segunda-feira, 22 de maio de 2017
O abcesso da manhã
quarta-feira, 10 de maio de 2017
A salvação é possível, irmãos!
Apesar do nome, Salvador Sobral não vem redimir anos de
indigência televisiva. Mas, ah, sabe bem esta pausa na nacional e proverbial
pimbalhice! A estratégia de Nuno Artur Silva (de que já aqui falei) foi recompensada
e veio relembrar a condescendência, a indiferença, o niilismo ou a cobardia de
sucessivas direcções editoriais das televisões, pública e privadas. Sim, a
popularidade é possível por outras vias.
A ironia de sempre é que as televisões são por natureza máquinas de popularizar e, quando, inseguras,
incompetentes ou cínicas, baixam a sua bitola ao nível da miséria intelectual,
popularizam lixo. Décadas de irresponsabilidade institucional fizerem crer que a
única forma de comunicar esteticamente com as massas era através da mediocracia
artística. Mas eis que o país, um país maior do que as habituais bolsas de
resistência cultural, se mostra capaz de apreciar e amar uma boa canção, mais devedora
ao jazz do que à fórmula habitual de encher as insuportáveis e itinerantes chouriças
de sábados e domingos à tarde.
Ainda não será desta que as populações se revoltam contra a
imagem que a televisão faz delas, mas talvez fique um pouco mais evidente que
aquela imagem é, antes de mais, o espelho de quem faz televisão.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
«Todo o verso é um romance inacabado»
A primeira mesa do FLiD - Festival Literário Douro tinha como mote «Todo o verso é um
romance inacabado». Tentei não dizer demasiadas banalidades:
Dantes, quando tinha tempo e disposição, escrevia pequenas
narrativas a propósito de quase nada. Um objecto esquecido num balouço, uma
boneca sem braços, a passagem furtiva de um animal, o olhar de alguém que se
cruzava com o meu, uma cena de namorados brevemente entrevista, uma criança
pela mão do avô, a manobra de um carro, o título de uma notícia, o caminhar de
uma pessoa, um gesto, uma atitude, uma expressão, frases ou breves trechos de
conversas que discreta mas indelicadamente ouvia.
Estas coisas não serão exactamente versos, mas, do pouco que
sei de poesia, parecem-me suas familiares, têm a mesma concisão, encerram igual
miríade de histórias ou emoções, colhem, como os versos, porções de existências
que nós, espectadores, apanhamos a meio do seu decurso e para as quais podemos
imaginar múltiplas hipóteses de desenlace e múltiplas causas prováveis.
Um gesto, um som, um cheiro, uma frase eram o suficiente
para eu imaginar uma história, personagens, relações entre elas. Aqueles
pequenos nadas que me inspiravam eram pedaços da natureza ou de vidas alheias
fixados como numa fotografia ou num excerto de filme. Poderiam ser partes de
romances, se fossem literatura, e, na sua exiguidade narrativa, seriam romances
inacabados, tanto porque apenas
indiciavam a intriga como porque ainda estavam a decorrer.
Julgo que a poesia recolhe pedaços destes, em estrofes de
menor ou maior dimensão, mas, ao invés do romance, não procura geralmente contar
a história a que eles pertencem ou que evocam. É um exercício diferente, se
calhar contrário ao romance. Possivelmente parte da mesma observação do mundo,
mas limita-se a registar o fenómeno, a encontrar as palavras certas, precisas,
para o representar em toda a sua amplitude semântica e em toda a inconcretude,
de modo a fornecer ao leitor um conjunto de emoções, de sentimentos estéticos,
de possibilidades de sentido, mas preservando o enigma, o mistério, a
indefinição — a inconclusão,
precisamente.
Não que o romance, nas suas variadas formas e intenções, não
se permita igualmente deixar tudo em aberto, tudo por explicar, tudo por
contar, mas fá-lo espraiando-se pelas páginas, relatando factos e acções,
enchendo parágrafos de episódios, descrições, personagens e diálogos,
acumulando reflexões.
