Eu devia saber que não se podem julgar as pessoas pelo aspecto. Durante anos fui lendo artigos de Maria de Fátima Bonifácio e espreitei-lhe a fotografia tipo-passe no cimo da coluna ou vi-a de relance num qualquer canal televisivo a emitir opinião no seu casaquinho de malha sem pretensão visível. Era apresentada como historiadora e respeitei-a abstractamente por ter uma profissão diferente dos políticos de carreira, embora a sua evidente inscrição na mais assanhada das direitas fizesse lembrar um daqueles espécimes.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.
Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?
Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.
P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.
sábado, 1 de outubro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Asco
Há muito tempo que não visitava o Blasfémias. Há dias caí nisto:
Achei que, mesmo para alguém com o historial deste Vítor Cunha, era um pouco patético um tipo deixar-se chegar a este ponto de irritação, desespero ideológico e niilismo argumentativo.
Hoje saiu-me este outro post na rifa
digno de um verme que já não disfarça a sua condição. Fui espreitar o tom geral do blogue. Um pouco mais de verniz, mas não muito.
As cretinices do Blasfémias, mesmo nesta fase de puro fel, estribeiras perdidas e alma penada à vista, ficam com quem as escreve. Tenho é pena de amigos que ainda consideram inteligente ou decente contemporizar com a "direita" de Helena Matos, José Manuel Fernandes & abjecta Companhia. Muita pena, mesmo.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
A Gradiva e o Saraiva
Segundo a TSF, Rodolfo Begonha, director-adjunto da Gradiva, afirma a propósito do livro do arquitecto Saraiva «que existem fronteiras à invasão de privacidade mas não cabe à Gradiva defini-las». «Não somos censura», terá dito. Ora, esta afirmação só faz sentido se a editora tiver um contrato com o autor que lhe assegure a publicação dos livros que ele se lembre de escrever. Caso não exista esse contrato, a publicação do livro é de facto também uma escolha da editora, não adianta tentar sacudir a água do capote.
A mera lógica do argumento «não somos censura» para explicar a impotência da editora perante o objecto saraivesco implicaria que a Gradiva teria também de não censurar, e consequentemente publicar, as centenas de livros que decerto autores mais ou menos dotados lhe fazem chegar todos os anos. Se os não publica é porque aplica aquilo a que se chama «critérios editoriais», sejam eles financeiros ou literários.
Não havendo contrato, e tendo em conta que não foram considerados quaisquer critérios editoriais no caso em apreço, restam duas hipóteses: a Gradiva ter José António Saraiva no alto gabarito de autor a quem não se recusa uma obra ou ter feito umas contas a quanto podia arrecadar com tão vil publicação. Das duas hipóteses, a última é apesar de tudo a menos danosa para a reputação da editora.
A mera lógica do argumento «não somos censura» para explicar a impotência da editora perante o objecto saraivesco implicaria que a Gradiva teria também de não censurar, e consequentemente publicar, as centenas de livros que decerto autores mais ou menos dotados lhe fazem chegar todos os anos. Se os não publica é porque aplica aquilo a que se chama «critérios editoriais», sejam eles financeiros ou literários.
Não havendo contrato, e tendo em conta que não foram considerados quaisquer critérios editoriais no caso em apreço, restam duas hipóteses: a Gradiva ter José António Saraiva no alto gabarito de autor a quem não se recusa uma obra ou ter feito umas contas a quanto podia arrecadar com tão vil publicação. Das duas hipóteses, a última é apesar de tudo a menos danosa para a reputação da editora.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Desvio de direita
Se vivêssemos num regime comunista, eu, que até aplaudo o novo imposto da gerigonça, seria irremediavelmente acusado de “desvio de direita”, e não apenas na forma tentada. A somar ao vital impulso que me afasta das multidões e não raro atira comigo para remotas paragens do Portugal profundo — onde, no leito seco de ribeiros ignotos, armo a cadeira de praia verde-fluorescente comprada nos chineses (nisso sou ortodoxo) e abro um livro pouco do agrado das massas — tenho também a desfaçatez de, em alternância, me instalar em esplanadas de velhos hotéis aristocratas (onde não armo a cadeira verde, tanto porque não preciso como porque não tenho coragem) a bebericar copos de vinho 4 ou 5 euros acima das minhas possibilidades. Individualista e ocasional burguês, eis o libelo fácil que contra mim se poderia levantar.
E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.
Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.
Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.
E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.
Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.
Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»
Li este título do Público e
achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes,
dificilmente chegarão para um único Inverno.
Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de
uma iniciativa para a promoção da leitura.
Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca
de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao
fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje
condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural
dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de
portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e
nem sequer toda a música.)
É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da
Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter
livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e
infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo
quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas
desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa,
escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social
ou anti-moderna que ler é.
O Público dá esta notícia
pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil
livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de
estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente
pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da
Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por
perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas
como a noticiada pelo Público. Mas
não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência
ou vocação pessoal — e apesar do país
em que vivem.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Montes ígneos
Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite
por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as
chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que
os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a
determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar,
víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais)
na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos
como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma
milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória,
simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho
fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um
braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que
parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio.
Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda
muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico
Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que
vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que
acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia
hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma
crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais
vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível.
Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu
imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha
brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se
lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto
é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta
que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno
comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o
número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que
aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.terça-feira, 9 de agosto de 2016
Agosto em Aranda
— Eu sou do género
de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. —
Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias.
Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na
minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja
alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha
discoteca. Mesmo hardcore, na verdade.
Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que
os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção
ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua
formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar
como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os
que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era
mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a
ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa.
Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos
condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e
para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas.
Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de
repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão
que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios
que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da
província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez
também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte,
genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do
submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou
porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência
mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e
abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos
últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava
a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com
o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por
aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado,
como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não
corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se
admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a
única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego
atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho
bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as
invasões bárbaras.
— Mas não era de
dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma
forma de épater le bourgeois
(expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que
necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda
sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos
apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de
uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a
Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês
adequados.
in Aranda
Agosto
O mês de Agosto de 2016 difere do mês de Agosto de 1986 e do de 1996 em
não haver diferenças entre a música aos berros de carros de emigrantes e a
música aos berros de carros de residentes. Prova, talvez, de que a União
Europeia funcionou.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Dirty, dirty Harry
Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à
americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações
racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as
habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de
novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade
do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção.
Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as
ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo
mal.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Punk is dead
Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda
personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o
acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já
ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer
coisa sentida.
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.
Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser
de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente
tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão
que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto
ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Sanções e Sansões
Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os
portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008.
Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de
amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se
lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas.
Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco
elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que
determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que
se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu.
Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo
consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos
anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram
a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não
era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si
mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina
como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube
europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente
previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar
ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente
a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a
ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la
sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha
visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais
de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares
precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis.
Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do
país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão —
terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais
fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que
ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer
racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia
insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca,
os tecidos agarram-se à pele.
Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto
porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se
prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o
lajedo em cima.
sábado, 25 de junho de 2016
Escrita
O escritor Zoran Zivkovic diz, e eu concordo, que «o melhor curso de escrita criativa é a leitura criativa».
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.
Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.
Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Brexit
A saída da Inglaterra da União Europeia poderia ser o abanão necessário para que a União Europeia voltasse a ser “grande” (para usar terminologia trumpiana, mas mais modestamente aplicada a uma Europa unida, solidária, corajosa, com memória dos seus valores fundamentais, política e economicamente inteligente). Seria porém estúpido esquecermo-nos dos motivos que levaram a maioria dos ingleses a votar a saída e do discurso e perfil dos líderes que os orientaram nesse voto. E aí temo que o que estamos a observar é, sim, mais uma sinistra evocação do pior da Europa, as primeiras décadas do século XX. Os populismos de vária índole, os regionalismos patetas e acríticos, os nacionalismos a descambarem em chauvinismo, a xenofobia… Agora, mais do que nunca nas últimas décadas, é adequado lembrar que também Hitler teve do seu lado a grande maioria da população e nem por isso seria correcto chamar ao 3.º Reich democracia. Infelizmente, para muitos, nos vários níveis e estâncias de poder, a adesão popular ao nazismo (que, como o Brexit, também roubou votos ao socialismo da altura) não é já uma vergonha histórica mas uma lição de táctica.
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Being a hooligan
Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson
(em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética.
Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de
Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros.
Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das
correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».
Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com
base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção
própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles
sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais
profundas do rizoma.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
O ogre republicano
O republicano Paul Ryan, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, resistiu
mas lá acabou por declarar o seu apoio a Donald Trump. Disse: «Não é segredo
nenhum que ele e eu temos divergências (…) Mas a realidade é que, naquilo que
define a nossa agenda política, temos mais em comum do que desacordos.»
A realidade é que já sabíamos disso. O ogre republicano existe e medra independentemente
do penteado de quem lidera.
domingo, 5 de junho de 2016
Avaliar pelas aparências
Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os
concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando
que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes
lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de
ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a
resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo
parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não
há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando
o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar
de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o
próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.
Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser
concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse
de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências,
este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar
as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o
apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado.
domingo, 22 de maio de 2016
sábado, 7 de maio de 2016
“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"
O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive
impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se
para falar dele, se para fugir dele.
Que não se vive impunemente percebemo-lo de
tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos
o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se
apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a
fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade
de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não
ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só
depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos
viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive
impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que
iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se
descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido
algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem
a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados
factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver,
não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças
que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque
não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por
ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os
pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente
maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais
consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando,
mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por
estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no
seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios
ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem
inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau
de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na
verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também
uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a
vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o
conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas
frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos
(a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde
sempre.
O que tem isto da vida a ver com a escrita?
Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo
antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E,
por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos
enquanto se vive, nunca antes) é a
condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida
esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem
consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo
grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de
desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar
a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop
e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas
mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive
impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é
de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por
delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira
de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos
em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios
ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que
escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia,
logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm
mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo
que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida,
os que não vivem impunemente, ou
seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma
coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.
Claro que escrever pode ser também acção de
um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras
que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a
escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os
efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser
adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que
este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já
não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática.
Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do
dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O
contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que
detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.
Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa,
amanhã (a mesa que tem como tema “Se não há gozo a Literatura é uma actividade
insuportável”), a minha intervenção teria uma tónica
diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar
vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a
literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de
evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a
escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas
os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma
mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum
tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo
que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como
leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a
palavra riso. Rimo-nos se juntarmos
algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por
vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que
não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém,
pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene.
Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar
formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os
formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras,
estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não
esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O
vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados.
Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas
às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força
de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o
atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John
Cheever, antes de concebermos o deus
ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural
ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos
antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos
uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas
depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e
não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do
que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se
visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram
ao chão desastradamente.
Talvez haja muitas razões porque não saímos
impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas:
podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que
matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma
como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém
que amamos; consequências sociais ou físicas:
quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos,
infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo
para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…
Mas os vícios também não deixam a escrita
ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva
pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre
menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse
neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências
financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum
dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir
ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.
www.encontradouro.pt
www.encontradouro.pt
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Nuno Costa Santos leu A Origem do Ódio:
http://omarginalameno.blogs.sapo.pt/ressentimento-e-culpa-177744
http://omarginalameno.blogs.sapo.pt/ressentimento-e-culpa-177744
segunda-feira, 18 de abril de 2016
A luta de Churchill e a luta de Hitler
Nos tempos que correm, parece boa ideia revisitar as Memórias da II Guerra Mundial, de
Winston Churchill. A direita, porém, que costumava andar de boca cheia com citações
ou episódios churchillianos, parece não achar o mesmo. Veja-se que simpatias
tem a direita, que líderes e discursos aplaude, que condescendência selectiva
pratica, que cinismo cultiva — da Alemanha à Inglaterra, da América ao Brasil,
passando pelas colunas do Observador.
Se não houvesse hoje razões ideológicas para rejeitar a direita, haveria as
companhias que ela escolhe.
Em 2016 cessaram os direitos autorais sobre Mein Kampf — que a Baviera assumira depois do final da guerra e da
morte de Hitler — e o Instituto de História Contemporânea de Munique-Berlim editou uma versão crítica com 3.500 notas que é já um best-seller. Inúmeros países querem os direitos de tradução
(para já negados).
Segundo os editores, o perfil do comprador é de pesquisadores e pessoas
interessadas em História. Talvez seja assim, mas não custa imaginar a direita a
contribuir para o sucesso de vendas do calhamaço apenas para questionar o rigor das notas. É, desconfio, uma
ocupação intelectual que muitos preferirão a, por exemplo, reflexões sobre a mestria na descrição histórica e biográfica
e sobre a brilhante oratória na defesa de
elevados valores humanos que o comité do Nobel viu nos escritos de Churchill.segunda-feira, 11 de abril de 2016
Enologia da arte
A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo
que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro
lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser
dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude
que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe
para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.
Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo
irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso
o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia
e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.
sexta-feira, 18 de março de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Os marados eucaliptos alentejanos
Passada a histeria dos pirómanos, pode-se debater civilizadamente o livrito ridículo (por pretensioso) de Henrique Raposo.
«Apesar de não ser um retrato do Alentejo, de estar muito longe disso, Alentejo prometido é um livro bem escrito e desenvolto, pesem expressões como “o odor a haxixe dos eucaliptos” (ou o autor não cheirou haxixe ou não conhece o cheiro dos eucaliptos).»
«As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel (a propósito da ida a um casamento) numa área geográfica do Alentejo litoral — não muito afastada do triângulo entre Ermidas do Sado, Santiago do Cacém e Cercal —, chegam a ser risíveis.»Artigo de José Riço Direitinho: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alentejo-retrato-desfocado-1726095
quarta-feira, 2 de março de 2016
Considerações sobre a intifada
1. Há anos um jornalista espanhol em viagem que atravessou Portugal de
norte a sul escreveu um livro com as suas impressões e calhou de considerar
horrível a capela que, na sua de facto pouca lindeza, vigia do alto uma das
terras onde vivi. Não era ainda o tempo das redes sociais, mas já havia
indignação na paróquia contra o espanhol, e se ele tivesse a má ideia de voltar
ali, dificilmente passaria sem uma reprimenda.
Em Portugal as pessoas orgulham-se de tudo e sobretudo de nada, e a
circunstância, para a qual por definição nada contribuíram, de terem nascido em
determinada província ou país, que com frequência execram ou desonram, consegue
por vezes transformá-las em espantosos chauvinistas. Raramente ou nunca se unem
para salvar um monumento, reconstruir uma escola ou homenagear quem realmente sobressaia
da mediania, mas entrelaçam de imediato os braços numa frente tribal contra o
infeliz que se dê ao trabalho de achar menos perfeito o habitat delas.
