quarta-feira, 7 de setembro de 2016

«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»

Li este título do Público e achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes, dificilmente chegarão para um único Inverno.

Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de uma iniciativa para a promoção da leitura.

Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e nem sequer toda a música.)

É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa, escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social ou anti-moderna que ler é.

O Público dá esta notícia pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas como a noticiada pelo Público. Mas não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência ou vocação pessoal — e apesar do país em que vivem.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Montes ígneos

Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar, víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais) na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória, simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio. Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível. Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Agosto em Aranda

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. 

in Aranda

Agosto

O mês de Agosto de 2016 difere do mês de Agosto de 1986 e do de 1996 em não haver diferenças entre a música aos berros de carros de emigrantes e a música aos berros de carros de residentes. Prova, talvez, de que a União Europeia funcionou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Dirty, dirty Harry

Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção. Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo mal. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Punk is dead

Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer coisa sentida. 
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.

Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.

Quando voltei a vê-lo, ao longe, cumprimentado na esplanada como uma veneranda figura, com uma mistura de solenidade de igreja, fila de autógrafos e trégua de velório (nem todos são alheios ao seu legado político), já havia vários passeios entre nós. A preguiça e uma vocação para sentir piedade e perdoar a quem nos tem ofendido pouparam-nos a ambos às consequências de uma súbita fúria punk. Isso e a canícula, que seca as glândulas salivares.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sanções e Sansões

Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008. Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas. Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu. Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis. Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão — terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca, os tecidos agarram-se à pele.  

Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o lajedo em cima. 

sábado, 25 de junho de 2016

Escrita

O escritor Zoran Zivkovic diz, e eu concordo, que «o melhor curso de escrita criativa é a leitura criativa».
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.

Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit

A saída da Inglaterra da União Europeia poderia ser o abanão necessário para que a União Europeia voltasse a ser “grande” (para usar terminologia trumpiana, mas mais modestamente aplicada a uma Europa unida, solidária, corajosa, com memória dos seus valores fundamentais, política e economicamente inteligente). Seria porém estúpido esquecermo-nos dos motivos que levaram a maioria dos ingleses a votar a saída e do discurso e perfil dos líderes que os orientaram nesse voto. E aí temo que o que estamos a observar é, sim, mais uma sinistra evocação do pior da Europa, as primeiras décadas do século XX. Os populismos de vária índole, os regionalismos patetas e acríticos, os nacionalismos a descambarem em chauvinismo, a xenofobia… Agora, mais do que nunca nas últimas décadas, é adequado lembrar que também Hitler teve do seu lado a grande maioria da população e nem por isso seria correcto chamar ao 3.º Reich democracia. Infelizmente, para muitos, nos vários níveis e estâncias de poder, a adesão popular ao nazismo (que, como o Brexit, também roubou votos ao socialismo da altura) não é já uma vergonha histórica mas uma lição de táctica. 
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Being a hooligan

Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson (em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética. Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros. Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».

Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais profundas do rizoma. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O ogre republicano

O republicano Paul Ryan, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, resistiu mas lá acabou por declarar o seu apoio a Donald Trump. Disse: «Não é segredo nenhum que ele e eu temos divergências (…) Mas a realidade é que, naquilo que define a nossa agenda política, temos mais em comum do que desacordos.»
A realidade é que já sabíamos disso. O ogre republicano existe e medra independentemente do penteado de quem lidera.

domingo, 5 de junho de 2016

Avaliar pelas aparências

Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.

Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências, este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado. 

sábado, 7 de maio de 2016

“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"

O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se para falar dele, se para fugir dele.

Que não se vive impunemente percebemo-lo de tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver, não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando, mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos (a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde sempre.

O que tem isto da vida a ver com a escrita? Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E, por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos enquanto se vive, nunca antes) é a condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia, logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida, os que não vivem impunemente, ou seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.

Claro que escrever pode ser também acção de um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática. Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.

Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa, amanhã (a mesa que tem como tema Se não há gozo a Literatura é uma actividade insuportável), a minha intervenção teria uma tónica diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a palavra riso. Rimo-nos se juntarmos algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém, pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene. Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras, estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados. Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John Cheever, antes de concebermos o deus ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram ao chão desastradamente.

