Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.
http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Best-sellers à portuguesa
Não vi nenhum dos filmes da trilogia Balas & Bolinhos — mas apenas porque não calhou (no que se refere a cinema sou muito diverso e laxo na disposição). Li porém com curiosidade uma entrevista do realizador, que agora lança Bad Investigate, por causa da frase em destaque no jornal: «Ando com este saco de pedras às costas por ter levado pessoas às salas de cinema.»
Em Portugal os autores não vivem geralmente felizes com o sucesso comercial. Não porque os repugne o êxito comercial (os que o têm em geral procuram-no com diligência e método), mas porque gostariam de ter igualmente o aplauso da crítica e dos seus pares. No cinema, como no teatro e na literatura, temos os nossos mártires vivendo vidas amarguradas porque levaram o público às salas, às livrarias ou aos multiplexes e há quem com desfaçatez não veja nisso motivo de regozijo. Como consequência, os nossos best-sellers tornam-se críticos ressentidos das abordagens não comerciais.
Diria que Luís Ismael, o realizador nortenho, não constitui uma excepção. Na entrevista até procura ser magnânimo com quem faz «cinema de autor» e afirma que ele próprio não quer andar toda a vida a fazer o género de cinema que tem feito. Mas, como se fosse imperiosa a retaliação àquela personalidade que numa gala dos Globos de Ouro «se levantou para ir receber o prémio» e «foi criticar quem fazia cinema comercial», não resiste a deixar, entre insinuações e contradições, algumas frases assassinas que desdizem a magnanimidade e o aproximam do bravo grémio de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Leonel Vieira ou Filipe La Feria, embora ainda não tenha a arrogância destes.
Ismael acha que «as pessoas que, ano após ano, recebem milhares e milhares de euros de apoios e subsídios têm a obrigação de tratar bem o público português.» E tratar bem o público português não é necessariamente realizar um bom filme, é ir ao encontro das expectativas «que o público tem nele». Por exemplo: «Se o cinema atrai, hoje, sobretudo os putos, é importante perceber que os cinco euros deles têm de ser respeitados.»
Não é preciso citar a entrevista toda (nem ir ver os filmes) para se perceber que o discurso de Ismael, como o dos autores atrás referidos, busca no número de espectadores um apoio para a sua legitimação artística — o que há uns anos teria talvez certa simpatia do ex-auto-despromovido-secretário de estado Francisco José Viegas. E o número de espectadores não precisa de estar necessariamente ligado aos méritos intrínsecos da obra, mas à simples virtude de esta cumprir o que as massas esperam dela.
Não há muito espaço neste tipo de discurso para a reflexão sobre como respeitar a diversidade de públicos e expectativas, sobre a funesta estandardização do gosto promovida pelos media e não obstada pela escola e pela universidade, muito menos (por definição) pelos blockbusters. Não há, naturalmente, espaço para discutir como estimular pessoas para ver filmes que não sejam feitos a pensar nos cinco euros ou nos cinco neurónios dos «putos». Mas há, como sempre há, bastante espaço para a mágoa e o ressentimento: «Por isso, se não critico os meus colegas que defendem o cinema de autor, o que critico é esta visão preconceituosa, limitada e que se tem por intelectual, que às vezes é quase uma forma de racismo intelectual, de que quem faz cinema comercial é filho de um deus menor.»
Fingindo amar o seu público acima de todas as coisas, os best-sellers à portuguesa tomam-no muitas vezes apenas como instrumento para o êxito e, no fim de contas, menosprezam-no, já que na verdade ocupam mais do seu esforço argumentativo e auto-justificativo em queixinhas ou a procurar convencer a crítica de que têm por ela desprezo. Provando com isso que algures no seu íntimo sentem falta da aprovação dela para a certificação positiva final da própria obra.
(Se leu isto até ao fim, talvez se possa interessar por este post antigo: "Deixem o pimba em paz? As artes e o público".)
Em Portugal os autores não vivem geralmente felizes com o sucesso comercial. Não porque os repugne o êxito comercial (os que o têm em geral procuram-no com diligência e método), mas porque gostariam de ter igualmente o aplauso da crítica e dos seus pares. No cinema, como no teatro e na literatura, temos os nossos mártires vivendo vidas amarguradas porque levaram o público às salas, às livrarias ou aos multiplexes e há quem com desfaçatez não veja nisso motivo de regozijo. Como consequência, os nossos best-sellers tornam-se críticos ressentidos das abordagens não comerciais.
Diria que Luís Ismael, o realizador nortenho, não constitui uma excepção. Na entrevista até procura ser magnânimo com quem faz «cinema de autor» e afirma que ele próprio não quer andar toda a vida a fazer o género de cinema que tem feito. Mas, como se fosse imperiosa a retaliação àquela personalidade que numa gala dos Globos de Ouro «se levantou para ir receber o prémio» e «foi criticar quem fazia cinema comercial», não resiste a deixar, entre insinuações e contradições, algumas frases assassinas que desdizem a magnanimidade e o aproximam do bravo grémio de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Leonel Vieira ou Filipe La Feria, embora ainda não tenha a arrogância destes.
Ismael acha que «as pessoas que, ano após ano, recebem milhares e milhares de euros de apoios e subsídios têm a obrigação de tratar bem o público português.» E tratar bem o público português não é necessariamente realizar um bom filme, é ir ao encontro das expectativas «que o público tem nele». Por exemplo: «Se o cinema atrai, hoje, sobretudo os putos, é importante perceber que os cinco euros deles têm de ser respeitados.»