2. O cronista Henrique Raposo escreveu um livro onde decidiu separar-se
da sua terra natal, o Alentejo. (Ninguém se devia admirar que Raposo mais cedo
ou mais tarde levantasse um idiossincrático e repreensor dedo ao velho Alentejo
vermelho. O complexo de Édipo que a todos nos pisca o olho não poderia deixar
de ter nele e na sua ideológica condição uma particular influência.)
Henrique falou do livro numa entrevista, onde expôs mágoas, desilusões
e ressentimentos que o livro desenvolve. Foi duro e teve reacções, como é
natural. Só que as reacções, neste país de facções e claques e raciocínio hooligan que o futebol moldou,
rapidamente se transformaram em urros, vontade de linchamento e desfalecimentos
pirómanos. O autor foi ameaçado e o livro alvo de petições incineradoras. O direito
e a civilização a ele associada, se tivessem de ser inventados agora e em Portugal,
jamais veriam a existência, mas Fahrenheit
451 ou qualquer distopia que envolva fascistóides massas acéfalas e
enfileiradas são ficção apenas por acaso e provisoriamente.
P.S.: Intifada à parte, parece-me compreensível mas noutro contexto
deslocada a generosidade de evocar Com Os
Holandeses, de Rentes de Carvalho, a propósito do livro de Henrique Raposo,
como fez Bruno Vieira Amaral: há um tom irritante de cátedra e ciência ou moral
certa em Raposo que não me lembro de ter notado em Rentes.
terça-feira, 1 de março de 2016
Um drama social
A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus
hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em
gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para
nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem
prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando
estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração
do vinho se faça logo boca a boca.
São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como
alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente
a um grupo de milionários anónimos.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
A Origem do Ódio
Começou como um projecto de novela de Verão e talvez não
tenha saído assim tanto dos eixos. Vende-se para já nas livrarias Pó dos
Livros, Letra Livre e Traga-Mundos. Também pode ser encomendada pelo e-mail edlinguamorta@gmail.com. A capa
é do Paulo Araújo. A mesa é do Bebedouro.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
O regresso aos Jedis
Há duas maneiras de evitar que O
Despertar da Força atraiçoe a boa memória que Guerra das Estrelas deixou. Não ver o novo filme é naturalmente uma
delas. A outra é rever antes os três episódios dos anos 70 e 80: eles se
encarregarão de destruir a sua própria aura.
Fiz isso, como bom geek (ou
talvez como traidor geek, não sei bem
qual é o protocolo para estas situações). Por isso saí hoje apaziguado do
cinema: as expectativas já tinham sido devidamente postas no lugar, a decepção
tinha ocorrido dias antes, ao rever Uma
Nova Esperança, O Império Contra-Ataca
e O Regresso de Jedi.
O que estimulava a imaginação há trinta anos e a fazia viajar sem
limites é bastante diferente daquilo que hoje poderia fazer o mesmo com a
pessoa que sou. E a culpa não é dos filmes*, temo bem.
Contudo, acredito que Star Wars
permanecerá como um dado feliz na minha vida. Isso não depende dos filmes, e
de mim depende pouco, do eu
consciente. Deixada sozinha consigo mesma, a memória voltará ao seu trabalho de
mitificação e a adolescência voltará a ser aquele lugar feliz que não depende
de eu ter ou não sido feliz nele ou de serem bons os filmes que nele passavam ou as sequelas que deles se fazem. Que
a Força, essa Força que nos permite ver com o passado como o paraíso (não
totalmente) perdido, esteja com ela.
*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.
*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Malefícios da idade?
Vasco Pulido Valente, vetusto comentador da imprensa, escreve isto:
Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.
«(…) neste tempo de euforia da esquerda, que a televisão e os jornais servilmente reflectem (…)».E nesse ínterim nós lemos os jornais todos do país, que andam a levar nas palmas Marcelo Rebelo de Sousa, partilharem, por exemplo, esta “notícia”, por estas ou outras palavras:
«Centeno gastou "integralmente" a "almofada" financeira»Como qualquer pessoa minimamente atenta sabe, nenhuma das afirmações acima é verdadeira.
Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Cortesãos de esquerda
A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da
democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de
coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às
presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez
boicote mesmo as eleições.
Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses
que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado
(entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma
candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos
compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice.
Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se
importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à
derrisão da pátria.
Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro
que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros
candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e
a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os
debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica
ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples
contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde
já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua
tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus
apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não
são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora
às vezes pareça, é certo.)
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Cinismo à portuguesa
Duas afirmações colhidas na Internet sobre o candidato à presidência da República Paulo Morais:
«Tudo o que é demais enjoa, e ainda mais quando se faz vida disso. Se ninguém [o] refuta é precisamente porque o cromo se tornou inofensivo por ridículo.»