Talvez haja muitas razões porque não saímos impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas: podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém que amamos; consequências sociais ou físicas: quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos, infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…

Mas os vícios também não deixam a escrita ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.

www.encontradouro.pt

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A luta de Churchill e a luta de Hitler

Nos tempos que correm, parece boa ideia revisitar as Memórias da II Guerra Mundial, de Winston Churchill. A direita, porém, que costumava andar de boca cheia com citações ou episódios churchillianos, parece não achar o mesmo. Veja-se que simpatias tem a direita, que líderes e discursos aplaude, que condescendência selectiva pratica, que cinismo cultiva — da Alemanha à Inglaterra, da América ao Brasil, passando pelas colunas do Observador. Se não houvesse hoje razões ideológicas para rejeitar a direita, haveria as companhias que ela escolhe.

Em 2016 cessaram os direitos autorais sobre Mein Kampf — que a Baviera assumira depois do final da guerra e da morte de Hitler — e o Instituto de História Contemporânea de Munique-Berlim editou uma versão crítica com 3.500 notas que é já um best-seller. Inúmeros países querem os direitos de tradução (para já negados).
Segundo os editores, o perfil do comprador é de pesquisadores e pessoas interessadas em História. Talvez seja assim, mas não custa imaginar a direita a contribuir para o sucesso de vendas do calhamaço apenas para questionar o rigor das notas. É, desconfio, uma ocupação intelectual que muitos preferirão a, por exemplo, reflexões sobre a mestria na descrição histórica e biográfica e sobre a brilhante oratória na defesa de elevados valores humanos que o comité do Nobel viu nos escritos de Churchill.
Se aquilo é democracia, João Baião — quando dá o microfone aos beijinhos para a Suiça e saudades para a Lourinhã — é, com a bênção do Deus que legámos ao Brasil, um estadista de primeira água.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Enologia da arte

A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.

Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.

sexta-feira, 18 de março de 2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Considerações sobre a intifada

1. Há anos um jornalista espanhol em viagem que atravessou Portugal de norte a sul escreveu um livro com as suas impressões e calhou de considerar horrível a capela que, na sua de facto pouca lindeza, vigia do alto uma das terras onde vivi. Não era ainda o tempo das redes sociais, mas já havia indignação na paróquia contra o espanhol, e se ele tivesse a má ideia de voltar ali, dificilmente passaria sem uma reprimenda.
Em Portugal as pessoas orgulham-se de tudo e sobretudo de nada, e a circunstância, para a qual por definição nada contribuíram, de terem nascido em determinada província ou país, que com frequência execram ou desonram, consegue por vezes transformá-las em espantosos chauvinistas. Raramente ou nunca se unem para salvar um monumento, reconstruir uma escola ou homenagear quem realmente sobressaia da mediania, mas entrelaçam de imediato os braços numa frente tribal contra o infeliz que se dê ao trabalho de achar menos perfeito o habitat delas.

2. O cronista Henrique Raposo escreveu um livro onde decidiu separar-se da sua terra natal, o Alentejo. (Ninguém se devia admirar que Raposo mais cedo ou mais tarde levantasse um idiossincrático e repreensor dedo ao velho Alentejo vermelho. O complexo de Édipo que a todos nos pisca o olho não poderia deixar de ter nele e na sua ideológica condição uma particular influência.)
Henrique falou do livro numa entrevista, onde expôs mágoas, desilusões e ressentimentos que o livro desenvolve. Foi duro e teve reacções, como é natural. Só que as reacções, neste país de facções e claques e raciocínio hooligan que o futebol moldou, rapidamente se transformaram em urros, vontade de linchamento e desfalecimentos pirómanos. O autor foi ameaçado e o livro alvo de petições incineradoras. O direito e a civilização a ele associada, se tivessem de ser inventados agora e em Portugal, jamais veriam a existência, mas Fahrenheit 451 ou qualquer distopia que envolva fascistóides massas acéfalas e enfileiradas são ficção apenas por acaso e provisoriamente.


P.S.: Intifada à parte, parece-me compreensível mas noutro contexto deslocada a generosidade de evocar Com Os Holandeses, de Rentes de Carvalho, a propósito do livro de Henrique Raposo, como fez Bruno Vieira Amaral: há um tom irritante de cátedra e ciência ou moral certa em Raposo que não me lembro de ter notado em Rentes. 

terça-feira, 1 de março de 2016

Um drama social

A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração do vinho se faça logo boca a boca.