Não é preciso citar a entrevista toda (nem ir ver os filmes) para se perceber que o discurso de Ismael, como o dos autores atrás referidos, busca no número de espectadores um apoio para a sua legitimação artística — o que há uns anos teria talvez certa simpatia do ex-auto-despromovido-secretário de estado Francisco José Viegas. E o número de espectadores não precisa de estar necessariamente ligado aos méritos intrínsecos da obra, mas à simples virtude de esta cumprir o que as massas esperam dela.
Não há muito espaço neste tipo de discurso para a reflexão sobre como respeitar a diversidade de públicos e expectativas, sobre a funesta estandardização do gosto promovida pelos media e não obstada pela escola e pela universidade, muito menos (por definição) pelos blockbusters. Não há, naturalmente, espaço para discutir como estimular pessoas para ver filmes que não sejam feitos a pensar nos cinco euros ou nos cinco neurónios dos «putos». Mas há, como sempre há, bastante espaço para a mágoa e o ressentimento: «Por isso, se não critico os meus colegas que defendem o cinema de autor, o que critico é esta visão preconceituosa, limitada e que se tem por intelectual, que às vezes é quase uma forma de racismo intelectual, de que quem faz cinema comercial é filho de um deus menor.»
Fingindo amar o seu público acima de todas as coisas, os best-sellers à portuguesa tomam-no muitas vezes apenas como instrumento para o êxito e, no fim de contas, menosprezam-no, já que na verdade ocupam mais do seu esforço argumentativo e auto-justificativo em queixinhas ou a procurar convencer a crítica de que têm por ela desprezo. Provando com isso que algures no seu íntimo sentem falta da aprovação dela para a certificação positiva final da própria obra.
(Se leu isto até ao fim, talvez se possa interessar por este post antigo: "Deixem o pimba em paz? As artes e o público".)
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
A minha carreira musical
Um dia fui tocar para um conjunto de baile. O baixista titular fora requisitado pela tropa, a temporada de festas aproximava-se e alguém fez espalhar o boato de que eu sabia tocar o instrumento. Fui convocado. No primeiro ensaio, entusiasmados com a aquisição, os chefes da banda espetaram-me também com um microfone à frente e disseram-me para cantar. Era evidente que o nefando boateiro, por pura maldade, escondera a minha incapacidade biológica para o canto. Ok, talvez não a tivesse escondido em absoluto, já que era uma música dos Sétima Legião o que queriam que eu cantasse. (Convém dizer que naquela altura os grupos de baile eram organizações eclécticas com um repertório que ia sem hesitações nem mudanças de figurinos do samba aos Doors.) Como em tantas fases da minha vida, o simples facto de me pedirem uma coisa activou o bloqueio mental que em momentos-chave me impede de dizer o imperativo «não». (Bloqueio esse que, entre outras coisas dolorosamente inesquecíveis, fez de mim em tempos signatário cumpridor de um contrato para adquirir a prestações uma imprescindível bíblia de luxo). Cantei, portanto. Ou tentei. Foram na verdade horas de tortura (para todos, mas sobretudo para os restantes músicos): qual Rambo nas mãos do Vietcong, eu estava naquela época, ainda mais do que hoje, programado para nunca soçobrar perante o ridículo.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
Na verdade, a minha carreira musical iniciara-se anos antes, invejando o talento musical de um irmão e observando, especado em frente ao palco, o conjunto de serviço nos bailes de domingo à tarde, em particular o seu baixista, com bigodito de actor porno dos anos 70, que, se não recordo mal, usava apenas um dedo da mão direita e dois da esquerda. Aprendi a tocar guitarra fazendo sangrar os meus próprios dedos com um entusiasmo totalmente excessivo e desajustado e assumi a carreira de baixista anos antes de pegar num baixo, escondendo de mim mesmo que as duas cordas a menos não tinham nada que ver com a escolha. Para provar a vocação, estava sempre pronto a chamar de ignorante quem repetia o dito então em voga que dizia serem os baixistas guitarristas frustrados. Não era frustração, era sensibilidade.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Hotel do Norte por Carlos Alberto Machado
Enquanto finjo pensar sobre o que que hei-de-dizer na apresentação aguiarense do Hotel do Norte, no próximo sábado, deixo aqui o texto generoso que o editor Carlos Alberto Machado usou na apresentação na Flâneur.
HOTEL DO
NORTE
Breve apresentação por Carlos Alberto Machado
Porto, Livraria Flâneur, 16 de Dezembro de 2017
Este Hotel do Norte,
tem, na minha leitura, um olhar sobre o mundo português dos séculos XX e XXI,
em particular com a vinda para Portugal, nos anos 1975 e 1976, de centenas de
milhar de cidadãos, com bilhete de identidade português, vindos das então
colónias, sobretudo de Angola e de Moçambique. Chamaram-lhes, impropriamente, “retornados”,
pois uma parte considerável deles só conheciam Portugal de ouvir falar, como se
sabe. Hoje, talvez lhes chamássemos refugiados – de guerras, ou de países à
beira da falência social, chamemos-lhe revolução. Seja como for, este “tema”
dos “retornados” não deve ser esquecido. Adverte, no livro, um deles – o Sr.
