domingo, 3 de janeiro de 2021

Os vizinhos do lado

Os vizinhos do lado devem ter oferecido a si mesmos uma televisão nova este Natal e andam há dias a fazer-lhe a rodagem vendo até onde chega o ponteiro do volume de som. Ou isso ou perderam acuidade auditiva durante o confinamento. Em qualquer caso, desde o tempo em que no Alentejo tive por vizinhos dois anciães de oitenta anos bastante moucos que não estava a par do enredo das novelas e do Big Brother como estou agora

domingo, 27 de dezembro de 2020

O caso da chávena roubada

Há pouco tempo visitei clandestinamente uma casa que durante mais de quarenta anos me fascinou e, se não me trai a memória, era o último lugar “misterioso” das termas de Pedras Salgadas em que me faltava entrar.

Desde a minha infância, as Pedras têm sido esse lugar onde os edifícios fascinam enquanto habitados e fascinam mais quando vão sendo abandonados. Um lugar vivo tem o mistério do seu tempo, das pessoas diferentes de nós que enchem os compartimentos com os seus modos exóticos, enquanto um edifício devoluto tem a soma dos mistérios de todos os tempos, em camadas de pó como estratos geológicos, e o mistério maior do vazio, do insondável.

A Villa Adriana, que hoje vejo como construção simples, era moradia de eleitos, com uma arquitectura alheia à humilde tradição local, por vezes revestida de hera como nobre solar, e a promessa de um recheio elegante. O próprio facto de a casa ter nome, e um nome excêntrico, colocava-a num Olimpo inacessível ao comum dos mortais, ou pelo menos a mim.

Quando chegava o Outono e a época de frades, a minha família era das que esquadrinhavam com regularidade os canteiros do parque em busca dos cogumelos ambicionados. Em criança acompanhava o meu tio na sua missão recolectora e nas imediações da Villa Adriana o meu espírito dividia-se na expectativa de duas epifanias: a descoberta de um frade pelos meus próprios olhos, sem ajudas, e um vislumbre do interior da casa e das pessoas que nela habitavam. Não sei se alguma das coisas chegou a acontecer naquela idade.

Quando visitei a Villa Adriana fi-lo sem forçar a entrada. A porta estava apenas encostada, como se alguém aguardasse a minha visita — talvez os fantasmas das personagens fabulosas que ali habitaram e que só existiram na minha cabeça, mesmo que alguns dos seus sucedâneos humanos continuem vivos. Mas entrou comigo o adolescente que sonhava maravilhas em casas assim e por isso não resisti ao impulso atávico de trazer uma recordação.
(Os edifícios do parque foram ao longo dos anos espoliados do seu recheio, por interesses materiais ou nostálgicos, mas não me recordo de alguma vez ter participado num desses movimentos activos. Não mantive senão na mente um compartimento com memorabilia das termas.)

Provavelmente, o objecto que meti ao bolso, sorrindo para mim mesmo com condescendência, nem faria parte do inventário original da casa, já que os compartimentos albergam agora materiais de várias proveniências e sem atractivo: um stock de lâmpadas fluorescentes, por exemplo.

Na cave havia um cartaz também emoldurado com uma mensagem auto-motivante da Companhia de Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas há cinquenta anos. Nele lia-se: «A nossa expansão tem de medir-se em termos de actualidade» e, em baixo, de uma estrutura de lançamento de foguetões partiam sucessivamente três garrafas acompanhadas de uma data e um número, presumo que o total da produção nos anos indicados: 1966 (17 320 576), 1968 (23 956 895) e 1970 (31 734 749).

Numa mesinha de outro compartimento, partilhando a mesma cor azul, havia dois guias, um material e um espiritual: um User’s Guide da Hewlett Packard para um gravador de CDs e um Guia prático para o sacramento [não retive qual] com a mensagem «Suplico-vos: deixai-vos reconciliar com Deus». Talvez tenha estremecido um pouco nesse momento ao sentir no bolso o volume do meu despojo.

Na viagem de regresso, fiz um balanço da visita (os dourados na casa de banho, que há quarenta anos talvez me tivessem deslumbrado, pareceram-me agora um pouco kitsch) e satisfiz o desenhador técnico que durante anos fui, desenhando finalmente mas de cor a planta da casa. Pensei também no souvenir. Foi só então que, com novo sorriso condescendente, o achei adequado a mais do que o tamanho do bolso: afinal, uma chávena é o objecto fetiche da invocação do tempo perdido.


