sexta-feira, 12 de abril de 2019
'Ensaio sobre a perturbação do sono'
O blogue Aventar fez dez anos e convidou-me para escrever um texto. Saiu-me este longo 'Ensaio sobre a perturbação do sono'. (Ainda bem que o blogue não é em papel.)
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Quando eu morava ali
«Quando eu morava
ali não sentia grande curiosidade por aves (e suponho que seriam então mais
abundantes), mas não julgo que recebêssemos com frequência visitas de
garças-reais, se as recebíamos de todo. Aquele mundo era mais campestre do que
o que o veio substituir, mas era paradoxalmente mais habitado, com bulício humano
junto ao lago, mesmo num crepúsculo cinzento e chuvoso de Dezembro como o que
acolheu o meu regresso. Eu era agora outra mulher, capaz de me deter a olhar
uma paisagem e de reparar no que nela havia de raro ou peculiar, e uma
garça-real de pé junto à água, iluminada por um candeeiro muito mais antigo na
terra do que a sua espécie, parecia-me algo de inusitado em qualquer sítio que
a visse — ali adquiria foros de aparição. Ela deu pela minha presença quando
cheguei a uns trinta metros de distância da margem e pôs-se de lado, a
espreitar-me os movimentos pelo canto do olho, com o pescoço desenhando aquela
silhueta característica em ponto de interrogação. Pareceu-me adequada a sua
postura: assinalava graficamente as suas dúvidas quanto às minhas intenções e,
num sentido mais lato, as minhas próprias dúvidas quanto aos meus objectivos.
Não fugiu quando, num gesto de mecânica contemporaneidade, tirei o telemóvel da
bolsa para a fotografar. O flash
iluminou impotentemente a noite que se instalara e eu percebi que era inútil, estava demasiado longe e não
havia luz suficiente para a câmara, apenas os arbustos perto de mim sairiam visíveis na foto.
Tudo o que colheria daquele primeiro momento era uma impressão que não poderia
provar, a somar-se às outras que transportava comigo em igual condição havia três
décadas.
Depois de alguns
minutos a olharmo-nos, senti-me autorizada a avançar, confiante em que a garça
teria decifrado as minhas intenções pacíficas. Estava enganada. A bicha abriu
lentamente as asas, segura no seu cálculo das distâncias (não a alcançaria nem
que corresse), deu um passo gracioso em frente e elevou-se nos ares com uma
pequena rabanada de vento.
Ocupei o seu
lugar na beira da água, tentando ver o lago e as redondezas pelos olhos de um
frequentador recente, mas faltava ao meu olhar virgindade: tudo ali, o que
havia e o que já não estava, tinha impressionado a minha retina há muito, como a
luz que fixamos demasiado tempo e continuamos a ver mesmo depois de fecharmos
os olhos. Os candeeiros públicos poderiam desligar-se — como tantas vezes
acontecia nos Invernos da adolescência — que eu continuaria a poder ver através
da escuridão, nem que fossem os espectros a cujo apelo acorrera.
Passaram mais
alguns minutos e a garça regressou, sobrevoando com um gazear irritado a
pequena enseada. O seu jantar ficara decerto a meio e queria por isso que eu
fosse embora, lhe devolvesse o território de caça. Não lhe disputei o direito a
estar ali, já não era uma prerrogativa minha. Afastei-me a deambular,
voltando-me de vez em quando com um desejo melancólico de beleza selvagem e
inconsciente, talvez tentando aprender com ela como reocupar um terreno de onde
fomos desalojados.»
[Início de uma novela ou romance em gestação lenta, lentíssima]
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
S.T.T.L.
Os
anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado,
cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não
voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que
ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos
sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para
o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou
no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza.
Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a
família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos
se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas
namoradas.
O
tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a
partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta,
ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas
de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à
taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas
de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores
tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o
recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata
de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas.
Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos
para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o
bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na
barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia
esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas
prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos
ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No
Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o
impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na
maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis
sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a
cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se
encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza
uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer
assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não
apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou
subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem
caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha
pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que
gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam
estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no
meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições
(estava, avidamente).
A
sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais
intrincados quanto para lobrigar as rocas
mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para
os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por
preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem
onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos.
De
resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o
descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida
mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por
interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria
apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e
do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda
era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia
quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados
do Sporting.
Nos
anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os
seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos,
que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de
cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo
de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os
sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe
tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A
paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira
que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou
um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se
para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou
passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações
eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio
adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que
havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com
queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então
afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá
entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta
de lhe termos descoberto o fingimento.
Com
o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em
determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma
pessoa difícil.