Beirão, que gloriosamente faz jus ao nome licoroso:
«Não têm nada a temer, a ditadura
acabou. O nosso Walter apenas trata de duas coisas: dar continuidade ao livro
de registos do hotel e assegurar que a nossa passagem por aqui não será
esquecida pelas gerações vindouras. Os outros olhavam-no, ainda indiferentes —
conheciam a história. E porque haveríamos de querer que se lembrem que
estivemos aqui, fugidos de um problema que não criámos?, perguntava um dos
renitentes. Ora, precisamente, aí está um bom motivo, dizia o Sr. Beirão. Se
vivemos as consequências de um problema que não criámos, será bom que o país
não se esqueça disto, quando um dia nos quiser acusar dalguma coisa. Ou, pelo
contrário, se formos nós a querer acusar o Estado de alguma coisa. Ouvi falar
que há quem pense em exigir indemnizações e para isso é bom que não nos percam
o rasto nem por um dia.»
[p. 87]
O retorno (ou a fuga) das colónias africanas: um tema que se cola
à pele das personagens – e assim não se poderá ler este livro sem ter esse
alerta.
Além do Sr. Beirão, outra personagem acima citada, o inquiridor Walter
(que é, se não me falhou a atenção, a única personagem que está presente do
princípio ao fim do livro). Walter, o do bigode vermelho, é um solitário que «não pensava no erotismo e na religião
como opostos: desejava do mesmo modo inofensivo a vida eterna e a satisfação do
corpo.» [p. 87] Como disse na sinopse, Walter envereda por uma
investigação detectivesca através da história e do rasto ténue que os antigos
hóspedes deixaram – desde 1941, quando as termas e os hotéis do parque onde
este situa tiveram uma época de algum fausto, embora a saúde fosse então o
principal motivo da estadia de famílias burguesas. Quando travamos conhecimento
com esta personagem, logo nas primeiras páginas do livro, vemos que ele se irá
dedicar, com tenacidade e até teimosia, a reconstituir a vida do hotel (numa
inquirição arquivística a partir dos documentos existentes na cave do hotel), desde
o meio do século XX (anos 40), até 1975, ano em que ali chega vindo de
Moçambique. Esta é a linha principal do livro: a que nos vai mostrando, num vaivém
entre a realidade e a ficção, de forma insidiosa, as relações entre
“retornados”, as destes com habitantes dos lugares circundantes, e, quem sabe, as
de entre homens e mulheres cujas vidas, todos enredados numa trama que o
empreendimento detectivesco de Walter ora parece desvendar (aquilo que está por
detrás das aparências), ora faz mergulhar a aparente clareza das coisas em
estratos de sonho ou de fantasia. E isto não fui eu que descobri. Tenham
paciência, por favor, para esta citação, um pouco mais longa:
«A meio da leitura do manuscrito
[Leonardo] não estava capaz de decidir se o que tinha à minha frente era
material biográfico ou uma ficção.»
[p. 269]
«As histórias da infância estavam
registadas em capítulos intercalados, com referência ao tempo presente.
Histórias dentro de histórias que narravam os nossos encontros e as nossas
conversas com um detalhe inquietante. Era uma sensação bizarra ver-me como
personagem de algumas passagens daquele manuscrito, passagens que lhe conferiam
absoluta verosimilhança mas que se sucediam a outras que não poderiam ser senão
especulação. Por mais que Jorge conhecesse os personagens da sua história (aqui
entendida no sentido biográfico) (…) o relato estava construído com um pormenor
que apontava para a liberdade literária. As investigações de Walter, sobretudo,
não podiam ser outra coisa.
Talvez Jorge tivesse descoberto uma
vocação artística tardia e, na verdade, aquele manuscrito na forma de bonecas russas
fosse uma tentativa de romance, mesmo que pudesse parecer-se com a sua
biografia e ele se servisse de memórias para o compor. Talvez até os relatos
que ele me fazia não fossem mais do que testes do valor do material que estava
a escrever — muitos escritores liam os seus esboços a um círculo íntimo para
avaliar o impacto da obra que escreviam antes de a darem por encerrada e a
publicarem. Nesse caso, ter-me-ia Jorge escolhido também para agente literário?
Quereria que fosse procurar um editor para a sua obra? Se fosse assim, por que
não me tinha simplesmente dito tal coisa?»
[p. 270]
Trata-se aqui de «histórias dentro de histórias», de uma narrativa em «forma de bonecas russas». É este um dos principais, senão o principal,
mérito desta grande narrativa do Rui Ângelo Araújo, a mestria com que, sem
deixar de nos contar uma estória, várias estórias, nos faz mergulhar numa
roda-viva de sensações, em que, em cada nova arrumação dos vidrilhos do
caleidoscópio narrativo, nos deslumbra com as suas voltas e contravoltas.
E
nessas estórias, enredos, fios narrativos, ancorados em personagens ricas,
intensas, com energia, como dizia o poeta Ruy Belo, que o Rui Ângelo tão bem
sabe construir, temos os ditos Beirão e Walter, Delfina e a sua mãe e padrasto,
de entre os retornados”, e, fora deste universo restrito, o taberneiro Emílio,
Eurico e a sua esposa, a “cantadeira” Rosa, um Jorge que se desvenda ao longo
do livro em relação psicanalítica com um outro não menos enigmático Leonardo,
que surge como um narrador tardio, a Catarina Mendonça e os seus pretendentes,
esta Catarina que, no tal clima de deslizamento entre o real e a ficção, ora
parece alguém “real”, ora alguém saído da inquirição arquivística de Walter… E
há assaltos e roubos, amores e desamores, mortes, incêndios…
E como
se tudo isto não fosse razão, razões, muitas, para ir a correr comprar e ler
este Hotel do Norte, há outras
razões: como já disse um crítico encartado, este romance é «um belo exercício
de escrita» e o seu autor «mostra aqui,
na sequência do que já havia feito anteriormente, que é um excelso prosador.» E
eu estou em pleno acordo com o crítico.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
L'affaire «tribune Deneuve»
Como Catherine Deneuve, também «não gosto desta característica do nosso tempo em que qualquer um se sente no direito de julgar, de arbitrar, de condenar». Para reconhecermos quão grandes são as probabilidades de erramos quando julgamos pessoas de quem não somos próximos ou atitudes cujas matizes e complexidades desconhecemos não precisamos de grande intelecto ou perspicácia — mas não podemos dispensar bom senso, prudência e imparcialidade.