«Paulo Morais (…) exibe a sua mania da corrupção, de uma maneira insultuosa e quase alucinada.»
A primeira afirmação é de um cidadão qualquer, a segunda é de Vasco Pulido
Valente. É destas duas espécies de cinismo que o país sofre, o cinismo do
eleitorado comum e o cinismo dos fazedores de opinião. Ao longo de anos, Morais
indicou números e nomes para a história da nossa desgraça. A imprensa e a
justiça pouco exploraram as pistas, e o aproveitamento privado do erário
público continuou — como de resto todos testemunhámos, de forma mais empírica ou
mais esclarecida.
Contudo, não ter o denunciador sido amordaçado, torturado ou preso faz
dele um cromo, um personagem ridículo. E a insistência na denúncia é, para o comentador
emérito da direita portuguesa, uma forma de insulto (insulto decerto para os
benfeitores da economia nacional).
Para ser tido como um candidato respeitável neste país, Paulo Morais
tinha de ser morto ou fazer-se matar pelas suas acusações.
A alternativa era ser um betinho palavroso e igualmente inofensivo para
o statu quo como Marcelo Rebelo de
Sousa — e nesse caso não só o bom povo o elegeria como teria a enternecedora
preocupação de VPV com a forma como uma eleição presidencial como esta pode ser
aviltante para um cliente do Gambrinus.
Cromo por cromo, o povo português prefere os de pedigree. E para Valente toda a gente é estúpida, mas há os estúpidos comuns e os nossos (dele) estúpidos.
Um só país, duas manifestações do mesmo cinismo. Não foi à toa que Cavaco existiu.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
A timidez e o ‘piropo’
Numa conversa alheia a que assisto no Facebook como numa esplanada de
café, com a mesma indiscrição semi-involuntária, alguém, uma mulher, diz de si
mesma:
«Eu sou um típico caso de pessoa tímida, não gosto muito que olhem para mim, mas sei que isso é um defeito (…)»
Esta confissão e autocrítica associam-se a um conjunto de argumentos
contra a penalização das propostas importunas de teor sexual (por preguiça
designadas como ‘piropos’), um processo que a mesma mulher, jovem e com
formação, considera promovido por «feminazis» (fêmeas ao que parece com vontade
de controlar os homens).
É sintomático que alguém venha criticar este aditamento legislativo ao
artigo 170.º do Código Penal considerando um defeito a sua própria timidez (ou
seja, o seu mal-estar com a importunação). É sintomático porque, apesar do tom
de bravata no resto do discurso, denuncia uma cultura de submissão, afinal o
terreno fértil onde o comportamento intrusivo tradicional, sem respeito pela
individualidade e pela sensibilidade do outro, se permite dominar, com direitos
de cidade superiores, por supostamente a extroversão, incluindo este tipo de
extroversão opressor, ser a condição ‘normal’, a condição das pessoas sem
defeitos.
Não, cara facebookiana desconhecida, a sua timidez não é um defeito, é
uma característica, aliás comum, que cabe a todas as outras pessoas respeitar. Defeito
é a incontinência do ‘piropo’ importuno. Defeituoso é o caracter de todos
aqueles que acham legítimo importunar outras pessoas com seja que tipo de pensamento
ou desejo lhe vai na cabeça ou nas partes.
Teria sido necessário legislar sobre isto? Eventualmente não. Se os tímidos
não achassem defeituosa a sua timidez e os importunadores tivessem suficiente educação
e carácter para controlar a sua líbido excessiva. Mas se as vítimas nunca tivessem
de recalcar a sua condição e os opressores jamais oprimissem, todo o Estado de Direito,
com todos os seus códigos, toda a sua artilharia legislativa, seria pouco mais
do que uma redundância, não?
Existem várias formas de uma sociedade prevenir comportamentos
perturbadores da integridade alheia sem necessidade de recorrer ao braço pesado
da Lei. A censura familiar e social pode ser uma delas. Quando esta falha,
talvez devêssemos apreciar haver no país capacidade legislativa independente da
vox populi. Se a vox populi prefere defender o direito de alguém a ser grunho (ou
pior do que isso) contra a liberdade do outro, talvez aqueles que elegemos, numa
democracia representativa, tenham o dever de se elevar acima da miséria moral e
aprovar leis que defendam os tímidos do despotismo da ‘normalidade’.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Crise da imprensa: os meus contributos
A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada
para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta
e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o
baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante).
A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de
entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e
social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma
reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse
drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e
transformasse em caderno diário o Ípsilon,
o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se
está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente
lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de
tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do
que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora
qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos
provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional.
