domingo, 8 de março de 2020
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Narciso
Estava há poucos dias no seu novo emprego de recepcionista de uma clínica dentária quando reparou no rapaz que todas as tardes passava em frente à porta envidraçada da rua e espreitava para o interior. De início foi só a curiosidade de ver quotidianamente um gajo bonito, fazer apostas consigo mesma sobre se viria hoje, sem atraso, se olharia. Depois, convenceu-se de que aquela passagem já não era uma coincidência, que havia um motivo, e que o motivo era ela. O rapaz descobrira por acaso a nova recepcionista atrás do balcão, encantara-se e, porque era tímido, não ousava entrar, limitava-se a fazer olhares, expressões subtis e gestos mais ou menos discretos no tempo que demorava a percorrer os três metros de envidraçado. Algumas semanas mais tarde, por iniciativa e manobras dela, que o foi descobrir nos locais onde ele parava à noite, ficaram de certa forma namorados. Na última vez em que estiveram juntos, ela fez um escândalo porque ele não parava de olhar por cima do ombro dela para uma rapariga noutra mesa, com aquelas expressões que conhecia bem.
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Futebol
Há muito que o mundo do futebol vive, já não num estado de excepção, mas numa «norma» que contamina o resto da sociedade e transforma em politicamente incorrecto o que vou escrever a seguir.
No futebol, uma falta intencional, mesmo que provoque lesão no jogador adversário, pode ser não só desculpada ou louvada mas também desejada, implorada pelos dirigentes e aficionados, se ela tiver importância no resultado do jogo — a única coisa que verdadeiramente passou a interessar, o fim que justifica todos os meios.
Jornalistas e escritores, outrora classes respeitadas, e até artistas pop, vão para as televisões debater com minúcia durante horas intermináveis os «casos do jogo» e, entre risadinhas ou leves indignações, lá arranjam forma de desculpar a falta, de a compreender ou de a justificar, se se dignam sequer falar dela duma perspectiva «moral», digamos. De resto, esta estirpe de intelectuais suspende alegremente o juízo crítico, a serenidade racional e o esforço de isenção quando se trata de futebol porque, já se sabe, a paixão clubística desculpa-se e a condição de associado pressupõe lealdade cega.
O futebol é, em suma, um particular mundo viril e neste particular mundo viril não se aplicam os princípios gerais da civilização. E desta forma gerações de pais levam gerações de filhos pequenos ao futebol e estes vão assimilando os comportamentos, a linguagem, a duplicidade de critérios, o pensamento fanático, a ideia geral de que tudo o que aprendem na escola ou «no lado feminino» da família pode ser rasurado se houver um enquadramento futebolístico.
E quase tudo vai tendo hoje um enquadramento futebolístico, ou tribal, se quisermos. A política, desde logo, onde, mais do que qualquer programa ideológico ou ideia de serviço público, nalguns partidos já vigora a fidelidade a líderes ou a facções organizadas para a mera conquista do poder. Mas também nas discussões sobre temas sociais, com os contendentes a cerrarem fileiras em claques que procuram vencer pelo ruído e pelo insulto. Pela «falta», se necessário.
Não admira que esta manhã, a propósito do caso Marega, se escreva um pouco por todo o lado que «no futebol sempre houve cânticos racistas e isso não costumava ser um problema.» E que o único deputado único candidato a fascista possa vir dizer que basicamente somos todos uns mariquinhas e ser aplaudido por milhares de energúmenos, alguns ainda a passarem por pessoas respeitáveis.
No futebol, uma falta intencional, mesmo que provoque lesão no jogador adversário, pode ser não só desculpada ou louvada mas também desejada, implorada pelos dirigentes e aficionados, se ela tiver importância no resultado do jogo — a única coisa que verdadeiramente passou a interessar, o fim que justifica todos os meios.
Jornalistas e escritores, outrora classes respeitadas, e até artistas pop, vão para as televisões debater com minúcia durante horas intermináveis os «casos do jogo» e, entre risadinhas ou leves indignações, lá arranjam forma de desculpar a falta, de a compreender ou de a justificar, se se dignam sequer falar dela duma perspectiva «moral», digamos. De resto, esta estirpe de intelectuais suspende alegremente o juízo crítico, a serenidade racional e o esforço de isenção quando se trata de futebol porque, já se sabe, a paixão clubística desculpa-se e a condição de associado pressupõe lealdade cega.
O futebol é, em suma, um particular mundo viril e neste particular mundo viril não se aplicam os princípios gerais da civilização. E desta forma gerações de pais levam gerações de filhos pequenos ao futebol e estes vão assimilando os comportamentos, a linguagem, a duplicidade de critérios, o pensamento fanático, a ideia geral de que tudo o que aprendem na escola ou «no lado feminino» da família pode ser rasurado se houver um enquadramento futebolístico.
E quase tudo vai tendo hoje um enquadramento futebolístico, ou tribal, se quisermos. A política, desde logo, onde, mais do que qualquer programa ideológico ou ideia de serviço público, nalguns partidos já vigora a fidelidade a líderes ou a facções organizadas para a mera conquista do poder. Mas também nas discussões sobre temas sociais, com os contendentes a cerrarem fileiras em claques que procuram vencer pelo ruído e pelo insulto. Pela «falta», se necessário.
Não admira que esta manhã, a propósito do caso Marega, se escreva um pouco por todo o lado que «no futebol sempre houve cânticos racistas e isso não costumava ser um problema.» E que o único deputado único candidato a fascista possa vir dizer que basicamente somos todos uns mariquinhas e ser aplaudido por milhares de energúmenos, alguns ainda a passarem por pessoas respeitáveis.
