, nas artes plásticas. Quem, dos muitos que opinam, conhece de facto esta realidade ou está realmente disposto a conhecê-la (ou a reconhecê-la)?
As políticas culturais em Portugal são determinadas por um povo deixado na ignorância e na apatia — e pela idiossincrasia dos influentes. Não estando pessoalmente interessada nos assuntos ou sendo a eles avessa, esta espécie permite-se ainda assim emitir pareceres e estigmas sobre eles. É com este historial e neste ambiente que se espera agora em Portugal que o povo pague bilhete para as artes.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Guerra de trincheiras
A dilatória viagem que teimo em fazer por umas duas dezenas de blogues,
com diferentes enfoques políticos, é uma rotina demasiadas vezes desoladora. Não
é fácil encontrar na blogosfera espíritos independentes, e isso faz-me
interrogar se é porque eles quase não existem ou porque a amostra que escolho
não é representativa.
Nos dias tristes que vivemos, a opinião está dividida entre os que
apoiam e os que são contra. Não esta ou aquela matéria em particular, mas todo
o pacote. De repente, não há espaço para concordar ou discordar em parte,
concordar com isto e discordar daquilo, achar bem isto, mas também aquilo. A síntese
não tem lugar. A opinião deixou de ser antecedida de um menu de onde cada um escolhia
os pratos da sua refeição: vem já servida da cozinha e os comensais ou a mastigam
vorazmente ou atiram a bandeja à cara do cozinheiro. Não há meio-termo e por
vezes nem boas maneiras à mesa. Muitos bloggers,
mesmo que apetrechados de argumentos, parecem-se com os tipos que escrevem nas
suas caixas de comentários: radicais, indefectíveis, sem paciência para o
adversário. A bengalada verbal ocorre amiúde, não no melhor espírito
oitocentista romanticamente defendido por João Pereira Coutinho, mas no mais
contemporâneo estilo claque de futebol. É, aliás, a camisola o que parece
sustentar a opinião que se escreve e não a inteligência, a argúcia, a
ponderação.
É assim pouco provável um debate que possa encontrar caminhos
diferentes para os anos que nos esperam. Os que são pelo Governo acreditam no
milagre da austeridade e não estão dispostos a discutir sequer os pormenores da
sua implementação, a coisa é para ir à bruta, sem contemplações, não há nuances, particularidades, equilíbrios ou
compromissos que se possam considerar. O tom colérico, moralista ou desdenhoso
que adoptam presume uma pureza que despudoradamente se outorgaram. A ironia que
por vezes praticam é apenas uma arma de arremesso, não uma ferramenta de auto-avaliação.
Levam a sério uma licença para punir e expurgar que os próprios emitiram, com
uma autoridade que não se dão ao trabalho de questionar.
Do outro lado, há uma horda reaccionária
que está pronta a refutar todas as medidas, a recusar todos os cortes, todas as
alterações, todas as reformas, crendo num outro milagre, o da multiplicação dos
pães e dos peixes. Uma horda que, na sua inflexível e irresponsável oposição,
facilmente emparelha com os interesses das corporações, não se dando conta que
a soma de todas os interesses corporativos é o desastre. Aqui o tom é o da
guerrilha, da piromania.
Se os primeiros são insensíveis ao sofrimento e às dificuldades
individuais, os segundos desvalorizam os malefícios colectivos da revindicação desmesurada,
sem critério. O que os primeiros defendem não é sempre estranho à mecânica dos
autoritarismos — os segundos brincam levianamente com a anarquia.
Os factos noticiosos são hoje abordados (ou ignorados) de forma a
servirem os interesses do juízo preconcebido. Cada facção destaca ou
desvaloriza os aspectos que podem servir ou prejudicar a causa. De repente já
não é a notícia o que importa mas as partes dela que beneficiam (ou contrariam)
o argumento, que nos beatificam ou denigrem o adversário. Não há, aliás, factos:
há interpretações e a interpretação das interpretações, a exegese e a crítica
da exegese.
Claro que a margem de manobra de Portugal é mínima, mas confrange que o
nosso contributo para a resolução da crise tenha o nível argumentativo de um adepto
do Benfica, que as balizas do debate sirvam apenas para contabilizar golos das facções
e não para perscrutar com seriedade e consequência o futuro. Talvez o
capitalismo esteja a precisar de ser repensado — estamos num desses momentos da
História — mas em Portugal o que é relevante é a semântica desprezível ou heróica
de Passos Coelho e a cartilha que cada um escolheu deste ou daquele momento
histórico e que quer à força ver aplicada aos tempos que correm.
O debate entrincheirado esquece que a guerra de trincheiras provou a
sua perniciosidade há cem anos. Pretenderá comemorar-lhe o centenário?