-------
P.S.: Se algum dos actuais proprietários das termas estiver a ler este post, saiba que prometo devolver a chávena, se ela fizer falta ao conjunto.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Fonte de discórdia

A narradora do romance Recordações do Futuro, de Siri Hustvedt, defende — como de resto a própria autora na sua vida real — a tese, assaz plausível, de que aquela que os especialistas consideraram a obra de arte mais influente do século XX, a célebre Fonte atribuída a Marcel Duchamp, foi na verdade uma criação da artista e poeta avant-garde e dadaísta Elsa Hildegard ou Baronesa von Freytag-Loringhoven.
O que acho irónico nisto não é haver um equívoco associado à peça que inspirou uma longa série de equívocos na arte, mas ver uma parte da comunidade que validou a ideia revolucionária e transgressora de “arte conceptual” ser hoje potencial veículo da perpetuação de um sentimento reaccionário: o patriarcalismo.
Explico melhor: a ironia não vem da resistência que especialistas oferecem à sugestão de que há uma autoria diferente e feminina para A Fonte, mas da possibilidade que se abre de vermos detractores habituais da arte conceptual tornarem-se de súbito acérrimos defensores do legado de Marcel Duchamp.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Sem palavras

O meu pai e eu não éramos muito faladores nos nossos telefonemas. Os telefonemas não serviam para contar coisas, na verdade, mas para declararmos com regularidade a nossa existência mútua enquanto pai e filho. Era como tocar com as pontas dos dedos nas costas de alguém que se ama, só para assinalar a presença, o afecto. Para reconfortar. Por vezes éramos tão telegráficos que parecíamos a sentinela nas ameias ou nas trincheiras dando voz de alento ou alívio: «Tudo calmo no posto norte». (Ou sul, dependia se ligava eu ou ele.)

Nas últimas visitas que pude fazer-lhe, desejei também usar o telemóvel, como aliás tinha já sido sugerido meio a rir meio a sério pela minha irmã mais velha, porque o meu pai estava a ouvir mal e agora, com máscara e painel acrílico entre a minha boca e as orelhas dele, a conversa era de surdos. Não o fiz, não peguei no telemóvel porque isso lembrava, ainda que erradamente, uma visita à prisão, como se vê nos filmes, e tive vergonha, mas tive sobretudo receio de que a ideia acabasse por não funcionar e o constrangesse também a ele. E assim constrangíamo-nos a olhar um para o outro, ele a tentar adivinhar as palavras, eu à espera que ele tivesse a iniciativa da conversa.
Havia coisas que gostaria de lhe perguntar sobre os oitenta e seis anos da sua vida e outras que queria contar-lhe sobre os meus últimos meses, mas duvido que alguma vez o fizesse, mesmo que ainda tivéssemos tempo, que não houvesse pandemia nem surdez, porque herdei isso dele, essa tendência para o mutismo sobre a vida própria.

O meu pai, que nos últimos anos voltara a ler com regularidade como numa fase da minha infância o vira fazer, leu os três livros que publiquei, mas fomos ambos bastante incapazes de falar sobre o assunto. Imagino que o primeiro o tenha entristecido um pouco, pela linguagem a espaços desabrida e obscena do personagem principal. Ou talvez não, ele tinha já a experiência de muitos anos de ver o seu filho mais novo escrever coisas menos adequadas e até de receber queixas sobre isso. Mas também recebia elogios, suponho, o que certamente o reconfortava e estimulava a magnanimidade de que era capaz.

De resto, o meu pai tinha já hábito de bondade em relação àquilo a que a sociedade considerava ovelhas tresmalhadas, mesmo quando no discurso corrente se mostrava crítico. Lembro-me que arranjou no parque das Pedras Salgadas nos anos setenta, princípios de oitenta — quando a sua influência, conquistada pelo trabalho e pela dedicação a pessoas e instituições, lhe permitia esse poder — uma sala de ensaios a um conjunto musical liderado por uma dessas ovelhas tresmalhadas, isto numa altura em que a maconha circulava com facilidade e indignação inauditas e se dizia que andavam por ali sacos dela vindos de África. Ovelha essa a que, de resto, concedeu também posteriormente amplo apoio enquanto autarca, precisamente, suponho, porque era capaz de reconhecer o talento e tinha um certo sentimento de protector da tribo.

Era por vezes uma pessoa severa e conservadora, herança da época salazarenta em que cresceu, mas era também uma personalidade reivindicativa, tanto que pode ser visto aí pelo Youtube num vídeo do pós-vinte-e-cinco-de-abril com ar e discurso de verdadeiro sindicalista a lutar pelos direitos dos trabalhadores seus colegas. Um dia a camioneta da loja de móveis parou na nossa rua e da camioneta descarregaram os sofás verdes que haveriam de ser os únicos sofás que toda a vida houve em casa. A perplexidade começou por ser da minha mãe, com os seis filhos de roda das saias, e depois foi dele, quando chegou e se pôs a declarar coçando a cabeça que não encomendara aquilo, nunca o poderia ter feito. Após algum suspense, a informação chegou: os sofás eram um presente de um grupo de trabalhadoras de quem ele era colega e encarregado.

