Bolsanaro e os cínicos profissionais
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Do Coração Acordeão:
«A potência censora e nefasta do politicamente correcto é real, sim; o problema é toda a porcaria que entretanto se tem incluído na pastilha do remédio: já não há facho, xenófobo, racista, anti-semita e o raio que não se sinta vítima do — e, portanto, legitimado pelo — politicamente correcto. De quem antes se dizia boçal passou a dizer-se politicamente incorrecto, uma coisa boa, na medida em que é o contrário dessa coisa má que é o politicamente correcto.»
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
O melhor da direita liberal ou conservadora contra o Bozo
É reconfortante ver que à direita há quem tenha decência. Este texto de David Dinis diz o óbvio ululante sobre Bolsonaro e em simultâneo lembra-nos como no Observador, e em certas facções da direita dita conservadora, reina o mais puro fanatismo.
https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/
Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.
Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:
https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/
Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.
Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:
https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/francisco-mendes-da-silva/detalhe/conservador-nos-tempos-de-colera?ref=Opini%C3%A3o_outros
Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282
https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417
https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683
E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:
https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001
Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
«Um espaço político como o da direita das liberdades não pode resignar-se à apresentação de populistas como Bolsonaro ou Orban, lamento. Tem obrigação de saber canalizar as frustrações, as ansiedades, o desespero, para um projeto positivo, integrador, mobilizador.»O próprio João Miguel Tavares escreveu já dois textos impecáveis, mas depois voltou ao de sempre, com a velha e de momento inútil lengalenga da 'esquerda criadora de monstros' — o que nos põe a pensar se os artigos anteriores não foram apenas para alívio de consciência e registo histórico:
https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282
https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417
https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683
E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:
https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001
Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor
Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se
tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer
coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de
fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se
descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o
texto offline, fica como as focas no
parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de
recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar
a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar
a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a
ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.
Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura
a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente
se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das
suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha
sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou
ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a
escrever.
As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias
diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns
que de facto reflictam o mundo actual.
sábado, 13 de outubro de 2018
Maquilhando o cadáver
Passei anos a ler os nossos neoliberais lembrarem o pecado
de Neville Chamberlain, por vezes em termos que nem Churchill aprovaria. Hoje
constato que estão quase todos na primeira linha do branqueamento de Trump e de
Bolsonaro. E digo quase, porque,
perante o óbvio ululante, já há alguns que vão timidamente sugerindo que se demarcam,
pensando decerto na história póstuma.
A explicação do mundo contemporâneo
«Eis então o único mérito de Bolsonaro: ter criado uma circunstância perfeita para percebermos não só quem é de esquerda e de direita, mas sobretudo quem ainda se indigna com o discurso deste homem,inadmissível numa sociedade decente, e quem tem um ódio tal à ideologia de esquerda que está disposto a tolerar tudo.»Do Ouriquense.
(Ler ainda: «Leme»)
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
«Woodstock na Igreja»
Vendo-se incapaz de fazer desaparecer devoções e ritos populares
dedicados a deuses pagãos, a Igreja Católica ancestral resolveu incorporá-los na
sua própria caderneta hagiográfica e no seu calendário paralitúrgico. As festas
populares dizem-se de devoção a este ou aquele santo católico, mas uma boa
parte delas tem na sua origem e estrutura uma devoção e um costume pagãos.
A moeda de troca que a Igreja Católica aceitou pagar para
que o povo não rejeitasse a apropriação foi a bênção mais ou menos tácita do
lado profano das celebrações: a música, os bailes, as refeições pantagruélicas,
a bebida a rodos, uma alegria desenfreada e por vezes debochada, pouco
católica, em suma.
O corolário relativamente recente desta concordata plebeia foi
o livre-trânsito para a brejeirice da música pimba. Conquanto um bom punhado de
crentes não falte à missa e à procissão, a Igreja não vê qualquer inconveniente
em que no adro, na madrugada anterior, se rocem os corpos e cantem letras
libidinosas e frequentemente grosseiras, machistas, sexistas, atávicas e desafinadas.
É por isso curioso ler agora que um conjunto de católicos e o próprio bispo de Santarém se indignaram porque no festival Bons
Sons (na aldeia de Cem Soldos) houve um concerto de música moderna portuguesa numa
capela («Woodstock na igreja», disseram, escandalizados). O protagonista do
concerto era essa figura mefistofélica que dá pelo nome artístico de Homem em Catarse
(googlem, só correm o risco de gostar).