Pirotecnia precoce
Às cinco da manhã houve fogo-de-artifício na rua ali atrás e não fui eu
que o lancei. Podia ter sido: partilho da mesma insónia e do mesmo desejo de adiantar
a pirotecnia e os ponteiros, da mesma pressa em sair deste ano velho e de maus-fígados.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
sábado, 12 de dezembro de 2015
Miasma
«Também havia a voz. A madrinha tinha uma daquelas
vozes afectadas de lady inglesa, oscilando
entre agudos e graves como um adolescente a amadurecer, mas com o sotaque
carregado, as vogais rudes e as interjeições dum lavrador. Agora que dedico
algum tempo a pensar nisso, não era com a nobreza britânica que a madrinha mais
se parecia, mas com as preceptoras da
nobreza britânica. Quando lhe ouvíamos a voz a progredir pelos corredores e
pelas divisões da casa, espécie de miasma que se infiltrava por qualquer
frincha e a qualquer hora, o nosso estremecimento não era de súbditos receosos
do alcance do poder real, mas de pupilos que odeiam e temem a velha ama
germânica que a família mantém como tradição orgulhosa nas folhas de pagamento mensais.
(Qualquer comparação com bruxas verrugosas e histéricas teria igualmente
cabimento: a madrinha parecia ter sido concebida ou treinada para ser prova de
verosimilhança de todos os clichés.)
Um verdadeiro fenómeno era a sua gargalhada. Já
imaginaram alguém dar sonoras gargalhadas sem que no seu rosto houvesse um
indício de riso ou divertimento? A madrinha não tinha humor (embora utilizasse
doses regulares de sarcasmo), mas isso não a impedia de acompanhar (e na
verdade suplantar) as reacções a certos comentários ou piadas que se produziam
à mesa. Ela gargalhava com a mesma força de quem expele um osso de frango da
garganta, percutindo as paredes da sala como o equipamento sobredimensionado de
uma discoteca ou fazendo drapejar os cortinados como um vento dos que activam
avisos da meteorologia, mas os seus olhos mantinham a mesma vigilância censória
e fria sobre os circunstantes, não traíam um único momento de cumplicidade ou empatia.
A madrinha zelava pela casa e pelas tradições com o
empenho exacerbado e anacrónico de aias e ministros de casas reais que na devida
altura advertiram os senhores para os perigos dos caminhos que trilhavam. Ela
tivera razão antes de tempo, mas não lhe cabia tomar as decisões (era uma
matriarca que reconhecia a legitimidade do poder patriarcal), e quando o pôde
fazer, demasiado tarde para evitar a queda em desgraça, já não conseguia deixar
de agir como o último dos miguelistas — o ódio, a frustração e o desejo de
vingança a dominarem cada segundo do dia.»
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Sílvia
«Quando a Sílvia cresceu não o fez apenas em sentido
figurado, como acontece a tantas mulheres, cujo corpo de adolescente se
transforma e enche de curvas mas não se estende verdadeiramente em direcção aos
céus. Com Sílvia o crescimento ganhou expressão e significado, foi botânico, os seus membros cresceram como
troncos e ramos de árvores mas ao ritmo de pés de feijão, ávidos de sol,
competindo com os adultos pelo domínio do espaço aéreo. Nesse processo de
grande consumo energético, tornou-se magra, por vezes demasiado magra, e a
herança feminina da madrinha, sua avó, aqueles seios fartos mas rijos, parecia
um equívoco, uma perturbação no perfil longilíneo, um lastro à última hora
adicionado à sua anatomia para a impedir de se perder nas nuvens antes de a
hipófise determinar o fim do crescimento.
Ter um peito daqueles não lhe concedeu porém uma
silhueta recurvada; algo na sua estrutura óssea e muscular resistia à
gravidade, a Sílvia deslocava-se de nariz bem emproado e sentava-se num
perfeito ângulo recto que surpreendia. O primeiro bofetão que lhe dei, depois
de me ter deixado, foi também em paga
daquela perfeição ergonómica (talvez um ressentimento inconsciente da promessa
de corcunda que eu era). Há algo de irritante numa mulher que parece
quotidianamente a ilustração viva de um manual de etiqueta. Mesmo que na maior
parte do tempo nos encha de vaidade (e até desejo) o seu talento para a
elegância — expresso na materialidade das roupas e adereços que adquire sem interrupção,
assegurando um fluxo de aquisições permanente e vital como soro para
moribundos, e na imaterialidade da sua postura, fisionomia, gestos de
antebraços, pensamentos e locuções de profunda vacuidade —, mesmo que nos
sintamos envaidecidos e distintos por ter uma mulher assim, há sempre momentos
em que vivermos com a Ava Gardner ou a Audrey Hepburn nos cansa. Cansa
contracenar diariamente, sentir a obrigação de ser Gregory Peck das abluções
matinais ao último escovar de dentes do dia. Um bofetão é um grito de liberdade,
ainda que dado fora de tempo.»
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Swamp Thing
«(...) Eu fazia isso em algumas noites, com o impulso
gótico de me vir enrodilhar depois nas algas ou nas ervas das águas menos
profundas, sentindo a repugnância da sua viscosidade, as suas carícias
arrepiantes de seres vivos asquerosos, a sujidade do lodo a levantar-se do
fundo e a procurar envolver-nos numa nuvem perceptível de sanguessugas. Eram
banhos de podridão com que eu procurava purgar-me, em noites de lua nova, da
benfazeja luz solar que no Douro nos faz sentir príncipes destinados ao ócio e
ao amor cortesão numa eternidade descomprometida, leve, a conjugar verbos
apenas no único tempo interessante, o presente.
