Podemos sorrir, magnânimos, com o fervor patriótico provocado pela eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas — mas não mais do que isso.
Racionalmente, a escolha para um cargo daqueles não pode assentar em parcialidades nacionalistas. A qualidade de conterrâneo não é um mérito que distingue ninguém, mas uma mera circunstância. Nasce-se português (ou sueco ou senegalês) sem voto na matéria, sem qualquer contributo pessoal para isso. Por outro lado, os feitos individuais de um concidadão não nos distinguem a nós. Caso contrário teríamos também de assumir como portuguesa a essencial escassez de carácter de Durão Barroso.
De resto, todas as nacionalidades têm os seus próprios conterrâneos. Uma eleição para a ONU que ponha os cidadãos a torcer pelos seus, como num mundial de futebol, é a subversão completa do espírito das Nações Unidas, que foram criadas, num momento de rara cooperação, justamente para prevenir o horror dos nacionalismos belicistas das duas Guerras Mundiais.
O orgulhozinho que os portugueses sentiram hoje é compreensível numa abordagem superficial e condescendente do tema, próprio da espuma jornalística, mas essencialmente desprezível quando se discute o que interessa.
Cem anos depois da Primeira Grande Guerra, não deveríamos estar a apostar, com amarga ironia histórica, num dos nossos para liderar a ONU, mas sim em alguém capaz de estimular a cooperação e conseguir os consensos necessários a um mundo em retrocesso em tantos domínios fundamentais da humanidade e da civilização.
Apenas se Guterres simbolizar (justificadamente) uma vitória da transparência ou da justeza, a possibilidade de os pequenos serem eleitos pelo seu perfil e competência, eventualmente contra os interesses particulares dos poderosos, o orgulho terá sentido — mas continuará sem ter pátria.
Se Guterres tiver qualidades que fundamentem este orgulho humanista, apátrida, o mérito é dele, não dos portugueses — embora os portugueses possam tirar proveito do seu exemplo e, nesse sentido, o orgulho terá alguma justificação: um orgulho antecipado, a crédito, pela possibilidade que nos é mostrada de fazermos coisas grandes a partir de uma nação pequena. Incluindo a nossa.
Podemos, enfim, ser ilibados da nossa condescendência com o orgulho pateta dos portugueses por esta eleição se esse orgulho tiver também em conta a aparente benevolência de Guterres. Não é a mesma coisa a nação rejubilar com o sucesso de um coração mole ou o apogeu de um videirinho (if you know what I mean). Não sou ainda suficientemente cínico para desvalorizar a diferença.
Em todo o caso, qualquer orgulho, ingénuo ou fundado, que este episódio possa suscitar choca necessariamente com a pouca importância que a imprensa internacional dá à eleição. O fervor, temo bem, é quase só lusitano.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
sábado, 1 de outubro de 2016
Indignação de classe
Eu devia saber que não se podem julgar as pessoas pelo aspecto. Durante anos fui lendo artigos de Maria de Fátima Bonifácio e espreitei-lhe a fotografia tipo-passe no cimo da coluna ou vi-a de relance num qualquer canal televisivo a emitir opinião no seu casaquinho de malha sem pretensão visível. Era apresentada como historiadora e respeitei-a abstractamente por ter uma profissão diferente dos políticos de carreira, embora a sua evidente inscrição na mais assanhada das direitas fizesse lembrar um daqueles espécimes.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.
Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?
Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.
P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.
Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?
Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.
P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Asco
Há muito tempo que não visitava o Blasfémias. Há dias caí nisto:
Achei que, mesmo para alguém com o historial deste Vítor Cunha, era um pouco patético um tipo deixar-se chegar a este ponto de irritação, desespero ideológico e niilismo argumentativo.
Hoje saiu-me este outro post na rifa
digno de um verme que já não disfarça a sua condição. Fui espreitar o tom geral do blogue. Um pouco mais de verniz, mas não muito.
As cretinices do Blasfémias, mesmo nesta fase de puro fel, estribeiras perdidas e alma penada à vista, ficam com quem as escreve. Tenho é pena de amigos que ainda consideram inteligente ou decente contemporizar com a "direita" de Helena Matos, José Manuel Fernandes & abjecta Companhia. Muita pena, mesmo.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
A Gradiva e o Saraiva
Segundo a TSF, Rodolfo Begonha, director-adjunto da Gradiva, afirma a propósito do livro do arquitecto Saraiva «que existem fronteiras à invasão de privacidade mas não cabe à Gradiva defini-las». «Não somos censura», terá dito. Ora, esta afirmação só faz sentido se a editora tiver um contrato com o autor que lhe assegure a publicação dos livros que ele se lembre de escrever. Caso não exista esse contrato, a publicação do livro é de facto também uma escolha da editora, não adianta tentar sacudir a água do capote.