A notícia vem em vários órgãos de comunicação, alguns dos
quais provavelmente nunca dedicaram uma linha ao festival e às actividades de
Cem Soldos mas não hesitaram perante esta polémica.
Se tivesse pelo menos a inteligência táctica que demonstrou há
séculos, a Igreja Católica estaria hoje a tentar seduzir o Bons Sons (e nós
esperando que sem sucesso). Assim, limitou-se a demonstrar de novo uma
estrutural estupidez e falta de gosto*.
(*Com a excepção do padre da paróquia.)
domingo, 2 de setembro de 2018
A invasão da joaninha
Na Polónia, se estivermos atentos, somos duma forma ou doutra
alertados para os perigos de sermos permissivos em relação à ameaça de regimes
fascistas ou totalitários como o nazi e o soviético, mas quando vemos a intensa
disseminação de supermercados Biedronka (a ‘Joaninha’ da Jerónimo Martins) e de
filiais do Millennium Bank (Millennium BCP) interrogamo-nos se não deveríamos
nós alertar os polacos quanto aos perigos que correm com esta nova ocupação.
sábado, 1 de setembro de 2018
Auschwitz e Birkenau ou o castelo de Drácula
Auschwitz e Birkenau não deviam ser visitados de Verão. O
Agosto polaco é demasiado benévolo, a paisagem verde demasiado bucólica, a
arquitectura demasiado harmoniosa (perdoem-me a observação) e as pessoas,
animadas pelo bom tempo, demasiado gentis para que possamos sentir na pele, nas
entranhas, a experiência extrema e terrível da vida num campo de extermínio
nazi.
A boa prestação da guia, assertiva no relato histórico e na
sugestão de que ele nos deve manter em alerta permanente, não chega a arrepiar profundamente
os visitantes, decerto condoídos mas temo que não muito mais do que o estariam
se visitassem uma masmorra da Inquisição, essa entidade velha de séculos e
anacrónica como calças à boca-de-sino, que ninguém acredita que voltem.
A escala desmesurada de Birkenau lá arranca os seus
murmúrios de espanto, mas julgo que os turistas do Holocausto apenas
interiorizariam a experiência se tivessem de se enterrar nas lamas do Outono ou
da Primavera ou de bater os dentes nas neves de Dezembro. Num Agosto assim, receio
que a visita a Auschwitz e Birkenau, com as suas latrinas limpas e a refulgente
cerâmica dos fogões de aquecimento, se pareça a uma visita aos jardins do castelo de
Drácula.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
Oświęcim
A ideia de pernoitar em Oświęcim* não é cara à maioria dos que
visitam a Polónia. A cidadezinha, tirando o que se poderia chamar de atractivo macabro
dos campos de Auschwitz e Birkenau, não parece ter outros predicados. Além
disso, os guias publicados, as agências internacionais de viagens e os postos
de informações no país sugerem em regra um tour
directo, com autocarro de ida e volta, a partir de Cracóvia, cidade turística
por excelência. O acesso por comboio regional não é difícil nem desconfortável
(observação que, bem sei, resulta frívola no contexto), mas os polacos, os
guias e as agências desconhecem ou desaconselham.
* Lê-se mais ou menos «óche-vién-tchim», daí «Auschwitz» em alemão.
Auschwitz constitui assim um dos vários programas da oferta
de Cracóvia, a par das montanhas de Zakopane, da descida às minas de sal, do rafting no Dunajec, do crazy tour à cidade satélite comunista de
Nowa Huta. Insere-se na rubrica «o que fazer» quando se está em Cracóvia à
espera de dicas. Visita-se como se visita mais um castelo, com as suas próprias
masmorras e histórias de tortura. Os turistas, quando têm a informação, a idade
ou o carácter suficientes, lá adoptam ao sair do autocarro a devida expressão
circunspecta, como quando visitam sem quererem parecer desrespeitosos um templo
de outra religião. Se lhes pedissem, descalçar-se-iam ou cobririam a cabeça,
mas muitos ficariam aborrecidos se não pudessem fotografar. No final das férias
terão disponível para os amigos um relato da visita, intercalado em histórias
de refeições deliciosas ou horríveis, dificuldades do câmbio monetário, noites
em bares e picardias sobre os polacos e as polacas.