São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente a um grupo de milionários anónimos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Origem do Ódio


Começou como um projecto de novela de Verão e talvez não tenha saído assim tanto dos eixos. Vende-se para já nas livrarias Pó dos Livros, Letra Livre e Traga-Mundos. Também pode ser encomendada pelo e-mail edlinguamorta@gmail.com. A capa é do Paulo Araújo. A mesa é do Bebedouro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O regresso aos Jedis

Há duas maneiras de evitar que O Despertar da Força atraiçoe a boa memória que Guerra das Estrelas deixou. Não ver o novo filme é naturalmente uma delas. A outra é rever antes os três episódios dos anos 70 e 80: eles se encarregarão de destruir a sua própria aura.

Fiz isso, como bom geek (ou talvez como traidor geek, não sei bem qual é o protocolo para estas situações). Por isso saí hoje apaziguado do cinema: as expectativas já tinham sido devidamente postas no lugar, a decepção tinha ocorrido dias antes, ao rever Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Regresso de Jedi.
O que estimulava a imaginação há trinta anos e a fazia viajar sem limites é bastante diferente daquilo que hoje poderia fazer o mesmo com a pessoa que sou. E a culpa não é dos filmes*, temo bem.

Contudo, acredito que Star Wars permanecerá como um dado feliz na minha vida. Isso não depende dos filmes, e de mim depende pouco, do eu consciente. Deixada sozinha consigo mesma, a memória voltará ao seu trabalho de mitificação e a adolescência voltará a ser aquele lugar feliz que não depende de eu ter ou não sido feliz nele ou de serem bons os filmes que nele passavam ou as sequelas que deles se fazem. Que a Força, essa Força que nos permite ver com o passado como o paraíso (não totalmente) perdido, esteja com ela. 

*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Malefícios da idade?

Vasco Pulido Valente, vetusto comentador da imprensa, escreve isto:
«(…) neste tempo de euforia da esquerda, que a televisão e os jornais servilmente reflectem (…)».
E nesse ínterim nós lemos os jornais todos do país, que andam a levar nas palmas Marcelo Rebelo de Sousa, partilharem, por exemplo, esta “notícia”, por estas ou outras palavras:
«Centeno gastou "integralmente" a "almofada" financeira»
Como qualquer pessoa minimamente atenta sabe, nenhuma das afirmações acima é verdadeira.

Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cortesãos de esquerda

A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez boicote mesmo as eleições.

Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado (entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice. Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à derrisão da pátria.

Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora às vezes pareça, é certo.)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cinismo à portuguesa

Duas afirmações colhidas na Internet sobre o candidato à presidência da República Paulo Morais:
«Tudo o que é demais enjoa, e ainda mais quando se faz vida disso. Se ninguém [o] refuta é precisamente porque o cromo se tornou inofensivo por ridículo.»
«Paulo Morais (…) exibe a sua mania da corrupção, de uma maneira insultuosa e quase alucinada.»
A primeira afirmação é de um cidadão qualquer, a segunda é de Vasco Pulido Valente. É destas duas espécies de cinismo que o país sofre, o cinismo do eleitorado comum e o cinismo dos fazedores de opinião. Ao longo de anos, Morais indicou números e nomes para a história da nossa desgraça. A imprensa e a justiça pouco exploraram as pistas, e o aproveitamento privado do erário público continuou — como de resto todos testemunhámos, de forma mais empírica ou mais esclarecida.
Contudo, não ter o denunciador sido amordaçado, torturado ou preso faz dele um cromo, um personagem ridículo. E a insistência na denúncia é, para o comentador emérito da direita portuguesa, uma forma de insulto (insulto decerto para os benfeitores da economia nacional).

Para ser tido como um candidato respeitável neste país, Paulo Morais tinha de ser morto ou fazer-se matar pelas suas acusações.
A alternativa era ser um betinho palavroso e igualmente inofensivo para o statu quo como Marcelo Rebelo de Sousa — e nesse caso não só o bom povo o elegeria como teria a enternecedora preocupação de VPV com a forma como uma eleição presidencial como esta pode ser aviltante para um cliente do Gambrinus.

Cromo por cromo, o povo português prefere os de pedigree. E para Valente toda a gente é estúpida, mas há os estúpidos comuns e os nossos (dele) estúpidos. 