Imagino os versos — do mesmo modo que os fenómenos naturais
ou sociais que inspiravam os meus pequenos textos — como espoletadores de
memória ou imaginação. Uma imagem, um cheiro, um som, um toque têm o condão de activar
lembranças e emoções a elas associadas. Por vezes não chegam a despertar a
lembrança em si mesma, mas apenas a emoção, e até uma emoção sem biografia. O
nosso humor, o nosso estado de espírito podem ser mudados por uma imagem, um
som, um cheiro, um toque sem que sejamos capazes de compreender a razão por que
mudaram, ou sem que precisemos de
compreender a razão.
O romance reage a estas espoletas a maior parte das vezes
procurando vasculhar na memória pessoal do autor histórias a que pertenceram fenómenos
equivalentes e que aguardavam serem narradas, ou despertando a sua imaginação
para possibilidades de dramatização especulativa dos mesmos fenómenos.
O romance quer pôr em cena. O verso procura talvez ser
apenas a imagem, o som, o cheiro, o toque. Ambiciona o mesmo poder de síntese
extrema, a mesma eficácia de mola emocional. O verso é a espoleta. Não precisa
de contar como ou por que se deu a rejeição, por exemplo, para que o leitor
sinta a frustração e a tristeza do amante rejeitado. Não necessita de descrever
como era bela a vida noutro tempo ou noutra terra para que a saudade venha à
tona no espírito de quem lê.
O verso é talvez símbolo, ideograma, representação sensitiva
e abstracta. O romance, pelo seu lado, desenvolve a ideia, tentando compreendê-la
com um certo grau de racionalidade, mais ou menos materialista, mais ou menos conceptual.
E nos melhores casos falha. Quando se aproxima suficientemente da vida, da sua
complexidade, da sua ambiguidade, das suas contradições e do seu absurdo, o
romance não pode concluir-se, mesmo que grafe a palavra “fim” na última página.
A existência não cabe num romance; nenhuma vida em particular cabe num romance.
Pelo que também todo o romance é na verdade um romance inacabado.
De resto, haveria alguma diferença se Kafka tivesse concluído
O Processo ou O Castelo?
4/5/2017
quinta-feira, 27 de abril de 2017
Criar o futuro
O Delito de Opinião amavelmente convidou e eu transgredi com um texto sobre funestos criadores de futuro:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/convidado-rui-angelo-araujo-9220351
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/convidado-rui-angelo-araujo-9220351
sexta-feira, 17 de março de 2017
Menina e Meças
A SPA premiou duas obras de que gostei: o álbum Menina, de Cristina Branco, e o romance (ou novela) O Meças, de Rentes de Carvalho. O primeiro, composto sobretudo por uma nova geração de diferentes autores, representa um Portugal plural, cosmopolita, capaz de usar criativa e luminosamente o lastro da lusitanidade. O segundo é também um retrato fiel, mas de um Portugal atávico, machista, misógino, homofóbico, boçal e brutal. Este país existe e convém não o ignorar. Aconselha-se contudo prudência no seu manuseio, se não queremos habitá-lo por osmose. Acontece.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Bom gosto
Um tipo sente-se por momentos reconciliado com o país quando descobre que venceu o Festival RTP uma canção bonita.
A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.
A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Fraquezas
O livro de Saramago de que mais gostei foi 'O Ano da Morte de Ricardo Reis': um “clássico”. Em segundo lugar, 'Ensaio Sobre a Cegueira': ficção científica. Terceiro, 'Todos os Nomes': misantropia. O grande mérito de Saramago foi conhecer bem as minhas fraquezas.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
A História
Pelo que leio aqui e ali, alguns dos cínicos que andaram jovialmente a servir-se de Trump para verter o seu ressentimento contra a “esquerda”, as “elites”, os “artistas”, os “intelectuais” et tutti quanti começam discretamente a distanciar-se do ogre, como se nunca se tivessem embevecido com ele, nunca tivessem sido íntimos. O que vou dizer talvez seja um pouco dramático, mas desconfio que a História não se vai esquecer deles.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Salvar o mundo pela tesoura
Há muitos anos, quando eu acreditava que o mundo se salvava pela ironia ou o humor e tentava dar o meu contributo com diatribes a esmo, entusiasmando-me demasiado com elas, um bom amigo lembrou-me que procurar vencer ou ridicularizar alguém apontando aos seus atributos físicos era uma confissão involuntária de falta de argumentos, uma exibição de raciocínio e lógica medíocres e, ao fim e ao cabo, uma forma de cobardia. Ser manco, anão, corcunda, míope, careca ou conjunturalmente feio não eram opções das pessoas, não tinha sido obra sua, não as podíamos responsabilizar por isso e, o que mais importa, não era isso que fazia delas escroques.