Não é portanto prevista ou sugerida uma estadia em Oświęcim
(embora a cidade tenha vários hotéis, e um deles, o Hampton by Hilton, fique mesmo
na entrada do pequeno centro histórico). Presumo que ninguém queira que os
turistas se aborreçam a cismar numa pacata cidade a braços com a sua ocupação
nazi e os seus blocos de habitação comunistas quando há tanta coisa excitante
para fazer no resto da Polónia.
No gueto de Varsóvia
1. Um grupo com
umas três dezenas de rapazes e raparigas, morenos na sua maioria, participa de
uma cerimónia no monumento que homenageia a revolta do gueto de Varsóvia. A
certa distância, estrategicamente colocados nas quatro esquinas de um rectângulo
imaginário, quatro jovens adultos, igualmente morenos, parecem apreciar o
cerimonial, mas percebe-se pelos movimentos de cabeça, pelos auriculares discretos
e pelo volume suspeito ao fundo das costas, sob a fralda da camisa, que montam
guarda. Armada.
Não há polícia polaca (ou loura) nas redondezas.
2. No museu contíguo,
cuja arquitectura do hall pretende
evocar a separação das águas do Mar Vermelho para a passagem franca dos judeus
perseguidos, os seguranças, mulheres e homens, são também morenos. E ríspidos,
rudes, autoritários. Deslocados, pensa-se. O bilheteiro, não divergindo do aspecto
judaico mas menos anguloso e mais bonacheirão e, ao contrário dos colegas na
entrada, simpático e afável, pede desculpa por o preço dos bilhetes não estar
visível e pede desculpa pela rudeza e antipatia da segurança. Sugere que se escreva
à direcção do Museu. Sugere sempre, as queixas são habituais. Ele próprio tem
dito aos chefes que essas coisas são pouco agradáveis.
Ficamos sem saber se ele é o judeu bom no sketch do polícia mau e do polícia bom
ou se concorda genuinamente que é um pouco perturbante (ou pelo menos irónico,
de uma ironia sem riso) que naquele museu se escondam os preços dos bilhetes e
se recebam com autoritarismo rude os visitantes.
Em todo o caso, apropriamo-nos da sugestão da separação das
águas e decidimo-nos pela visita.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras
Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e
não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular,
entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram
«grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do
século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a
palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente
os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como
abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e
grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras,
ocupado por crianças ou adolescentes.
Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra
«grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me
sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros
ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo»
era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como
acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol,
vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me
logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria.
De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau
— com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online
de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele
«groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a
delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».
Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto
Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos
e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que
eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente
«groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de
recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem,
portanto.
Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário
português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários
ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?
Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford,
no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando,
exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a
conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais
ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da
França?
Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX
e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a
maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e
não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter
escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou,
se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle,
chargé de faire les courses». Grumo, em suma.
Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das
termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo
que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente
para inglês que ele tinha sido um «Brumo».
Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta
concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
A insensatez da espeleologia na adolescência
Há no parque termal das Pedras Salgadas uma
mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha
adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a
solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por
curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto
filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
Logo a seguir ao portão, a mina divide-se
em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco
erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros
gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega
lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial
para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão,
também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e
álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém
entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana
naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos,
contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
Sobre o outro túnel, o da esquerda, não
havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação
histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da
entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um
buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para
demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
De Inverno, o terreno baixo por onde se
acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório
estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia
perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso
era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter
o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a
curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos
quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas
familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço
do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de
várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das
paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que
separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e
fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o
tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a
ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se
estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos
seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na
península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente
à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos
oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente
humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um
quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais
ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem
qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os
primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de
expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não
havia graffitis, beatas, garrafas,
camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que
era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.
Houve fascínio e regozijo, naturalmente,
como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto
Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim
do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada
para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por
fim adiar sine die a segunda fase da
expedição.
Havia, contudo, motivos de interesse
naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava
algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do
túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de
luz e medir assim o comprimento do túnel.