Um só país, duas manifestações do mesmo cinismo. Não foi à toa que Cavaco existiu. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A timidez e o ‘piropo’

Numa conversa alheia a que assisto no Facebook como numa esplanada de café, com a mesma indiscrição semi-involuntária, alguém, uma mulher, diz de si mesma:
«Eu sou um típico caso de pessoa tímida, não gosto muito que olhem para mim, mas sei que isso é um defeito (…)»
Esta confissão e autocrítica associam-se a um conjunto de argumentos contra a penalização das propostas importunas de teor sexual (por preguiça designadas como ‘piropos’), um processo que a mesma mulher, jovem e com formação, considera promovido por «feminazis» (fêmeas ao que parece com vontade de controlar os homens).
É sintomático que alguém venha criticar este aditamento legislativo ao artigo 170.º do Código Penal considerando um defeito a sua própria timidez (ou seja, o seu mal-estar com a importunação). É sintomático porque, apesar do tom de bravata no resto do discurso, denuncia uma cultura de submissão, afinal o terreno fértil onde o comportamento intrusivo tradicional, sem respeito pela individualidade e pela sensibilidade do outro, se permite dominar, com direitos de cidade superiores, por supostamente a extroversão, incluindo este tipo de extroversão opressor, ser a condição ‘normal’, a condição das pessoas sem defeitos.

Não, cara facebookiana desconhecida, a sua timidez não é um defeito, é uma característica, aliás comum, que cabe a todas as outras pessoas respeitar. Defeito é a incontinência do ‘piropo’ importuno. Defeituoso é o caracter de todos aqueles que acham legítimo importunar outras pessoas com seja que tipo de pensamento ou desejo lhe vai na cabeça ou nas partes.

Teria sido necessário legislar sobre isto? Eventualmente não. Se os tímidos não achassem defeituosa a sua timidez e os importunadores tivessem suficiente educação e carácter para controlar a sua líbido excessiva. Mas se as vítimas nunca tivessem de recalcar a sua condição e os opressores jamais oprimissem, todo o Estado de Direito, com todos os seus códigos, toda a sua artilharia legislativa, seria pouco mais do que uma redundância, não?

Existem várias formas de uma sociedade prevenir comportamentos perturbadores da integridade alheia sem necessidade de recorrer ao braço pesado da Lei. A censura familiar e social pode ser uma delas. Quando esta falha, talvez devêssemos apreciar haver no país capacidade legislativa independente da vox populi. Se a vox populi prefere defender o direito de alguém a ser grunho (ou pior do que isso) contra a liberdade do outro, talvez aqueles que elegemos, numa democracia representativa, tenham o dever de se elevar acima da miséria moral e aprovar leis que defendam os tímidos do despotismo da ‘normalidade’.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crise da imprensa: os meus contributos

A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante). A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e transformasse em caderno diário o Ípsilon, o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional. 

Pirotecnia precoce

Às cinco da manhã houve fogo-de-artifício na rua ali atrás e não fui eu que o lancei. Podia ter sido: partilho da mesma insónia e do mesmo desejo de adiantar a pirotecnia e os ponteiros, da mesma pressa em sair deste ano velho e de maus-fígados.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Miasma

«Também havia a voz. A madrinha tinha uma daquelas vozes afectadas de lady inglesa, oscilando entre agudos e graves como um adolescente a amadurecer, mas com o sotaque carregado, as vogais rudes e as interjeições dum lavrador. Agora que dedico algum tempo a pensar nisso, não era com a nobreza britânica que a madrinha mais se parecia, mas com as preceptoras da nobreza britânica. Quando lhe ouvíamos a voz a progredir pelos corredores e pelas divisões da casa, espécie de miasma que se infiltrava por qualquer frincha e a qualquer hora, o nosso estremecimento não era de súbditos receosos do alcance do poder real, mas de pupilos que odeiam e temem a velha ama germânica que a família mantém como tradição orgulhosa nas folhas de pagamento mensais. (Qualquer comparação com bruxas verrugosas e histéricas teria igualmente cabimento: a madrinha parecia ter sido concebida ou treinada para ser prova de verosimilhança de todos os clichés.)
Um verdadeiro fenómeno era a sua gargalhada. Já imaginaram alguém dar sonoras gargalhadas sem que no seu rosto houvesse um indício de riso ou divertimento? A madrinha não tinha humor (embora utilizasse doses regulares de sarcasmo), mas isso não a impedia de acompanhar (e na verdade suplantar) as reacções a certos comentários ou piadas que se produziam à mesa. Ela gargalhava com a mesma força de quem expele um osso de frango da garganta, percutindo as paredes da sala como o equipamento sobredimensionado de uma discoteca ou fazendo drapejar os cortinados como um vento dos que activam avisos da meteorologia, mas os seus olhos mantinham a mesma vigilância censória e fria sobre os circunstantes, não traíam um único momento de cumplicidade ou empatia.   
A madrinha zelava pela casa e pelas tradições com o empenho exacerbado e anacrónico de aias e ministros de casas reais que na devida altura advertiram os senhores para os perigos dos caminhos que trilhavam. Ela tivera razão antes de tempo, mas não lhe cabia tomar as decisões (era uma matriarca que reconhecia a legitimidade do poder patriarcal), e quando o pôde fazer, demasiado tarde para evitar a queda em desgraça, já não conseguia deixar de agir como o último dos miguelistas — o ódio, a frustração e o desejo de vingança a dominarem cada segundo do dia.»