A sua dedicação à terra e à companhia das águas das Pedras era total, criando por vezes certos ciúmes nos filhos. Mas não se lhe pode censurar isso. A companhia das águas e a terra e a família confundem-se, são uma e a mesma coisa, mesmo para mim, que há trinta anos não vivo ali. Quando se reformou tinha para gozar meses de férias. Foi entre outras coisas padeiro, distribuidor de pão, electricista, depois de em criança ter sido groom nos hotéis do parque termal e antes de se fixar definitivamente na “empresa”, que de certa forma, e como tantos outros, sentiu como sua. Talvez haja outras homenagens na terra àquele seu cidadão dedicado que foi também, em paralelo, presidente da junta de freguesia, vereador na câmara e director do clube de futebol local, mas a que ele me mostrou só o é indirectamente: o seu testemunho num vídeo em loop no museu das termas, o “Pedras Experience”. Ele orgulhava-se, e suponho que com legitimidade, do vídeo, não sei se com a consciência de o terem musealizado junto a outros vestígios termais.

Quando acabei o nono ano, o meu pai conluiou-se com um tio dele para porem os dois filhos rapazes mais novos (os outros já trabalhavam) a estudar em Vila Real num curso com acesso directo ao mercado de trabalho ao fim de um ano lectivo. O salário do meu pai mal dava para a conta da mercearia (às vezes não dava), quanto mais para trazer filhos a estudar. Na Escola Industrial e Comercial (hoje Secundária S. Pedro), havia a opção de secretariado, ou similar, mas romântica e imbecilmente o retardado do seu filho mais novo escolheu metalomecânica, achando que a parte de mecânica seria suficiente para o pôr a construir foguetões, ambição antiga de quem só sabia sonhar com aventuras e viagens espaciais. O meu pai estranhou decerto a escolha, inesperada para filhos que começavam a exibir tendências artísticas, mas respeitou-a, ou, com pragmatismo resignado, achou-a secretamente com mais saída. No dia das matrículas deu-me dinheiro para a carreira e logo ali concluí que ele e o tio tinham feito mal as contas, os preços tinham aumentado, o dinheiro dava para o bilhete de ida e pouco mais. Na altura ainda imperava a versão severa do meu pai e não me atrevi a dizer-lhe nada. Embarquei em silêncio, matutando durante a viagem em formas de regressar. Talvez o momento não tenha sido traumatizante porque ainda era Verão, dias longos, sabia vagamente o caminho para voltar a pé, estava habituado a andar fora de casa até tarde da noite. Entregues os papéis na secretaria em Vila Real, meti os pés à estrada para o regresso, esperando passivamente uma boleia, que só apareceu no alto da Samardã, uns doze quilómetros depois. O curso saiu portanto mais caro do que os cavalheiros planearam e, no final de um ano traumático (abominei a própria Escola até ao dia em que, ironia do destino, décadas depois, vim morar num prédio ao pé dela), com estágio apalavrado na empresa das águas (onde mais?), reunimos finalmente a coragem, o meu irmão e eu, depois de dias e noites a tremer de puro pânico, para anunciar que desistíamos desse projecto de vida e pretendíamos continuar a estudar no ensino “normal”. Eu estava mais ou menos a contar com a primeira sova paterna da minha vida. Mas os tempos eram já outros e a zanga, dura, teve apenas manifestações orais, com lamentações legítimas sobre a sua impotência para nos pagar estudos e a nossa visão romântica da vida. Tínhamos prometido logo no início da conversa, por antecipação, para amenizar a fúria, que não gastaríamos dinheiro em livros ou autocarro — e cumprimos. Nos três anos seguintes estudámos pelos livros dos outros e não houve condutor na Nacional 2 entre Pedras-Vila Pouca que não nos tivesse dado boleia, num sentido ou no outro. O meu pai continuou, imagino com que sacrifício, a alimentar-nos e vestir-nos. E a amar-nos, estou certo.

