Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Regar em tempo de seca
«Quando vês alguém a regar o jardim ou a lavar o carro e
sabes que estamos num período de seca, pensas logo que observas um egoísta que
se está nas tintas para o planeta e para as carências da humanidade e quer
apenas saber das suas necessidades ou prazeres. Mas há outra maneira de ver
este quadro, que não iliba necessariamente ninguém. As pessoas, incluindo
aquela que vês a pegar na mangueira, precisam de normalidade, e se, num
fim-de-semana em que tudo morre de sede à sua volta, vão para o jardim regar o
relvado ou o Mercedes em segunda mão é porque se querem manter estritamente
dentro dos parâmetros da previsibilidade (ou, no caso, da rotina do
fim-de-semana típico). Não aceitam a ocorrência de um cataclismo natural na sua
folga ou adoptar procedimentos extraordinários alheios a um dia livre. É por
isso que as festas de aldeia não se interrompem quando os montes ardem, ou que
os jogadores de cartas num café são os últimos a reagir a um acidente que se
deu na estrada lá fora.
A interrupção voluntária da normalidade, e sobretudo da normalidade
de um feriado, é, para a maioria, uma confissão inconsciente de fraqueza ou a
denúncia da sua impotência perante as leis que regem o universo, uma cedência à
morte. A normalidade mantida in extremis
não é apenas egoísmo — é resistência à adversidade e à contingência, recusa de
ceder o controlo. As pessoas, os teus vizinhos, regam em pleno Agosto árido
porque acreditam contra todas as evidências na infinitude dos recursos e porque
de outro modo teriam de reconhecer a precariedade dos fins-de-semana, a
superficialidade de manter um jardim e, em última circunstância, a inutilidade
de terem comprado um Mercedes.»
A percepção da imprensa
Os jornais ditos de referência são acusados por uns de alinhamento com o Governo e por outros de serem títeres da direita.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Tautologia
Francisco José Viegas achou necessário avisar-nos que os textos do seu blogue «são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã».
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
Não se sabe se o fez para se desculpar pela repetição se para se desculpar pela tendência, mas tenhamos esperança.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
The Whole of the Moon
Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of
the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para
quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.
Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott
nas colunas sofríveis da Blondie, mas
recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse
momento, uma turba acabadinha de sair dum casting
para o Thriller de Michael Jackson:
trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos
remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e
espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última
versão do MSDOS.
Os que tinham dançado slows
retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por
vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de
volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos
escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.
Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar
para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto
—, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade
do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.
Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de
continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico,
ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso?
Não aos rapazes do Ípsilon, decerto.
Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol
Nas minhas
deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável
momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do
período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser
conhecida pela beleza.
As torres
ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma
cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram
cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas,
em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num
arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar
de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os
mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética,
porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é
belo.
O verde da
vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e
clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o
verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo
estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e
jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe
arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século,
as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram
ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais
eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um
ecrã verde.
Há países,
como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o
filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e
renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a
amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o
clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano.
Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia
sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros
semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios
de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas,
demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de
Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado,
e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à
ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua
representação escultórica e irónica.
A
Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do
século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na
Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca
arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega
por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos
de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Polígrafo
Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e
afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito
necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua
primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no
artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o
seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a
ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar
ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de
seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar
as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos,
corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes
de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer
seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e
literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas
nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.
domingo, 4 de novembro de 2018
Um Chavez de direita
Com Bolsonaro, a direita que se abstêm-ou-não-vê-nada-de-eticamente-reprovável ganhou, com justiça, o seu próprio Chavez.
Parabéns.
Podem começar a reciclar as lentes e a ver maravilhas onde antes viam (e bem) miséria.
Parabéns.
Podem começar a reciclar as lentes e a ver maravilhas onde antes viam (e bem) miséria.
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Do Coração Acordeão:
«A potência censora e nefasta do politicamente correcto é real, sim; o problema é toda a porcaria que entretanto se tem incluído na pastilha do remédio: já não há facho, xenófobo, racista, anti-semita e o raio que não se sinta vítima do — e, portanto, legitimado pelo — politicamente correcto. De quem antes se dizia boçal passou a dizer-se politicamente incorrecto, uma coisa boa, na medida em que é o contrário dessa coisa má que é o politicamente correcto.»
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
O melhor da direita liberal ou conservadora contra o Bozo
É reconfortante ver que à direita há quem tenha decência. Este texto de David Dinis diz o óbvio ululante sobre Bolsonaro e em simultâneo lembra-nos como no Observador, e em certas facções da direita dita conservadora, reina o mais puro fanatismo.
https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/
Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.
Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:
https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/
Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.
Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:
https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/francisco-mendes-da-silva/detalhe/conservador-nos-tempos-de-colera?ref=Opini%C3%A3o_outros
Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282
https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417
https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683
E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:
https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001
Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
«Um espaço político como o da direita das liberdades não pode resignar-se à apresentação de populistas como Bolsonaro ou Orban, lamento. Tem obrigação de saber canalizar as frustrações, as ansiedades, o desespero, para um projeto positivo, integrador, mobilizador.»O próprio João Miguel Tavares escreveu já dois textos impecáveis, mas depois voltou ao de sempre, com a velha e de momento inútil lengalenga da 'esquerda criadora de monstros' — o que nos põe a pensar se os artigos anteriores não foram apenas para alívio de consciência e registo histórico:
https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282
https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417
https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683
E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:
https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001
Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor
Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se
tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer
coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de
fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se
descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o
texto offline, fica como as focas no
parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de
recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar
a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar
a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a
ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.
Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura
a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente
se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das
suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha
sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou
ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a
escrever.
As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias
diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns
que de facto reflictam o mundo actual.
sábado, 13 de outubro de 2018
Maquilhando o cadáver
Passei anos a ler os nossos neoliberais lembrarem o pecado
de Neville Chamberlain, por vezes em termos que nem Churchill aprovaria. Hoje
constato que estão quase todos na primeira linha do branqueamento de Trump e de
Bolsonaro. E digo quase, porque,
perante o óbvio ululante, já há alguns que vão timidamente sugerindo que se demarcam,
pensando decerto na história póstuma.
A explicação do mundo contemporâneo
«Eis então o único mérito de Bolsonaro: ter criado uma circunstância perfeita para percebermos não só quem é de esquerda e de direita, mas sobretudo quem ainda se indigna com o discurso deste homem,inadmissível numa sociedade decente, e quem tem um ódio tal à ideologia de esquerda que está disposto a tolerar tudo.»Do Ouriquense.
(Ler ainda: «Leme»)
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
«Woodstock na Igreja»
Vendo-se incapaz de fazer desaparecer devoções e ritos populares
dedicados a deuses pagãos, a Igreja Católica ancestral resolveu incorporá-los na
sua própria caderneta hagiográfica e no seu calendário paralitúrgico. As festas
populares dizem-se de devoção a este ou aquele santo católico, mas uma boa
parte delas tem na sua origem e estrutura uma devoção e um costume pagãos.
A moeda de troca que a Igreja Católica aceitou pagar para
que o povo não rejeitasse a apropriação foi a bênção mais ou menos tácita do
lado profano das celebrações: a música, os bailes, as refeições pantagruélicas,
a bebida a rodos, uma alegria desenfreada e por vezes debochada, pouco
católica, em suma.
O corolário relativamente recente desta concordata plebeia foi
o livre-trânsito para a brejeirice da música pimba. Conquanto um bom punhado de
crentes não falte à missa e à procissão, a Igreja não vê qualquer inconveniente
em que no adro, na madrugada anterior, se rocem os corpos e cantem letras
libidinosas e frequentemente grosseiras, machistas, sexistas, atávicas e desafinadas.
É por isso curioso ler agora que um conjunto de católicos e o próprio bispo de Santarém se indignaram porque no festival Bons
Sons (na aldeia de Cem Soldos) houve um concerto de música moderna portuguesa numa
capela («Woodstock na igreja», disseram, escandalizados). O protagonista do
concerto era essa figura mefistofélica que dá pelo nome artístico de Homem em Catarse
(googlem, só correm o risco de gostar).
A notícia vem em vários órgãos de comunicação, alguns dos
quais provavelmente nunca dedicaram uma linha ao festival e às actividades de
Cem Soldos mas não hesitaram perante esta polémica.
Se tivesse pelo menos a inteligência táctica que demonstrou há
séculos, a Igreja Católica estaria hoje a tentar seduzir o Bons Sons (e nós
esperando que sem sucesso). Assim, limitou-se a demonstrar de novo uma
estrutural estupidez e falta de gosto*.
(*Com a excepção do padre da paróquia.)
domingo, 2 de setembro de 2018
A invasão da joaninha
Na Polónia, se estivermos atentos, somos duma forma ou doutra
alertados para os perigos de sermos permissivos em relação à ameaça de regimes
fascistas ou totalitários como o nazi e o soviético, mas quando vemos a intensa
disseminação de supermercados Biedronka (a ‘Joaninha’ da Jerónimo Martins) e de
filiais do Millennium Bank (Millennium BCP) interrogamo-nos se não deveríamos
nós alertar os polacos quanto aos perigos que correm com esta nova ocupação.
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