Ondas fundidas
O leitor de CDs do Chevrolet avariou há uns meses deixando-me refém das estações de rádio quando o silêncio se me torna perigoso por ir a conduzir demasiado desperto. Hoje a Antena 3 estava mais chata do que o habitual, com uma playlist que era uma egotrip de um apresentador qualquer. Mas só fui tentar a Antena 3 depois de passar sem ficar pela M80 (esse pecadilho geracional) porque a Antena 2 estava com uma intromissão. A meio de uma sinfonia simpática tinha começado a ouvir vozes. De início julguei que eram as vozes da minha cabeça a interferir com as ondas de rádio, mas notei que aquelas vozes tinham uma conversa um pouco mais cordial do que as minhas.
Algumas experiências de sintonização mais tarde, descobri que na zona do país em que circulava a Antena 2 e a Antena 1 estavam a partilhar a mesma frequência. Alguém no Lumiar ou lá onde é trocara inadvertidamente os fios ou carregara no botão errado, pensei. Mas no regresso, um par de horas depois, o problema persistia e agora era já o futebol que disputava as ondas com uma agudíssima soprano.
Demasiado pessimista para acreditar em conspirações benignas, nem por um momento imaginei, romanticamente, que alguém estava a boicotar o futebol com ópera. Não. Concluí logo que se tratava de uma acção pouco subtil para acabar com a alternativa clássica em favor do desporto único. Por estes dias já não há desaforos interditos para os sabotadores da civilização.
Algumas experiências de sintonização mais tarde, descobri que na zona do país em que circulava a Antena 2 e a Antena 1 estavam a partilhar a mesma frequência. Alguém no Lumiar ou lá onde é trocara inadvertidamente os fios ou carregara no botão errado, pensei. Mas no regresso, um par de horas depois, o problema persistia e agora era já o futebol que disputava as ondas com uma agudíssima soprano.
Demasiado pessimista para acreditar em conspirações benignas, nem por um momento imaginei, romanticamente, que alguém estava a boicotar o futebol com ópera. Não. Concluí logo que se tratava de uma acção pouco subtil para acabar com a alternativa clássica em favor do desporto único. Por estes dias já não há desaforos interditos para os sabotadores da civilização.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Micção e valores
Uma e vinte da noite. A CMTV, no estrito cumprimento do seu dever moral, passa repetidamente um vídeo em que um alemão tatuado de trinta anos, como diz a legenda, urina num carro da PSP e ri. André Ventura e dois outros tipos comentam, graves. No tasco onde me retiro para ler e observar a vida selvagem, os poucos clientes e os funcionários, habitantes de madrugadas consecutivas de televisão daquela, indignam-se num coro mecânico, esperado. Lá fora, ignorando a pequena crise hertziana, as primeiras vagas de banais estudantes da universidade local começam a migração entre um bar e outro. Se a natureza apertar, como sói apertar, chegar-se-ão a uma esquina, a um poste, à penumbra azarada da entrada de um prédio, a uma árvore sobrante, ao pneu de um carro — da PSP, se tiver de ser — e urinarão, rindo, injustamente ignorados pelo televangelismo nacional.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Corvos-marinhos
É claro que há temas mais importantes e urgentes para comentar, mas as minhas notas do último mês resumem-se a quatro tópicos: «corvos-marinhos», «guarda-chuva», «raspadinha», «ler no café dos freaks». Ajuda talvez esclarecer que tomo notas mais por impulso sensual do que por imperativo intelectual. Uma epifania bucólica — já para não dizer pós-prandial — faz-me abrir o bloco-de-notas do telemóvel; um achado filosófico ou uma ponderosa conclusão política sob o duche lembram-me a trabalheira que dá construir uma argumentação e, ainda que honestamente comprometido com o dever de intervir, procrastino.
Opto assim pelos corvos-marinhos, e já menos para cumprir a inspiração do que para disfarçar a inércia.
Não os havia, tanto quanto sei, corvos-marinhos, assim como não havia garças-reais, cegonhas ou esquilos, no meu próprio e privado condado de Yoknapatawpha. Nas últimas duas décadas e meia toda esta fauna começou a aparecer, como que sublinhando a penas e caudas farfalhudas os índices de desertificação do INE (a disseminação de algumas espécies percorre o caminho inverso do crescimento populacional humano).
Descobrir novas espécies no meu próprio território foi talvez o que mais próximo tive de um deslumbramento a la Jules Verne (muitos anos depois de os ter lancinantemente desejado enquanto lhe lia os livros). Pode-se sentir o maravilhamento de um Attemborough por umas horas ou uns dias quando não se conta com novidades faunísticas na zona e sobretudo quando se é razoavelmente ignorante em questões zoológicas. Comecei, creio, por pasmar de queixo erguido ao longo de escassos quilómetros da planície ribeirinha do Avelames quando vi os primeiros bichos a planar que não eram aves de rapina e, percebi então, eram cegonhas, que só conhecia vagamente de condados distantes. Poucos anos depois persegui com a discrição possível enquanto fazia jogging na Nacional 206 a cauda encurvada e ruiva de um esquilo, sem saber então que pertencia a um esquilo. Em anos mais recentes, foi a garça-real que entrou para o meu zoo, à beira Corgo, sem se mexer, simplesmente pousada, encolhendo fleumática e premonitoriamente os ombros, no tronco curvado de um pinheiro (que, by the way, já não existe, e também isto é simbólico). Demorou-me uns dias e custou-me um guia ilustrado de aves descobrir-lhe a raça, mas ficámos amigos. A mais recente descoberta (não conta, por ser mascote urbana, o furão que me invadiu a varanda do terceiro andar num mês de Agosto e me deixou umas horas a ponderar-lhe a espécie e a ameaça fofa dos dentes) foi um par de corvos-marinhos que vi há quinze dias pousado em ramos altos junto ao lago, primeiro confundindo-o, em douta peritagem, com crias crescidas de garça-real e depois, ao notar que os bichos tinham pés de pato, buscando rendido na Internet outra genealogia.