Quando fui para a tropa, raramente tendo contribuído para o rendimento familiar (numa campanha de censos não consegui reunir a quantidade mínima de inquéritos para ser pago porque, já antropofóbico, tinha pavor de fazer perguntas às pessoas, e o curso de balneoterapia onde o meu pai me deixou durante uma semana de Inverno no Luso foi também sem consequência, embora com excelentes notas), quando fui para a tropa, dizia, a minha legitimidade para esperar apoio do meu pai era muito reduzida. E no entanto ele quase sempre acorria aos meus telefonemas quando lhe pedia que me fosse buscar à Régua nas sextas à noite em que conseguia ali chegar de comboio, vindo de Elvas, já sem ligações para a linha do Corgo. Nem se zangou comigo quando uma das vezes se prestou ao frete de ir à Régua já de madrugada e ali chegado não me encontrou, porque eu me deixei dormir em serviço e não dei conta que ele chegasse, nem ele me viu no meio de tanto magala verde estendido na escuridão sobre os bancos da carruagem que ao final da manhã seguinte iria até Vila Real. Não regressou de mãos a abanar porque apanhou um vizinho marinheiro com sono mais leve e ele gostava de ser útil às pessoas, mas imaginei-o zangado, com justeza, por o ter feito tolamente gastar gasolina e tempo. Contudo, foi divertido que me recebeu no dia seguinte ao almoço.

Antes de arrastar isto por uma autobiografia maçadora e inoportuna, devo dizer que a 9 de Dezembro de 2020 cessaram as respostas do posto norte. Não mais haverá telefonemas que nos assegurem mutuamente que estamos bem. Não mais haverá telefonemas a combinar almoços ao domingo. Não mais terei a oportunidade de o ver de novo aguardar-me com paciência e bondade como quando eu chegava por sistema atrasado para o ir buscar. Não mais teremos desses almoços em que também não falávamos muito mas éramos muito — devotamente, dedicadamente, afectuosamente — pai e filho. Fica um vazio terrível, maior do que o da falta de palavras (que nunca nos incomodou propriamente): o da ausência.

O cemitério onde o enterrámos anteontem numa urgência que não era nossa, nesta época terrível em que se enterram os mortos como se tivessem lepra, fica ao pé da igreja onde íamos aos domingos antes de almoço, quando ainda cumpríamos a tradição de ir à missa. Mas não é essa igreja que me fica na memória associada ao meu pai. Não é nenhuma igreja, na verdade, mas as manhãs de Inverno como a de anteontem em que optávamos por uma missa mais matutina no outro templo da terra e, regressados a casa, enquanto a minha mãe acendia o fogão a lenha e preparava industrialmente torradas para uma família de nove famintos devoradores de pão, o meu pai liderava um mantra que cantávamos em volta da mesa da cozinha, qual tribo invocando chuva, uma cantilena com letra onomatopaica que marcava o ritmo com que arrastávamos ou batíamos os pés para os aquecer. Era um momento de pura ternura paternal. Sem palavras, claro.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Lamber sabão

Havia quem afirmasse conseguir vender presidentes como quem vende sabonetes. Actualmente, a Bertrand vende, sem ironia, uma «colecção exclusiva» de «sabonetes literários». Pelo seu lado, a Gradiva mostra-se hoje ufana com o «Prémio Cinco Estrelas» atribuído a um seu autor por uma entidade dedicada a «testes e estudos de mercado» e que distingue marcas, personalidades e media.

O autor, adivinharam, é José Rodrigues dos Santos, cujos livros foram submetidos a, perdoem-me a longa citação, «um sistema de avaliação que mede o grau de satisfação que os produtos, serviços e as marcas conferem aos seus utilizadores, tendo como critérios de avaliação as cinco principais variáveis que influenciam a decisão de compra dos consumidores: Satisfação pela Experimentação, Relação Preço-qualidade, Intenção de Compra ou Recomendação, Confiança na Marca e Inovação.»

Com toda a legitimidade, perante uma avaliação assim criteriosa, os fãs do autor já se começaram a manifestar afirmando que, se dúvidas houvesse, ali a está prova definitiva da qualidade literária de JRS.

Eis algumas das primeiras reacções (verdadeiras):
— Parabéns! Caro amigo, nada melhor para calar os invejosos que a realidade deste prémio, e o facto de se venderem milhões dos seus livros. A arrogância dos que se julgam "divinos" cega-os.
— Um prémio bem merecido para calar os que só mostram como são pequeninos face ao êxito dos outros. Somos um povo invejoso.
— Merecido um escritor fantástico.
— Bem merecido. Cala a boca a muita gente.