Como se compreende, não é honesto e muito menos um sinal de superioridade chamar alguém de caixa-de-óculos, por exemplo. Mas pode-se criticar o gosto da pessoa na escolha dos óculos. Tal como não é justo rir de uma calva mas legítimo desaprovar o modelo do capachinho.
Ou seja, não podemos responsabilizar Donald Trump pelo seu fácies infeliz — mas não seremos racistas por reparar na cor da sua pele: tirando a possibilidade remota de ele sofrer de doença aparentada à de Michael Jackson (mesmos sintomas, diferente paleta), aquele tom é opção do utente. Já no que se refere ao formato do cabelo é não só legítimo mas imperativo relacionar o corte abstruso e pertinaz com as ideias cretinas que lhe povoam a cabecita.
A esperança da humanidade reside, portanto, na autoridade clínica do oftalmologista de Melania. Ou na Bíblia, designadamente no Livro dos Juízes, 13-16. Serão os eslovenos capazes de despertar fervor patriótico em Melanija Knavs e, sobretudo, terão 1100 moedas para a convencer a usar a tesoura como Dalila em Sansão?
Depois é só ter o cuidado de o afastar dos pilares que sustentam o templo. Que ele aliás já começou a derrubar, mesmo com a estúpida guedelha intacta.
Como se compreende, não é honesto e muito menos um sinal de superioridade chamar alguém de caixa-de-óculos, por exemplo. Mas pode-se criticar o gosto da pessoa na escolha dos óculos. Tal como não é justo rir de uma calva mas legítimo desaprovar o modelo do capachinho.
Ou seja, não podemos responsabilizar Donald Trump pelo seu fácies infeliz — mas não seremos racistas por reparar na cor da sua pele: tirando a possibilidade remota de ele sofrer de doença aparentada à de Michael Jackson (mesmos sintomas, diferente paleta), aquele tom é opção do utente. Já no que se refere ao formato do cabelo é não só legítimo mas imperativo relacionar o corte abstruso e pertinaz com as ideias cretinas que lhe povoam a cabecita.
A esperança da humanidade reside, portanto, na autoridade clínica do oftalmologista de Melania. Ou na Bíblia, designadamente no Livro dos Juízes, 13-16. Serão os eslovenos capazes de despertar fervor patriótico em Melanija Knavs e, sobretudo, terão 1100 moedas para a convencer a usar a tesoura como Dalila em Sansão?
Depois é só ter o cuidado de o afastar dos pilares que sustentam o templo. Que ele aliás já começou a derrubar, mesmo com a estúpida guedelha intacta.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
A voz grossa do cinismo político
À esquerda e à direita anda vária gente atarefada a explicar-nos como somos hipócritas ou susceptíveis ao julgar tão duramente Trump. Apresenta uma de duas razões (às vezes as duas):
Não será o carácter odioso de Trump suficiente para a ele nos opormos com singular veemência? Um carácter que, ao contrário do que esperavam os que acreditavam na sua normalização, ele diariamente enfatiza com palavras, atitudes e, agora, despachos presidenciais, além dos patéticos tweets?
Que haja à direita e à esquerda gente tão propensa a aceitar, implícita ou explicitamente, um presidente assim lembra não apenas como obstinações ideológicas opostas podem convergir na mesma idiotia cúmplice, mas também que a falta de empatia com mulheres, minorias ou o outro, disfarçada com a voz grossa do cinismo político, não é um exclusivo de façanhudos americanos. Neste triste domínio, o farwest é também aqui ao lado.
— Obama, o falinhas-mansas, seguia na prática os mesmos princípios de uns EUA imperialistas; porque só nos indignamos agora com Trump?
— Trump pode não ter muito tacto, mas que importa isso se ele reformar o sistema americano, tão corrompido pelas elites e pelo politicamente correcto?Imaginemos por instantes que a sagacidade destes branqueadores trumpianos não está profundamente arruinada. Sim, aceitemos por momentos que a política externa de Trump se limitará às convencionais linhas da "tradição imperialista americana" ou que ele e a equipa de anjos que nomeou algum dia se interessarão por mudar o sistema em favor dos cidadãos.