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Sílvia

«Quando a Sílvia cresceu não o fez apenas em sentido figurado, como acontece a tantas mulheres, cujo corpo de adolescente se transforma e enche de curvas mas não se estende verdadeiramente em direcção aos céus. Com Sílvia o crescimento ganhou expressão e significado, foi botânico, os seus membros cresceram como troncos e ramos de árvores mas ao ritmo de pés de feijão, ávidos de sol, competindo com os adultos pelo domínio do espaço aéreo. Nesse processo de grande consumo energético, tornou-se magra, por vezes demasiado magra, e a herança feminina da madrinha, sua avó, aqueles seios fartos mas rijos, parecia um equívoco, uma perturbação no perfil longilíneo, um lastro à última hora adicionado à sua anatomia para a impedir de se perder nas nuvens antes de a hipófise determinar o fim do crescimento.
Ter um peito daqueles não lhe concedeu porém uma silhueta recurvada; algo na sua estrutura óssea e muscular resistia à gravidade, a Sílvia deslocava-se de nariz bem emproado e sentava-se num perfeito ângulo recto que surpreendia. O primeiro bofetão que lhe dei, depois de me ter deixado, foi também em paga daquela perfeição ergonómica (talvez um ressentimento inconsciente da promessa de corcunda que eu era). Há algo de irritante numa mulher que parece quotidianamente a ilustração viva de um manual de etiqueta. Mesmo que na maior parte do tempo nos encha de vaidade (e até desejo) o seu talento para a elegância — expresso na materialidade das roupas e adereços que adquire sem interrupção, assegurando um fluxo de aquisições permanente e vital como soro para moribundos, e na imaterialidade da sua postura, fisionomia, gestos de antebraços, pensamentos e locuções de profunda vacuidade —, mesmo que nos sintamos envaidecidos e distintos por ter uma mulher assim, há sempre momentos em que vivermos com a Ava Gardner ou a Audrey Hepburn nos cansa. Cansa contracenar diariamente, sentir a obrigação de ser Gregory Peck das abluções matinais ao último escovar de dentes do dia. Um bofetão é um grito de liberdade, ainda que dado fora de tempo.»