O movimento #metoo tem em si o potencial de se constituir uma versão contemporânea das Bruxas de Salém, sem dúvida. Como as denúncias de pedofilia em tempos recentes, o tribalismo no futebol ou alguns assuntos que se tornam «virais» na Internet: veja-se a patética reacção «transmontana» a umas frases irrelevantes de José Cid.
Na verdade, dada a sua globalização e projecção mediática, o movimento #metoo tem esse potencial bastante mais agravado, pelo que um artigo como o que Catherine Deneuve e Catherine Millet assinaram com uma centena de outras mulheres é bem-vindo, precisamente para moderar excessos e convidar à reflexão.
Mas «la tribune Deneuve» (para usar a designação do Le Monde) não deveria, não poderia ter-se escrito sob o mote «Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle».
No meu post anterior sobre este tema falava da importância da linguagem e de como o seu uso descuidado ou cínico é fonte de equívocos, involuntários ou calculados. A celebração e o aproveitamento triunfante do «artigo Deneuve» por tantos reaccionários e machistas — que a própria Catherine Deneuve teve de vir repudiar — ilustram o que pretendo dizer. Num assunto tão delicado como os relacionamentos sexuais e a liberdade individual falar de «liberdade de importunar», seja qual for a acepção que escolhamos da expressão, é, no mínimo, imprudente, mas parece ser em simultâneo um lapsus linguae ou uma opção próprios duma cultura patriarcal.
No Delito de Opinião, o seu editor Pedro Correia eleva a «comentários da semana» (imagino que com a intenção de nos mostrar a jaez dos raciocínios) dois textos que são exemplos tanto da perversidade da cultura patriarcal como do aproveitamento boçal ou sem escrúpulos favorecido pelos equívocos de linguagem. Um dos comentários reduz as simpatizantes do #metoo a «solteironas guardiãs da moral», comparando-as, com supina elegância, às beatas dos anos 70 da sua aldeia, lubricamente indeciso entre as considerar «solteironas e provavelmente inteiras» ou «devotas sim, mas do apessoado sacerdote». Repare-se que o comentador, certamente por falta de espaço, não considera a possibilidade de haver homens neste grupo de «guardiães da moral», caso contrário estou convencido de que teria arranjado estórias apropriadas para os descrever, possivelmente recolhidas nas suas tascas dos anos 70 ou de sempre.
O outro comentário é ainda mais digno de admiração. São dois pequenos parágrafos apenas, mas tiram grandes conclusões para a humanidade em geral e para as mulheres em particular. Fica aqui o primeiro:
O lado conservador mas polido do debate sobre sedução versus assédio sexual recebe por vezes estes comentários e outros mais graves com um indulgente bocejo, considerando implicitamente, não direi que por mera conveniência, tratar-se apenas de excessos próprios das malfadadas «redes sociais» e que os seus autores têm por regra um comportamento na vida real que não corresponde às alarvidades que por desenfado publicam. Olhando para as estatísticas (e olhando em volta, enfim) sinto-me tentado a duvidar. Mas sobretudo não compreendo que, na sua enorme indulgência, o lado conservador esteja menos disposto a considerar que as/os simpatizantes do #metoo sejam em geral, como as suas némesis machistas, incapazes na vida real de se transformarem em caçadores de bruxas.
A mim parecem-me ambos preocupantes, machistas e caçadores de bruxas, e por isso não vejo por que o medo dos segundos me deva levar a subestimar os primeiros. Excesso de igualitarismo da minha parte, decerto.
O movimento #metoo tem em si o potencial de se constituir uma versão contemporânea das Bruxas de Salém, sem dúvida. Como as denúncias de pedofilia em tempos recentes, o tribalismo no futebol ou alguns assuntos que se tornam «virais» na Internet: veja-se a patética reacção «transmontana» a umas frases irrelevantes de José Cid.
Na verdade, dada a sua globalização e projecção mediática, o movimento #metoo tem esse potencial bastante mais agravado, pelo que um artigo como o que Catherine Deneuve e Catherine Millet assinaram com uma centena de outras mulheres é bem-vindo, precisamente para moderar excessos e convidar à reflexão.
Mas «la tribune Deneuve» (para usar a designação do Le Monde) não deveria, não poderia ter-se escrito sob o mote «Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle».
No meu post anterior sobre este tema falava da importância da linguagem e de como o seu uso descuidado ou cínico é fonte de equívocos, involuntários ou calculados. A celebração e o aproveitamento triunfante do «artigo Deneuve» por tantos reaccionários e machistas — que a própria Catherine Deneuve teve de vir repudiar — ilustram o que pretendo dizer. Num assunto tão delicado como os relacionamentos sexuais e a liberdade individual falar de «liberdade de importunar», seja qual for a acepção que escolhamos da expressão, é, no mínimo, imprudente, mas parece ser em simultâneo um lapsus linguae ou uma opção próprios duma cultura patriarcal.