A mera lógica do argumento «não somos censura» para explicar a impotência da editora perante o objecto saraivesco implicaria que a Gradiva teria também de não censurar, e consequentemente publicar, as centenas de livros que decerto autores mais ou menos dotados lhe fazem chegar todos os anos. Se os não publica é porque aplica aquilo a que se chama «critérios editoriais», sejam eles financeiros ou literários.
Não havendo contrato, e tendo em conta que não foram considerados quaisquer critérios editoriais no caso em apreço, restam duas hipóteses: a Gradiva ter José António Saraiva no alto gabarito de autor a quem não se recusa uma obra ou ter feito umas contas a quanto podia arrecadar com tão vil publicação. Das duas hipóteses, a última é apesar de tudo a menos danosa para a reputação da editora.
A mera lógica do argumento «não somos censura» para explicar a impotência da editora perante o objecto saraivesco implicaria que a Gradiva teria também de não censurar, e consequentemente publicar, as centenas de livros que decerto autores mais ou menos dotados lhe fazem chegar todos os anos. Se os não publica é porque aplica aquilo a que se chama «critérios editoriais», sejam eles financeiros ou literários.
Não havendo contrato, e tendo em conta que não foram considerados quaisquer critérios editoriais no caso em apreço, restam duas hipóteses: a Gradiva ter José António Saraiva no alto gabarito de autor a quem não se recusa uma obra ou ter feito umas contas a quanto podia arrecadar com tão vil publicação. Das duas hipóteses, a última é apesar de tudo a menos danosa para a reputação da editora.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Desvio de direita
Se vivêssemos num regime comunista, eu, que até aplaudo o novo imposto da gerigonça, seria irremediavelmente acusado de “desvio de direita”, e não apenas na forma tentada. A somar ao vital impulso que me afasta das multidões e não raro atira comigo para remotas paragens do Portugal profundo — onde, no leito seco de ribeiros ignotos, armo a cadeira de praia verde-fluorescente comprada nos chineses (nisso sou ortodoxo) e abro um livro pouco do agrado das massas — tenho também a desfaçatez de, em alternância, me instalar em esplanadas de velhos hotéis aristocratas (onde não armo a cadeira verde, tanto porque não preciso como porque não tenho coragem) a bebericar copos de vinho 4 ou 5 euros acima das minhas possibilidades. Individualista e ocasional burguês, eis o libelo fácil que contra mim se poderia levantar.
E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.
Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.
Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.
E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.
Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.
Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»
Li este título do Público e
achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes,
dificilmente chegarão para um único Inverno.
Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de
uma iniciativa para a promoção da leitura.
Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca
de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao
fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje
condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural
dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de
portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e
nem sequer toda a música.)
É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da
Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter
livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e
infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo
quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas
desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa,
escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social
ou anti-moderna que ler é.
O Público dá esta notícia
pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil
livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de
estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente
pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da
Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por
perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas
como a noticiada pelo Público. Mas
não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência
ou vocação pessoal — e apesar do país
em que vivem.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Montes ígneos
Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite
por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as
chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que
os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a
determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar,
víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais)
na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos
como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma
milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória,
simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho
fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um
braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que
parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio.
Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda
muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico
Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que
vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que
acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia
hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma
crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais
vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível.
Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu
imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha
brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se
lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto
é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta
que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno
comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o
número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que
aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.terça-feira, 9 de agosto de 2016
Agosto em Aranda
— Eu sou do género
de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. —
Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias.
Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na
minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja
alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha
discoteca. Mesmo hardcore, na verdade.
Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que
os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção
ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua
formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar
como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os
que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era
mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a
ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa.
Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos
condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e
para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas.
Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de
repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão
que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios
que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da
província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez
também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte,
genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do
submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou
porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência
mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e
abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos
últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava
a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com
o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por
aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado,
como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não
corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se
admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a
única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego
atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho
bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as
invasões bárbaras.
— Mas não era de
dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma
forma de épater le bourgeois
(expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que
necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda
sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos
apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de
uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a
Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês
adequados.
in Aranda
Agosto
O mês de Agosto de 2016 difere do mês de Agosto de 1986 e do de 1996 em
não haver diferenças entre a música aos berros de carros de emigrantes e a
música aos berros de carros de residentes. Prova, talvez, de que a União
Europeia funcionou.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Dirty, dirty Harry
Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à
americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações
racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as
habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de
novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade
do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção.
Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as
ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo
mal.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Punk is dead
Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda
personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o
acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já
ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer
coisa sentida.
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.
Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser
de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente
tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão
que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto
ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Sanções e Sansões
Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os
portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008.
Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de
amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se
lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas.
Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco
elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que
determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que
se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu.
Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo
consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos
anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram
a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não
era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si
mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina
como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube
europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente
previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar
ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente
a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a
ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la
sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha
visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais
de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares
precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis.
Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do
país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão —
terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais
fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que
ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer
racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia
insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca,
os tecidos agarram-se à pele.
Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto
porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se
prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o
lajedo em cima.
sábado, 25 de junho de 2016
Escrita
O escritor Zoran Zivkovic diz, e eu concordo, que «o melhor curso de escrita criativa é a leitura criativa».
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.
Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.
Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Brexit
A saída da Inglaterra da União Europeia poderia ser o abanão necessário para que a União Europeia voltasse a ser “grande” (para usar terminologia trumpiana, mas mais modestamente aplicada a uma Europa unida, solidária, corajosa, com memória dos seus valores fundamentais, política e economicamente inteligente). Seria porém estúpido esquecermo-nos dos motivos que levaram a maioria dos ingleses a votar a saída e do discurso e perfil dos líderes que os orientaram nesse voto. E aí temo que o que estamos a observar é, sim, mais uma sinistra evocação do pior da Europa, as primeiras décadas do século XX. Os populismos de vária índole, os regionalismos patetas e acríticos, os nacionalismos a descambarem em chauvinismo, a xenofobia… Agora, mais do que nunca nas últimas décadas, é adequado lembrar que também Hitler teve do seu lado a grande maioria da população e nem por isso seria correcto chamar ao 3.º Reich democracia. Infelizmente, para muitos, nos vários níveis e estâncias de poder, a adesão popular ao nazismo (que, como o Brexit, também roubou votos ao socialismo da altura) não é já uma vergonha histórica mas uma lição de táctica.
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Being a hooligan
Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson
(em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética.
Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de
Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros.
Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das
correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».
Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com
base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção
própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles
sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais
profundas do rizoma.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
O ogre republicano
O republicano Paul Ryan, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, resistiu
mas lá acabou por declarar o seu apoio a Donald Trump. Disse: «Não é segredo
nenhum que ele e eu temos divergências (…) Mas a realidade é que, naquilo que
define a nossa agenda política, temos mais em comum do que desacordos.»
A realidade é que já sabíamos disso. O ogre republicano existe e medra independentemente
do penteado de quem lidera.
domingo, 5 de junho de 2016
Avaliar pelas aparências
Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os
concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando
que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes
lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de
ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a
resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo
parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não
há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando
o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar
de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o
próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.
Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser
concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse
de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências,
este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar
as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o
apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado.
domingo, 22 de maio de 2016
sábado, 7 de maio de 2016
“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"
O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive
impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se
para falar dele, se para fugir dele.
Que não se vive impunemente percebemo-lo de
tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos
o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se
apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a
fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade
de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não
ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só
depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos
viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive
impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que
iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se
descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido
algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem
a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados
factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver,
não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças
que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque
não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por
ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os
pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente
maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais
consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando,
mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por
estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no
seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios
ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem
inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau
de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na
verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também
uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a
vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o
conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas
frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos
(a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde
sempre.
O que tem isto da vida a ver com a escrita?
Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo
antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E,
por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos
enquanto se vive, nunca antes) é a
condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida
esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem
consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo
grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de
desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar
a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop
e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas
mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive
impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é
de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por
delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira
de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos
em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios
ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que
escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia,
logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm
mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo
que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida,
os que não vivem impunemente, ou
seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma
coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.
Claro que escrever pode ser também acção de
um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras
que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a
escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os
efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser
adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que
este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já
não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática.
Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do
dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O
contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que
detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.
Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa,
amanhã (a mesa que tem como tema “Se não há gozo a Literatura é uma actividade
insuportável”), a minha intervenção teria uma tónica
diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar
vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a
literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de
evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a
escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas
os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma
mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum
tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo
que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como
leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a
palavra riso. Rimo-nos se juntarmos
algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por
vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que
não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém,
pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene.
Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar
formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os
formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras,
estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não
esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O
vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados.
Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas
às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força
de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o
atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John
Cheever, antes de concebermos o deus
ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural
ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos
antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos
uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas
depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e
não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do
que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se
visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram
ao chão desastradamente.
Talvez haja muitas razões porque não saímos
impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas:
podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que
matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma
como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém
que amamos; consequências sociais ou físicas:
quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos,
infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo
para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…
Mas os vícios também não deixam a escrita
ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva
pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre
menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse
neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências
financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum
dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir
ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.
www.encontradouro.pt
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segunda-feira, 2 de maio de 2016
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