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Swamp Thing

«(...) Eu fazia isso em algumas noites, com o impulso gótico de me vir enrodilhar depois nas algas ou nas ervas das águas menos profundas, sentindo a repugnância da sua viscosidade, as suas carícias arrepiantes de seres vivos asquerosos, a sujidade do lodo a levantar-se do fundo e a procurar envolver-nos numa nuvem perceptível de sanguessugas. Eram banhos de podridão com que eu procurava purgar-me, em noites de lua nova, da benfazeja luz solar que no Douro nos faz sentir príncipes destinados ao ócio e ao amor cortesão numa eternidade descomprometida, leve, a conjugar verbos apenas no único tempo interessante, o presente.
Desci ao cais nessa noite com o mesmo propósito de mergulhar, de me espolinhar nas águas rasas da margem e regressar ao quarto pingando lama, para desespero do pessoal da limpeza no dia seguinte. Mas a lua estava agora muito avançada no seu quarto crescente, iluminando com uma proficiência de lua cheia aquele troço de rio ainda livre do excesso de iluminação pública que já se verificava em tantas estradas desertas da região. A presença da Adèle, nos seus habituais trajes etéreos, dedicando-se na beira do cais a seduzir o firmamento nocturno com o mesmo ritual dervixe que lhe vira no primeiro dia, fez-me mudar de planos. Inicialmente pensei que podia ficar apenas a observá-la, com aquele deslumbramento juvenil de rapaz que pela primeira vez descobre os contornos de um corpo feminino, mas depois agi como agem os homens adultos, se suficientemente cheios de si, e fui meter conversa.
Não era uma surpresa que a Adèle estivesse receptiva à conversa — não havia por ali muita gente com quem falar e eu ainda não estava transformado como habitualmente no Swamp Thing. As constelações, se formos competentes nisso e o céu estiver descoberto, são um bom tema de conversa. Há outras possibilidades, além dessa mostra extravagante de erudição cosmológica, como por exemplo a deriva para a Antiguidade Clássica — com os seus deuses, os seus mitos, as suas metamorfoses, os seus amores e a sua excitante promiscuidade — ou para assuntos de foro místico, como os signos do Zodíaco, igualmente prenhes de insinuações amorosas e preliminares sexuais.
A temática estelar interessou Adèle, seria aliás uma surpresa que não interessasse a alguém tão eminentemente espiritual, mas ela quis ver os astros do meio do rio. Que esse desejo tivesse uma plausibilidade geométrica, digamos, assente no cálculo intuitivo de que no ponto mais equidistante de ambas as margens arborizadas a cúpula celeste se revelaria de uma forma mais ampla, não diminuiu o meu sentimento de que havia uma intenção romântica na vontade dela. Tanto mais que me perguntou, delicadamente, se sabia remar.
Deslizámos em silêncio para o meio da corrente, que, apesar de fraca, não permitia que o bote permanecesse estacionário como num lago. Preocupei-me, por isso, em orientar a proa no sentido da corrente, corrigindo o nosso avanço involuntário com ocasionais movimentos dos remos. A Adèle reclinara-se na popa, com as pontas dos cabelos de nórdica submergidas no Douro e oferecendo a sua garganta branca à Lua e ao meu olhar.
Esgotado o meu conhecimento sobre constelações, e ainda com os contornos fantasiosos da casa da Quinta à vista, como se estivéssemos no meio do Lago Léman, a rapariga belga, inspirada por essa mesma divertida imagem nocturna de uma Suíça duriense, enveredou pela história de Mary Shelley, de que parecia ter decorado longos parágrafos da Wikipédia. Falou da mãe da escritora, a feminista Mary Wollstonecraft, e do seu pai, o filósofo William Baldwin. A Adèle estava simplesmente a fruir um tema que a entusiasmava e, com intenção ou não, a dar-me a conhecer a sua adesão a ideais de amor livre, mas eu ficara retido umas passagens atrás, na entrada do seu dicionário que falava dos escritos de Baldwin sobre o casamento enquanto «monopólio repressivo».
A linhagem Wollstonecraft/Baldwin/Shelley era algo mais do que eu poderia suportar. Toda aquela gente de espírito livre, tão sensata e avançada quanto às relações entre homens e mulheres, parecia ter sido convocada para me fazer enfrentar os meus fantasmas recentes. Se a Adèle tencionava ter comigo o seu caso amoroso no Douro Superior dera um passo em falso com aquela digressão de enciclopédia online. Eu teria sido facilmente seduzido, naquele tão agudo estado de carência, mas, pelo menos de momento, ocorria-me tudo menos ter sexo com ela no fundo impermeabilizado do bote da Quinta de Pompeia. Antes que, de Shelley, me viesse à inspiração Frankenstein, um ser de um romantismo menos delicado, remei com furiosa urgência até ao cais, alegando efeitos secundários do jantar, de costume tão saboroso e serenamente digerível.»