No Delito de Opinião, o seu editor Pedro Correia eleva a «comentários da semana» (imagino que com a intenção de nos mostrar a jaez dos raciocínios) dois textos que são exemplos tanto da perversidade da cultura patriarcal como do aproveitamento boçal ou sem escrúpulos favorecido pelos equívocos de linguagem. Um dos comentários reduz as simpatizantes do #metoo a «solteironas guardiãs da moral», comparando-as, com supina elegância, às beatas dos anos 70 da sua aldeia, lubricamente indeciso entre as considerar «solteironas e provavelmente inteiras» ou «devotas sim, mas do apessoado sacerdote». Repare-se que o comentador, certamente por falta de espaço, não considera a possibilidade de haver homens neste grupo de «guardiães da moral», caso contrário estou convencido de que teria arranjado estórias apropriadas para os descrever, possivelmente recolhidas nas suas tascas dos anos 70 ou de sempre.
O outro comentário é ainda mais digno de admiração. São dois pequenos parágrafos apenas, mas tiram grandes conclusões para a humanidade em geral e para as mulheres em particular. Fica aqui o primeiro:
«Ninguém pode negar que o assédio sexual e que as violações existem. É um facto. Mas também ninguém pode negar que há uma necessidade imperiosa, para a espécie humana, de que os homens assediem as mulheres. Se nunca os homens assediassem as mulheres, nunca eles se uniriam sexualmente e não haveria reprodução! O assédio é portanto fundamental. E mulher que nunca seja assediada por nenhum homem certamente que ficará profundamente infeliz!»Devemos regozijar-nos, suponho, por o pai deste bravo pensador ter em boa hora «assediado» a esposa, caso contrário, impedida por natureza de ser ela assediadora, seria por certo mais uma «solteirona» infeliz e «inteira» (para citar o comentário anterior) e o mundo ter-se-ia privado de tão luminosa descendência.
O lado conservador mas polido do debate sobre sedução versus assédio sexual recebe por vezes estes comentários e outros mais graves com um indulgente bocejo, considerando implicitamente, não direi que por mera conveniência, tratar-se apenas de excessos próprios das malfadadas «redes sociais» e que os seus autores têm por regra um comportamento na vida real que não corresponde às alarvidades que por desenfado publicam. Olhando para as estatísticas (e olhando em volta, enfim) sinto-me tentado a duvidar. Mas sobretudo não compreendo que, na sua enorme indulgência, o lado conservador esteja menos disposto a considerar que as/os simpatizantes do #metoo sejam em geral, como as suas némesis machistas, incapazes na vida real de se transformarem em caçadores de bruxas.
A mim parecem-me ambos preocupantes, machistas e caçadores de bruxas, e por isso não vejo por que o medo dos segundos me deva levar a subestimar os primeiros. Excesso de igualitarismo da minha parte, decerto.
sábado, 13 de janeiro de 2018
A caminho das Pedras
(clique para ampliar)
O filho pródigo à casa torna. Ou quase. De hoje a oito dias, na boa companhia da Maria Filomena, levarei o Hotel do Norte a apresentar-se na Biblioteca Municipal de Vila Pouca. Será um gosto rever amigos e dizer-lhes que não, o livro não é uma monografia das Pedras Salgadas.
FNAT
Na despedida, o presidente da TAP diz que os últimos 17 anos foram para si muito «enriquecedores». Não é o único, felizmente, a sentir-se realizado em Portugal. Francisco de Lacerda, António Mexia e umas dezenas mais também têm tido carreiras agradavelmente estimulantes e recompensadoras.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Notas ao correr da pena sobre feminismo e o zeitgeist
Percebe-se o receio de que o movimento descambe para oportunismos, injustiças e, no limite, linchamentos, mas «a liberdade de importunar» é uma coisa perfeitamente estúpida de se defender. A linguagem conta, e quem assinou a carta e quem com ela se regozijou devia sabê-lo. E em tantos casos sabe-o.
É muito destes equívocos de linguagem que se alimenta a reacção às tentativas de mudança do paradigma patriarcal. Não admira os grunhos, mas quando pessoas cultas e inteligentes se escandalizam ou riem com o «fim do direito ao piropo», ignoram alegre e deliberadamente que não é bem essa a proposta ou abdicam de pedir aos proponentes definições e linguagem precisas — porque o equívoco é conveniente a uma agenda conservadora. A agenda conservadora, confortável no seu privilégio, prefere as injustiças conhecidas ao risco de mudar.
Do mesmo modo, esta intelligentsia conservadora prefere sempre manter o debate com as falanges mais extremadas do lado a que se opõem, para que o que se proponha de menos radical não se note, não exista e não singre. Nas suas intervenções, não parece notar que há grandes inconvenientes — digamos assim, eufemisticamente — para as mulheres no regime patriarcal vigente; está demasiado ocupada a agitar os fantasmas do fascismo feminista. Não gasta mais de um mililitro de tinta com a ascensão da extrema-direita e o seu histórico real de fascismo; mas verte baldes dela a inflamar «o povo» contra o «fascismo» do «politicamente correcto».
Esquecendo que o estado de direito (a pedra de toque da civilização) se funda para defender os fracos — contra a lei do mais forte ou a lei da espada —, considera, para que não haja legislação «extremista», que todas as mulheres são tão fortes e imunes à «importunação» masculina como as «peixeiras do Bolhão» (sem ofensa para as verdadeiras) ou como réplicas fatais e de cigarrilha nos dedos enluvados de uma romanesca Mata Hari de revólver na liga.