Como se compreende, seria fútil mandar a tropa acima ir lamber sabão, porque, no que diz respeito ao saponáceo ingrediente, estamos já perante assíduos consumidores e verdadeiros gourmets. Presentes, de resto, como se vê, em toda a linha de produção e comercialização do dito.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Se isto é um Omo: o branqueador de Auschwitz

Há duas teorias sobre a suavização do nazismo que o pivot arvorado em escritor José Rodrigues do Santos operou através de uma entrevista e de dois livros. A primeira diz só isso, que o tipo suavizou o nazismo. A segunda diz que ele fez o que faz sempre que tem livros novos: criar uma polémica forte para vender mais livros.
No primeiro caso, JRS é um revisionista histórico, com um programa promovido sabe-se lá se pelo ego (a vaidade de alegadamente ter descoberto coisas que uma geração ou duas de historiadores não descobriram), se por razões ideológicas.
No segundo caso, trata-se apenas de alguém sem escrúpulos, capaz de tudo para vender mais uns livros.
(Há na verdade uma outra hipótese, que é JRS ser apenas tonto e o mundo mediático que o leva nas palmas não ser mais assisado.)
O meu diagnóstico sobre a criatura em estudo, olhando daqui, é que provavelmente se trata de um compósito, um híbrido que além disso tem um olho-que-pisca, o que não deixa de ser um feito da natureza, se não for um upgrade de tamagotchi.
Isto conduz-nos aos seus leitores. Eles deviam saber que, além de mal entretidos (há muita obra capaz de entreter melhor do que as posturas galináceas de JRS), ao comprar-lhe os livros estão a ser vítimas e cúmplices de rodriguinhos, digamos, pouco santos.
Não faço aqui um apelo à censura dos livros de JRS, mas não tenho nada contra o boicote. O pivot deve ter o direito de escrever as baboseiras que quiser (dentro de certos limites constitucionais), mas os leitores devem ter o direito e a decência de o mandar à merda.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Desbeatificação

A propósito do post anterior, lembrei-me de uma entrevista que fizemos para o Eito Fora a um padre na reforma que tinha fama de grande cultura e sabedoria e o hábito quotidiano de caminhar. Perguntamos-lhe, esperando encontrar um filósofo viandante como Rousseau, Kant, Nietzsche ou Thoreau, se o costume das caminhadas traduzia o seu gosto pela meditação ou pela natureza.
— Não, não. O médico disse-me que tinha de andar. Por causa da próstata, sabe?

Just a perfect day

Com o recolher obrigatório, o Governo devia decretar também frio e ameaça credível ou concretizada de chuva para que como hoje só se atrevesse aos caminhos do rio meia dúzia de portadores certificados de diabetes, colesterol ou próstata hipertrofiada — e os melancólicos, que precisam de passear a existência.
Ah, nada melhor do que a humanidade confinada.

sábado, 5 de dezembro de 2020

O fim dos “Manifestos”

Quem me lê sabe que mantive nos últimos anos uma suave mas persistente embirração com os “Manifestos” da LER. Não porque os textinhos fossem mal escritos ou ignorantes (pelo contrário), mas porque denotavam demasiadas vezes uma obsessão ou uma certeza doutrinárias, não raro furiosas, bastante comparáveis às dos fenómenos ou movimentos sociais de cuja crítica se ocupavam.

Depois, havia com frequência uma tal sintonia de sentimentos e forma entre FJV e BVA que me perguntava progressivamente, ao verificar as iniciais que assinavam os textos, quanto desta minha impressão se devia a gralha dos tipógrafos, provocação lúdica dos autores ou resultado de uma escala de serviços cumprida quando conveniente com troca oficiosa de turnos.

Por fim, estava o facto de uma parte dos textinhos — suponho que atribuível a Francisco José Viegas, mas não sei a que ponto foram levados os equívocos ou combinações que referi no parágrafo anterior — ser material requentado do blogue A Origem das Espécies, o que não ficaria mal a uma revista miserável como a Periférica mas lançava um ligeiro opróbrio sobre a LER.

Agora — diz a LER, confirmando uma inconfidência de Bruno Vieira Amaral em comentário ao meu último post da série dedicada ao assunto — os “Manifestos” acabaram: «saúdam e despedem-se».

Não escondo que, apesar do alívio (o médico já não aconselha irritações), me rola uma sincera lágrima pela face.


---
Adenda: Bruno Vieira Amaral, em comentário a este post no Facebook, esclarece: «Não cometi qualquer inconfidência sobre o fim dos manifestos. Aliás, fiquei a saber do fim dos manifestos ao ler o teu blogue, que era o sítio onde me ia mantendo informado sobre as novidades da revista.»

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O caso do Wallace desaparecido

Li ontem com gosto Um crime da Solidão — Sobre o Suicídio, de Andrew Solomon, mas cheguei ao fim com uma vaga sensação de ter sido enganado, sem ter logo percebido porquê. Ao revisitar a contracapa antes de pousar o livro tive a resposta.