Não tem interesse nenhum para a magna questão dos populismos na Europa este pasmar com espécies avícolas no perímetro de um lago, bem sei. Mas pareceram-me adequadas, agora que com a oficialização do Brexit se retoma a época da fox hunting, umas linhas de genuína zoofilia britânica, não como comentário, mas como lamento político.
Opto assim pelos corvos-marinhos, e já menos para cumprir a inspiração do que para disfarçar a inércia.
Não os havia, tanto quanto sei, corvos-marinhos, assim como não havia garças-reais, cegonhas ou esquilos, no meu próprio e privado condado de Yoknapatawpha. Nas últimas duas décadas e meia toda esta fauna começou a aparecer, como que sublinhando a penas e caudas farfalhudas os índices de desertificação do INE (a disseminação de algumas espécies percorre o caminho inverso do crescimento populacional humano).
Descobrir novas espécies no meu próprio território foi talvez o que mais próximo tive de um deslumbramento a la Jules Verne (muitos anos depois de os ter lancinantemente desejado enquanto lhe lia os livros). Pode-se sentir o maravilhamento de um Attemborough por umas horas ou uns dias quando não se conta com novidades faunísticas na zona e sobretudo quando se é razoavelmente ignorante em questões zoológicas. Comecei, creio, por pasmar de queixo erguido ao longo de escassos quilómetros da planície ribeirinha do Avelames quando vi os primeiros bichos a planar que não eram aves de rapina e, percebi então, eram cegonhas, que só conhecia vagamente de condados distantes. Poucos anos depois persegui com a discrição possível enquanto fazia jogging na Nacional 206 a cauda encurvada e ruiva de um esquilo, sem saber então que pertencia a um esquilo. Em anos mais recentes, foi a garça-real que entrou para o meu zoo, à beira Corgo, sem se mexer, simplesmente pousada, encolhendo fleumática e premonitoriamente os ombros, no tronco curvado de um pinheiro (que, by the way, já não existe, e também isto é simbólico). Demorou-me uns dias e custou-me um guia ilustrado de aves descobrir-lhe a raça, mas ficámos amigos. A mais recente descoberta (não conta, por ser mascote urbana, o furão que me invadiu a varanda do terceiro andar num mês de Agosto e me deixou umas horas a ponderar-lhe a espécie e a ameaça fofa dos dentes) foi um par de corvos-marinhos que vi há quinze dias pousado em ramos altos junto ao lago, primeiro confundindo-o, em douta peritagem, com crias crescidas de garça-real e depois, ao notar que os bichos tinham pés de pato, buscando rendido na Internet outra genealogia.
Não tem interesse nenhum para a magna questão dos populismos na Europa este pasmar com espécies avícolas no perímetro de um lago, bem sei. Mas pareceram-me adequadas, agora que com a oficialização do Brexit se retoma a época da fox hunting, umas linhas de genuína zoofilia britânica, não como comentário, mas como lamento político.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
A brigada
O blogue Do Portugal Profundo veiculou a informação (errada) de que o espancamento do estudante cabo-verdiano Luís Giovani teria sido feito por um grupo de ciganos. Alguns cronistas e escritores (membros eméritos ou neófitos da brigada enraivecida do anti-politicamente correcto e cortejadores desinteressados da extrema-direita) não couberam em si de contentes com tão ajaezada ideia e apressaram-se a partilhá-la como se maná fosse. Entretanto, perante os factos, o blogue Do Portugal Profundo lá emendou a mão como pôde. A brigada, essa, assobiou para o lado e continuou firme e sofisticada na missão de moralizar a pátria.
domingo, 5 de janeiro de 2020
Na frente marítima de uma cidade portuguesa
Depois de entrar no bar de praia descubro que a barreira de areia, construída em semi-círculo no lado do mar para resistir às ondas tempestuosas do Inverno, tapa toda a vista oceânica deixando apenas para ver uma faixa de céu azul e branco de Dezembro. Sentar-me de frente para as fachadas sem graça de uma cidade costeira portuguesa não é alternativa, mesmo que na verdade tenha entrado ali para ler. É que haverá pausas entre parágrafos ou capítulos e o bar está de momento vazio, não providencia fauna que observar. Numa colina de areia, mesmo que apenas utilitária como uma paliçada, é ainda possível ver as dunas do Saara ou, na sua constituição irregular e no jogo de sombras alpino do seu dorso, uma cordilheira com vales sombrios e vertentes iluminadas e desfiladeiros, gargantas e canyons, imaginando territórios desconhecidos para lá dos cumes. Na frente marítima de uma cidade portuguesa não sobram geralmente fachadas antigas que ofereçam mistério e histórias, tudo é banal, previsível e feio, com reminiscências de famílias furiosamente à procura de lugar de estacionamento ou grupos mastigando festivamente o peixe e o marisco rituais nas pausas de grelharem a própria pele ao sol.
Sento-me e não sei afinal se de frente para a areia se de costas para a cidade.
Sento-me e não sei afinal se de frente para a areia se de costas para a cidade.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Os dias da rádio BASF
Nas viagens de ida e regresso ao Natal reparei, fazendo zapping involuntário no auto-rádio, que nesta quadra todas as rádios parecem a M80, com as suas canções natalícias em loop.
Já a M80, a emitir sucessivas colectâneas de hits de cassetes de feira, parece todo o ano, em vez de uma rádio especializada na música de uma década, uma rádio pirata criada por alguém com acesso privilegiado ao depósito de material contrafeito apreendido pela GNR — nos anos oitenta.
Ouvi entretanto dentro do mesmo espírito, não sei se pimba se natalício, Fernando Alvim a entrevistar Marco Paulo na Antena 3.
Já a M80, a emitir sucessivas colectâneas de hits de cassetes de feira, parece todo o ano, em vez de uma rádio especializada na música de uma década, uma rádio pirata criada por alguém com acesso privilegiado ao depósito de material contrafeito apreendido pela GNR — nos anos oitenta.