E agora o choque: sou contra o acordo ortográfico, não por ele significar uma mudança na escrita como a conheço, mas por ser equívoco, incongruente, errado, intrinsecamente estúpido; já a chamada «linguagem inclusiva», vilipendiada automaticamente à esquerda e à direita, parece-me um bom início de conversa para uma mudança de paradigma que em nada me assusta.
Gosto de snobes (estou a ler um deles, Evelyn Waugh), mas só na forma, na estética. Neste debate, os snobes são não raro cínicos ou machistas a tentarem esconder-se de si mesmos com a peneira lassa dos costumes.
É muito destes equívocos de linguagem que se alimenta a reacção às tentativas de mudança do paradigma patriarcal. Não admira os grunhos, mas quando pessoas cultas e inteligentes se escandalizam ou riem com o «fim do direito ao piropo», ignoram alegre e deliberadamente que não é bem essa a proposta ou abdicam de pedir aos proponentes definições e linguagem precisas — porque o equívoco é conveniente a uma agenda conservadora. A agenda conservadora, confortável no seu privilégio, prefere as injustiças conhecidas ao risco de mudar.
Do mesmo modo, esta intelligentsia conservadora prefere sempre manter o debate com as falanges mais extremadas do lado a que se opõem, para que o que se proponha de menos radical não se note, não exista e não singre. Nas suas intervenções, não parece notar que há grandes inconvenientes — digamos assim, eufemisticamente — para as mulheres no regime patriarcal vigente; está demasiado ocupada a agitar os fantasmas do fascismo feminista. Não gasta mais de um mililitro de tinta com a ascensão da extrema-direita e o seu histórico real de fascismo; mas verte baldes dela a inflamar «o povo» contra o «fascismo» do «politicamente correcto».
Esquecendo que o estado de direito (a pedra de toque da civilização) se funda para defender os fracos — contra a lei do mais forte ou a lei da espada —, considera, para que não haja legislação «extremista», que todas as mulheres são tão fortes e imunes à «importunação» masculina como as «peixeiras do Bolhão» (sem ofensa para as verdadeiras) ou como réplicas fatais e de cigarrilha nos dedos enluvados de uma romanesca Mata Hari de revólver na liga.
E agora o choque: sou contra o acordo ortográfico, não por ele significar uma mudança na escrita como a conheço, mas por ser equívoco, incongruente, errado, intrinsecamente estúpido; já a chamada «linguagem inclusiva», vilipendiada automaticamente à esquerda e à direita, parece-me um bom início de conversa para uma mudança de paradigma que em nada me assusta.
Gosto de snobes (estou a ler um deles, Evelyn Waugh), mas só na forma, na estética. Neste debate, os snobes são não raro cínicos ou machistas a tentarem esconder-se de si mesmos com a peneira lassa dos costumes.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Fim da linhagem
«Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição de que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora devida a uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite. Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição de que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora devida a uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite. Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»
Novembro de 2008
(Publicado em 27 acrobacias sobre (quase) a mesma coisa – Igualdade de género contada e ilustrada, Esdime: 2014)
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
26 de Dezembro ou um post sem sentido
Há dez anos comprei uma biografia de Mao Tsé-tung (escrita por Jung Chang e Jon Halliday). Fazia parte do meu plano de conhecer melhor as grandes bestas do século XX. Li biografias de Hitler, Himmler e Estaline, mas por alguma razão a de Mao foi sendo adiada, ao ponto de ter passado anos a servir de plataforma elevatória do ecrã do computador, junto com um volume sobre castelos e uma escalfeta avariada. Há uns meses arranjei no IKEA uma solução melhor para assegurar a altitude ergonomicamente favorável do ecrã, mas nem assim me ocorreu começar a leitura, e o livro foi para a estante. O melhor que consegui fazer por ele foi pô-lo na posição de não lido.
Hoje, a meio de uma página do terço final de Os Loucos da Rua Mazur, aborrecido sem razão (não poderia culpar o romance), senti o súbito impulso de pegar na biografia e lancei-me a ela. Logo no início li que Mao Tsé-tung nasceu a 26 de Dezembro. Fiquei algum tempo a reflectir nesta coincidência, mas não concluí absolutamente nada.
Hoje, a meio de uma página do terço final de Os Loucos da Rua Mazur, aborrecido sem razão (não poderia culpar o romance), senti o súbito impulso de pegar na biografia e lancei-me a ela. Logo no início li que Mao Tsé-tung nasceu a 26 de Dezembro. Fiquei algum tempo a reflectir nesta coincidência, mas não concluí absolutamente nada.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
O meu livro menos meu
Consultando arquivos para tentar anotar meia dúzia de ideias para a apresentação vila-realense do Hotel do Norte, descubro, com embaraço, que, desde 2014, ameacei com alguma regularidade editar o livro por mim mesmo. Era decerto a ânsia juvenil (retardada) de me ver publicado, a vaidadezinha pateta a exigir um tributo em letra de imprensa. Pelos vistos, a edição de Os Idiotas no ano anterior não me tinha satisfeito completamente o ego.
Na verdade, a auto-ironia anterior, ainda que justa, não expia totalmente aquela espécie de bluff. O Hotel do Norte era uma coisa que trazia atravessada na garganta. Quando o escrevi, em 2009, estava decidido a purgar-me do que tinha sido a minha escrita na Periférica. Mais precisamente, estava a tentar dar uma outra respeitabilidade a prosa. Por alguma razão, não me convencia ou confortava o (relativo) reconhecimento que os textos na revista, satíricos e geralmente pueris, tinham alcançado.