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Zona de Interesse


A Zona de Interesse, de Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal, onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade — e isso, que tem em si algo de Amis way, não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro. Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e morte, crimes e violações são décor. Não. Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre o enredo.)
Há o risco de leitores menos familiarizados com a História ficarem a achar que as atrocidades nazis não passam de ficção, cenário para romances e filmes, no máximo uns contratempos aborrecidos para personagens secundárias, contribuindo assim o livro para banalizar o Mal e relativizar os crimes nazis? Não. Primeiro porque Hollywood já se encarregou disso há muito tempo. Segundo porque leitores menos familiarizados com a História dificilmente lerão Martin Amis. Terceiro porque esses leitores, na eventualidade de lerem o livro, teriam de ser também insensíveis, incapazes de empatia e sobretudo pouco familiarizados com a inteligência (pelo menos pouco treinados nela). Há leitores assim, que devamos proteger do terrível Amis? Há. Chamam-se geralmente adolescentes (mesmo que alguns tenham passado a idade púbere) e são já várias as gerações deles que têm vindo a ser poupadas a conhecer a História. Há leitores assim, mas não os devemos proteger de Amis. Devemos protegê-los das televisões, dos Ministérios da Educação, da robotização neoliberal em curso — e dar-lhes muitos, muitos livros de História para ler. E depois dar-lhes também o livro de Amis para ler.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nunca tinha pensado nisso

«Nunca tinha pensado nisso, mas os mosaicos da nossa casa-de-banho, para onde jorravam clandestinas as minhas primeiras golfadas de sémen, eram iguais aos da cozinha dela. Ainda que o chão da madrinha fosse anterior, tenho a certeza de que não houve nenhuma intenção irónica da parte do meu pai quando ele se ajoelhou no local onde colocaria a retrete a assentar com ferramentas emprestadas aquelas tijoleiras que formavam um padrão geométrico trompe-l’oeil de degraus tridimensionais capaz de nos baralhar o sentido da visão como se tivesse sido desenhado por Escher. Estou convencido de que os mosaicos da nossa minúscula casa-de-banho eram sobras da cozinha dela, doadas com aquele misto de condescendência feudal e arrependimento avaro que lhe retorcia os lábios sempre que hesitava na avaliação do seu próprio acto. A madrinha gostava de se imaginar próspera ao ponto de se permitir uma prodigalidade indiferente, mas para sua infelicidade ela não tinha como ignorar a falência da empresa e o seu próprio carácter, de que não fazia parte a empatia. Daí aquela luta consigo mesma, visível e perenemente fixada no esgar do rosto. O meu pai, pelo seu lado, desconhecia as virtudes catárticas da ironia e nunca lhe ocorreriam pensamentos menos dignos ao sentar-se naquela sanita com vista para o puzzle vertiginoso que desenhava no chão a cerâmica esmolada.

A mim, sim, ocorria toda a espécie de pensamentos insultuosos, excepto os que envolviam a líbido. Quando era uma presença regular na minha vida, a madrinha não passara há muito os quarenta anos, mas para os meus olhos era uma velha, e eu atribuía o volume e a firmeza aguda — bélica, de obus alemão — dos seus grandes seios a soutiens antiquados feitos de arame e renda, não a quaisquer qualidades eróticas do seu próprio corpo.
A ironia — e também a epifania, chamemos-lhe assim — era eu ter-me recordado da madrinha quando hospedado na Quinta de Pompeia descobri que o quarto-de-banho da suite e a cozinha semi-rústica da casa principal estavam recobertos com o mesmo tipo de mosaicos, possivelmente fabricados na década em que eles eram modernos (a mesma da minha infância), tal o afã tradicionalista e o desejo de genuinidade que tinham presidido à reconstrução da Quinta.

Tenho uma propensão para reparar em mosaicos. Herdei do meu pai o carácter introspectivo e o infame hábito de manter o olhar baixo, serviçal, como as castas inferiores na sua congénita prontidão para aceitar o menosprezo, ou como os judeus demasiado perplexos com o que lhes acontecia em Auschwitz para sequer pensarem em reagir. Na selva das relações sociais, um olhar baixo é um convite aos predadores. A menos agressiva ou hostil das criaturas sente o apelo do sangue e uma força dominadora se à sua frente encontra um humilde de cerviz curvada. Não há como negar razão ao aforismo perante estes factos: todos os homens são maus, basta terem a sua oportunidade.»

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bastardia

Kettle, uma velha snob da saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Um Pirandello para Coelho

Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido precocemente actividades.

Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha» Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou porque é mais exigente um casting para musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia portuguesa.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O pessimismo antropológico revisitado

É irónico que o reforço da minha sensibilidade de esquerda tenha sido obtido observando os próceres e os pregoeiros das instituições capitalistas com a lupa de uma inata característica de direita: o pessimismo antropológico.