Mas
os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de
sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava
ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava
o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar
tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para
escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o
tio era então o meu segundo pai.
Sit tibi terra levis.
Sit tibi terra levis.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Boa notícia
O meu amigo J. F. Borges retomou o blogue Divina Comédia. E em grande forma.
Ressurgimento
1657 dias após a sua morte, este blogue ressuscitou. Ou talvez tenha reencarnado. Da vida anterior conserva certos vícios, sobretudo a tendência para ser irritantemente sintético nos textos que exibe. Preguiça disfarçada. Mas a preguiça tem vantagens, algumas de alcance cósmico: o mundo ainda não se deu ao trabalho de acabar.
sábado, 26 de janeiro de 2019
«A bosta da bófia»
A polícia, como se sabe, é amada por todos os portugueses. Sempre
que há uma operação stop de surpresa, os tugas rejubilam e correm ao encontro
dos agentes. Se a operação inclui medição da taxa de alcoolémia, o Zé português
fica tonto e desfaz-se em mesuras e elogios, escolhendo os melhores adjectivos
do rico vocabulário nacional. Se por azar o carro do tuga não é apanhado pelo
radar (não por falta de empenho do condutor, bem sabemos), este vai logo ao
multibanco fazer um donativo generoso, superior à multa a que tinha direito, e pelo
Natal envia um postal delicado para a esquadra. Quem passa na estrada dá sempre
sinal da presença da polícia aos condutores que vêm em sentido contrário para
que ninguém perca a oportunidade de cumprimentar os agentes, não fosse algum
distraído passar sem os ver e honrar. Donos de bares não fecham os
estabelecimentos a horas só para poderem ser visitados pela polícia, que
recebem como as crianças receberiam o Pai Natal, se ele aparecesse: com carinho,
abraços e beijos gulosos. Comerciantes anseiam pela ASAE ou por qualquer tipo
de fiscalização só para poderem acolher os agentes que por vezes acompanham os inspectores.
Nos estádios, os adeptos descamisam-se e atropelam-se para irem abraçar os
agentes destacados, que receberam desde o apito inicial com gestos de calorosa
afabilidade e cânticos aprendidos nos mais virginais livros de salmos.
*Deliciosa expressão roubada à excelente escrita de Francisco José Viegas, de quem infelizmente tanto tenho discordado.
Mas eis que um preto se apropria dos hábitos e palavras
nacionais para se dirigir publicamente à polícia como «a bosta da bófia». Os
pretos não são, por definição, portugueses, logo não podem dirigir-se às
auctoridades* com as mesmas palavras que um português usaria. Ainda assim teve
sorte Mamadou Ba. Se tivesse recorrido a uma expressão ainda mais reiterada e genuinamente
tuga, por exemplo, «a puta da bófia», certamente não seria apenas ameaçado.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
La Palisse
Vejo amigos a partilharem posts no Facebook onde se dizem intransigentemente do lado da PSP. Pensei, ingénuo, que os meus amigos estavam do lado das pessoas de bem, fossem elas polícias ou civis. Não sabia, cândido, que nisto também tínhamos de seguir a cartilha do futebol e escolher um clube com o qual estamos em todas as circunstâncias, sem metafísica nem escrúpulos.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Diário de uma boina Basca
Quando soube que Vasco Pulido Valente regressara aos jornais com um diário publicado semanalmente no Público,
não saquei logo a pistola porque não uso, mas pensei de imediato no prazer de
me lançar na escrita contrapontística de um diário anti-Vasco. Saiu-me na hora um
título e tudo: Diário de uma boina basca.
Durante uma semana diverti-me com a ideia e sobretudo com o título — mas não me
sentei ao computador. Quando finalmente o fiz, senti desolação: eu
não ia querer obrigar-me semanalmente a ler aquela prosa sádica que, sob o
argumento altruísta de nos mostrar o mundo como ele é, dedica fervor e fel à
defesa de um péssimo mundo possível mas não inevitável.
Para alguns bem-intencionados, a escrita alegadamente irónica
de Vasco cumpre hoje o papel das farpas de Eça de Queirós. Tem o mesmo espírito
endiabrado, o gosto de fustigar a nação. É certo que, como Eça, Vasco procura o
efeito e pretende ver o país por uma luneta. Mas o sátiro Eça elevava-se. O
sarcástico Vasco entrincheira-se. As suas frases têm o resultado, por vezes implícito mas
dificilmente involuntário, de defender posições conservadoras e cínicas.