Não será o carácter odioso de Trump suficiente para a ele nos opormos com singular veemência? Um carácter que, ao contrário do que esperavam os que acreditavam na sua normalização, ele diariamente enfatiza com palavras, atitudes e, agora, despachos presidenciais, além dos patéticos tweets?
Que haja à direita e à esquerda gente tão propensa a aceitar, implícita ou explicitamente, um presidente assim lembra não apenas como obstinações ideológicas opostas podem convergir na mesma idiotia cúmplice, mas também que a falta de empatia com mulheres, minorias ou o outro, disfarçada com a voz grossa do cinismo político, não é um exclusivo de façanhudos americanos. Neste triste domínio, o farwest é também aqui ao lado.
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Dinis
Depois de ter afirmado em editorial que «o jornalismo não vive uma crise» e de ter sido criticado por isso, o actual director do Público comentou uma notícia sobre o sucesso do novo livro de José Rodrigues dos Santos (90 mil exemplares) ironizando: «será caso para dizer que a literatura está em crise»*.
Está tudo dito sobre o novo Público.
* Alguém comentou a ironia de Dinis dizendo que «a Renova também continua a vender bem». Salva-nos o humor.
Está tudo dito sobre o novo Público.
* Alguém comentou a ironia de Dinis dizendo que «a Renova também continua a vender bem». Salva-nos o humor.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Território sagrado
Considerando que sou geneticamente (digamos assim, porque o advérbio se ajusta à semântica) alérgico a bairrismos e nacionalismos, desde cedo agradeço aos deuses do panteão terem-me dotado de uma timidez suficiente como alibi para escusa de comportamentos tribais. Estou porém, com a idade, sentimentalista que chegue para percorrer o bairro onde nasci e cresci com o mesmo ar de filho pródigo de regresso ao lar. Peregrino em lugar sagrado, os meus movimentos incorporam-se numa clássica coreografia de veneração. Deambulo com a mesma nostalgia dos exilados saudosos do berço, parando diante dos marcos físicos e territoriais da identidade comunitária com o mesmo ar de quem pondera os sucessos e insucessos do clã, de quem se preocupa com a herança ou os destinos da estirpe. Essas contas não estão no meu rosário, mas quando piso aquele chão noto, como os meus conterrâneos migrados, deserto o bairro que nunca teve porém tantas e tão habitáveis casas. Pessoas migram, pessoas morrem, pessoas adoecem e mudam-se para lares ou domicílios distantes de familiares há muito ausentes. Dir-se-ia que os que vêm construir novas moradias decidem não habitar nelas demasiado tempo, como se o território estivesse assombrado, fosse um velho cemitério indígena. E, considerando a multidão de fantasmas com que me cruzo na ausência de pessoas, é bem provável que em certas noites ou dias de nevoeiro se infiltre pelas frinchas que sempre têm as casas, mesmo as novas, um miasma que só aos habitantes originais não perturbará.
Ao contrário dos meus co-nostálgicos, raramente regresso ao bairro munido de máquina fotográfica, e nunca de uma de filmar. Sei o suficiente dos mecanismos da memória para reconhecer a utilidade do registo em pixéis de edifícios que em breve se sumirão, mas a minha visita procura menos a recolha de dados para ruminação futura, em natais no exílio ou jantares de conterrâneos, do que o êxtase do momento em si. A Internet, esse repositório babélico da humanidade, tem já suficiente espólio para exercícios mediúnicos afastados no espaço e no tempo, mas há ainda na visita física odores, sons, formas e texturas mais eficazes a descarregar e dispor a memorabilia. De resto, é o conjunto dos signos, a combinação dos elementos que permite a verdadeira experiência do regresso. Nenhuma fotografia ou filme permitirá uma imersão tão profunda no território sagrado quanto a dos sentidos excitados por uma brisa que agita ramagem das mesmas árvores e pêlos da mesma epiderme, a nossa, que coexistiram há trinta anos como agora.