Todos os homens são maus e naturalmente egoístas, só que alguns são-no mais do que os outros — é com esta espécie de paráfrase orwelliana que o que resta de direita inocente se devia hoje confrontar.

«A vida militar»

[Primeiros parágrafos de uma prosa justamente descontinuada]

«Tudo começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento, era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias, quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente erradas.
A mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Nas primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera já de si empestada da caserna.
O pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes. Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica, como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros, quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço, ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»

* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem sofística do Exército.

P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html

Pequenas ironias

Ver Helena Matos queixar-se de hate mail.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

«Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.»
Hélia Correia com uma razão que já tão pouca gente consegue perceber.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

17


Ia propor-me oferecer um exemplar d’Os Idiotas ao primeiro leitor ou leitora que decifrasse o cabalístico 17 que se vê na foto, mas percebi que o exercício era em si idiota, por redundante. Decerto todos os que conhecem a importância do 17 na mitologia deste blogue são já detentores do livrinho.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma epifania todoroviana para Marco António Costa

Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes, por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério — talvez adulto, para usar a terminologia do FMI — e salvífico da economia.

Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz, precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira universitária que então iniciou em França.

Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.

Marco António e um bom lote de políticos e economistas europeus são uma espécie de semióticos da actual ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo estéril e patético.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Vanitas


Só para lembrar que a Granta Portugal n.º 5 chegou às livrarias e traz um conto meu. Bem sei, não é a mesma coisa que pertencer à elite dos mil poetas da Chiado Editora, mas figurar ao lado de Jonathan Franzen e Gore Vidal sempre dá uma certa vaidade.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Silvano, o profeta

«Há um profeta no Seixo, disse Eurico, levantando-se para encarar os campos que os separavam da aldeia. Ninguém que seja de levar muito a sério, apenas um tipo louco que escolheu uma vida original. Habita uma cabana tosca lá em baixo, depois da curva do rio, comendo o peixe que pesca e as ofertas piedosas da aldeia, onde sobe uma vez por semana. De vez em quando vai pelas terras em volta, de porta em porta, como os apóstolos, de Bíblia na mão. Tem uns longos cabelos negros, barba, é magro mas musculado e veste sempre pouca roupa, mesmo no Inverno. Os mais supersticiosos não deixam de se benzer quando ele aparece. Se não o conhecessem jurariam que se tratava de Jesus Cristo, Ele próprio, e alguns ainda esperam, sem o confessarem, que um dia algo de maravilhoso se revele nele. As mulheres suspiram, e entre elas falam do desperdício que é um homem daqueles, bonito como o Errol Flynn, ter-se perdido assim.
Houve alturas em que esteve para ser morto, abatido a tiro como um javali, ou à sacholada como uma víbora. Nestas terreolas os homens saem cedo, para a lavoura, e só as mulheres ficam em casa. À hora a que o Silvano (é este o nome dele) chega para a sua pregação só as encontra a elas. Ele fala baixinho, com afabilidade e extrema educação (estudou) e é de facto uma pessoa com bom coração, cheia de amor pelo próximo, como manda a Bíblia. Seduz, para dizer tudo numa palavra. Se fosse um caixeiro-viajante ninguém duvidava que os seus modos não passavam de uma táctica para vender as bugigangas que trazia na mala e sabe-se lá para que mais. Mas ele só fala de religião, de praticar o bem, de confessar e perdoar os pecados e coisas assim. Seja como for, por essas ou outras razões, é bem recebido, as mulheres gostam de o ouvir e perdem um bom tempo com ele, a suspirar, enlevadas num bem-estar místico, a darem-lhe as mãos a beijar, por vezes. E isto nem sempre agrada aos maridos, aos mais ciumentos, que vêem naquela catequese, reprovada pelo padre, uma maneira de serem desprezados pelas mulheres, e às vezes pior do que isso. O que lhe vale, ao Silvano, é não fugir, dar sempre a outra face. Se se acobardasse um bocadinho quando eles chegam com as fúrias e desatasse a correr pelos campos a segurar os seus andrajos, já teria, talvez, levado com chumbo nas costas. Assim, exaspera os homens — que lhe invejam a figura e a bravura —, mas ao mesmo tempo intimida-os, com o seu olhar bondoso de santo no altar. Duma forma ou de outra, sobreviveu até hoje.»

in Hotel do Norte

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Granta


Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta, e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós conhecia muito bem a Granta, o Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.