Dois de nós voltámos atrás com essa nova
missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a
parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização
do buraco.
Demos com o buraco, depois de saltar o muro
para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena
de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha
adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e
tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia,
certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras
expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que
passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas
à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da
direita.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Tílias
Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche
de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que
lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade,
quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores
que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar
(ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva.
Mas um barman que fala no cheiro das
tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável.
Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente
empatado Rússia x Bélgica.
Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos
querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes
aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas
áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato,
se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.
Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como
o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais
CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no
Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado
à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado
não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que
existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.
Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas,
com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos
espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico
algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e
regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a
copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças
de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do
que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que
fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se
preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado
a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.
O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente
a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para
quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da
história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar
o perfume das tílias.
O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo
ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente
de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a
cabeça e padecem de rinite opcional.
domingo, 17 de junho de 2018
Bicho Ruim
Num tempo em que a comunicação social, como a política, se tornou uma anedota trágica em busca de likes e audiências pavlovianas e em que as páginas sobre cultura (não falo de entretenimento, essa "cultura" de substituição com que tantos se consideram cumpridos) são inexistentes ou residuais, como os interesses estéticos ou os remorsos de quem dirige os media, sabe bem ter à mão um blogue como o do Rui Manuel Amaral:
http://bicho-ruim-blog.blogspot.com/2018/06/com-o-tempo-fui-me-habituando.html
http://bicho-ruim-blog.blogspot.com/2018/06/com-o-tempo-fui-me-habituando.html
sábado, 16 de junho de 2018
[Work in progress]
«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»
«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»
quarta-feira, 13 de junho de 2018
O pianista
Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:
«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas
mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma
mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema
fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais;
agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido
dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e
flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver
através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os
comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o
caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon
ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes
numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes
espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés
históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração
barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de
reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas
e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de
que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista
para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na
plataforma junto ao lago, estendido na chaise
longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não
tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem
hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não
era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um
músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em
relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de
um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite,
que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas.
Digo que a sua
indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos
observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos
demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas
imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os
olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por
cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido
descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras
intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre
absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa
jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras.
Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado,
permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas,
e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou
magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da
terra.
Num dos
verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos
que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas
nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas
chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele
vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a
interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos
comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a
literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do
assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas.
Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador
e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e
roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua
espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira
vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a
sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume
vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que
era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei,
influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era
algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos
ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa
provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos
mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio.
O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de
imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente
visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido
nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só
depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe
em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que
nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um
gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse
momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe
do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua
maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão
desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o
pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago
como o protagonista de A Morte em Veneza,
ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma
reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive
a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era
suficiente, e exacto, para o definir.»
quarta-feira, 2 de maio de 2018
Revista de blogues
Por crónica falta de tempo, acompanho hoje poucos blogues.
Mesmo da lista reduzida aqui na coluna da direita só consulto regularmente meia
dúzia: o de Francisco José Viegas, pela escrita e as notas de erudição e
raramente ou nunca pelas ideias (com frequência atrozes); o Âncoras e Nefelibatas, belo mas pouco
produtivo nos últimos tempos, o Bicho Ruim, marginal, maldito e bem-querido, o Delito de Opinião, que visito cada vez menos por me desinteressar a
política partidária que ali tem amplo debate e demasiado catecismo, o Jas-Mim, um dos poucos vila-realenses
que conheço capazes de um diálogo culto com o mundo, o Marginal Ameno, do melancómico Nuno Costa Santos, o Ouriquense, de muito interessante autor,
para mim anónimo, exilado nesse belo Alentejo de que Ourique, a vila, não é a
melhor parte, e, por fim, mas no topo do que resta do meu vício bloguista, o Coração Acordeão, do magnífico prosador,
diarista e ironista António Gregório. O António não é dealer que apareça todos os dias (ao contrário da pródiga e também
excelente Ivone Mendes da Silva, no Facebook), e por isso a visita ao seu blogue
é antecedida de alguma agonia, mas quando vemos que há nova entrada o sangue volta
a correr-nos nas veias e no final da leitura já leva dentro química suficiente
para nova reconciliação com o mundo.
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