segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Desvio de direita

Se vivêssemos num regime comunista, eu, que até aplaudo o novo imposto da gerigonça, seria irremediavelmente acusado de “desvio de direita”, e não apenas na forma tentada. A somar ao vital impulso que me afasta das multidões e não raro atira comigo para remotas paragens do Portugal profundo — onde, no leito seco de ribeiros ignotos, armo a cadeira de praia verde-fluorescente comprada nos chineses (nisso sou ortodoxo) e abro um livro pouco do agrado das massas — tenho também a desfaçatez de, em alternância, me instalar em esplanadas de velhos hotéis aristocratas (onde não armo a cadeira verde, tanto porque não preciso como porque não tenho coragem) a bebericar copos de vinho 4 ou 5 euros acima das minhas possibilidades. Individualista e ocasional burguês, eis o libelo fácil que contra mim se poderia levantar.

E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.

Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.

Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»

Li este título do Público e achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes, dificilmente chegarão para um único Inverno.

Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de uma iniciativa para a promoção da leitura.

Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e nem sequer toda a música.)

É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa, escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social ou anti-moderna que ler é.

O Público dá esta notícia pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas como a noticiada pelo Público. Mas não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência ou vocação pessoal — e apesar do país em que vivem.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Montes ígneos

Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar, víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais) na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória, simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio. Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível. Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Agosto em Aranda

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. 

in Aranda

Agosto

O mês de Agosto de 2016 difere do mês de Agosto de 1986 e do de 1996 em não haver diferenças entre a música aos berros de carros de emigrantes e a música aos berros de carros de residentes. Prova, talvez, de que a União Europeia funcionou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Dirty, dirty Harry

Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção. Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo mal. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Punk is dead

Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer coisa sentida. 
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.

Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.

Quando voltei a vê-lo, ao longe, cumprimentado na esplanada como uma veneranda figura, com uma mistura de solenidade de igreja, fila de autógrafos e trégua de velório (nem todos são alheios ao seu legado político), já havia vários passeios entre nós. A preguiça e uma vocação para sentir piedade e perdoar a quem nos tem ofendido pouparam-nos a ambos às consequências de uma súbita fúria punk. Isso e a canícula, que seca as glândulas salivares.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sanções e Sansões

Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008. Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas. Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu. Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis. Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão — terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca, os tecidos agarram-se à pele.  

Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o lajedo em cima. 

sábado, 25 de junho de 2016

Escrita

O escritor Zoran Zivkovic diz, e eu concordo, que «o melhor curso de escrita criativa é a leitura criativa».
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.

Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit

A saída da Inglaterra da União Europeia poderia ser o abanão necessário para que a União Europeia voltasse a ser “grande” (para usar terminologia trumpiana, mas mais modestamente aplicada a uma Europa unida, solidária, corajosa, com memória dos seus valores fundamentais, política e economicamente inteligente). Seria porém estúpido esquecermo-nos dos motivos que levaram a maioria dos ingleses a votar a saída e do discurso e perfil dos líderes que os orientaram nesse voto. E aí temo que o que estamos a observar é, sim, mais uma sinistra evocação do pior da Europa, as primeiras décadas do século XX. Os populismos de vária índole, os regionalismos patetas e acríticos, os nacionalismos a descambarem em chauvinismo, a xenofobia… Agora, mais do que nunca nas últimas décadas, é adequado lembrar que também Hitler teve do seu lado a grande maioria da população e nem por isso seria correcto chamar ao 3.º Reich democracia. Infelizmente, para muitos, nos vários níveis e estâncias de poder, a adesão popular ao nazismo (que, como o Brexit, também roubou votos ao socialismo da altura) não é já uma vergonha histórica mas uma lição de táctica. 
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Being a hooligan

Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson (em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética. Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros. Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».

Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais profundas do rizoma. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O ogre republicano

O republicano Paul Ryan, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, resistiu mas lá acabou por declarar o seu apoio a Donald Trump. Disse: «Não é segredo nenhum que ele e eu temos divergências (…) Mas a realidade é que, naquilo que define a nossa agenda política, temos mais em comum do que desacordos.»
A realidade é que já sabíamos disso. O ogre republicano existe e medra independentemente do penteado de quem lidera.

domingo, 5 de junho de 2016

Avaliar pelas aparências

Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.

Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências, este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado. 

sábado, 7 de maio de 2016

“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"

O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se para falar dele, se para fugir dele.

Que não se vive impunemente percebemo-lo de tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver, não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando, mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos (a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde sempre.

O que tem isto da vida a ver com a escrita? Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E, por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos enquanto se vive, nunca antes) é a condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia, logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida, os que não vivem impunemente, ou seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.

Claro que escrever pode ser também acção de um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática. Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.

Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa, amanhã (a mesa que tem como tema Se não há gozo a Literatura é uma actividade insuportável), a minha intervenção teria uma tónica diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a palavra riso. Rimo-nos se juntarmos algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém, pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene. Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras, estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados. Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John Cheever, antes de concebermos o deus ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram ao chão desastradamente.

Talvez haja muitas razões porque não saímos impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas: podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém que amamos; consequências sociais ou físicas: quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos, infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…

Mas os vícios também não deixam a escrita ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.

www.encontradouro.pt

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A luta de Churchill e a luta de Hitler

Nos tempos que correm, parece boa ideia revisitar as Memórias da II Guerra Mundial, de Winston Churchill. A direita, porém, que costumava andar de boca cheia com citações ou episódios churchillianos, parece não achar o mesmo. Veja-se que simpatias tem a direita, que líderes e discursos aplaude, que condescendência selectiva pratica, que cinismo cultiva — da Alemanha à Inglaterra, da América ao Brasil, passando pelas colunas do Observador. Se não houvesse hoje razões ideológicas para rejeitar a direita, haveria as companhias que ela escolhe.

Em 2016 cessaram os direitos autorais sobre Mein Kampf — que a Baviera assumira depois do final da guerra e da morte de Hitler — e o Instituto de História Contemporânea de Munique-Berlim editou uma versão crítica com 3.500 notas que é já um best-seller. Inúmeros países querem os direitos de tradução (para já negados).
Segundo os editores, o perfil do comprador é de pesquisadores e pessoas interessadas em História. Talvez seja assim, mas não custa imaginar a direita a contribuir para o sucesso de vendas do calhamaço apenas para questionar o rigor das notas. É, desconfio, uma ocupação intelectual que muitos preferirão a, por exemplo, reflexões sobre a mestria na descrição histórica e biográfica e sobre a brilhante oratória na defesa de elevados valores humanos que o comité do Nobel viu nos escritos de Churchill.
Se aquilo é democracia, João Baião — quando dá o microfone aos beijinhos para a Suiça e saudades para a Lourinhã — é, com a bênção do Deus que legámos ao Brasil, um estadista de primeira água.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Enologia da arte

A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.

Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.

sexta-feira, 18 de março de 2016