Ao longo dos anos, o Hotel do Norte tornou-se por sua vez a minha némesis. Já tinha entretanto escrito e publicado Os Idiotas (o livro em que me reconciliei com a prosa periférica), mas a sombra do Hotel do Norte pairava sobre tudo. Os amigos que leram ambos os livros mal disfarçavam a sua preferência pelo Hotel do Norte. O Rentes de Carvalho, que nesta livraria apresentou em 2013 Os Idiotas, fê-lo apenas como pretexto descarado para dizer que, na verdade, mais valia que se lesse o Hotel do Norte.
De modo que, de 2014 em diante, precisava de me livrar do fantasma do Hotel do Norte. Eu não estava convencido do interesse deste livro. De vez em quando, nos momentos de maior presunção, alimentado por um ou outro comentário positivo, sim, sentia certo regozijo por o ter escrito, mas logo descia sobre mim a verdade nua e crua de que o romance era medíocre, ou pelo menos ingénuo e com um estilo que era menos meu do que o que estava presente nos outros livros que escrevera.
Em 2015 escrevi e publiquei a novela A Origem do Ódio, com uma construção, uma fluência, um ritmo prosódico, um léxico, uma sintaxe e um território semântico que achava mais meus. Mas, de novo, frequentemente a novela tornava-se sobretudo pretexto para evocar o Hotel do Norte.
Na verdade, a auto-ironia anterior, ainda que justa, não expia totalmente aquela espécie de bluff. O Hotel do Norte era uma coisa que trazia atravessada na garganta. Quando o escrevi, em 2009, estava decidido a purgar-me do que tinha sido a minha escrita na Periférica. Mais precisamente, estava a tentar dar uma outra respeitabilidade a prosa. Por alguma razão, não me convencia ou confortava o (relativo) reconhecimento que os textos na revista, satíricos e geralmente pueris, tinham alcançado.
Ao longo dos anos, o Hotel do Norte tornou-se por sua vez a minha némesis. Já tinha entretanto escrito e publicado Os Idiotas (o livro em que me reconciliei com a prosa periférica), mas a sombra do Hotel do Norte pairava sobre tudo. Os amigos que leram ambos os livros mal disfarçavam a sua preferência pelo Hotel do Norte. O Rentes de Carvalho, que nesta livraria apresentou em 2013 Os Idiotas, fê-lo apenas como pretexto descarado para dizer que, na verdade, mais valia que se lesse o Hotel do Norte.
De modo que, de 2014 em diante, precisava de me livrar do fantasma do Hotel do Norte. Eu não estava convencido do interesse deste livro. De vez em quando, nos momentos de maior presunção, alimentado por um ou outro comentário positivo, sim, sentia certo regozijo por o ter escrito, mas logo descia sobre mim a verdade nua e crua de que o romance era medíocre, ou pelo menos ingénuo e com um estilo que era menos meu do que o que estava presente nos outros livros que escrevera.
Em 2015 escrevi e publiquei a novela A Origem do Ódio, com uma construção, uma fluência, um ritmo prosódico, um léxico, uma sintaxe e um território semântico que achava mais meus. Mas, de novo, frequentemente a novela tornava-se sobretudo pretexto para evocar o Hotel do Norte.
Eu tinha mesmo de me livrar dele, para deixar viver os outros livros e me lançar a escrever os próximos.
Por isso, foi com um certo alívio que acordei com a Companhia das Ilhas a edição do Hotel do Norte em 2017. E finalmente aí está ele, «um dos romances do ano», considerou simpática e exageradamente um jornalista — talvez na verdade apenas para me manter sob o embaraço do meu livro menos meu.
Por isso, foi com um certo alívio que acordei com a Companhia das Ilhas a edição do Hotel do Norte em 2017. E finalmente aí está ele, «um dos romances do ano», considerou simpática e exageradamente um jornalista — talvez na verdade apenas para me manter sob o embaraço do meu livro menos meu.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
O que nos vale é que temos o Trump
O problema:
«Mas o PC [politicamente correcto] não tem apenas a ver com a correção política e “sentimental” dos tempos que correm. Veja-se a celebração do Natal, uma festa religiosa global, é certo, mas de raiz cristã – as empresas, as instituições, as pessoas, evitam desejar ‘Bom Natal’ e passaram a mencionar “as festas” para não “ofender os excluídos” (...)»
A cura:
https://youtu.be/454nb7YvdRg
«Mas o PC [politicamente correcto] não tem apenas a ver com a correção política e “sentimental” dos tempos que correm. Veja-se a celebração do Natal, uma festa religiosa global, é certo, mas de raiz cristã – as empresas, as instituições, as pessoas, evitam desejar ‘Bom Natal’ e passaram a mencionar “as festas” para não “ofender os excluídos” (...)»
A cura:
https://youtu.be/454nb7YvdRg
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
domingo, 17 de dezembro de 2017
O Hotel na Flanêur
A apresentação do Hotel
do Norte na Flanêur correu bem, já que perguntam, mas percebemos que
andamos a falhar a vida quando autografamos os nossos livros com gesto mecânico
de amanuense, evitando por pouco acrescentar o número de funcionário à
assinatura.