Desci ao cais nessa noite com o mesmo propósito de mergulhar,
de me espolinhar nas águas rasas da margem e regressar ao quarto pingando lama,
para desespero do pessoal da limpeza no dia seguinte. Mas a lua estava agora muito
avançada no seu quarto crescente, iluminando com uma proficiência de lua cheia
aquele troço de rio ainda livre do excesso de iluminação pública que já se
verificava em tantas estradas desertas da região. A presença da Adèle, nos seus
habituais trajes etéreos, dedicando-se na beira do cais a seduzir o firmamento
nocturno com o mesmo ritual dervixe que lhe vira no primeiro dia, fez-me mudar
de planos. Inicialmente pensei que podia ficar apenas a observá-la, com aquele
deslumbramento juvenil de rapaz que pela primeira vez descobre os contornos de
um corpo feminino, mas depois agi como agem os homens adultos, se
suficientemente cheios de si, e fui meter conversa.
Não era uma surpresa que a Adèle estivesse receptiva
à conversa — não havia por ali muita gente com quem falar e eu ainda não estava
transformado como habitualmente no Swamp
Thing. As constelações, se formos competentes nisso e o céu estiver
descoberto, são um bom tema de conversa. Há outras possibilidades, além dessa
mostra extravagante de erudição cosmológica, como por exemplo a deriva para a
Antiguidade Clássica — com os seus deuses, os seus mitos, as suas metamorfoses,
os seus amores e a sua excitante promiscuidade — ou para assuntos de foro
místico, como os signos do Zodíaco, igualmente prenhes de insinuações amorosas
e preliminares sexuais.
A temática estelar interessou Adèle, seria aliás uma
surpresa que não interessasse a alguém tão eminentemente espiritual, mas ela
quis ver os astros do meio do rio. Que esse desejo tivesse uma plausibilidade geométrica,
digamos, assente no cálculo intuitivo de que no ponto mais equidistante de
ambas as margens arborizadas a cúpula celeste se revelaria de uma forma mais
ampla, não diminuiu o meu sentimento de que havia uma intenção romântica na
vontade dela. Tanto mais que me perguntou, delicadamente, se sabia remar.
Deslizámos em silêncio para o meio da corrente, que,
apesar de fraca, não permitia que o bote permanecesse estacionário como num
lago. Preocupei-me, por isso, em orientar a proa no sentido da corrente,
corrigindo o nosso avanço involuntário com ocasionais movimentos dos remos. A Adèle
reclinara-se na popa, com as pontas dos cabelos de nórdica submergidas no Douro
e oferecendo a sua garganta branca à Lua e ao meu olhar.
Esgotado o meu conhecimento sobre constelações, e
ainda com os contornos fantasiosos da casa da Quinta à vista, como se
estivéssemos no meio do Lago Léman, a rapariga belga, inspirada por essa mesma
divertida imagem nocturna de uma Suíça duriense, enveredou pela história de
Mary Shelley, de que parecia ter decorado longos parágrafos da Wikipédia. Falou
da mãe da escritora, a feminista Mary Wollstonecraft, e do seu pai, o filósofo
William Baldwin. A Adèle estava simplesmente a fruir um tema que a entusiasmava
e, com intenção ou não, a dar-me a conhecer a sua adesão a ideais de amor
livre, mas eu ficara retido umas passagens atrás, na entrada do seu dicionário
que falava dos escritos de Baldwin sobre o casamento enquanto «monopólio
repressivo».
A linhagem Wollstonecraft/Baldwin/Shelley era algo
mais do que eu poderia suportar. Toda aquela gente de espírito livre, tão
sensata e avançada quanto às relações entre homens e mulheres, parecia ter sido
convocada para me fazer enfrentar os meus fantasmas recentes. Se a Adèle
tencionava ter comigo o seu caso amoroso no Douro Superior dera um passo em
falso com aquela digressão de enciclopédia online.
Eu teria sido facilmente seduzido, naquele tão agudo estado de carência, mas,
pelo menos de momento, ocorria-me tudo menos ter sexo com ela no fundo
impermeabilizado do bote da Quinta de Pompeia. Antes que, de Shelley, me viesse
à inspiração Frankenstein, um ser de um
romantismo menos delicado, remei com furiosa urgência até ao cais, alegando
efeitos secundários do jantar, de costume tão saboroso e serenamente digerível.»
terça-feira, 29 de setembro de 2015
A Zona de Interesse
A Zona de Interesse, de
Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no
entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal,
onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é
uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade
— e isso, que tem em si algo de Amis way,
não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro.
Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em
momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer
o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um
passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e
morte, crimes e violações são décor. Não.
Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha
nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer
estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de
amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de
nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e
predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas
pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha
outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre
o enredo.)