Ouvi entretanto dentro do mesmo espírito, não sei se pimba se natalício, Fernando Alvim a entrevistar Marco Paulo na Antena 3.
sábado, 21 de dezembro de 2019
Ler à mesa
Para mal de quem me estima, escolho os restaurantes não pela comida ou pela popularidade mas em parte pelo abandono. Um restaurante sempre cheio dificilmente me terá como cliente e a excelência da comida não é a minha principal preocupação quando almoço ou janto fora. Sobretudo se o faço sozinho, altura em que aproveito para ler.
Gosto de passear pelas cidades de livro debaixo do braço, experimentar-lhes a ler as esplanadas ou os cafés históricos e, como corolário raramente intencional, testar-lhes a tolerância à leitura. Quando chega a fome, espreito-lhes a restauração em busca de um sítio pouco popular mas ainda suficientemente simpático para ser confortável, que não cheire a detergentes e sirva de modo satisfatório um qualquer prato convencional.
Nos cafés, por ainda haver nos mármores lembrança de tradições e tertúlias e por serem sítios de passagem, mais habituados por isso a um certo cosmopolitismo, um livro aberto sobre a mesa não causa geralmente espanto, não demasiado. Nos restaurantes, pelo contrário, é comum travar-se uma guerra surda ou declarada com o empregado de mesa. Alguns começam por informar, parecendo cómodos com a ideia de um cliente a ler, que de boa vontade pousam as entradas a um lado enquanto não vem o prato. Há já naquilo um aviso. Quando trazem o vinho, com a desculpa de que é preciso prová-lo, mesmo sendo colheita da casa servida em jarro esbotenado, sentem-se autorizados a virar o copo que ali jaz baço há dois ou três dias e a pousá-lo resvés ao livro que lemos, com a ameaça de uma pinga tinta em página branca a assomar no gesto largo e escusado de servir sidra à asturiana. Ao chegar depois com a comida, se ainda estão com delicadezas, aguardam de rosto severo e travessa a fumegar que retiremos voluntariamente o fólio. Se nos demoramos, avançam de perfil, à egípcio antigo, com a travessa em equilíbrio na mão esquerda e usando a direita para, num golpe de rins, puxar para cima do livro o prato que aguardava à distância. Alguns mais afoitos ou impacientes, prevenindo ainda oposição, sentenciam, com a autoridade das maiorias ruidosas e voz de madrasta, que à mesa não se lê.
Há porém casos (ou casas) em que o advento de um cliente é tão celebrado que quem serve deixa de lado a bibliofobia e só tem mesuras para oferecer. A leitura nestes sítios é interrompida já não pela vontade de normalizar o cliente mas de o bem servir. Ignora o empregado (ou dono, muitos dos sítios que escolho não ganham para empregados) que bem servir este tipo de clientes é deixá-los em paz, não aparecer de três em três minutos a perguntar se está tudo a gosto, e muito menos vir meter conversa para amenizar a solidão — de quem serve.
O cúmulo, recorrente, é ter o cliente-leitor escolhido o estabelecimento por, entre outros méritos, este ter desligada a televisão e vir alguém à mesa, cinco ou seis sossegadas páginas depois, perguntar se não quer talvez o cliente que se lhe ligue a televisãozinha.
Quiçá não o faça por estupidez, mas por remorso. A falta de clientela impõe poupanças no ar condicionado e desleixo na lida da casa. Já nem se acende a televisão da sala quando não se espera ninguém, e a consciência súbita, ainda que retardada, de que há alguém na sala, oblitera a ponderação. Isso, e a certeza geral de que a humanidade não passa sem futebol na hora de comer, impede o pobre empresário ou garçom de reconhecer um cliente satisfeito quando finalmente tem um.
P.S.: Na cidade onde vivo conheço mais dois ou três leitores de mesa e sempre que os vejo penso (como um inimigo de classe, na verdade) que devíamos fundar um grémio: a união faz a força e precisamos dela para resistir aos muitos e multitudinários grémios idiotas que nos rodeiam. Teríamos, de resto, os jantares associativos mais tranquilos do burgo — mas suponho que isso não entusiasme a contemporânea guilda da restauração.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
O rio da minha aldeia não transbordou
O rio da minha aldeia não transbordou. A junta fez um muro novo e parece que isso é bom. Quando eu vivia lá e a minha aldeia não era vila, o rio transbordava sempre. Todos os Invernos. Na última década raramente transbordou, acho, e não sei se isso corrobora ou desmente o aquecimento global, culpado contraditório que é de secas e tormentas. Eu gostava quando o rio da minha aldeia transbordava. Havia nesses dias, apesar da recorrência anual, um ar de novidade, de excepção, de acontecimento insólito que (como a neve) permitia acreditar que na vida não havia apenas rotina, clima moderado. Depois de uma noite de chuva intensa como a destes dias, vínhamos à única janela da nossa casa que dava para a rua (a única janela da nossa casa que não dava para partes da própria casa) e tentávamos ver, por entre as árvores de Dezembro já despidas, até onde tinha chegado a água que sobrava do caudal violento. Se amainava e a mãe andava ocupada, como andava sempre, escapávamos rua abaixo e lá íamos verificar in loco quão largo estava agora o Avelames, ali antes da ponte e a seguir à curva.
A visão de um rio largo e no seu eixo violento (as margens agora amplas eram de águas calmas e misteriosas) era a um tempo assustadora e deslumbrante. Sentíamo-nos crescer em importância e angústia com o engrossar do rio. Importância, porque tínhamos com o rio, mais do que os pacientes pescadores, uma ligação íntima, de quem nele se fundia por longas horas no Verão; sentíamos o rio como propriedade como sentimos que somos donos de cada um dos nossos braços ou pernas, nossos prolongamentos. Angústia, porque de repente já não conhecíamos o rio, estranhávamo-lo na sua largueza, e a vasta lagoa que se formava na margem esquerda, submergindo partes de amieiros e carvalhos e sei lá que outras árvores menos ribeirinhas encosta acima, tinha todo o ar ameaçador de um pântano de onde sairiam facilmente crocodilos, longas e grossas serpentes aquáticas e, quem podia negar?, piranhas ou bicho pior.