Por isso volto e percorro o velho bairro como se degustasse a proustina madalena, mas menos para me candidatar ao Nobel do que para me encher de melancolia. É isso que o regresso me causa. Uma experiência emocional que, na aparência de uma tristeza provocada pela perda, pela saudade, me deixa, na verdade inebriado de indefinido, de mistério, de insondável. Não é o território físico ou o território histórico que me fazem regressar ao bairro, mas aqueloutro território sobretudo impalpável da infância e da adolescência, o território da inocência, da inconsciência, das encruzilhadas, das possibilidades, das emoções matriciais, dos múltiplos e imperscrutáveis eus.
Olhando o céu estrelado de Dezembro, enregelado logo ainda vivo, tirando o mesmo paradoxal prazer do frio e da taciturnidade, penso que as minhas deambulações pelo bairro são uma mistura de Tarkovsky e Melancholia, uma cinematografia interior de ponderação do tempo sob a ameaça do seu fim.
Depois penso que há menos riscos num jogo de sudoku.
Ao contrário dos meus co-nostálgicos, raramente regresso ao bairro munido de máquina fotográfica, e nunca de uma de filmar. Sei o suficiente dos mecanismos da memória para reconhecer a utilidade do registo em pixéis de edifícios que em breve se sumirão, mas a minha visita procura menos a recolha de dados para ruminação futura, em natais no exílio ou jantares de conterrâneos, do que o êxtase do momento em si. A Internet, esse repositório babélico da humanidade, tem já suficiente espólio para exercícios mediúnicos afastados no espaço e no tempo, mas há ainda na visita física odores, sons, formas e texturas mais eficazes a descarregar e dispor a memorabilia. De resto, é o conjunto dos signos, a combinação dos elementos que permite a verdadeira experiência do regresso. Nenhuma fotografia ou filme permitirá uma imersão tão profunda no território sagrado quanto a dos sentidos excitados por uma brisa que agita ramagem das mesmas árvores e pêlos da mesma epiderme, a nossa, que coexistiram há trinta anos como agora.
Por isso volto e percorro o velho bairro como se degustasse a proustina madalena, mas menos para me candidatar ao Nobel do que para me encher de melancolia. É isso que o regresso me causa. Uma experiência emocional que, na aparência de uma tristeza provocada pela perda, pela saudade, me deixa, na verdade inebriado de indefinido, de mistério, de insondável. Não é o território físico ou o território histórico que me fazem regressar ao bairro, mas aqueloutro território sobretudo impalpável da infância e da adolescência, o território da inocência, da inconsciência, das encruzilhadas, das possibilidades, das emoções matriciais, dos múltiplos e imperscrutáveis eus.
Olhando o céu estrelado de Dezembro, enregelado logo ainda vivo, tirando o mesmo paradoxal prazer do frio e da taciturnidade, penso que as minhas deambulações pelo bairro são uma mistura de Tarkovsky e Melancholia, uma cinematografia interior de ponderação do tempo sob a ameaça do seu fim.
Depois penso que há menos riscos num jogo de sudoku.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Malícia
Descobri há pouco que o slogan
da RTP2 é “Culta e Adulta”. Nestes tempos de condescendência, há que apreciar o
mote — e sobretudo a provocação e a malícia.
Não é tanto o que o lema diz sobre o segundo canal da televisão pública,
mas o que incita a concluir sobre todos os outros.
No final, também a RTP2 há-de ser acusada de contribuir para a
vitória de Trump, Le Pen e afins. Porque ignora as angústias do público néscio
e infantil.
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Mosquito
Descobri hoje que o zumbido que há dois dias me trazia a suspeitar de um curto-circuito em qualquer ligação da parafernália electrónica da sala era, afinal, o insecto que a meio da semana tinha resolvido aborrecer-me marrando contra o ecrã e fazendo-me tangentes às orelhas. Fui encontrá-lo num recanto, rodopiando de pernas para o ar, versão minúscula, capotada e igualmente pertinaz de um nazi atolado na estepe. Ao contrário do que aconteceu no nosso primeiro encontro, em que sem sucesso fiz das mãos raquetes, agora ajudei-o a pôr de novo os seis pés na terra, como, humanamente, teria feito com Gregor Samsa. Daqui a pouco, se entretanto recobrar energias, há-de vir de novo ao encontro da luz e de encontro a mim. Não faz mal. Prefiro a dignidade e o risco de um combate corpo-a-corpo do que a crueldade de deixar sem auxílio um ferido de guerra. Ele certamente ter-me-ia deixado morrer de fome e sede, se calhasse ter sido eu a ficar esperneando de costas depois do match de quarta-feira. É isto que nos separa, ao mosquito e a mim, esta réstia de humanidade que me faz ter pena até de um empedernido votante de Trump ou de um colunista do Correio da Manhã.