Já tinha lido vários elogios ao autor mas nunca tinha lido nada dele. Há dias encontrei esta obra por acaso na livraria e pensei «é agora». Reforçou o impulso a informação de que o volume reúne «uma série de textos sobre o suicídio, analisado sempre a partir de uma história pessoal ou de um caso concreto: quer do círculo mais íntimo do autor (...); quer de figuras públicas (…), ou até os de celebridades literárias, como David Foster Wallace ou Sylvia Plath.

Ora, a referência ao caso de Wallace (cujas obras aprecio e por cuja biografia tenho curiosidade) é de facto apenas isso, uma referência. Na página 107, lá está, sem dúvida: «A imagem do suicida literário, do escritor cuja servidão ao ofício pode ser consequência ou causa de mais terrível depressão é recorrente; David Foster Wallace é o último elo dessa triste corrente.» E pronto, termina aqui a participação do autor de A Piada Infinita. Mero figurante.

A obra é pequena, não se estaria à espera de ensaios profundos sobre cada um dos casos referidos, mas, bolas, por que trazer o nome deste escritor para a sinopse se o caso dele nem sequer é analisado? Vício de name-dropping? Para compor o ramalhete? Piscadela de olho a leitores como eu?

De resto, o livro é interessante por si, dispensa o alardear forçado de casos famosos. Contudo, e isto já não será culpa da editora, eu apresentá-lo-ia não como um livro «sobre o suicídio» mas como um livro «sobre o suicídio na sua relação com a depressão». Que é o tema em que Solomon é especialista e a que se dedica sobretudo o último texto desta recolha, o maior.



segunda-feira, 30 de novembro de 2020

As aventuras dos sete: noites de parkour

Quando nos primeiros meses da pandemia gastei longas noites a assistir a partidas de ténis em reposição nos canais de desporto, não hesitei em escrever sobre a experiência. Nas últimas semanas dediquei um número de horas equivalente a ver no computador vídeos de um grupo de parkour e até agora só timidamente aflorei o assunto. Terei achado, à sombra de Foster Wallace, que o ténis é um bom tema para ensaios literários mas o parkour não? Serão os Storror menos nobres do que Federer?

Há algo de adolescente, divertido, irreverente e indomado nos Storror que não há no ténis profissional, por mais joviais e imaginativos que sejam os jogadores. Além disso, há uma exposição ao risco que o ténis nem sequer sugere. O pior que pode acontecer a Federer num jogo é perder uns milhares de euros — os rapazes do parkour, embora igualmente metódicos e conscienciosos no seu treino, arriscam-se com alguma frequência a perder a vida.

Há assim mais adrenalina, suspense e material para pesquisa sócio-antropológica em alguns vídeos de parkour do que numa final à melhor de cinco entre Nadal e Federer. E nem sequer há menos técnica, coreografia ou beleza de movimentos, o esplendor estético não é menor.

Será que o meu interesse nos vídeos são as proezas atléticas e desportivas? O fascínio de ver corpos ágeis e treinados em acrobacias mirabolantes, a superar obstáculos, esforços ou situações limite? Além dos vídeos dos Storror, no início da minha curiosidade espreitei filmagens de outros atletas ou grupos e as proezas, por vezes não menos espantosas, não me mantiveram cativo como a série organizada daqueles sete ingleses. Ali encontrei não apenas façanhas próprias da elite do parkour mas também formas de filmar (e montar as filmagens) que constroem uma narrativa, pequenas histórias. Os vídeos, além dos momentos de parkour propriamente dito, mostram as “personagens” nas deslocações para os locais, em convívio, interagindo com o público, em ensaios, planeamento e processos de decisão que conduzem às suas aventuras (pelo mundo fora), e tudo isto é filmado com certo interesse documental, artístico e cinematográfico. Michael Bay, no filme de acção 6 Undergound, que fui ver na Netflix como extensão das noites de parkour, aproveitou os talentos do grupo não apenas para cenas com duplos, algumas inspiradas em proezas de vídeos específicos dos Storror, mas também para a filmagem de algumas partes segundo as técnicas do grupo, inclusive empregando brevemente alguns dos seus elementos como camaramen ou consultores de movimento de câmara.

Com frequência, os vídeos não são de expedições a territórios e locais onde o parkour se alia ao fascínio e exotismo de paisagens ou skylines urbanas internacionais, mas de treinos em “spots” caseiros, nas cidades ou áreas suburbanas da Inglaterra. O meu interesse não diminui. Uma parte do meu encantamento permanece viva, porque nestes vídeos entre viagens ou entre grandes desafios continuam em cena os caracteres dos sete.