Na verdade não eram os bichos o que eu mais temia, mas, sem conhecimentos bíblicos, as consequências de um dilúvio. Temia, e com isso sonhei décadas a fio, até há pouco tempo, que a água continuasse a subir e chegasse à taberna, quase à porta da nossa casa, e que ficássemos isolados, as estradas intransitáveis para sul. (Não concebia que se pudesse evacuar a aldeia pelo norte, para mim tudo o que significava saída dali estava a sul, a sul estavam as cidades grandes e a América e as estradas de acesso à Europa, mesmo que a Europa ficasse a norte; no norte da minha infantil geografia local apenas havia versões mais isoladas da minha aldeia.)
Nos meus sonhos de então e depois, via a bacia do rio a chegar cá cima, mas a água não subia nivelada, a sua superfície acompanhava a inclinação da encosta, e na outra margem havia apenas o resultado das cheias habituais, lameiros inundados, um só metro de água acima do normal.
E o que eu temia mais era afinal que o recuo das águas, quando dias depois elas recuavam, fosse apenas aparente, que debaixo dos paralelos da estrada permanecesse um rio subterrâneo e que ao pisá-los eles cedessem e de repente a estrada era como um puzzle a que faltavam peças, grupos de paralelos isolados uns dos outros, mantidos à superfície sabe-se lá por que fenómeno alheio à física. E de novo a aldeia, a nossa parte da aldeia, inacessível, todos receosos de pisar e afundar mais paralelos e já nem uma memória de estrada pavimentada e transitável nos sobrava.
Mas só nos sonhos as cheias tinham este lado assustador, esta ameaça quântica, alheia à física tradicional. Na vigília, quando o rio transbordava, o meu espírito transbordava com ele de felicidade com as coisas raras. O único lado mau do Avelames engrossado era a gente, fascinada, querer chegar-se-lhe a fímbria e enterrarem-se-nos subitamente as pernas na terra agora lamacenta que nos separava dele. Esse era o acontecimento inesperado que não desejávamos e contra o qual as nossas mães nos preveniam — ou ameaçavam, cansadas de nos lavar a roupa.
A visão de um rio largo e no seu eixo violento (as margens agora amplas eram de águas calmas e misteriosas) era a um tempo assustadora e deslumbrante. Sentíamo-nos crescer em importância e angústia com o engrossar do rio. Importância, porque tínhamos com o rio, mais do que os pacientes pescadores, uma ligação íntima, de quem nele se fundia por longas horas no Verão; sentíamos o rio como propriedade como sentimos que somos donos de cada um dos nossos braços ou pernas, nossos prolongamentos. Angústia, porque de repente já não conhecíamos o rio, estranhávamo-lo na sua largueza, e a vasta lagoa que se formava na margem esquerda, submergindo partes de amieiros e carvalhos e sei lá que outras árvores menos ribeirinhas encosta acima, tinha todo o ar ameaçador de um pântano de onde sairiam facilmente crocodilos, longas e grossas serpentes aquáticas e, quem podia negar?, piranhas ou bicho pior.
Na verdade não eram os bichos o que eu mais temia, mas, sem conhecimentos bíblicos, as consequências de um dilúvio. Temia, e com isso sonhei décadas a fio, até há pouco tempo, que a água continuasse a subir e chegasse à taberna, quase à porta da nossa casa, e que ficássemos isolados, as estradas intransitáveis para sul. (Não concebia que se pudesse evacuar a aldeia pelo norte, para mim tudo o que significava saída dali estava a sul, a sul estavam as cidades grandes e a América e as estradas de acesso à Europa, mesmo que a Europa ficasse a norte; no norte da minha infantil geografia local apenas havia versões mais isoladas da minha aldeia.)
Nos meus sonhos de então e depois, via a bacia do rio a chegar cá cima, mas a água não subia nivelada, a sua superfície acompanhava a inclinação da encosta, e na outra margem havia apenas o resultado das cheias habituais, lameiros inundados, um só metro de água acima do normal.
E o que eu temia mais era afinal que o recuo das águas, quando dias depois elas recuavam, fosse apenas aparente, que debaixo dos paralelos da estrada permanecesse um rio subterrâneo e que ao pisá-los eles cedessem e de repente a estrada era como um puzzle a que faltavam peças, grupos de paralelos isolados uns dos outros, mantidos à superfície sabe-se lá por que fenómeno alheio à física. E de novo a aldeia, a nossa parte da aldeia, inacessível, todos receosos de pisar e afundar mais paralelos e já nem uma memória de estrada pavimentada e transitável nos sobrava.
Mas só nos sonhos as cheias tinham este lado assustador, esta ameaça quântica, alheia à física tradicional. Na vigília, quando o rio transbordava, o meu espírito transbordava com ele de felicidade com as coisas raras. O único lado mau do Avelames engrossado era a gente, fascinada, querer chegar-se-lhe a fímbria e enterrarem-se-nos subitamente as pernas na terra agora lamacenta que nos separava dele. Esse era o acontecimento inesperado que não desejávamos e contra o qual as nossas mães nos preveniam — ou ameaçavam, cansadas de nos lavar a roupa.