Ao simpático e generoso Carlos Alberto Machado coube o
elogio póstumo da obra e eu justifiquei-me mais ou menos como se segue:
«A escrita deste romance, Hotel do Norte, partiu de algumas das coisas que me fascinaram (e fascinam): edifícios antigos abandonados ou em ruínas, os “retornados” ou refugiados dos anos 70 e 80, a infância e a adolescência em qualquer das suas fases.
1) Sempre que olho para um edifício antigo, seja onde for, ponho-me logo a imaginar moradores e histórias. Se o edifício estiver abandonado, o fascínio aumenta, porque o abandono remete-me para histórias de época, estimula exercícios arqueológicos e sobretudo acrescenta mistério. Geralmente quero visitar estes edifícios, independentemente do seu estado de ruína, e muitas vezes faço-o. A imersão física exacerba a imersão psicológica. É como subir a serras para ver a paisagem ou caminhar pela areia a olhar o mar: uma experiência sensorial e emocional.No território das Pedras Salgadas e Vidago, onde vivi até pouco depois da tropa, havia suficientes ruínas cheias de história e mistério. Hotéis, casas de chá, um ou outro pequeno palacete (aos nossos olhos), pequenos edifícios de apoio às estâncias termais, todos a ameaçar ruína e com a patine de uma época áurea, algumas décadas de glória, algumas gerações de visitantes que gravaram ali memórias e mitos de exuberância e cosmopolitismo.
2) Os “retornados” ou exilados de África entraram na minha vida quando começava a fazer uma ideia do que era o mundo, mas na verdade eu nunca soube quem eram aquelas pessoas que nos anos 70 se tornaram meus vizinhos. Os que tinham a minha idade, e se tornaram meus colegas, eram crianças como eu, ainda com poucas memórias: a condição de “retornados” era um pequeno exotismo que logo se diluiu nas aventuras comuns, e mais importantes, que vivemos durante o crescimento. Dos adultos, que experimentaram com todas as dores e faculdades e puderam intelectualizar a experiência do “regresso” (que em tantos e tantos casos não era regresso nenhum), eu pouco sabia. Nomes, características físicas, um ou outro tique, pouco mais. Talvez um pouco mais, mas esse pouco foi-se perdendo numa adolescência e juventude com outros horizontes e interesses.
3) A infância e a adolescência em si mesmas, sem hotéis em ruínas ou novos vizinhos africanos, são um território de fascínio e mistério inesgotável. Se não houvesse mais nada sobre o que escrever, haveria as memórias de infância — que são, como se sabe, a nossa maior ficção. Ninguém, nem nós, sabe exactamente, com rigor histórico, o que aconteceu na infância, na nossa e na dos que nos rodearam. Todas as tentativas que fazemos, orais ou escritas, falham um pouco ou muito e, para compensar, ficcionam alguma coisa, senão tudo. Simultânea e paradoxalmente a infância, a nossa infância, é o tema que melhor conhecemos. Daí tantos autores não conseguirem evitá-la.
O romance nasce então destes três fascínios — e procura juntá-los numa narrativa coerente e numa intriga funcional. É uma história a três épocas — 1941, 1975 e actualidade —, como matrioskas russas, que vive, talvez como boa parte da literatura, de combinações de realidade e ficção, memória e fantasia, verdade e mentira, tanto num sentido diegético como exegético.
Um dos protagonistas de 1975, talvez para evitar viver a sua época, mergulha numa investigação detectivesca sobre uma personagem de 1941, a partir dos arquivos documentais e fotográficos do Hotel — e com esse misto de arqueologia e efabulação se conta a história de Catarina. O narrador de 2008 fala da sua infância, talvez por catarse, talvez em busca de uma justificação. Entretanto, estes protagonistas vivem e relacionam-se com outras personagens — e o livro também trata disso, dessas vivências, e das restantes personagens, com os seus próprios pedaços de vidas e memórias, e das ligações horizontais e verticais entre todos.
Só que o Hotel do Norte já não existe fisicamente. E a sua demolição torna ainda mais difícil ou especulativo ou inverosímil qualquer exercício memorialístico que as personagens, os narradores ou o autor tenham feito.»
sábado, 9 de dezembro de 2017
Flâneur
(clique)
A 16 de Dezembro vou flanar pelo Porto com o Hotel do Norte na bagagem e o Carlos Alberto Machado por companhia. Das Ilhas.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Sábado à quinta
A revista Sábado traz o Hotel do Norte na sua edição de ontem. Um texto de Gonçalo Correia.
(Clique para ampliar)
sábado, 7 de outubro de 2017
Negócios
O Hotel do Norte tem uma generosa recensão na edição de ontem do jornal 'Negócios', assinada por Fernando Sobral.
(Clique para ampliar)
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Muito barulho por nada*
«"Lamentamos que a comunidade académica, geradora de um impacto económico na ordem dos 1,7 milhões de euros por mês nesta cidade, seja recebida e acolhida desta forma", sublinhou o presidente da Associação Académica.»
Segundo noticia o Jornal de Notícias, uma cidade decidiu, aparentemente, por uma vez, deixar de ser refém de chantagens reles como a expressa na citação acima, e as autoridades, judiciais e civis, agiram como lhes competia. Os “lesados”, contra o seu hábito e matriz genética, manifestaram-se com rara dignidade em silêncio. Segunda vitória da cidade.
*Sobre o título do post: Parece que a famosa "integração" dos novos estudantes na "academia" tem de ser feita, entre outras indigências, através de barraquinhas de bebidas e música aos berros madrugada fora. Treslendo Shakespeare, é o que se pode chamar de "muito barulho por nada".
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