Outros dizem que em certos aspectos a escrita de Vasco ressuma
anacronia como a de Eça. Talvez apenas porque Vasco, historiador, engalana
frequentemente a sua prosa punitiva com as casacas e as polainas da época. Mas
na verdade, apesar das recorrentes alusões a figuras e factos do século XIX, nem
o próprio Vasco pretende confundir-se com Eça, salvo na inconfessada ambição estética
de ser o irónico-mor da pátria. E de facto os dois autores não se confundem: a décalage de Eça, morto de um século, não nos
tolda o riso; já a pátina reaccionária do plumitivo Vasco, agora
redivivo, mendiga pena.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas
Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma
crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu
tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações
climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não
ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta.
Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado
por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no
horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os
outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Regar em tempo de seca
«Quando vês alguém a regar o jardim ou a lavar o carro e
sabes que estamos num período de seca, pensas logo que observas um egoísta que
se está nas tintas para o planeta e para as carências da humanidade e quer
apenas saber das suas necessidades ou prazeres. Mas há outra maneira de ver
este quadro, que não iliba necessariamente ninguém. As pessoas, incluindo
aquela que vês a pegar na mangueira, precisam de normalidade, e se, num
fim-de-semana em que tudo morre de sede à sua volta, vão para o jardim regar o
relvado ou o Mercedes em segunda mão é porque se querem manter estritamente
dentro dos parâmetros da previsibilidade (ou, no caso, da rotina do
fim-de-semana típico). Não aceitam a ocorrência de um cataclismo natural na sua
folga ou adoptar procedimentos extraordinários alheios a um dia livre. É por
isso que as festas de aldeia não se interrompem quando os montes ardem, ou que
os jogadores de cartas num café são os últimos a reagir a um acidente que se
deu na estrada lá fora.
A interrupção voluntária da normalidade, e sobretudo da normalidade
de um feriado, é, para a maioria, uma confissão inconsciente de fraqueza ou a
denúncia da sua impotência perante as leis que regem o universo, uma cedência à
morte. A normalidade mantida in extremis
não é apenas egoísmo — é resistência à adversidade e à contingência, recusa de
ceder o controlo. As pessoas, os teus vizinhos, regam em pleno Agosto árido
porque acreditam contra todas as evidências na infinitude dos recursos e porque
de outro modo teriam de reconhecer a precariedade dos fins-de-semana, a
superficialidade de manter um jardim e, em última circunstância, a inutilidade
de terem comprado um Mercedes.»
A percepção da imprensa
Os jornais ditos de referência são acusados por uns de alinhamento com o Governo e por outros de serem títeres da direita.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Tautologia
Francisco José Viegas achou necessário avisar-nos que os textos do seu blogue «são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã».
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
The Whole of the Moon
Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of
the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para
quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.
Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott
nas colunas sofríveis da Blondie, mas
recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse
momento, uma turba acabadinha de sair dum casting
para o Thriller de Michael Jackson:
trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos
remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e
espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última
versão do MSDOS.
Os que tinham dançado slows
retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por
vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de
volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos
escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.
Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar
para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto
—, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade
do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.
Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de
continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico,
ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso?
Não aos rapazes do Ípsilon, decerto.
Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol
Nas minhas
deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável
momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do
período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser
conhecida pela beleza.
As torres
ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma
cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram
cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas,
em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num
arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar
de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os
mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética,
porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é
belo.
O verde da
vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e
clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o
verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo
estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e
jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe
arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século,
as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram
ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais
eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um
ecrã verde.
Há países,
como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o
filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e
renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a
amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o
clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano.
Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia
sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros
semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios
de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas,
demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de
Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado,
e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à
ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua
representação escultórica e irónica.
A
Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do
século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na
Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca
arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega
por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos
de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Polígrafo
Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e
afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito
necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua
primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no
artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o
seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a
ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar
ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de
seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar
as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos,
corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes
de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer
seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e
literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas
nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.
domingo, 4 de novembro de 2018
Um Chavez de direita
Com Bolsonaro, a direita que se abstêm-ou-não-vê-nada-de-eticamente-reprovável ganhou, com justiça, o seu próprio Chavez.
Parabéns.
Podem começar a reciclar as lentes e a ver maravilhas onde antes viam (e bem) miséria.
Parabéns.
Podem começar a reciclar as lentes e a ver maravilhas onde antes viam (e bem) miséria.
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Do Coração Acordeão:
«A potência censora e nefasta do politicamente correcto é real, sim; o problema é toda a porcaria que entretanto se tem incluído na pastilha do remédio: já não há facho, xenófobo, racista, anti-semita e o raio que não se sinta vítima do — e, portanto, legitimado pelo — politicamente correcto. De quem antes se dizia boçal passou a dizer-se politicamente incorrecto, uma coisa boa, na medida em que é o contrário dessa coisa má que é o politicamente correcto.»
Subscrever:
Mensagens (Atom)