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Resolução
Calar. Assistir. Deixá-los escrever o seu próprio epitáfio. Depois
fazer copy/paste para um obituário então fácil de redigir.
Resignação
Esperar. Deixá-los falhar a prova de que têm razão. Depois falharmos
nós em sermos o último a rir: não se ri quando entretanto acabam com as razões
para isso.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Criatividade
Uma das coisas em que a esquerda está prodigamente errada é na crença
de que a criatividade teve distribuição abundante e uniforme pelo mundo. Não é
um exclusivo seu, mas diria que se empenha particularmente no equívoco. Sob a
sua égide, as crianças deixam de ser estimuladas a descobrir uma eventual
vocação artística para serem encorajadas a acreditar
terem uma vocação. As más consequências disto são várias, e não passam todas pela
tortura a que os nossos sentidos são diariamente submetidos.
Com uma infinidade de “talentos” pululando por aí, torna-se difícil
definir (e comunicar) o que há de especial num talento, por que devemos admirá-lo,
que proveito há (para nós e para a comunidade) em nos submetermos ao dom dos
outros. A criatividade tornou-se um assunto relativizável, do âmbito da
democracia e do gosto ou opinião maioritários. A qualidade do que se produz é,
pois, afectada por este ambiente.
Nas escolas, os miúdos quase deixaram de ser instigados a descobrir a
beleza que outros produziram ou produzem. A palavra de ordem é fazer de cada
aluno um artista e colocá-lo, literalmente, no palco que supostamente lhe
pertence, com cumplicidade e gáudio das famílias. O défice de público em
Portugal, com causas anteriores talvez na falta de instrução e na baixa
condição económica da comunidade, continuou o seu caminho por aqui. Só a ignorância
ou a fé cega podem convencer alguém de que, de tanto frequentarem o palco, as
crianças vão gostar de estar na plateia.
Compreendo que para a esquerda (bem, para alguma esquerda) seja difícil
aceitar a autoridade, defender a atitude passiva, mas é imperativo ultrapassar
o trauma, porque a arte o exige. Não há arte onde todos cantam e ninguém ouve.
Não há arte onde todos escrevem e ninguém lê. O que o mundo contemporâneo
precisa urgentemente é que se formem leitores e espectadores exigentes, não multidões
de “criativos” medíocres e inúteis. As escolas têm de começar a ensinar que os
gostos se discutem, ainda que não se imponham; têm de começar a ensinar a
ouvir, a ler e a compreender, a ver, a decifrar, a reter informação e a criticar
com base no cruzamento de dados e experiências.
É pateticamente comum em Portugal haver “pintores” que não frequentam museus,
galerias ou livros de arte; “escritores” que não leram nem tencionam ler; “músicos”
que não assistem a concertos a não ser os da moda (por razões sociais e não
artísticas); “actores” (e “encenadores”) que não vão ao teatro. A lista continua,
mas pode-se resumir: Portugal é um autodidacta fechado à História e ao mundo —
ninguém pode esperar dele grandes feitos.
A necessidade de formar público para as artes não tem, por isso, que
ver com o interesse dos artistas, mas com o interesse da sociedade e de cada
pessoa em particular. Um público instruído, curioso, crítico, participativo e exigente
eleva o nível da criatividade nacional, com óbvio proveito para si próprio — e com
possibilidades de osmose em relação a outras áreas, como a política e a
economia. Na ausência de riquezas como petróleo ou diamantes, ou de uma providencial
(e improvável) indústria, um país não pode esperar desenvolver-se com massas
impreparadas e estupidamente convencidas de talentos que não têm.
A Secretaria de Estado da Cultura e o Ministério da Educação, se querem fazer alguma coisa, podem
começar por desfazer este equívoco.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Mais blogues
Adicionei um novo blogue à lista, um dos bons. O Acordo Fotográfico mostra-nos pessoas a
ler, mas não se fica por aí: fala delas e dos respectivos livros, da
circunstância da fotografia. Poderia ser uma compilação de raridades, de
resistentes em tempo de guerra, e já era bom. Mas a autora diz que não, diz que
«há cada vez mais gente a ler», e nós sentimos uma súbita esperança.
E porque este blogue me lembrou a série «Leituras em lugares públicos», do Alexandre Andrade, recuperei também o umblogsobrekleist, injustamente esquecido quando o Canhões regressou à vida.
Foi um dia bom, este.
E porque este blogue me lembrou a série «Leituras em lugares públicos», do Alexandre Andrade, recuperei também o umblogsobrekleist, injustamente esquecido quando o Canhões regressou à vida.
Foi um dia bom, este.
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