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
As leituras das vizinhas
Há perto de trinta anos descobri, envergonhado, que as minhas vizinhas liam Vergílio Ferreira. Envergonhado por mim, que ignorava o que escrevia Vergílio Ferreira e pensava que no bairro as senhoras só liam romances cor-de-rosa. Havia um livro esquecido numa mesinha, julgo que o Em Nome da Terra, ou talvez o Para Sempre, e enquanto me pus a folheá-lo, intrigado com a presença daquele objecto naquela casa, entrei num estado de espanto e êxtase que só terminou meses mais tarde, depois de ter aviado mais ou menos de enfiada aquele par e Até ao Fim, Uma Esplanada Sobre o Mar, Na Tua Face, Cartas a Sandra, uns contos do autor e, já esmorecendo, Aparição.
Hoje descubro, desolado, que as minhas vizinhas lêem muito José Rodrigues dos Santos — e romances cor-de-rosa. Temo que já não leiam nada que se pareça com Vergílio Ferreira.
Não é o envelhecimento delas, suspeito, mas uma consequência e metáfora dos tempos.
Hoje descubro, desolado, que as minhas vizinhas lêem muito José Rodrigues dos Santos — e romances cor-de-rosa. Temo que já não leiam nada que se pareça com Vergílio Ferreira.
Não é o envelhecimento delas, suspeito, mas uma consequência e metáfora dos tempos.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
O Pai Natal
Está habitualmente colocado com as suas longas barbas e o seu odor a falta de champô numa zona de cafés da cidade, às vezes acocorado no chão, outras sentado em degraus ou numa cadeira das esplanadas, sempre balouçando o tronco para trás e para diante como animal em jaula (aprisionado no vício, dir-se-á à volta) ou com uma perna tremendo com tique de espera prolongada em consultório médico. Ontem, ao contrário do habitual, vestia um blusão de cor viva, vermelho, e visto à distância semelhava um Pai Natal, parecia que escolhera o outfit para se enquadrar na época, se inserir socialmente. Estava a chegar ao bairro da sua rotina, como quem vai pegar a trabalhar, e iniciou a travessia da última rua adequadamente na passadeira, mas logo de seguida, como se tivesse repensado o seu lugar na sociedade, cofiando as barbas que de resto são escuras, logo inflectiu sem pausas e continuou para o seu destino numa diagonal, indiferente ao trânsito, aos carros em slalon à sua volta e provavelmente à época.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Breve história de uma carreira pop
Começou por cantar na missa levado pela mãe, uma senhora mística e sofridamente adúltera que lhe transmitiu o gosto pelo êxtase à la Teresa D’Ávila. Era famosa a sua (dele, todo rosado) boquinha de anjo. Na adolescência, nauseado por tanto apregoar sem resultados a virtude e a humildade, entrou à noite e às escondidas, de cerveja choca na mão, para uma banda de rock’n’roll. Quando começou a dominar a técnica, que, além da guitarra, implicava o lábio superior, a sobrancelha direita e um certo jogo de joelhos, chegou o punk e viu-se então obrigado a fingir que não sabia mais do que dois acordes e que desafinava por origem social. Para facilitar, fez-se baterista, posição em que lhe custava menos parecer genuinamente incapaz e onde o seu entusiasmo musical, a martelar com energia tambores e pratos, poderia facilmente confundir-se com um tique resultante de labor proletário, as contracções espasmódicas de um operário chaplinesco já fora do alcance da medicina no trabalho. Mas não chegou a aquecer o tamborete, porque logo logo se impôs o new romantic, um punk limpo e amaricado cujas cabeleiras barrocas e caras empoadas lhe lembravam, dos tempos de acólito, as gravuras que o obrigavam a ver sempre que lhe ensinavam um novo requiem ou quaisquer outras obras litúrgicas. Passou aí a ser o frontman porque, apesar de tudo, o encavalitar dos dentes após a velha e precipitada recusa revolucionária do aparelho e os inesperados e incipientes pêlos de uma barba dylanesca, bobdylanesca, não lhe perturbaram a natureza essencialmente angélica e aristocrata, o perfil quase helénico e petrificado de figura de proa de um veleiro. Ficou então famoso o seu apetite por microfones, que mordia criando uma imagem de marca (e deixando um registo odontológico) muito dirigida a teenagers leitoras da Bravo mas pouco apreciada pelos promotores de concertos e nada pelos vocalistas que, enojados, lhe sucediam no alinhamento dos festivais. Da new age à soul foi um passo natural, porque, naqueles anos, a quem não tinha atitude ou carisma suficiente não restava mais do que permanecer verdadeira e frustradamente cantor, tendo talento. Ninguém ignorava que ele teria preferido optar por uma carreira mais sexual e menos musical, mas não havia nada a fazer, só a voz lhe valia. Despediu então toda a banda, uma malta que entretanto se tinha tornado assaz competente, para contratar afro-descendentes. A soul pedia, achava ele, um balanço específico e mais fôlego, coros poderosos, predicados que o seu velho combo de não cantores movido a Super Bock e Macieira não tinha como providenciar. Foi-se ao bairro dos retornados e veio de lá com uma secção rítmica capaz e um coro de moças roliças que teria maravilhado a sua mãe, não fora o tom da pele delas não combinar com os reposteiros da família. Da velha banda que o acompanhara pela história da música sobrou, por polivalência e consequente direito próprio, o teclista, um Ray Manzarek que não raras vezes saía da madrugada do backstage, limpando os óculos de tartaruga, para a nave da sé, onde tinha a seu cargo o matutino órgão de tubos. E então a soul deu-lhe cabo da carreira. Quando se imaginava um George Michael nacional, como ele reinventado e introduzido numa respeitabilidade vocal e interpretativa a que a imprensa se haveria de render (embora no seu íntimo continuasse a lamentar-se por a voz ser o seu único predicado), começaram a acometê-lo pesadelos, terríveis pesadelos. Via-se no palco como no convés de uma nau quinhentista, uma nau negreira. O pálido Manzarek era o seu imediato e a banda mais o coro, todos negros ou mestiços, eram os escravos. Noite após noite durante a sua última digressão, baralhando épocas e tragédias históricas, não conseguia deixar de ver o baterista como o sonderkommando que marcava o ritmo nas galés e as coristas, nas suas coreografias de braços ondulantes, como os condenados remadores. Esgotado e dominado por um remorso de classe que uma carreira musical plebeia não conseguira desvanecer — ainda que aquela mesma carreira tivesse feito morrer de desgosto a mãe, já de si deprimida por haver na verdade pouco proveito prático no adultério sénior — resolveu à boa maneira maoista fazer um mea culpa público e abriu na baixa um centro de terapia com sinos tibetanos.