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Nunca tinha pensado nisso
«Nunca tinha pensado nisso, mas os mosaicos da nossa
casa-de-banho, para onde jorravam clandestinas as minhas primeiras golfadas de
sémen, eram iguais aos da cozinha dela. Ainda que o chão da madrinha fosse
anterior, tenho a certeza de que não houve nenhuma intenção irónica da parte do
meu pai quando ele se ajoelhou no local onde colocaria a retrete a assentar com
ferramentas emprestadas aquelas tijoleiras que formavam um padrão geométrico trompe-l’oeil de degraus tridimensionais
capaz de nos baralhar o sentido da visão como se tivesse sido desenhado por
Escher. Estou convencido de que os mosaicos da nossa minúscula casa-de-banho
eram sobras da cozinha dela, doadas com aquele misto de condescendência feudal
e arrependimento avaro que lhe retorcia os lábios sempre que hesitava na
avaliação do seu próprio acto. A madrinha gostava de se imaginar próspera ao
ponto de se permitir uma prodigalidade indiferente, mas para sua infelicidade
ela não tinha como ignorar a falência da empresa e o seu próprio carácter, de
que não fazia parte a empatia. Daí aquela luta consigo mesma, visível e perenemente
fixada no esgar do rosto. O meu pai, pelo seu lado, desconhecia as virtudes catárticas
da ironia e nunca lhe ocorreriam pensamentos menos dignos ao sentar-se naquela sanita
com vista para o puzzle vertiginoso
que desenhava no chão a cerâmica esmolada.
A mim, sim, ocorria toda a espécie de pensamentos
insultuosos, excepto os que envolviam a líbido. Quando era uma presença regular
na minha vida, a madrinha não passara há muito os quarenta anos, mas para os
meus olhos era uma velha, e eu atribuía o volume e a firmeza aguda — bélica, de
obus alemão — dos seus grandes seios a soutiens
antiquados feitos de arame e renda, não a quaisquer qualidades eróticas do seu
próprio corpo.
A ironia — e também a epifania, chamemos-lhe assim —
era eu ter-me recordado da madrinha quando hospedado na Quinta de Pompeia
descobri que o quarto-de-banho da suite e a cozinha semi-rústica da casa
principal estavam recobertos com o mesmo tipo de mosaicos, possivelmente
fabricados na década em que eles eram modernos (a mesma da minha infância), tal
o afã tradicionalista e o desejo de genuinidade que tinham presidido à
reconstrução da Quinta.
Tenho uma propensão para reparar em mosaicos. Herdei
do meu pai o carácter introspectivo e o infame hábito de manter o olhar baixo, serviçal,
como as castas inferiores na sua congénita prontidão para aceitar o menosprezo,
ou como os judeus demasiado perplexos com o que lhes acontecia em Auschwitz
para sequer pensarem em reagir. Na selva das relações sociais, um olhar baixo é
um convite aos predadores. A menos agressiva ou hostil das criaturas sente o
apelo do sangue e uma força dominadora se à sua frente encontra um humilde de
cerviz curvada. Não há como negar razão ao aforismo perante estes factos: todos
os homens são maus, basta terem a sua oportunidade.»
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Bastardia
Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Um Pirandello para Coelho
Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um
papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos
Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia
mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido
precocemente actividades.
Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha»
Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou
porque é mais exigente um casting para
musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia
portuguesa.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O pessimismo antropológico revisitado
É irónico que o reforço da minha sensibilidade de esquerda tenha sido
obtido observando os próceres e os pregoeiros das instituições capitalistas com
a lupa de uma inata característica de direita: o pessimismo antropológico.
Todos os homens são maus e naturalmente egoístas, só que alguns são-no
mais do que os outros — é com
esta espécie de paráfrase orwelliana que o que resta de direita inocente se
devia hoje confrontar.
«A vida militar»
«Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas
frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram
absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no
mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com
um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem
loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados.
Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam
de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se
eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me
mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar
seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do
ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada
os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os
cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do
seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser
perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura
do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem
bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado
onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à
hierarquia.
Nas
primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de
sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda
mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila
para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona,
incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o
equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de
suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao
contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que
éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de
os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas
ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que,
numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se
ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa,
tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para
conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada
a atmosfera já de si empestada da caserna.
O
pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de
Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e
mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do
Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a
perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era
de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na
parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os
gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do
alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho
ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com
a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se
pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica,
como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um
tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em
que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma
num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número
três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros,
quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral
verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt
de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta
e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente
penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os
cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no
desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço,
ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro
que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me
entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de
ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em
metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da
manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade
da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista
de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e
na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram
infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»
* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem
sofística do Exército.
P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
17
Ia propor-me oferecer um exemplar d’Os Idiotas ao primeiro leitor ou leitora que decifrasse o cabalístico 17 que se vê na foto, mas percebi que o exercício era em si idiota, por redundante. Decerto todos os que conhecem a importância do 17 na mitologia deste blogue são já detentores do livrinho.
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