Poderia dizer-se, sem falhar tudo, que aqueles vídeos protagonizados e filmados por pós-adolescentes e divulgados semanalmente despertam a nostalgia de livros de aventuras como Os Cinco e Os Sete ou séries televisivas como Os Pequenos VagabundosVerão Azul. No post que anteriormente escrevi sobre este tema, contei que um dos atletas do grupo lia Tarzan, o que é quase uma tautologia e remete como se de propósito para o espírito daquelas aventuras.

Mas como responder a acusações de um certo voyeurismo neste interesse pelas peripécias, diálogos, interacções e exibições dos sete de Horsham se não invocando a defesa de que é um interesse partilhado por milhões de seguidores no Youtube e, no meu caso, matizado por uma alegada e para aqui muito útil vocação literária?

Nos outros canais de Youtube que nos últimos anos dei por mim a seguir (Porta dos Fundos e Walk Off The Earth), o lado humano e social dos intervenientes tornou-se a certa altura tão importante quanto os próprios vídeos com os sketches (no primeiro caso) ou as músicas (no segundo). A consciência deste potencial interesse por parte dos seus seguidores fez com que o Porta dos Fundos tivesse criado canais paralelos com making ofs, erros de gravação, entrevistas e conversas entre os participantes nos vídeos, de um lado e outro da câmara. Os melhores fãs daquela produtora acompanhavam assim não apenas os sketches cómicos semanais mas também um pouco do dia-a-dia daquele grupo de pessoas.

Da mesma forma, os Walk Off The Earth (WOTE) — que me interessaram menos pelas músicas originais que compunham do que pelas versões que faziam de temas de outros artistas, os vídeos engenhosos que encenavam e filmavam e a versatilidade técnica na música e nas filmagens — disponibilizavam também making ofs, conversas e imagens de bastidores que mostravam os seus elementos na intimidade da vida em grupo.

O fenómeno dos reality shows não será alheio a esta ideia generalizada de que as pessoas, para além da sua arte, interessam aos espectadores, e os artistas destes canais, como os concorrentes do Big Brother, ainda que exibindo muito menos da sua intimidade, moldam decerto a personalidade a ser visionada. Por isso, ao mesmo tempo que me forço a acreditar que há nos rapazes do Storror algo de especial, dou por mim às vezes a duvidar metodicamente da permanente joie de vivre, da disciplina, da serenidade, da inocência, da candura, da cordialidade, da gentileza que exibem sempre nos seus vídeos. Tanto mais que pelo menos um deles tem cara e ar de clássico rufia irlandês e os outros exibem a espaços expressões de uma malícia menos infantil.

Se agissem como um gangue, comportamento que na minha ignorância caluniosa inicialmente esperava ver num grupo de parkour, é pouco provável que os seguisse. Tenho os meus momentos de imersão no bas-fond da Internet, contudo, em prejuízo da pesquisa literária mas talvez em benefício do meu cadastro online e da minha sanidade mental, não adopto rotinas quando há violência ou estupidez envolvida.

Nos Storror, como nos membros do Porta dos Fundos e dos WOTE, julgo por vezes apanhar traços de uma geração e de uma nacionalidade, de um grupo ou classe social. Observo a “vida selvagem” online usando a mesma curiosidade literária que me faz escutar as conversas dos outros no café. Mas seria enveredar por eufemismos ou equívocos escusados proclamar que é esse o principal motivo para voltar regularmente aos vídeos. Como aconteceu com o ténis, há também associada a este hábito uma necessidade de alienação, de entretenimento. Com os Storror talvez prossiga afinal o gosto adolescente de viver aventuras por interpostas personagens.

O que é certo é que por vezes já não sei se nestas incursões pelo Youtube estou a desempenhar a minha função ambiciosa no observatório da humanidade se a acompanhar com periodicidade regular um grupo de personagens de ficção. Recordo no entanto que, quando a 31 de Dezembro de 2018 soube que o Beard Guy, um dos músicos/personagens dos WOTE, tinha morrido subitamente, experimentei uma comoção genuína.

Os Contos Esquivos

Lamentar não ter mais páginas o volume de Os Contos Esquivos (sessenta) poderia parecer uma observação espirituosa de alguém que pretende elogiar o livro, mas é na verdade uma petulância, porque a escrita superior de Ivone Mendes da Silva é muito generosa no que oferece — e perante literatura assim o leitor não tem mais do que ficar grato e humilde.