domingo, 1 de dezembro de 2019
As trapalhadas de Joacine
As trapalhadas de Joacine Katar Moreira trouxeram alívio e regozijo à pátria. De repente, tudo o que se disse dela desde cedo foi premonição e sagacidade — mesmo quando foi apenas preconceito, estupidez ou racismo.
sábado, 30 de novembro de 2019
Em Tudo Havia Beleza
Leio Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Vilas, com o mesmo fascínio com que li os livros de Sebald, com a mesma impressão de que humanidade atinge ali um cúmulo — e demorando a leitura com o mesmo pânico por saber que os livros (e os autores) são finitos.
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
A melancolia de um misantropo
Paul Mason, no seu livro optimista sobre a humanidade e a inteligência artificial, diz, grosseiramente resumindo, que a superação deste capitalismo em furibunda crise de existência passa pela cooperação. Eu se fosse um deus seria um em que o Nick Cave de “Into My Arms” poderia acreditar. A minha vontade divina é ter sempre, em todas as ocasiões e circunstâncias, a coragem de ficar a um canto a ler e a espreitar a humanidade sem nunca intervir. A crença que consubstancio, menos ambiciosa ou mais utópica, é que já estaria bem se as pessoas não se atropelassem umas às outras.
Mas talvez haja também nisto uma forma de cooperação. Um misantropo é ainda um contribuinte para o bem comum, porque, tirando os casos extremos de eremitas, faquires e artistas da fome, come e bebe com apetite e paga as suas despesas e impostos com menos desagrado do que a maioria dos industriais e empreendedores a quem o capitalismo reza pela salvação. Uma sociedade de misantropos assim seria talvez pouco animada pelos padrões actuais de irrequietude e chinfrineira, de interacção símia, mas estaria, por natureza, muito mais preparada para assinar um pacto de não-agressão. Estaria, sem cinismo, muito mais preparada para retomar um ideal de União Europeia, a melhor das Uniões Europeias, uma em que cobriria o continente uma espécie de melancolia escandinava, com tudo o que ela traz de produtivo, bem-estar social e favorecimento da leitura.
Mas para que a melancolia de um misantropo seja para ele fonte de felicidade suponho que faça falta uma humanidade em tonta correria, a voltear no seu habitat urbano com afã de traça em candeeiro. O misantropo é feliz por contraste. Desdenha a humanidade mas precisa dela para se recordar de como os seus dias poderiam ser piores se tivessem um propósito social.
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Mark Kozelek, Knausgård e a arte aos cinquenta*
De visita rotineira e esperançada a um blogue aparentemente decesso, parei mais do que o habitual na canção ‘This My Dinner’, que ali encima como epitáfio a coluna desactualizada de posts. É sempre um gosto ouvir aquele tema dos Sun Kil Moon, de Mark Kozelek, mas desta vez atentei na letra e quis acompanhar a lê-la uma segunda audição da música. Fez-me pensar num Karl Ove Knausgård que, em vez de romancista, fosse cantor e escrevesse letras para canções. E não por a letra de ‘This My Dinner’ ser uma espécie de hino à Noruega e aos noruegueses. Kozelek (fui ler mais letras e uns artigos sobre o homem) escreve as letras dos seus últimos álbuns no registo que se chama em amaricano stream of consciousness — o mesmo que James Joyce usou em Ulisses para pôr a sua Molly Bloom a discorrer na cama — e portanto são de esperar minudências, cenas do quotidiano, disparates, embirrações, obsessões, ansiedades, contradições, uma ou outra lamúria e alguns insultos e palavrões. Há ali (mas não só) o mesmo prazer do detalhe insignificante, do episódio sem grandeza e do relato autobiográfico cru.
Como Knausgård, Kozelek é inconveniente, não sei se também para a família, mas certamente para jornalistas. Uma delas escreveu um artigo no The Guardian contando como foi chamada de bitch ao vivo num concerto onde Kozelek relatou com duvidosa seriedade uma troca de e-mails entre eles. (Depois disse que estava a brincar. E depois reincidiu). De resto, o estilo spoken word e improvisado de Kozelek serve ao vivo por vezes mais para gozar e insultar o mundo à sua volta (outros músicos, jornalistas, público, fãs) do que para trips poéticas ou místicas a la Morrison Hotel, ainda que soe de forma semelhante.
E é curioso como a letra pode mudar todo o estado de espírito que uma canção nos sugere. Aquela voz angustiada e requebrada, por vezes melosa e outras tantas empolgada como um comandante de pelotão pessimista, parece falar-nos de dramas amorosos, crises existenciais ou combates fatais a travar, e na verdade pode estar apenas a contar-nos como lavou as suas meias num hotel de Madrid entre paragens numa digressão. É o mesmo desconcerto que Neil Hannon (o senhor Divine Comedy) despeja sobre nós se estivermos distraídos das suas letras irónicas e humorísticas e nos focarmos apenas no barítono sofrido que ele deixa escorrer para o microfone. Ninguém atento dançava slows nos anos oitenta ao som de músicas dos Divine Comedy**. Hoje ninguém dança slows, mas ainda não se inventou a imunidade ao mal de amor, pelo que convém vigiar as expressões e as poses quando se ouve publicamente Sun Kil Moon.