domingo, 13 de novembro de 2016
A "intelligentsia" da "intelligentsia"
Certeiro, o Alexandre Andrade, na sua página de Facebook:
«Para os suspeitos do costume do jornalismo de opinião português (Alberto Gonçalves, Helena Matos, Henrique Raposo, Rui Ramos) o diagnóstico está feito e é unânime: a culpa da vitória de Trump foi da "narrativa de esquerda", da "intelligentsia" e das elites insensíveis ao sofrimento de uma população de humilhados e ofendidos pelo liberalismo e multiculturalismo. Quem os levasse a sério acreditaria que sessenta milhões de norte-americanos votaram Trump para se vingarem dos editoriais dos jornais portugueses (todos eles, como é óbvio, descaradamente alinhados com a "narrativa de esquerda"). Uma réstia de pudor impede estes preclaros opinadores de escreverem algo de positivo sobre Trump, mas não de se proclamarem tacitamente como a "intelligentsia" da "intelligentsia": uma elite atenta aos vícios das outras elites e em plena sintonia com o cidadão comum, tão farto das narrativas de esquerda que é capaz de votar num megalómano grosseiro e sem preparação só para fazer ouvir a sua voz.»
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Reflexão pós-eleitoral
Se todos lêssemos o Correio da Manhã saberíamos que o mundo é um lugar de feios, porcos e maus e escusávamos de alimentar a ilusão de que pudesse ser diferente. É isto, em suma, o que a direita tem para oferecer como reflexão pós-eleitoral.
http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/as-sondagens-os-jornalistas-e-a-6442338
P.S. Não deixa de ser divertido notar que os colunistas do Correio da Manhã passam bastante tempo, não a escrever para os leitores do Correio da Manhã, mas para os que acusam de não lerem o Correio da Manhã. O que é indelicado e tonto. Indelicado para os seus interlocutores naturais (o cidadão comum, leitor do jornal) e tonto porque supostamente o alvo dos seus recados não lê o jornal onde eles os deixam. Não é bem escrever para o boneco, é o reconhecimento involuntário de quem também eles não são como o cidadão comum e as suas crónicas ali são um equívoco ou uma contradição.
http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/as-sondagens-os-jornalistas-e-a-6442338
P.S. Não deixa de ser divertido notar que os colunistas do Correio da Manhã passam bastante tempo, não a escrever para os leitores do Correio da Manhã, mas para os que acusam de não lerem o Correio da Manhã. O que é indelicado e tonto. Indelicado para os seus interlocutores naturais (o cidadão comum, leitor do jornal) e tonto porque supostamente o alvo dos seus recados não lê o jornal onde eles os deixam. Não é bem escrever para o boneco, é o reconhecimento involuntário de quem também eles não são como o cidadão comum e as suas crónicas ali são um equívoco ou uma contradição.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
A Conspiração Contra a América
Em A Conspiração Contra a América um fascista é eleito presidente dos Estados Unidos. Se já parecia improvável ver Philip Roth escrever uma distopia, é uma surpresa triste que tenha escrito uma premonição.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Alegria na destruição
O afã e a alegria que os trabalhadores aplicam no seu trabalho de frívola remodelação da agência bancária — com largos sorrisos, gargalhadas, palavras de incentivo e energia nos martelos com que deitam abaixo divisórias, tectos falsos e condutas — parece um estado de espírito transmitido pelos CEOs do banco. Alegria na destruição. Não há como um face lifting para equilibrar as contas.
Talvez não seja nada disto, os rapazes são novos, demolir aquece-os e diverte-os, como acontece com as crianças que há em nós. O meu cinismo em relação aos bancos é que está, desde 2008, ao nível habitual do de um CEO do Goldman Sachs em relação aos cidadãos comuns.