Mudança de velocidade

Depois de largar o Proust, que acompanhei em viagem de sete meses, um por volume, passei para a escrita estonteante, de velocidade e assombro, d’Os Dias do Abandono (Elena Ferrante). Foi como baixar da sege com vagares de dandy e continuar viagem colado ao assento em comboio de altíssima velocidade. Isto não é um juízo sobre literatura ou a manifestação de uma preferência, mas o relato de acontecimentos factuais. Aliás, o meu espírito consegue dobrar-se em vénia perante catedrais como a de Marcel e tratados de anatomia como os de Ferrante. São muitas as formas da comoção estética.

domingo, 29 de novembro de 2020

Pela verdade

Esta pandemia foi criada para reintroduzir o hábito retrógrado e o gosto vicioso da leitura, mas a humanidade resistirá!

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Uma ida à varanda

Depois de cada jantar vou sacudir ritualmente a toalha de mesa à varanda da cozinha, a que tem vistas para a serra, e recebo como um benigno balde de água na cara, se tal é crível, odores de Outono: de neblina, de folhas caídas no chão molhado, de inesperadas lareiras vicinais lá em baixo. Demoro-me por ali um pouco a encher o peito de ar e por instantes o cocktail de aromas tem efeitos de gatilho proustiano, mas não se chegam a formar memórias, verdadeiras ou forjadas, de aldeias e idades felizes, porque outro sentimento se instala, com um suspiro. É que a ida à varanda é a entrada na antecâmara de uma felicidade possível e presente, a que resultaria de aceitar o convite, que por fraqueza declino, e acto contínuo me pôr a calçar umas botas, enfiar um anoraque e partir para a serra ou o que mais próximo disso tenho por aqui.
Não me demove desse impulso de libertação e prazer prometido o recolher obrigatório (saberia contorná-lo), nem afazeres nenhuns (todos adiáveis ou nem sequer dignos de atenção, fosse eu fiel a mim mesmo), mas o comodismo, a preguiça, a pusilanimidade.
Recolho ao interior com o rabo entre as pernas, agora sim proustiano de últimos dias, espírito enfezado, a evocar melancolicamente o tempo não muito antigo em que tinha o apelo da natureza como o primeiro dos mandamentos a obedecer.
Mas regresso madrugada dentro à varanda, já não para me ciliciar masoquista com o cheiro do fruto apetecido, ou como vítima de sádico que deixa fora do alcance de um cão acorrentado um osso recém-despido de carne, mas para acudir a outro chamado, o das corujas na sua hora. E então, a ouvi-las falar por sobre a cidade adormecida, soberanas da noite, procurando geolocalizar mentalmente o poiso de cada uma delas ou imaginar os seus voos se os pressinto, esqueço que estou recolhido sem causa e já não sinto nenhum estado de emergência.

Os duros não dançam?

Uma das classificações habitualmente usadas para denegrir quem é acusado de praticar ou defender ideias «politicamente correctas» é a de que se trata de pessoas em demasia susceptíveis. Mas hoje a susceptibilidade estava toda do lado dos «duros», indignados com a sugestão — indelicada, pois claro — de que Maradona não tinha mão leve apenas para a bola.

domingo, 22 de novembro de 2020

The last days

Um artigo do The Guardian, que faz o relato do que se passa na Casa Branca e inclui uma súmula de como isso é comentado por vários observadores, sugere uma outra metáfora para os últimos dias de Trump. E admira-me por isso ainda não ter visto adaptada ao ex-presidente americano a famosa cena do filme A Queda que tantas apropriações teve por esta Internet fora para as situações mais hilárias ou absurdas.

O curioso é que na verdade este relato não traz nada de novo: toda a presidência de Trump, como de resto se esperava, foi esta distopia nem em sonhos imaginada de uma América a ter por presidente um fedelho mimado, caprichoso e imbecil. Até o pequeno rei-sol da Coreia do Norte parece adulto ao lado de Trump e dos milhões que, nos EUA e no mundo, vão tentando manter viva a farsa de que a América teve não apenas um presidente mas um adulto na Casa Branca nos últimos quatro anos.


domingo, 15 de novembro de 2020

Gestão de danos

O Ace Ventura, ar de tonto mas fino como um alho, veio, com descarado sentido de oportunidade e desprezo pela inteligência alheia (começando pela dos militantes do seu partido), manifestar-se, contradizendo-se, a favor do casamento gay e contra Salazar. Faz-se assim voluntariamente de pateta para aliviar o PSD dos impactos negativos do arranjinho mútuo.
Muitos cairão no isco, apontando o seu contorcionismo ideológico como demonstração de que o fascismo nele é folclore e mero oportunismo eleitoral. Mas talvez devessem ceder a um raciocínio mais humilde: o homem não tem escrúpulos nem carácter — características indispensáveis não apenas a um democrata mas a alguém que se convida para casa.

#ACulturaÉSegura

Nas livrarias, o risco de apanhar covid folheando livros é irrelevante, excepto nas prateleiras do top e dos destaques, onde raramente há literatura.