Não quero com isto desdenhar o que pode haver de literatura e poesia nas letras de Mark Kozelek (seria como ignorar a Beat Generation). Pelo contrário: eu apreciei muito, honestamente, como literatura, o políptico A Minha Luta, de Knausgård , e estou aliás chateado com a demora na tradução do último volume. (Bem sei que a geração anterior à minha, que não viveu os anos oitenta, prefere o À La Recherche, mas isso é por uma questão de proximidade vivencial.)
Aos cinquenta sabemos apreciar como arte sincera a resposta que Mark deu a uma nossa compatriota no final de um concerto em Espinho (relatada na letra de ‘Soap for Joyful Hands’):
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* Um título tonto para um post tonto
Como Knausgård, Kozelek é inconveniente, não sei se também para a família, mas certamente para jornalistas. Uma delas escreveu um artigo no The Guardian contando como foi chamada de bitch ao vivo num concerto onde Kozelek relatou com duvidosa seriedade uma troca de e-mails entre eles. (Depois disse que estava a brincar. E depois reincidiu). De resto, o estilo spoken word e improvisado de Kozelek serve ao vivo por vezes mais para gozar e insultar o mundo à sua volta (outros músicos, jornalistas, público, fãs) do que para trips poéticas ou místicas a la Morrison Hotel, ainda que soe de forma semelhante.
E é curioso como a letra pode mudar todo o estado de espírito que uma canção nos sugere. Aquela voz angustiada e requebrada, por vezes melosa e outras tantas empolgada como um comandante de pelotão pessimista, parece falar-nos de dramas amorosos, crises existenciais ou combates fatais a travar, e na verdade pode estar apenas a contar-nos como lavou as suas meias num hotel de Madrid entre paragens numa digressão. É o mesmo desconcerto que Neil Hannon (o senhor Divine Comedy) despeja sobre nós se estivermos distraídos das suas letras irónicas e humorísticas e nos focarmos apenas no barítono sofrido que ele deixa escorrer para o microfone. Ninguém atento dançava slows nos anos oitenta ao som de músicas dos Divine Comedy**. Hoje ninguém dança slows, mas ainda não se inventou a imunidade ao mal de amor, pelo que convém vigiar as expressões e as poses quando se ouve publicamente Sun Kil Moon.
Não quero com isto desdenhar o que pode haver de literatura e poesia nas letras de Mark Kozelek (seria como ignorar a Beat Generation). Pelo contrário: eu apreciei muito, honestamente, como literatura, o políptico A Minha Luta, de Knausgård , e estou aliás chateado com a demora na tradução do último volume. (Bem sei que a geração anterior à minha, que não viveu os anos oitenta, prefere o À La Recherche, mas isso é por uma questão de proximidade vivencial.)
Aos cinquenta sabemos apreciar como arte sincera a resposta que Mark deu a uma nossa compatriota no final de um concerto em Espinho (relatada na letra de ‘Soap for Joyful Hands’):
«Mark, além da música, quais são as tuas outras paixões?»
Eu disse, «Eu tenho cinquenta anos, querida, acho muito relaxante estender-me no sofá
E também gosto de ler livros com os meus óculos de leitura novos
E gosto de ter cinquenta e não sofrer de cancro do pâncreas
E gostei de acordar depois de ter sido anestesiado para uma colonoscopia e descobrir que não tinha cancro do cólon
Queres saber quais são as minhas paixões além de viver o meu sonho de ser músico?
Estas são as respostas»
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* Um título tonto para um post tonto
** Isto é mentira, como sabem todos os então desesperados.
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Dia dos Fiéis Defuntos (com atraso)
«O que pensas dos cemitérios?»
«...»
«Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se havia que falar de estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas, ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas.
«Mas não era disto que queria falar. Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.
«Na minha família não se falava muito do passado, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.
«Era… É nos vivos que eu sinto a morte, o engano da vida. Frustrada a experiência da visita ao sepulcro familiar, pus-me a caminhar por entre os túmulos, a espreitar os nomes e os rostos, a ler epitáfios. O Inverno tinha entrado, o dia estava cinzento, havia fumo de chaminés à volta dos muros e ao longe ladravam cães, como se aquele fosse um cemitério de aldeia ou a cidade regressasse ao século dezanove. Ardiam velas em recipientes vermelhos por todo o lado, fazendo da paisagem uma massa viva, palpitante. Vários jazigos estavam submersos em ramos de flores, coloridas, ainda viçosas. Tinham passado por mim alguns grupos mas agora apenas havia outro homem, idoso. Eu vira-o fitar durante muito tempo uma das sepulturas, provavelmente rezando. Depois, deu meia volta e parecia que tomava resolutamente o caminho da saída. Mas algures a meio de uma das áleas mudou de ideias e enveredou por outro sector da necrópole, detendo-se aqui e acolá com ar pesaroso. Talvez o homem fosse demasiado velho, o último sobrevivente de uma geração cujos membros tinham sucumbido. (Ele passeava pelo cemitério como numa rua a cumprimentar os vizinhos; os seus vizinhos agora viviam ali.) Foi através dele que senti a morte, mas não porque o seu aspecto fosse débil, de alguém que devesse uns anos à cova, como se costuma dizer. Não porque os seus pensamentos se ocupassem apenas de gente morta, como de certeza ocupavam. Mas porque ele passou por mim sem me ver. Cruzámo-nos já no exterior do cemitério, no parque de estacionamento, quase a tocar os ombros, e ele apenas aconchegou as golas do casaco ao pescoço, como se acometido de súbita corrente de ar. Eu é que era o fantasma. Centenas de sepulturas, milhares de cadáveres ali ao lado e eu é que lhe provoquei calafrios. Era em mim que a morte estava, não no solo, mesmo que se tratasse do solo especializado em morte de um cemitério.»
[Excerto de Aranda, 2011]
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