Talvez não seja nada disto, os rapazes são novos, demolir aquece-os e diverte-os, como acontece com as crianças que há em nós. O meu cinismo em relação aos bancos é que está, desde 2008, ao nível habitual do de um CEO do Goldman Sachs em relação aos cidadãos comuns.
sábado, 5 de novembro de 2016
O candidato da infâmia
Não vejo nenhuma razão objectiva para achar que o género de suspeitas, indícios, argumentos ou raciocínios que aparentemente concluem pela índole corrompida de Hillary Clinton não se aplicam do mesmo modo a Trump. Acontece que o que sobra para fazer a diferença entre os dois é tão, tão óbvio e extenso que resulta patético alguém acreditar que se mantém decente defendendo a hipótese Trump.
Aos americanos na terça-feira até pode não restar mais do que escolher o mal menor, mas desta vez ter dúvidas sobre qual é o mal menor é sintoma de muita confusão mental ou genuína imbecilidade.
Há os que, na América e na Europa, não têm dúvidas e votam (ou votariam) Trump simplesmente porque têm o mesmo carácter doentio do candidato republicano. São um lastro que a humanidade sempre arrastará, não haja ilusões.
Mas dentro dos convictos há ainda os que escolhem Trump por capricho ou mero e abjecto calculismo, ideológico ou outro. São os mesmos que, em nome de uma bandeira, de uma birra, de um ressentimento ou de um interesse, não se importam de experimentar hipóteses trágicas porque pressentem que o resultado não os incomoda pessoalmente. E, como a história da infâmia nos ensina, nisto têm demasiadas vezes razão.
Aos americanos na terça-feira até pode não restar mais do que escolher o mal menor, mas desta vez ter dúvidas sobre qual é o mal menor é sintoma de muita confusão mental ou genuína imbecilidade.
Há os que, na América e na Europa, não têm dúvidas e votam (ou votariam) Trump simplesmente porque têm o mesmo carácter doentio do candidato republicano. São um lastro que a humanidade sempre arrastará, não haja ilusões.
Mas dentro dos convictos há ainda os que escolhem Trump por capricho ou mero e abjecto calculismo, ideológico ou outro. São os mesmos que, em nome de uma bandeira, de uma birra, de um ressentimento ou de um interesse, não se importam de experimentar hipóteses trágicas porque pressentem que o resultado não os incomoda pessoalmente. E, como a história da infâmia nos ensina, nisto têm demasiadas vezes razão.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Bancos e cadeiras
Uma agência do banco Millennium está a livrar-se do mobiliário, não sei se porque o banco faliu (não tenho visto notícias) ou se porque estão em processo de lavagem de cara, como os bancos costumam fazer com frequência. O mobiliário está em óptimo estado, e no entanto está a ser carregado para uma camioneta de caixa aberta — em dia de chuva. Não é provável, portanto, que se destine a reaproveitamento. Já se sabe: os contribuintes pagam os problemas financeiros que os bancos arranjam, pagam os salários e prémios milionários dos gestores bancários (mesmo dos que falham clamorosamente na gestão e nunca devolvem os prémios) — podem, por isso, naturalmente, pagar a redecoração dos bancos.
Imagino que os acólitos do sistema financeiro também tenham uma boa justificação para este comportamento. Têm sempre. No Titanic talvez tenha havido quem defendesse que o ângulo de inclinação do convés não era um sintoma, mas uma característica da embarcação que no final revelava os seus benefícios para todos (banho grátis, por exemplo).
A mim dava-me jeito uma daquelas cadeiras, mas suponho que qualquer lixeira a céu aberto é mais bem vista e tem mais crédito do que eu junto dos bancos.
Imagino que os acólitos do sistema financeiro também tenham uma boa justificação para este comportamento. Têm sempre. No Titanic talvez tenha havido quem defendesse que o ângulo de inclinação do convés não era um sintoma, mas uma característica da embarcação que no final revelava os seus benefícios para todos (banho grátis, por exemplo).
A mim dava-me jeito uma daquelas cadeiras, mas suponho que qualquer lixeira a céu aberto é mais bem vista e tem mais crédito do que eu junto dos bancos.
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